E AGORA SÃO TRÊS!!!

Nos dois últimos jogos no campeonato nacional, a equipe de Franca teve um comportamento surpreendente, pois ousou quebrar uma situação crônica, estabelecida e cristalizada em nosso basquetebol, a de que um único sistema de jogo, com seus dogmas e posicionamentos pseudo-especializados dos jogadores, deva ser a regra imutável a ser seguida por todos, da formação às divisões adultas, liderada por uma maioria de técnicos engessados em suas coreografias e pranchetas mágicas. Um sistema que rotula jogadores em 1, 2, 3, 4 e 5, como se fossem peças de um xadrez ridiculamente jogado.Um sistema que destina a posição 1 ao armador da equipe, que para muitas é o único com essa função em quadra, e às vezes levemente acessorado por um 2, pomposamente apelidado de “armador pontuador”, ou “armador de força”, ou “escolta”, e outras bobagens afins. Situação perfeita para uma NBA, pois privilegia o jogo de 1 x 1, tão ao gosto dos torcedores americanos, mas que os tem levado a fragorosas e desmoralizantes derrotas em grandes campeonatos internacionais, mas que ainda granjeia vasta popularidade e aceitação entre nós. Pois bem, a equipe de Franca, não satisfeita em atuar nas últimas partidas com dois legítimos armadores, inova com a utilização de um terceiro. Mas, só os utiliza nos quartos finais do jogo, como se ainda se mantivesse presa a um costume arraigado, e de difícil abandono. Nesses dois últimos jogos, realmente, iniciava com uma formação, digamos, “padrão”, com três homens altos e fortes, um ala razoavelmente habilidoso, e um armador puro. Essa formação, idêntica a de seus adversários, gerava um tal equilíbrio de forças, que os placares se equivaliam ao término dos dois primeiros quartos. Mas, nos quartos finais, ao lançar mais um armador puro as diferenças logo se faziam notar, principalmente no aumento da qualidade dos dribles e dos passes, e no significativo aumento na velocidade do jogo. Logo a seguir, com a entrada de mais um armador, alimentando seguidamente dois rápidos pivôs, e pela velocidade de deslocamentos, fintas e incisivos dribles, colocavam seus bons arremessadores de três pontos em condições ideais de tiro, fatores que liquidavam inexoravelmente as partidas. Nessa última, contra a equipe do Minas, ficou patente tal comportamento. Se de um lado, a equipe mineira se mantinha coesa em torno do sistema único, ferreamente defendido por seu técnico, que é um dos componentes do quarteto que decidiu implantar tal teoria em nossa seleção nacional, e difundi-lo como verdade absoluta, conseguia equilibrar o jogo ante a equipe de Franca, que se utilizava do mesmo sistema, desenvolvido por jogadores especializados no mesmo, viu o resultado do jogo mudar quando o técnico francano resolveu inverter o cenário, subvertendo, não o sistema, mas a composição dos jogadores. Com três armadores em quadra dilatou a contagem, desmantelou o sistema defensivo do adversário, e provou que uma equipe com uma formação de habilidosos jogadores sempre será superior àquelas compostas de “especialistas” em determinadas e imutáveis posições. Fico imaginando como seria importante para todos nós, a volta da criatividade, dos bons e tão esquecidos fundamentos, dos dá e segues permanentes em quadra( pick in roll uma ova…), do jogo incisivo sem a perda de tempo com sinais e formações coreográficas, com a luta pelos rebotes com o máximo de jogadores possíveis, com os contra-ataques centralizados, com a marcação frontal dos pivôs, com a velocidade inteligente, com arremessos de três pontos executados por quem sabe,e não por quem se considera especialista.

Enfim, Franca nos trás algum ar fresco nesse deserto de falta de imaginação e criatividade, e torço para que continue sua bem vinda subversão, pois estamos precisando urgentemente dela.

Um último testemunho. É inadmissível uma equipe levar 17 arremessos de três pontos, e somente ter sua atenção despertada para o fato no último pedido de tempo a dois minutos do final da partida. Um técnico de seleção não se pode dar o direito para tal atitude, que nem o fracasso de um sistema pode perdoar, pois defesa independe do mesmo. Defesa é outro departamento.



4 comentários

  1. Idevan Gonçalves (idevan@gmail.com) 07.12.2006

    Todos sabemos que o treinador de Franca é excelente, apesar de não gostar dele pelo excesso de teatralidade no banco (já vi prejudicar o time com seu farto voluntarismo). O que me estranha é que tantos outros grandes nomes que treinam equipes no nacional continuam se submetendo ao “padrão CBB”. Afinal, é submissão ou preguiça?

  2. Basquete Brasil 07.12.2006

    Prezado Idevan,submissão e preguiça são irmãs da acomodação.Se os jogadores já vêm adaptados ao”sistema”,convictos em suas posições 1,2,..5,pra que queimar os neurônios estudando”novidades”. Deixam isso para os teóricos, que não se coadunam com as exigências do mercado.E ai, quando uma equipe,composta de alguns veteranos de boa técnica e jovens promissores, um americano que sabe realmente jogar,aparecem com algo fora do marasmo reinante, dirigida por um técnico inteligente,apesar de extremamente passional,estabelecendo um outro enfoque técnico-tático,criam todo esse clima de mudança.O importante agora é saber se haverá continuidade,se terão realmente coragem em subverter o processo.Tomara que sim, para o bem de todos, mesmo os que não aceitam.Um abraço,Paulo Murilo.

  3. Leandro Machado 09.12.2006

    eh ateh q enfim algo para se alegrar, tomara q outros tecnicos tbm percebam q essa tatica funcionou e começem a inovar com seus times tbm. não se pode considerar mas o phoenix suns tbm joga com uma escalação diferente do “padrão”,usam apenas armadores e alas, pra deixar o jogo rapido, e são uma equipe de sucesso na NBA. nosso tecnicos relamente precisam de mais atitude e inteligencia pra se darem conta q não eh bom o meio como estão fazendo o trabalho deles.

    fugindo do assunto, queria saber sua opinião sobre fazer jogadas plasticas, como enterradas e outras coisas, vc eh a favor ou prefere o arroz com feijão?

  4. Basquete Brasil 10.12.2006

    Prezado Leandro,o jogo de basquetebol é por si mesmo plástico.Nada excede em beleza do que uma construção ofensiva desenvolvida por quem sabe jogar, assim como uma bem executada interceptação defensiva.As enterradas nasceram da necessidade publicitária da NBA desde sempre.E quanto mais espalhafatosa fosse,mais influenciava nos jovens.A maioria deles foi perdendo aos poucos o interesse nas técnicas dos arremessos,dedicando-se cada vez mais às tentativas de enterradas.O festival de erros nos arremessos,é a prova disso.Jamais permiti que atletas meus perdessem tempo nos treinamentos dos fundamentos com tentativas de enterradas.Jogar sério e com dominio dos fundamentos é o feijão com arroz que nos falta.Deveriamos ter em mente uma sensata assertiva-Eles enterram, e nos ganhamos o jogo.Um abraço,Paulo Murilo.

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