PADRÕES, PATRÕES E…REFÉNS…

Os padrões – 

Os cincos abertos, e chutacão explícita

Estamos sob a égide de novos, novíssimos padrões, como se o grande jogo fosse redescoberto, e que todos os conceitos, técnicas e estratégias criadas e forjadas desde 1892 em Springfield, tivessem sido varridas para baixo do tapete da história, substituída por uma outra, modernosa, oportunista e enganosa, condizente a uma novo tempo, um novo jogo, um pastiche do verdadeiro e eterno grande jogo, submetido e pretensamente sucumbido a uma corriola de oportunistas e aproveitadores, aqui e lá de fora também, abençoados e sacramentados por uma mídia cada vez mais vendida aos interesses nada desportivos, e sim aos de cunho financeiro, econômico, globalizado, onde ate o nicho das apostas vem sendo admitido, vindo de uma matriz que, absolutamente, é a antítese de nossa cultura material, cultural e, por que nao, política também…

Nossa forma de atuar, jogar um jogo que sempre foi querido e amado por nosso povo, sua verdadeira e mítica segunda opção, somente atrás do futebol, sua paixão visceral, foi violentada coercivamente, relegada e coisificada à mesmice formativa, técnica e tática, agora endêmica, onde os padrões clássicos do coletivismo estrutural, consubstanciado pelo conhecimento teórico e prático dos fundamentos básicos, ensinados e repassados por professores e técnicos verdadeiramente preparados na arte de levá-los a muitas gerações, que nos alçaram ao ápice das conquistas e do reconhecimento internacional, agora transformados num novo padrão, colonizado, copiado, e muito mal copiado, de uma liga que a cada dia vai transformando o mais evoluído dos jogos coletivos, em uma vitrine de egos, super egos, voltados ao individualismo extremado, no qual as estatísticas individuais e seus recordes, se tornam a cada temporada mais midiaticamente importantes do que os resultados das próprias equipes a que pertence esta nova casta de super estrelas, mais centradas em si próprias, do que as franquias que pagam seus salários…

A egocêntrica estrela

Estamos vivenciando essa forjada e forçada mudança de trinta anos para cá, gerando coincidentemente uma debacle na formação de base, nos conceitos técnicos e táticos, e principalmente, nas estratégias equivocadas e politiqueiras que assaltaram o grande jogo em nosso infeliz país, tão grande e rico, porém mal educado e propositalmente deixado nessa situação de interesse das castas políticas, todas elas, com raríssimas exceções, que de tão raras pouco influenciaram e influenciam neste triste cenário. Na universidade onde lecionei para futuros professores, nunca deixava de lembrá-los que  nosso país, talvez seja um dos únicos no qual, nem a direita e nem a esquerda querem o povo educado. A direita o quer analfabeto para se manter no poder, e a esquerda o quer mais analfabeto ainda para usá-lo como massa de manobra para ascender ao poder, e ao conseguir o intento,  mantê-lo analfabeto a exemplo da direita. Esta cadeia de interesses se estende a toda a sociedade e suas ramificações  comerciais, industriais e econômicas, atingindo a todos, escolas em particular, e desportos também…

Temos e agora presenciamos um novo padrão de como jogar basquetebol, o moderno e copiado modelo NBA/NBB (a CBB ainda não conta…), sem no entanto contarmos com a formação massificada da matriz em suas escolas e universidades, sem a dinheirama de seus abastados patrocinadores, porém repleto de equivocados formadores de base, e técnicos (?) que se convenceram que o grande jogo nasceu no dia que vieram ao mundo, logo dispensados de conhecê-lo de antanho, sequer estudá-lo, e acima de tudo compreendê-lo como uma verdadeira escola de vida, de hábitos, de costumes centenários, de sistemas vencedores, de técnicas e táticas individuais e coletivas, amalgamadas por décadas e décadas de estudos e sérias pesquisas. Estudar e pesquisar para que, se tudo vem sendo apresentado e mastigado pela matriz? Afinal, jogando dessa forma ganham tudo, então vamos jogar da mesma maneira, ou não , afirmou o novo patrão de nossa seleção, que orientará também o mesmo credo nas seleções de base…

Os patrões-

De dezessete anos para cá (idade deste humilde blog), venho travando um incessante luta contra o negligenciamento na formação de base, com seus modernos conceitos de correria desenfreada (alguns chamam de transição), defesas inexistentes, compensadas, segundo os modernos técnicos, pela avalanche de arremessos de três pontos, disposição dos cinco atacantes fora do perímetro, musculação visando força e saltos estratosféricos, enterradas midiáticas e tocos infernais, para gáudio dos tronitruantes narradores que mostram um jogo que não se coaduna com a realidade, analisados por comentaristas mais preocupados com a rede de amigos, encontros, jantares e abraços em profusão, claro, as poucas exceções existem, mas muito poucas, mesmo…

Neste árido cenário, três pontos tem de ser enfatizados, e o primeiro deles se refere ao número absurdo de erros de fundamentos praticados em todas as categorias e faixas etárias, chegando na categoria adulta a média de 26 por partida no NBB, algo impensável no nível internacional, provocados pela insânia do jogo com cinco abertos, o segundo ponto, exatamente para provocar o tão desejado 1 x 1, festejado e aplicado com fervor na matriz do norte (origem das festejadas performances e recordes individuais) com uma diferença porém, a de que por lá, graças a uma formação de base competente, andadas, conduções de bola e perdas na troca de mãos nas fintas muito pouco acontecem, ao contrário daqui, em que até tropeções na bola ocorrem com frequência, pois a mesma ainda é uma ferramenta desconhecida em seu manejo e controle pela maioria de nossos craques, onde as exceções são mais raras ainda. O terceiro fator, é resultante da extrema fragilidade na preparação defensiva de nossos jovens, e mesmo adultos, originando fracassos nas defesas coletivas individuais e zonais, no fundamento para lá de básico do grande jogo, permitindo pela sua ausência e ineficiência enormes espaços fora do perímetro, encorajando os arremessos de três pontos, hoje tentados até por pivôs, incentivados por técnicos, agentes, narradores, comentaristas, dirigentes, e cada vez mais torcedores de ocasião, todos, sem exceções, que desconhecem as técnicas, mecanismos e, acima de tudo, direcionamento consciente de uma bola de mais de 300 gramas lançada a mais de 6 metros da cesta, onde desvios de 2 graus a tira para fora do aro…

Criou-se então o novo padrão, aquele em que as convergências entre os arremessos de dois e os de três, são um lugar comum em praticamente todas as partidas da liga nacional, que abandonam a maior eficiência estatística das bolas de curta e media distâncias, pelo apelo descabido, porém midiático, das famigeradas bolinhas, num espetáculo muitas e muitas vezes grotesco e constrangedor, como um recente jogo que assisti onde três ataques de uma equipe, contra quatro de outra, sequencialmente foram finalizados com arremessos de três, nenhum convertido, numa ciranda de incompetência dentro, e por que não, fora da quadra também, numa pelada digna de encontros em praça pública, claro, aquela em que as tabelas não foram destruídas pelos adeptos do futsal, sempre prontos a terem primazia de uso num equipamento popular…

Convergência institucionalizada

Aqui, nessa tabela estatística temos o padrão estampado, hoje cada vez mais padronizado, levando o patrão e seu assistente a preconizar com bastante antecedência como irá jogar a seleção adulta, e por que não, as de formação, masculinas e femininas, pois afinal de contas, pelas convicções abalizadas e vencedoras (?) deles, que supervisionam as comissões técnicas da CBB, terão de treinar e preparar as equipes pelo novo padrão, aquele que temo por experiência e um bom conhecimento da história teórica e prática do grande jogo, que frente a escolas sérias, e que dedicam muito tempo ao preparo fundamental, defensivo e ofensivo, ruirá como um castelo de areia, pois criado e movido por mal imitadores, por gente de curriculo inchado em um basquetebol de frágil estrutura, muito ao contrário daquele que alcançou o quarto posto de maior escola do grande jogo no século vinte, segundo classificação da FIBA…

O padrão ético e comportamental

Mas o novo padrão apresenta novas nuances por parte dos patrões, os da seleção e os das franquias, em sua maioria tristemente verdadeiras, a de participantes ativos, combativos, provocadores, coercitivos, agressivos, patéticos, rasgadores de camisa e arremessadores olímpicos de pranchetas (sequer deveriam usá-las), aplaudidos e incentivados por uma mídia que considera tais comportamentos como normais da função, naturais para o brilho do espetáculo, porém e contudo, deseducador e desagregador para uma massa de jovens que está sendo influenciada com tanta falta do mais elementar principio didático-pedagógico, um exemplo tácito de como nao se praticar e respeitar a educação, o desporto…

Mais alguns meses e vamos constatar se o novíssimo padrão funcionará contra equipes que irão marcá-lo como se deve fazê-lo num jogo de ponta, que atacarão fustigando as fraquezas defensivas de jogadores fragilizados em sua formação e preparação de base, ou algum que se comportará com seriedade vestindo a camisa do país, sem ser constantemente desqualificado de jogos por indisciplina como acontece na liga, e mesmo na seleção, quando se negou a defendê-la dentro de uma competição pré olímpica…

Comportamento inaceitável

Um rasgo de esperança se fez notar com as duas recentes vitórias nos sul americanos masculino e feminino sub 18, quando, depois de duas décadas voltamos a vencer os argentinos nessas categorias, fator positivo. e que deveria ser desenvolvido não com o padrão acima descrito, e sim, e corajosamente, aderindo a formas diferenciadas de jogar, como a manutenção e desenvolvimento da dupla armação ofensiva, junto a adoção de três alas pivôs incidindo e jogando dentro do perímetro, de frente para a cesta e arremessando de curta e média distâncias com percentuais muito mais elevados que os de longa distância, reservado aos especialistas dentro de critérios pontuais, e jamais referenciais e preferenciais na forma de atuar da equipe, e principalmente, adotando a defesa na linha da bola com flutuação lateralizada, jamais longitudinal, pois aquela permite com alta eficiência a marcação dos pivôs frontalmente, assim como enfrenta os corta luzes e bloqueios frontais com um mínimo de trocas, todas por mim defendidas nos últimos cinqueta anos, nas quadras, seleções, no NBB, e neste humilde blog, mas é claro, dando um enorme e sacrificado trabalho para desenvolvê-las, na proposta de procurar jogar de forma diferenciada, jamais formatada e padronizada, o que solenemente duvido que venha a ocorrer por parte da turma que ai está, sufragando o glorioso padrão, e que não contará com os estrangeiros que sustentam suas enraizadas “convicções”…

Os reféns-

Seremos todos nós, professores, técnicos, dirigentes, agentes, narradores, comentaristas, torcedores, mas, principalmente os jogadores, os atuais nas mais diversas categorias, e os milhares que virão a praticar o grande, grandíssimo jogo, motivados por uma preparação conscienciosa e responsável nos fundamentos, competindo sob a égide da criatividade, da improvisação consciente, fatores alcançáveis se bem orientados, educados e informados nas melhore técnicas individuais e coletivas, por professores e técnicos bem formados, e nao osmoticamente influenciados por formas fora da nossa realidade de país ainda carente e pobre, que antes de mais nada precisa aprender a administrar essa pobreza, que poderá ser vencida num futuro de enormes sacrifícios e renúncias, sem jamais perder a esperança de dias melhores..

Padrões e patrões nada somam, a não ser para eles próprios, voltados e centrados em metas inclusivas e excludentes para todos aqueles que não seguirem suas convicções lastreadas no Q.I. institucionalizado neste imenso, desigual e injusto país.

Amem.

Fotos – Reproduções da TV, Internet. Clique duplamente nas mesmas para ampliá-las.      



2 comentários

  1. Fábio Aguglia 22.04.2022 (4 weeks ago)

    Artigo primoroso, professor.

    Seguimos descendo a ladeira: técnica, tática e posturalmente.

    O rei está nu.

    Mas é preciso fingir que está ótima sua roupa.

    Até quando?

    Abraços e que bom que retornou, vida longa ao senhor e ao blog

  2. Basquete Brasil 22.04.2022 (4 weeks ago)

    Obrigado Fabio, aliás, Prof Fabio, a quem credito esse artigo, assim como a todos os jovens professores e tecnicos que estudam, pesquisam e respeitam o grande jogo. Prometo retornar aos artigos tecnicos, sobre fundamentos, sistemas e estrategias de jogo, o grande jogo de nossas vidas. Um abraço.
    Paulo Murilo.

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