A ODISSÉIA…

Bola ao alto, lançada torta pelo juiz, mas bem aproveitada pelo Spliter iniciando nosso primeiro ataque, quando chega às mãos do Marcelo na lateral e Pimba! Chute de três falho. Mas o recado estava dado, com menos de 10seg. de posse! Sou mais eu, e o”passe a mais” que se lixe. Fosse eu o técnico e ato contínuo ao recado o banco não seria suficientemente longo para que ele baixasse de sua arrogância. O que se viu daí para diante foi um desafio entre uma equipe com absoluto domínio dos fundamentos, ante uma outra que tentava um equilíbrio baseado no espírito de luta de alguns bons jogadores, como o Spliter, o Alex e o Huertas. Foi o bastante para manter o placar de um ponto a favor dos gregos ao final do quarto.

Daí para diante, o abismo que separa a qualidade técnica dos jogadores gregos dos nossos, onde a elevada estatura de armadores, alas e pivôs, não limitam os mesmos na execução dos fundamentos de drible, passes , fintas e rebotes, além dos arremessos certeiros, e mais além ainda no posicionamento defensivo irretocável, contrasta com nossas deficiências nos mesmos, de uma maneira absolutamente inquestionável, deixando no ar a pergunta que não quer calar: Onde estavam os técnicos que não os prepararam na formação? Que ambas as equipes praticavam o mesmo sistema de ataque, era uma constatação clara e transparente, porém com um senão, uma diferença primordial que os diferenciavam, a superioridade grega nos fundamentos, exeqüibilizando-o, e superando nossos ingentes esforços em tentativas estéreis em antepô-los.

Ficou bem clara a nossa maior deficiência, quando além da mencionada fragilidade fundamental, a ausência de uma armação dupla e a utilização dinâmica de nossos pivôs, deu lugar à estagnação do sistema proposto, em jogadas setorizadas e avulsas, onde o ritmo cadenciado e previsível esbarrava numa defesa ativa e veloz nas anteposições, travando e retardando, não só as penetrações, como os lançamentos equilibrados, numa ação conjunta de quem domina o antídoto do próprio sistema que utiliza, numa engenharia reversa admirável . Por outro lado, estes mesmos gregos, no mesmo sistema, e graças ao seu domínio das técnicas fundamentais, o agilizavam e implementavam ações incisivas e carentes de erros de execução. Em falhas de fundamentos perdemos 16 ataques, ou seja, propiciamos 36 pontos possíveis ( isso se valessem somente 2 pontos cada…), aos nossos adversários. Os gregos perderam somente 5.

E bem acima de todas estas deficiências, onde até intoxicações alimentares assaltaram três de nossos jogadores, uma auréola ufanista preencheu os espaços de todas as mídias envolvidas na cobertura do Pré, onde pessoas que de basquetebol entendem menos do que eu de culinária chechena, desandaram a projetar qualidades técnico-táticas fantasiosas e até certo ponto irresponsáveis, confundindo marketing e lobbie esportivo com real qualificação de jogadores, principalmente no concerto internacional, mudanças superficiais, tal qual uma maquiagem de sistemas de jogo, com a fatal evidência da não absorção dos mesmos pela premência de tempo de treinamento, como se o grande jogo pudesse se tornar cúmplice de seus devaneios e sonhos esdrúxulos e irreais.

E se não bastasse esse caudal de insanidades, tivemos o desgosto de ouvir daquele que é descrito pela mesma mídia, como o maior jogador de nossa história ( da qual discordo veementemente…) duas terríveis afirmações, ouvidas em rede nacional, com audiência de muitos jovens jogadores, e também de jovens técnicos espalhados pelo país, ditas seriamente e impositivamente preambuladas com um sonoro :“Isso é para vocês todos entenderem!”

– “Em todas as minhas equipes, mandava bater, gastar as 5 faltas pessoais, para parar os ataques adversários, provocando lances-livres. E é o que a seleção deveria estar fazendo! Ordenava a todos que gastassem suas faltas!”

-“Agora, faltando 10min., é hora de esquecer sistema de jogo e botar pra correr a equipe. Jogar no sistema é o que os gregos querem que façamos…”.

Ficam no ar duas perguntas ao grande jogador: Qual a opinião, ou mesmo posição dos técnicos que contratou para dirigir suas duas equipes nos campeonatos que participou? Adotaram estas diretivas, se insurgiram, ou abaixaram a cabeça aquiescendo tais absurdos?

Mesmo constatando que os gregos, em momento algum da partida, não só esta, como as demais que vem participando, jamais abriram e abrem mão de seu sistema, colocando-o acima de comportamentos individualistas, que foram a essência de sua vida atlética, e que desde sempre aprovou a “nova metodologia” do técnico espanhol ( com o qual treinou na Europa…), prevendo substanciais progressos em nossa forma de atuar e jogar, mesmo assim, e incoerentemente, em rede nacional preconiza uma atitude técnico-tática oposta a seus próprios e anteriores comentários?

Não precisa responder, faça-o em suas palestras muito bem pagas, mas não as repita voltadas a um público ávido de ensinamentos compatíveis a seus sonhos adolescentes, onde o verbo bater e desrespeitar seu técnico e orientador, passa muito ao largo da canibalização empresarial a que são destinadas suas teorias.

E mais uma vez Hortência, parabéns pelos comentários equilibrados, dignos de uma personalidade do Hall of Fame do basquetebol , campeã mundial e medalhista olímpica.

Para o jogo decisivo com a Alemanha, agora que todos os jogadores constataram suas valências físicas e técnicas num confronto realmente para valer, fica uma sugestão. Não abdiquem, agora mais do que nunca, do pouco, bem sei, que assimilaram e treinaram com afinco. Escudem-se nessa pequena garantia de unidade, de equipe, de coleguismo e de apoio mútuo, e sigam as normas de seu técnico, com confiança e respeito, com abnegação e sacrifício, e acima de tudo, com a mais alta consideração pela camisa que vestem, sem arroubos egoístas e aventuras inconseqüentes. Tornem a conscientização de suas deficiências em uma plataforma de superação responsável, aquela que transforma derrotas em vitorias, injustiças em merecimento, tornando-os dignos de admiração e reconhecimento. Não precisam bater para ganhar, basta que joguem basquetebol.

Amém.



7 comentários

  1. Henrique Lima 17.07.2008

    Caro Professor.

    Como está ?

    Assim como o senhor, estou chateado pela derrota evidente para a Grécia.

    Alguns ptos:

    – Não sabemos sair de marcação pressão quadra toda. Aconteceu no Sulamericano, repete agora. Sinceramente. O que treinamos ?
    Temos planejamento ? Lógica e sequencia no trabalho ?
    Acho que NÃO, responde todas as questões.

    – Não sabemos marcar o perímetro. Uma coisa absurda. Tomamos mil bolas de três em dois jogos e em pouquissimos os caras se quer
    contestam os arremessos com o básico, do básico do básico, com o que qualquer um faria se pisasse pela primeira vez em uma quadra
    de basquetebol. LEVANTAR OS BRAÇOS PELO MENOS …para atrapalhar
    quisá, um pouco os chutes. Nem isso …

    Fora a postura de vários completamente fora de sentido, sem base defensiva …

    – Tirando Huertas, não temos outro armador de qualidade internacional no torneio.

    – Ficou claro agora que alguns jogadores estão lá para fazer turismo, novamente. Assim como outros membros .. Brasil está atrasado uns 100 anos no basquetebol dentro e fora da quadra.

    – Nem cardápio para alimentação a CBB parece saber fazer.
    Em que MUNDO ESTAMOS ? Isso porque é o século da informação,etc …

    – Fica de positivo a luta de todos. Todos estão tentando ao máximo e isso é digno. Ninguem se entregou mesmo com a derrota batendo a porta. Postura é o minimo que poderiam passar para nós depois
    do Pré-Olímpico das Américas.

    – A diferença dos comentários da Hortência e do Oscar
    é diretamente proporcional ao que cada um representa para mim
    do jogo. Hortência, mesmo que posso discordar, tem lógica ao comentar e se fazer entender. Oscar bem … sempre o EU vem
    antes do NÓS e em esporte coletivo, isso simplesmente não existe.
    Basta pegarmos os curriculos de uma de outro e vemos as diferenças.

    – Chamar o Oscar de maior jogador de basquetebol brasileiro de todos os tempos, é um opinião e sempre vou respeitar quem falar.
    Porém, demonstra total desconhecimento sobre nosso passado basquetebolista, assim como lendas do esporte que fizemos
    em uma outra epoca, quando ainda eramos reconhecidos internacionalmente e não porque tinhamos “cestinha” de torneio A
    ou B. E sim porque jogavamos de igual para igual com as grandes
    potencias da epoca e venciamos. Além disso, respeitavamos o jogo,
    sem precisar bater em ninguem ou defrontar técnicos e hierarquias.
    Eu, infelizmente não vi, mas tento ler ao máximo para saber que
    já existiram Wlamir, Amauri, Rosa Branca, Algodão, Ubiratan e outros. Uma pena nossa vida ser domada pelo $$. Alguns nomes
    caem no esquecimento muito fácil. E o Brasil, não guarda sua história. Nunca ouvi um comentário do Mestre Wlamir em pró da violência no jogo e da afronta ao comando da equipe. Uma pena,
    nosso ídolo midiático ter o espaço e falar tanta besteira.

    Mas, na atuação situação do basquetebol nacional … o que podemos esperar de melhor ?

    Um abração Professor e esperar até sexta.

  2. Henrique Lima 17.07.2008

    E Professor, Moncho ainda declarou:

    “Falei para meu assistente que era para o jogo ser gravado e, depois, mostrado para nossos jovens jogadores no Brasil, para eles terem a chance de aprender de um grande time que enfrentamos nesta noite”, afirmou o treinador.

    Será que nossos técnicos conseguem decifrar o basquetebol utilizada pela Grécia ? Ou o salto-alto e a arrogância de muitos não deixarão??

    Ou será reprisado nas clínicas técnicas da CBB ?

    Ou ainda mais, darão respostas ríspidas para questionamentos em congressos, discutirão entre si falando que a Argentina e a CBV
    NÃO PODEM DE FORMA ALGUMA SEREM UTILIZADAS COMO EXEMPLO DE SUCESSO, POIS AQUI É O BASQUETE !!!!

    E por fim, nunca saírem do pedestal que se encontram, até mesmo para com os jovens que iniciam a carreira e tem dúvidas normais
    como qualquer outra pessoa comum.

    É Professor, Moncho irá embora. Será como brisa passageira ao litoral e pouco mudará.

    Quando poderia ter, mesmo no seu pouco tempo e mesmo que o intuito fosse outro, ensinado muito mais.

    E a questão é .. será que ele ensinou e ensina e nós, digo eles, cbb e afins … ainda teimam em não aprender ?

    Um abração !

  3. William 17.07.2008

    Caro professor, a realidade foi dura para os brasileiros, mas que sirva de aprendizado. O que me deichou com uma pulga atrás da orelha foi o seguinte: o número 9 da récia, o Fotsis, excelente jogador, incrível, para mim ele foi o melhor da partida, estava sendo marcado pelo J.P. Batista, que não conseguia fazer exatamente nada a respeito. Quando o ricardo foi posto para marcá-lo, evidenciando o desequilíbrio, que não só ele, causava no jogo, a história mudou, apesar de ainda ser muito difícil marcá-lo. Eu me perunto, vai ser o J.P. que vai marcar o Nowitsky? Se sim, vai ser como o Oscar falou, ele vai estar livre a todo tempo. Temo por isso professor, pois no jogo de amanhã, tenho certeza de que se esse alemão nao receber atenção especial (mas não atenção do J.P.), um homem será capaz de ganhar dos tupiniquins, disso não tenho dúvida.

    Abraços

  4. Basquete Brasil 19.07.2008

    Prezado Henrique,Neste artigo não quiz entrar em maiores detalhes técnicos,de tão óbvios que seriam,preferindo uma abordagem mais ampla e penetrante da situação.Felizmente você,com seus comentários preencheu esta lacuna,complementando o artigo.Quanto ao posicionamento do setor técnico da CBB,de longa data têm se manifestado arrogantemente quando questionado,mas que jamais questionaram o meu,nem particular,nem publicamente,pois não têm argumentação sólida para fazê-lo.Mas um dia isto tudo terá um fim,para o benefício do basquetebol. Um abraço,Paulo Murilo.

  5. Basquete Brasil 19.07.2008

    Prezado William,se você conseguir apontar na equipe brasileira, um jogador que tenha posicionamento regular e firme para exercer marcação fora do perímetro,por favor,me apresente,pois até agora não consegui vislumbrar um sequer.Trata-se de uma falha estrutural,originada na formação,e mesmo aqueles que se encontram no exterior,ainda não conseguiram se livrar desta herança.Defender é um aspecto dos fundamentos,talvez o mais dificil e complexo,que somente a prática de anos habilitam o jogador a exercê-lo com eficiência.
    Um abraço, Paulo Murilo.

  6. william douglas santos cunha 30.07.2008

    Professor foi muito interessante a palestra no flu,mais ainda a oprtunidade de conhecê-lo ,se me permite de vez em quando solicitarei alguns esclarecimentos para usar em minhas equipes ,como dizem meus garotos: ” O senhor tem muita garrafa p/ vender……..” ,um grande abraço e fica com Deus!!!!!!!!!!!!!!

  7. Basquete Brasil 31.07.2008

    Prezado William Douglas,minhas garrafas estão à sua disposição o quanto quiser.Um abraço,Paulo Murilo.

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