SÓ IMPROVISA QUEM SABE

Em um dos programas da série Historia do Jazz,produzido pelo grande músico e maestro Wilton Marsalis, lançada pelo canal GNT,era perguntado a grandes personalidades da sociedade americana o que entendiam por Jazz.Um dos entrevistados
foi o grande jogador de basquetebol Abdul Karin Jabbar,o maior pontuador da NBA em
todos os tempos.Jabbar reportou-se à grande equipe dos Lakers campeã em 1980, onde
jogava com outro ícone do basquetebol americano, Magic Johnson. Aquela equipe, nas palavras de Jabbar,possuia um sistema básico de jogo, como o tema no jazz,composto
pela melodia e a sustentação rítmica,dentro dos quais os músicos improvisam por
muitos minutos sem fugirem do tema proposto.No caso do jogo, a equipe iniciava o
sistema básico, e os jogadores improvisavam as jogadas em ações individuais de
acordo com as reações do adversário, num verdadeiro carrosél de belas e incisivas
jogadas, sem nunca desmerecerem uns aos outros, ou seja,cada um tirava o máximo de
suas virtudes técnicas e atléticas a cada oportunidade que tinham na partida, e na
maioria das vezes iniciavam ou complementavam ações entre si, sem quebras de
liderança ou estrelismos.Mas para que uma Jam Session seja autêntica e verdadeira
é necessário que todos os componentes da banda,ou equipe,sejam mestres em suas
funções, em seus instrumentos.Esta analogia mais do que perfeita demonstrada por
Marsalis, através o relato de Jabbar,esclarece de forma definitiva o que vem a ser
música bem executada e jogo bem disputado.Dominio do instrumento,da bola,através o
conhecimento dos fundamentos do jogo, aliado ao talento, à sensibilidade e a precisão
dos movimentos conotam o artista, o bom jogador de basquetebol.Mas esse tipo de
jogador, via de regra não se adequa a rigidos esquemas táticos, arma letal de propriedade de muitos técnicos, que não abrem mão do dominio que os mantêm no comando
total de qualquer movimento que os jogadores venham a exercer na quadra,pois o
contrário os exporia perante a fraqueza da maioria de suas ideias acêrca do jogo.
Pouca gente se recorda,mas se músico fosse Togo Renan Soares teria sido indubitavelmente um talento jazzistico.Seus esquemas de jogo primavam pela simplicidade, mas jamais abriu mão da qualidade individual de seus jogadores.Para ele
eram gênios, e na carga brutal de treinamento procurava muito mais destacar as
qualidades técnicas de cada um do que a ação fundamental de seus esquemas.Não me
recordo de ter lido algum dia e em alguma publicação esquemas e jogadas do Kanela,mas
recordo-me perfeitamente de como promovia as qualidades dos jogadores a toda ocasião
que lhe dessem oportunidade.Quando suspenso de jogos,o que era uma constante, ele
escalava o tecnico dos juvenis para substituí-lo,e em algumas ocasiões fui o premiado
da vez,e ao perguntar a ele como queria que eu dirigisse a equipe a resposta era
imediata-Os jogadores são bons, você é bom,faça o que deve ser feito, improvise!
Sempre gostei de jazz, como o nosso chorinho,onde improvisar é sinônimo de perfeição
técnica.Sempre preparei minhas equipes, principalmente as de divisões de formação
dando total e irrestrita preferência aos fundamentos, tanto de ataque, quanto de
defesa, destinando aos sistemas de jogo não mais do que 30% do tempo disponivel para
o treinamento.Muitas e muitas vezes fui criticado pelo quase desprêzo que tinha nessas divisões pelos pedidos de tempo.Preferia ver e observar como os jogadores se
comportavam perante situações de perigo, de descontrole, em um proposital abandono
visando a busca do auto-equilibrio e da reação.Preferia instruir permanentemente os reservas, para quando fossem à luta o fizessem com o conhecimento do que realmente estava ocorrendo na quadra, para ajudarem e não taparem fendas indefensáveis.É claro
que conquistei poucos títulos em divisões de formação(muitos as chamam de divisões
inferiores, o que é um grande erro)mas preparei muitos para as divisões principais
inclusive seleções regionais e brasileiras.Quanto aos sistemas,deixarei para mais
adiante os esclarecimentos do que considero a verdadeira vocação do jogador brasileiro bem preparado nos fundamentos,sua arte de improvisar em torno de um tema
que se bem conhecido e treinado, além de simples e objetivo, o levaria de volta ao
cenario esquecido do basquetebol mundial.Fomos muito grandes em torno de verdadeiros
artistas do improviso, porém dominadores da arte do drible, do passe,do rebote,dos
arremessos,do contra-ataque,da defesa,dos corta-luzes,e principalmente, foram
resultado do trabalho de excepcionais técnicos, tanto na formaçao, como nas equipes
de ponta.Ou resgatamos nossa verdadeira escola, ou ainda vegetaremos por muito tempo
pelo limbo da mediocridade e da subserviência técnica.Acredito que possamos voltar
ao primeiro plano, mas temos que mudar não os mandatários, que são pétreos, e sim os
verdadeiros artífices do jogo, os técnicos.



2 comentários

  1. Roberto Lopes Bastos 22.08.2008

    Caro Paulo Fui aqui no Ceara, em 1973,auxiliar tecnico do grade Canela. Tudo que voce disse É pura verdade. E hoje ele aida seria omelhor tecnico para nossa seleçao. Não sei se foi voce ou outro tecnico ai do Rio mais moderno,que apresentaram uma jogada, ele gostou,trouce desenhada e usou na seleção juvenil.Com pouco tempo notou que as caracteristicas dos Cearenses não se adaptariam aestas jogadas importas. Mudou voltou ao nosso estilo e tudo caminhou como antes. O que quero dizer como era modesto um tecnico BI_CampeÃo do mundo . A roberto

  2. Basquete Brasil 23.08.2008

    Prezado Roberto,se não estou enganado fomos adversários num campeonato juvenil brasileiro em BH-1972.Bons tempos aqueles.Concordo com você quanto a humildade do Kanela, que jamais perdia a oportunidade de realçar o talento de seus jogadores.Um abraço para você. Paulo Murilo.

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