O ALICERCE DO GRANDE JOGO…
FUNDAMENTALISTA
Por Hermínio Barreto
O que será isso de treinador fundamentalista?
Será um treinador que sabe de fundamentos; um treinador que sabe ensinar fundamentos; ou um treinador que consegue que os seus jogadores aprendam e apliquem os fundamentos?
Estou mesmo a ver. Não direi espanto, mas pelo menos alguma estranheza, isso sim. Perguntarão?
- Será que se vai descobrir agora que o basquetebol não anda para a frente porque já não temos treinadores fundamentalistas?
Mas isso já todos fomos, julgamos. Hoje outras preocupações nos acompanham. Estamos noutro nível.
Esta é boa! Então agora que a literatura de ponta nos alerta para o equilíbrio a perseguir entre a preparação física e a mental (até já sei umas coisas de cibernética); agora que tenho gravações em vídeo para preparar (e falta-me tempo) a estratégia para o próximo jogo; agora que tenho de treinar as saídas de pressão e as combinações ofensivas para as “boxes” que tenho de enfrentar; agora que tudo tenho para andar para a frente!…
É verdade, caro “Coach”. É duro, mas é verdade.
Interrompa por breves instantes o fluxo das idéias que neste momento percorrem e preenchem o seu pensamento (vem aí mais uma época e imagino quanta coisa bonita vai nessa cabecinha), e medite um pouco.
Desde já as minhas desculpas por ir interromper a leitura da sua última Scholastic Coach (Triangle & Two “Hearth Defense”), mas prometo não roubar-lhe muito tempo.
Pois foi também numa Scholastic Coach (viajávamos para os Açores para mais um curso), que o “Velhão” (1) me passou, e daí retirei o motivo para este meu comentário.
Não é nenhum trabalho de fundo. É apenas uma entrevista. A personalidade entrevistada, quem não a conhece no mundo do basquetebol? Trata-se de John Wooden.
Como jogador foi considerado o melhor Base dos primeiros cinqüenta anos do basquetebol. Como treinador, da UCLA, ganhou dez títulos (NCAA) em doze épocas. Dois antes de Lew Alcindor; três com Alcindor; dois depois de Alcindor; dois com Bill Walton; e dois depois de Walton.
JOHN WOODEN, o único homem que entrou para o “HALL OF FAME” na dupla qualidade de jogador e de treinador.
Quando joguei, diz Wooden, não havia postes. Mas como treinador já foi diferente. E hoje, pese embora uma significativa melhoria na qualidade técnica e física dos jogadores, o jogo não evoluiu. O talento dos jogadores e o seu estilo de actuação não estão ao serviço da equipa.
Tive dois excelentes treinadores. Glen Curtis no Liceu e Piggy Lambert na Universidade. Curtis era um extraordinário FUNDAMENTALISTA. Piggy era um “expert” na preparação física e no relacionamento com os jogadores. Direi mesmo, que para a época (1920), era um fora de série.
Porque a essência das coisas que asseguram o sucesso no jogo não mudou, e isso tem a ver primeiro com os fundamentos, e depois com a aplicação dos fundamentos ao serviço do jogo (pormenor que não preocupa os treinadores de hoje, como preocupou os de ontem). Se Piggy Lambert voltasse a treinar, voltaria a ser, hoje, um treinador com sucesso.
Resta acrescentar que Wooden disse isto em Novembro de 1985. Mais: disse nos Estados Unidos e para o basquetebol americano.
Se o essencial se mantem;
Se a essência desse essencial são os fundamentos;
Se uma equipa se faz aplicando os fundamentos;
E se um treinador dos anos 20, porque não desprezava o essencial, se voltasse a treinar hoje teria sucesso;
O que deveremos ser nós para o nosso basquetebol?
Só mais um segundo. Estou a terminar. Tem já a seguir uma linha, que deixo em branco para si.
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Escreva a sua resposta. Conserve-a. No final da época, releia. O seu ano de trabalho ajudará a corrigir ou a melhorar a resposta.
Uma achega mais. Recolhi da cronista Hélia Correia, a propósito de “queremos saber agora o que é ser europeu sem estarmos bem seguros do que é ser português”, em crônica intitulada “Colagens”: “Despojados que estamos da tragédia e da glória, tentamos copiar, sem grande convicção, os sinais de progresso e da modernidade sem que antes saibamos produzir-lhe a essência”.
(1) “Velhão”, com respeito e consideração.
PS- O “velhão” mencionado no texto se refere ao Prof. Teotônio Lima, decano dos treinadores de basquetebol de Portugal.
Veiculo esse texto do grande professor Hermínio Barreto de Portugal, publicado na Revista “O TREINADOR”, número 16, em junho de 1986, órgão divulgador da Associação Nacional de Treinadores de Basquetebol, e que se notabilizou como grande jogador, treinador e comentarista da RTP, além de professor do ISEF (hoje FMH/UTL), grande amigo e autor prestigiado por toda a comunidade européia de basquetebol, com quem tive a honra de trabalhar no Gabinete de Basquetebol do ISEF, quando do meu doutoramento no país irmão.









