SERÁ A VEZ DO BOM SENSO?…

Aqui vai um subsídio para todos aqueles que discutem, sugerem e divulgam panacéias a respeito do futuro do grande jogo neste imenso, injusto e desigual país, atrelados em sua maioria aos exemplos advindos da matriz nortenha, com seu poderio hegemônico fundamentado numa estrutura sócio, cultural e educacional secular, antítese de nossa realidade de país pobre e carente, exatamente naqueles três aspectos, sem os quais nos afogaremos abraçados pela ignorância e pusilanimidade de uma casta criminosa, que jamais se permitirá abrir mão de suas insidiosas e interesseiras conquistas, ao preço que for. Diálogo, estudo, pesquisa e bom senso, definitivamente não fazem parte de sua realidade…

Se interesse houver, aí vai o artigo proposto:

O ONTEM, O HOJE, E O AMANHÃ…

terça-feira, 7 de agosto de 2018 por Paulo Murilo

Me dei um tempo, até pensei prolongá-lo definitivamente, pois sinto cansaço extremo frente a tanta mediocridade, consubstanciada pela massacrante mesmice endêmica que nos agrilhoou, creio que por mais um ciclo olímpico, espelhada nessa vitória da seleção sub 21 no sul americano concluído no domingo passado, não que eu não a parabenize, já que conquistada na casa dos hermanos, vencendo-os por duas vezes de forma inconteste, onde bons e promissores jogadores se destacaram, lutando com denodo e entrega, mesmo que amarrados e sucumbidos por um sistema único globalizado, irmanado agora à moda dos longos arremessos, numa cópia canhestra do que pior se faz lá fora, ou fazia, já que severamente contestada pelo progressivo desenvolvimento e aplicação de defesas potentes no perímetro externo, premissa essa solenemente negada por nós em campeonatos onde as estrelas mais cobiçadas são as estratosféricas bolinhas e as enterradas monstros, produtos de ausências defensivas em ambos os perímetros, desde a formação de base, cujo resultado mais recente aconteceu em terra hermana…

Definitivamente adotamos a convergência como estratégia de jogo, seja ele qual for, independendo de faixa etária, sexo, ou qualquer que seja as classificações possíveis, mesmo que contundentemente criticada pelo selecionador master, Petrovic, em sua primeira entrevista dada em terra tupiniquim, quando afirmou não compreender a enxurrada de arremessos de três adotada e praticada no nosso basquetebol, com a mais plena anuência de treinadores e estrategistas, responsáveis e coniventes, coroada agora no sub 21 campeão, dirigida pelos seus dois assistentes técnicos, que passaram um recado mais do que claro do que pensam a respeito, já que aplicado em quadra, vencendo a competição, sugerindo um determinismo contrário ao posicionamento técnico tático do croata, numa contundente repetição do que ocorreu com seus dois antecessores, estrangeiros como ele, ficando em suspenso uma solene indagação – Perante a importante conquista, mudará seu posicionamento de décadas no basquetebol europeu, ou aderirá saltitante a moda imposta, ou sugerida por seus mais diretos colaboradores?…

No jogo final de domingo, enquanto a equipe argentina se desdobrou nas coberturas externas contestando os longos arremessos de nossos brazucas, conseguiu se manter à frente do placar, no entanto, acumulou muitas faltas pessoais nas tentativas de barrar o forte jogo interno dos bons e fortíssimos alas pivôs brasileiros, fator este determinante para sua derrota, já que no quarto final perdeu sua força reboteira, deixando-se vencer por 8 pontos, e sem nunca ter tentado marcar os pivôs pela frente, que é a certeza mais absoluta do que acontecerá nas competições mais duras daqui para diante, já que aos poucos a realidade de que trocar possibilidades de penetrações que valem 2 pontos, ao longo de uma dura partida, se torna mais rentável do que abrir a porteira dos 3 pontos, pela quantidade que forem as tentativas…

E os números não mentem, ao contrário, escancaram a dura realidade de uma forma midiática de jogar, onde a evolução natural de técnicas defensivas, sem a menor dúvida, estancarão essa hemorragia autofágica promovida por quem ouviu o galo cantar e se encontra perdido sem saber de onde ele vem, afinal de contas copiar o que aparente e rapidamente dá certo, cai melhor do que ir fundo no grande jogo, algo desconhecido e tabu para a maioria daqueles que se intitulam estrategistas, já que técnicos e professores não o são, de forma alguma, ao omitirem seus saberes, principalmente no ensino dos fundamentos do grande jogo…

E os números? Aí vão:

– Nos 6 jogos classificatórios (tentativas certas e erradas das equipes):

– 2 pontos – 156/324   48,1%

– 3 pontos – 102/297  34,3%

– L Livres  – 97/133 72,9%

– Erros      – 136 22,6 pj

– Nos 4 jogos mais significativos – Argentina-(2),Uruguai e Chile (Idem):

– 2 pontos –   83/224 37,5%

– 3 pontos –   59/171 34,5%

– L Livres  – 66 / 86 76,7%

– Erros      – 75 18,7 pj

– Jogo final:

– 2 pontos –    36 / 73 49,3%

– 3 pontos –    21 / 60 35,0%

– L Livres  – 25 / 33 75,8%

– Erros      – 25

O que eles dizem? Que na classificação, a presença das fracas equipes do Paraguai e Peru, fizeram aparecer mais arremessos de 2 pontos (48,1%), suplantando os de 3 (34,3%), mas mesmo assim, no jogo contra o Uruguai, vencido por 3 pontos, a seleção nacional arremessou 15/34 de 2 e inacreditáveis 17/43 de 3, continuando sua saga artilheira perpetrando 38 bolinhas contra o Chile (vencido por 4 pontos), e 30 contra a Argentina, vencendo por 12 pontos. No jogo final, a seleção arremessou 29 bolas de 3, e a Argentina 31, sendo este o único jogo em que a equipe arremessou abaixo de 30 nas indefectíveis bolinhas. Vejam que nas três tabelas o percentual de bolas de 3 se mantêm praticamente igual, ou seja, para cada 10 bolas arremessadas de fora do perímetro, somente 3,5 caem, num desperdício de energia ofensiva que, se bem administrada por defesas bem treinadas e postadas, anularão a tão decantada supremacia das bolas de 3, ação que a Argentina conseguiu nos três quartos iniciais da partida, cedendo no quarto final pela perda de seus homens altos na defesa interna, já que na externa vinham se saindo além da expectativa. E nesse ponto vale lembrar as continhas que tanto divulgo nos artigos antes publicados, ou seja – se a seleção substituísse a metade das bolas perdidas de 3 pontos por tentativas trabalhadas para os 2 pontos, venceria as mesmas partidas com diferenças que beirariam os 20 pontos, economizando esforço físico com eficiência pontuadora de 2 em 2, e se somarmos a estes números os graves erros nos fundamentos do jogo (com números acima de 16 na maioria dos jogos), onde as falhas nas contestações defensivas não são computadas (se fossem apontariam uma catástrofe a cada jogo), concluiremos que continuamos a trilhar o mesmo caminho obscuro e nem um pouco inteligente que nos lançou no limbo técnico tático que tanto nos prejudicou no concerto internacional, culminando na autopromoção burra e incompreensível de uma liderança revolucionária na concepção de um modernoso basquetebol, escravo vicioso da cópia canhestra de uma forma de atuar tecnicamente restrita a muito poucos jogadores, detentores de uma técnica superior e quase exclusiva no manejo direcional de uma bola de basquetebol, lançada de longas distâncias, fator este que ilustra com precisão alguns trabalhos e pesquisas acadêmicas muito sérias, nas quais incluo a tese doutoral “Estudo sobre um efetivo controle da direção do lançamento com uma das mãos no basquetebol”, defendida em 1990 na FMH/UTL de Lisboa, de minha autoria, com alguns tópicos aqui publicados, e ainda sem estudos que a contradigam na esfera internacional até a data de hoje…

Por que a menciono? Pelo simples, simplíssimo fato de que, frente ao desastre estratégico. a curto, médio e longo prazos, nada fazemos na preparação de base e nas quadras da elite, para evitarmos um equívoco tão descomunal, aquele de nos acharmos imbatíveis no jogo exterior, com seus “afastamentos e aberturas” e imprecisa artilharia se convenientemente contestada, caminho que começa a ser trilhado pelas melhores escolas de fundamentos mundiais, e que nos relegará a praticantes arrivistas de tiro aos pombos, sem a contrapartida de sólidos fundamentos e de preciso e forte jogo interior como opção primeira, postergando a bolinha infalível ao seu lugar de direito, como um recurso complementar, e não principal de uma equipe que preza o coletivismo agregador e uníssono, antítese do que praticamos…

Poderíamos começar pela salvação dessa geração de bons jogadores, reunindo-os numa equipe espelho, fonte de estudos práticos de uma séria ENTB, mantida pela CBB, participando do NBB, dando a seus jovens integrantes um treinamento sólido e evolutivo nos fundamentos básicos, destinando horas do dia para seus estudos em boas instituições de ensino médio e superior (oportunidade de uma relação da CBB com instituição privada de ensino, dividindo despesas), fator básico para seu futuro após os anos de competições, abrindo oportunidades, inclusive, para concluir sua formação em escolas do exterior. Seria uma conjugação de interesses esportivos, educacionais e culturais, inédito em nosso país, servindo de exemplo para o desporto escolar e universitário, clubístico também, pois após a cessão de um ou dois de seus jovens por no máximo duas temporadas, os teriam de volta mais maduros, e tecnicamente embasados, com tempo precioso de ação prática, e não esquecidos nos bancos de equipes recheadas de nomões escorados contratualmente em minutos a ser jogados, manipulados por interesses de agentes e franquias agregadas ao status quo vigente…

No vértice desta retomada, uma ENTB realmente representativa, e não avidamente buscada pela mesma coligação que domina o grande jogo desde sempre, ativando e desativando na mesma velocidade, associações de técnicos majoritariamente de um mesmo estado, alijando os demais de seus projetos hegemônicos e monetariamente atrativos, onde o comando baila pelas mesmas mãos, trocando somente as siglas que as denominam, esquecendo que o espírito de qualquer escola que se preze passa pelos conhecimentos de ontem, que sedimentam o hoje, e projetam o progresso para o amanhã, não importando de onde venham, onde o trabalho alicerçado pelo mérito, em tudo e por tudo, deveria ultrapassar os interesses, as trocas, e os favores requeridos por quem quer que fosse, prestigiando a qualquer custo o processo democrático e o direito ao contraditório, cernes do progresso equânime e constitucional de todos os envolvidos no processo de ensinar a ensinar. aprender fazendo, estudar e pesquisar todas as questões inerentes ao grande jogo, obrigatoriamente presencial, com apoio suplementar virtual. Assim deveria se constituir uma verdadeira Escola Nacional de Técnicos de Basquetebol.

Amém.

Fotos – Divulgação CBB, CABB, reprodução da TV. Clique duplamente nas mesmas para ampliá-las.

Deixe seu comentário

Logado como Basquete Brasil. Logout »

Comentário: 

Assine o Feed

Receba por E-mail

SEU GERALDO…

Ele se foi no sábado, aos 99 anos, o grande Geraldo da Conceição…

O vi pela primeira vez aos 10 anos, 1949, treinando lances livres na quadra descoberta do Grajaú Tênis Clube, e de “lavadeira”, quando o arremesso partia abaixo da cintura com as duas mãos, como o Chamberlain, o Cousy, o Alfredo da Motta, o Ruy de Freitas, o Max, certeiros, eficientes, sem respiros, poses, caras e bocas, simplesmente, eficientes, e dentro dos 5 segundos regulamentares…

Foi minha apresentação ao grande jogo, num sol a pino, vendo bola após bola sendo lançadas sem erros, suaves, fascinantes para um pirralho em seu início de vida. E lá se vão 70 anos, que me deram a grande oportunidade de conhecer e privar da amizade daquele atlético e elegante jogador, um pouco mais tarde técnico, meu primeiro técnico, e que técnico…

Nunca o vi alterar sua voz, apreciava seu constante sorriso a cada boa jogada de seus alunos, e palmas, muitas palmas também, no incentivo constante, apesar das cansativas repetições dos movimentos básicos…

Um dia me dei conta de que além de ser o de menor estatura da turma, me interessavam muito mais as técnicas e as táticas daquele jogo formidável, encontrando no Geraldo as respostas para concretizar o sonho de um dia ser técnico também, como ele, não melhor, bastaria ser como ele, e assim foi…

Me ensinou como organizar uma rouparia, como cuidar do material, as bolas em particular, enceradas com sebo de carneiro, tornando-as macias e de pegas seguras. Mostrou-me a importância ambiental de um vestiário, jamais aceitando discussões acaloradas, sempre propugnando pelo diálogo, pela educação, pelo zelo com toda a equipe. Retribui com alguns estudos que fazia numa época sem internet, celulares e vídeos, somente livros, artigos, palestras com um ou outro professor estrangeiro que por aqui aportasse, e um ou outro filme que conseguia na filmoteca da embaixada americana, como o inesquecível Final Game (está no You Tube) que assistimos inúmeras vezes no projetor de 16mm do clube…

Quando entrei na EEFD/UFRJ em 1960, o Geraldo foi para Brasília na primeira leva de funcionários públicos enviados para aquele planalto inóspito onde uma nova capital dava seus primeiros passos. Durante um largo período perdi seu contato, mas sabia que seu amor pelo basquetebol estava tendo continuidade na nova capital…

Nos reencontramos quando me transferi para Brasília em 1967, logo após ter sido o técnico da seleção carioca feminina, vencedora do brasileiro em Recife, na final contra São Paulo. Na capital, após o concurso público para a rede educacional, tive a ajuda decisiva do Geraldo para me manter nos três meses iniciais da nova realidade que se iniciava para mim, ajuda aquela decisiva para minha continuidade no planalto central. O basquetebol fervilhava na cidade, e o Geraldo fazia parte de sua primeira linha, da formação de base ao adulto, trabalhando duro como ele sempre fez em toda a sua vida. Fomos adversários nos torneios e campeonatos adultos até 1969, ele pelo seu querido Dêfele, eu no Iate Clube, depois nas seleções juvenis, quando retornei para o Rio de Janeiro…

Em 1971, durante o Mundial Feminino em São Paulo, o Geraldo fez parte da comissão que elaborou o primeiro estatuto de uma associação de técnicos no país, a ANATEBA, da qual também fiz parte, numa iniciativa exitosa, mas que foi pulverizada três anos depois por parte de uma CBB temerosa em perder o absoluto monopólio do grande jogo no país, numa atitude absurda e retrógrada, sentida até os dias de hoje…

Algumas décadas se passaram, e poucas vezes nos reencontramos, no entanto, continuavamos o trabalho de nossas vidas com empenho e dedicação, intransigentes desportistas que sempre fomos. Recentemente, idealizei uma página a ser publicada aqui neste humilde blog, onde divulgaria depoimentos gravados em vídeo das grandes figuras do basquetebol brasileiro, a maioria esquecida e desconhecida pela mídia modernosa de hoje, e o Geraldo liderava a lista, e inclusive já me preparava para ir a Brasília, onde duas outras importantes figuras seriam entrevistadas, o Pedro Rodrigues e o Heleno Fonseca Lima. Mas o Geraldo se foi, deixando-me com a câmera e o microfone nas mãos, infelizmente…

Do Geraldo guardo uma grande lembrança, uma ensolarada visão de um  treino de lances livres, de “lavadeira”, quando meus olhos de menino de dez anos se apaixonaram perdida e definitivamente pelo grande, grandíssimo jogo de nossas vidas. Até um dia Seu Geraldo, e muito obrigado por tudo aquilo que me foi ensinado e passado por você, inesquecível professor…

Amém.

Fotos – Divulgação LNB e arquivo pessoal.

O ESPECIALISTA (From Dublin)…

         Neste último dia de Europa, aqui do aeroporto de Dublin, aguardando o voo de volta para casa, me veio a ideia de tornar a discutir o que venha a ser um especialista nos longos arremessos de basquetebol, assunto este que suscita tantos debates, num momento em que estamos jogando fora do perímetro praticamente em mais da metade do tempo de jogo, numa temerária aventura que nos tem levado ladeira abaixo no concerto mundial, e que na continuidade, nos manterá fora de um futuro vencedor, como a turma adepta do “chega e chuta” nos ilude em alcançar…

No artigo passado, algumas colocações foram comentadas por pessoas ligadas profundamente ao basquetebol, mas uma em particular, um real especialista nos longos arremessos (em sua época ainda não existiam os arremessos de três pontos), o grande Sérgio Macarrão, medalhista olímpico, tio de outro especialista, o Marcelo, grande campeão do NBB, jogando pelo Flamengo…

Vale a pena ler seu comentário no artigo em questão, pois define com precisão a real importância dos arremessos de três pontos, sob a ótica precisa do bom senso, pela priorização que obrigatoriamente deve ser dada ao especialista, e somente a ele…

Bem, sou agora chamado ao embarque, e se possível continuarei durante o voo, até já…

Estando de volta, a 11km de altura, continuemos o raciocínio, definindo uns poucos conceitos, começando pela precisão nos lançamentos, ou como define o Sérgio, “só arremessa de três quem mete bola”, sugerindo de saída uma questão – “o que torna um jogador num metedor de bola?” Será o mesmo espontâneo ou treinado? Em meus mais de 50 anos de quadra, conheci poucos reais e autênticos “metedores de bolas”, e o Sérgio foi um deles, outros mais como o Dutrinha, o Pecente, Waldir Bocardo, Wlamir, Rosa Branca, Vitor, Chuí, Oscar, Marcel, e mais uns poucos que me falham na lembrança, fizeram com que me orientassem à pesquisa dos porquês eram tão eficientes, originando minha tese doutoral, da qual pincei detalhes publicados nesse humilde blog, na série Anatomia de um Arremesso de I a VI, facilmente encontrada digitando no espaço Buscar Conteúdo…

Claro que não testei nenhum dos acima mencionados, mas outros pertencentes às equipes nacionais de Portugal, quando desenvolvi a pesquisa na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, onde pude relacionar a precisão na direcionalidade dos arremessos com os diversos tipos de pegas sobre a bola, num trabalho que, com a mais absoluta fidedignidade, define quem realmente domina a arte dos longos arremessos, garantindo serem muito poucos, derrubando fragorosamente a tese modal de que qualquer jogador pode ser eficiente nas grandes distâncias, bastando se sentir livre e autorizado a fazê-lo…

Vale a pena ler os artigos, para entender de forma definitiva o quanto de desperdício e eficiência temos alcançado, nessa estúpida e selvagem hemorragia em que estamos transformando o grande jogo, onde técnica e tática se prostituem substituídas por arrivismos, aventuras e irresponsabilidade proposital, em nome de um pretenso e falacioso “conceito moderno de basquetebol”, que nada mais é e representa do que uma mesmice endêmica institucionalizada, aceita por técnicos, jogadores, dirigentes e muito da dita mídia especializada, alheios a verdadeira essência do grande jogo, onde em nome do espetáculo (e que rapidamente vem se transformando em autêntica palhaçada), tudo deve ser permitido, inclusive quanto às regras (que é uma realidade bem conhecida na NBA), e que vem sendo adotado por aqui também…

Longos arremessos à parte, outros fatores merecem atenção de todos aqueles que amam o basquetebol de verdade, como a falibilidade nos fundamentos básicos, a forma semelhante e pasteurizada de jogar das equipes da liga, espelhando negativamente na formação de base, em exemplos que nunca e em hipótese alguma deveriam ser continuados, assim como descontinuado deveria ser esse caudal autofágico em que vem sendo transformado o grande jogo, através a artilharia absurda e descerebrada dos três pontos, das narrações e comentários que não refletem a realidade da competição, sem que, em nenhum momento algo de inovador possa ser admitido por um corporativismo inamovível e terminal…

O Sérgio tem razão, pois só mete bola quem sabe fazê-lo, assim como só planeja, pesquisa, estuda, ensina, treina e compete, quem conhece o grande jogo no seu cerne, sem esgares e dancinhas, sem coerções e agressividade gratuita, despidos de marketing e poderosos Q.I.s, sem midiáticas pranchetas, e sem rezas para que as bolinhas caiam, nacionais ou estrangeiras…

Daqui a pouco chego ao Rio, com muitas saudades de casa, porém temeroso do que se avizinha do nosso tão amado e judiado basquetebol…

Amém.

Foto – Arquivo pessoal.

IMPROVAVEL OU IMPOSSIVEL? (From Dublin)…

“ Que grande jogo teremos aqui na Arena 1, completamente lotada, demonstrando a força do NBB”…

Assim começou a transmissão do jogo Flamengo e Corinthians pelo Super 8 pelas vibrantes palavras da jovem repórter televisiva, numa discutível afirmativa frente a uma arena olímpica desfigurada e com um público ridículo frente à sua desnudada grandeza…

Foi este o assunto do blog Bala na Cesta nesta semana, pertinente aliás , perante o vendaval midiático por sobre um”NBB como nunca se viu” , porém esvaziado de um público bairrista, regionalista, outrora fiel, agora substituído por um outro, errático e inconstante das agremiações de camisa, quase que totalmente composto por torcedores de futebol, com conhecimento próximo de zero em se tratando do grande jogo, carregando para as arenas, olímpicas ou não, toda sua tradição de violência, irascibilidade a oponentes, e acima de tudo, insegurança para todos aqueles que compareciam as mesmas com suas famílias , no firme propósito de torcerem limpa e vibrantemente por equipes e jogadores que conheciam integralmente, próximos que eram, e não esse enxame de estrangeiros (agora podem somar quatro por cada franquia), que qual “peças ” automotivas, equipam num carnavalesco rodízio equipes tão ou mais desfiguradas a cada temporada, como as arenas em que atuam…

Nosso glorioso basquetebol sempre pertenceu aos clubes regionais, com seus acanhados ginásios , com um ou outro de dimensões generosas, porém integrados a seus admiradores, pais, mães , filhos, tios, avós, e simpatizantes, pertencentes àquelas comunidades regionais, bairristas, agremiações estas em declínio acentuado, muitas agonizantes, outras terminais. Eram nossas high schools na formação de base, sem a grandeza esmagadora do exemplo ao norte do hemisfério, na matriz, e que mesmo sem a continuidade formativa universitária daqueles, galgou os píncaros entre os grandes do basquetebol mundial, num passado não tão distante assim…

Eis que de repente (somente quatro décadas ), no caso carioca, numa criminosa e imposta fusão interestadual (nos roubaram inclusive o democrático e constitucional direito ao plebiscito popular), quando deixamos de ser o segundo estado mais rico, para ostentar hoje a condição de miserável, corrompido e favelado, causando o empobrecimento municipal e populacional, onde os clubes deixaram de ter a importância agregadora e familiar de seu gentio, que somado ao declínio proposital e politico de suas excelentes escolas, hospitais referências no pais, transportes simples porém eficientes, e níveis controláveis de violência, praticamente selaram o destino destrutivo do esporte básico e de elite, deixando o reinado absoluto com Sao Paulo e suas formidáveis cidades (as quais os bairros  cariocas se assemelhavam), com quem dividíamos a liderança do esporte nacional, o grande jogo inclusive…

Tijuca TC, Grajau TC, Grajau CC, Riachuelo TC, Sampaio SC, EC Mackenzie, AA Florenca, Botafogo FR, Fluminense FC, CR Vasco da Gama, AA Vila Isabel, EC Aliados, Jacarepagua TC, Olaria AC, America FC, Sao Cristovao FR, Clube Sirio e Libanes, Clube Municipal, AABB. Clube Professorado, todos no Estado da Guanabara, que somados ao Canto do Rio FC, Gragoata , Icarai, Petropolitano, Grumari, Liga Angrense, São Gonçalo , todos do Estado do Rio de Janeiro original, nos abasteciam de jogadores bem formados, competitivos pela diversidade clubistica e regional, pela qualidade de seus professores e técnicos, que juntos a pujança paulista e outros estados desenvolvedores esportivos, como Minas Gerais, Goiás , Rio Grande do Sul, Paraná , Pernambuco, Bahia, Ceara , Para , no caso do basquetebol, davam ao nosso pais uma pequena, porém qualificada imagem do que de melhor faziam as escolas e universidades americanas, alimentando a elite em suas seleções e as iniciantes ABA e NBA…

O Maracanãzinho, a verdadeira capital do basquetebol brasileiro, onde foram conquistados um vice e um campeonato mundial, congregava as finais daqueles saudosos e grandiosos tempos, comungando inclusive, com as seleções nacionais em torneios internacionais, com assistências de 25 mil pagantes, hoje transformadas numa arena elitista para 12 mil, onde grandes jogos aconteciam em paz e muita vibração, entre equipes realmente qualificadas, onde jogadores estrangeiros tinham vagas se realmente fossem muito, muito bons, e não essa leva de terceira categoria, sobras das mais de quinze ligas de alguma qualidade existentes no mundo, fazendo o que querem em quadra, sob a permissividade de muitos estrategistas descomprometidos com a essência do grande jogo, restrito e enclausurado em pranchetas absurdas rabiscadas hieroglificamente…

Hoje, postam nas redes midiáticas e televisivas que a grandeza será retomada através o marketing profissionalizado, com patrocínios de grandes empresas, CEOs e administradores grifados, publicidade focada nas franquias com seus trabalhos comunitários, suas merchandaizes, modelo NBA, espetáculos pífios nos intervalos, beijos televisivos, brioches lançados a plebe, digo, povo, cadeiras de quadra para famosos, geralmente vazias, inclusive de famosos, e cada vez mais, intensos, horripilantes, ridículos , risíveis urros após enterradas, tocos e bolinhas de três , entonados por narradores sem  amígdalas , comentaristas compromissados com o belo, perfeito, inenarrável e mágico trabalho de jogadores formidáveis e da mais alta qualidade, impar e absoluta, mas que mantêm a média das equipes de 24,25 erros de fundamentos por partida, 48,6% nos arremessos de 2 pontos, 32,6% nos de 3, e razoáveis 75,3% nos lances livres, somente nos ate agora agora quatro jogos disputados pelo Super 8 do NBB…

Olha minha gente que ama o grande jogo de verdade, muito antes de grandes arenas, estrangeiros ostentando qualidades para lá de duvidosas, onde as poucas exceções não devem ser esquecidas, como todos os armadores da região platina que aqui estão, e dois ou três bons americanos, deveriam com a máxima e inadiável urgência, CBB, LNB e LFB, centrarem seus esforços e parcos recursos, numa forte e bem planejada retomada da formação de base, sugerindo e orientando aqueles ainda existentes e resistentes clubes regionais e municipais, para cederem em convênio suas instalações a escolas públicas onde inexistem quadras, num esforço conjunto de dotar um lugar seguro e educativo para os jovens praticarem o desporto, com as grandes empresas ajudando na manutenção dos professores e técnicos nesses locais, organizando competições bem formuladas e voltadas a qualidade, movimentando e integrando as famílias de volta as quadras de seus pequenos e históricos ginásios , onde nascem, se criam e se desenvolvem futuros campeões , e melhores cidadãos, como outrora, otimizando os grandes pátios de estacionamento de grandes mercados nos horários vagos, alguns cobertos, para quinzenal ou mensalmente promover torneios de mini basquetebol (a Europa abusa dessa ideia , e por isso vence…), verdadeira escola para o grande basquetebol, e não um 3×3, refúgio daqueles que não tiveram oportunidades nas equipes de quadra inteira, numa modalidade plenamente voltada ao confronto individual…

Na verdade, nossas arenas continuarão semi desertas, enquanto o espírito desportivo e agregador dos antigos admiradores do grande jogo se mantiverem ausentes, principalmente na qualidade do jogo em si, bem e tecnicamente praticado, coletivo, envolvente e solidário , através a arte de bons e solidamente bem formados jogadores em seus fundamentos básicos, somente adquiridos numa responsável e qualificada formação, orientada por bons e muito bem formados professores e técnicos , não a imagem das escolas e ricas universidades americanas, antítese de nossa pobre e precária realidade, que teima em transladar para cá uma inalcançável realidade, a deles, com seus dólares duelando em desigualdade brutal com nossos minguados reais…

Enquanto isso, vendo aqui de longe os jogos do Super 8. constatamos sem surpresa absolutamente nenhuma, que tudo está no mesmo patamar de ontem, anteontem, a perder de vista, técnica e taticamente, porém sabedores todos nós de quantas cidades os narradores e comentaristas conhecem nesse imenso, injusto e desigual país , que estremece pelos seus urros e ufanismos de  viajados jornalistas midiáticos, turísticos e televisivos, numa prova inconteste de que o grande, grandíssimo jogo, se torna liliputiano para a maioria deles, exceto uns poucos que se encolhem ante tantos likes, compartilhamentos e verborragia insana, que nada ajuda no soerguimento do basquetebol tupiniquim, entupindo-o de informações chulas e vazias …

Peço aos deuses todos os dias, a cada artigo aqui publicado neste humilde blog, que concedam uma réstia , minúscula que seja, de bom senso a todos que um dia prometeram cuidar do grande jogo, mas que resolveram atrela-lo a interesses que não nos dizem respeito, esquecendo os bons exemplos de formação e técnicas diferenciadas e inovadoras, que renegavam ações medíocres e mesmices institucionalizadas, num recente passado, que não era perfeito, mas sim conduzido por quem entedia com precisão e sabedoria o que vinha a ser basquetebol de verdade, mesmo sob administrações equivocadas e algumas vezes reprováveis, acertando, errando, porém estudando, trabalhando e formando jogadores, muitos e bons jogadores, quase sempre em solitárias lideranças, onde ter assistente responsável para carregar e entregar servilmente uma prancheta seria algo absolutamente improvável , melhor ainda, impossível …

Amém .

Em tempo – Acabo de assistir o quinto jogo do Super 8, definindo o primeiro finalista, entre Franca e Minas, numa partida com 26 erros de fundamentos (16/10), na qual a vencedora Franca (83 x 79) arremessou 20/37 bolas de 2 pontos e 10/25 de 3, convertendo 13/17 lances livres, enquanto Minas arremessou 15/31 e 11/35 respectivamente, convertendo 16/20 lances livres, deixando no ar uma questão – Como uma equipe pretende chegar a uma final convergindo de forma tão irresponsável, chutando mais de 3 pontos do que de 2, tendo bons alas pivôs, e armadores competentes, como? Quem sabe os americanos não estavam numa boa noite no chega e chuta de praxe…

JUSTO E OBJETIVO (From Dublin)…

No artigo de ontem, veiculei um video de um jogo de dez anos atrás, no NBB2, Joinville x Saldanha da Gama, tendo como resposta imediata um email do amigo fiel e inquisidor perguntando – Qual é Paulo, saudosista de algo que ninguém se lembra mais? Que tal virar o disco?…

Uau, essa foi na veia cara, mas, se você não percebeu bem, tinha endereço direto, justo e objetivo, num lembrete que, refutando sua pergunta, faço a mais absoluta questão de responder aos porques da vetusta partida de um jogo singular. Vamos a eles:

– Porque daquela data aos dias de hoje, repleta de “jogos emocionantes”, como nunca se viu, com transmissões em 100% das partidas, narradores ensandecidos pelos maravilhosos espetáculos que tronitruam em seus microfones, comentados por experts tão ou mais empolgados com a “redenção do basquetebol nacional”, através confrontos da mais alta qualidade, onde enterradas, tocos e  bolas de três reinam absolutas, emocionando plateias (um tanto ausentes das quadras, mero detalhe…), bem vindas e ansiadas prorrogações prolongando o prana generalizado, num NBB apoteótico…

– Porque durante todos estes anos nada de inovador e criativo foi visto por quem entende, por pouco que seja, do grande jogo, inclusive em seleções de todas as categorias, a não ser enxertos copiados daquela esquecida equipe capixaba, como a dupla armação e os alas pivôs em constante movimentação dentro do perímetro (pelo menos cinco anos antes da era Warriors e Curry), cópias canhestras adaptadas ao monocórdio e estratificado sistema único de jogo, promovendo suas estrelas doble triple a cada rodada, não importando se vencedoras ou não suas equipes, afinal seguem o modelo NBA, onde a cada temporada o coletivo cede espaco vital ao individualismo rapinador, na querência máxima de transformar um jogo coletivo em individual, ao preço que for, desde que as cifras cheguem a estratosfera…

– Porque a reboque dessa tragédia, flui a esmagadora maioria das franquias a partir de interesses mercadológicos, em contra ponto as nossas reais e emergentes necessidades, a fim de nos reentroduzirmos no cenário internacional de verdade…

– Porque, se realmente quizermos avaliar o peso dos porques anteriores, e dispendermos um tempinho revendo este vetusto video, poderemos ter uma grata, apesar de perdida no tempo, surpresa ao vermos e constatarmos o quão  injustos fomos com aquela surpreendente equipe, atuando sem os rompantes vocais de narradores que veem e imaginam um outro jogo, avalizados por comentaristas que o imaginam surreais, porém atuando como equipe, una e indivisível, atacando em bloco, lá dentro, bem dentro da cozinha adversária, e defendendo numa irrepreensível linha da bola, flutuando lateralmente, jamais longitudinalmente, a ponto de raramente ter um jogador excluido pelo limite de faltas, dominando os rebotes com maestria e se antepondo aos longos arremessou com decisão e competência. Uma equipe que não deveria ter sido aniquilada como foi, em duas etapas, uma logo ao início do trabalho no segundo turno, quando teve afastados três de seus melhores jogadores, depois ao não ser mantida para o NBB3, trocada pela mediocridade, séria e perigosamente  ameaçada pela mesma se continuada, voltando a ser o saco de pancadas de quando a encontrei, treinei e competi no mais alto nível, Realmente lamentável e inglório o seu fim…

Revendo-a jogar, última classificada na competição, mas vinda de duas vitórias exuberantes, contra a líder do campeonato, Brasilia, e Vila Velha, enfrentando a quinta colocada, Joinville, num grande e repleto ginásio, que a aplaudiu no final, com uma comissão técnica aquietada e tranquila em seu banco, em oposição a uma frenética e agressiva do outro lado, pedindo somente um tempo num jogo difícil, delegando iniciativas previamente treinadas com seus experientes jogadores, sérios e dedicados uns para com os outros, ajudando-se permanentemente, errando minimamente nos fundamentos, e principalmente, jogando em harmonia, como deve ser jogado o grande jogo, coletivamente…

Atuar coletivamente, objetivo inalcançável por nossas equipes, da base a elite, por uma única razão, não são ensinadas, treinadas e orientadas para alcança-lo, porque primeiro não existe interesse, segundo porque não sabem, os estrategistas, como faze-lo, sendo mais fácil e palatável trocar “peças” a cada temporada, dá menos trabalho, e como todos os corporativados seguem a mesma cartilha, que vença o mais equipado com pecas importadas e uma ou outra nacional, chutando de três, dando tocos monumentais, e monstruosas enterradas, para o encantamento de todos…

Que bom teria sido ver aquela humilde equipe jogar uma temporada completa, mas vale a pena assistir seu basquete enxuto, técnico, correto, equilibrado, e acima de tudo, proprietária, por pouco tempo, bem sei, do coletivismo até hoje inalcançável pelas demais franquias e mesmo seleções, passados dez anos de estrada…

Assistam, deleitem-se com o grande jogo bem jogado, sem histerias vocais e comentários ufanistas, claro, se houver interesse no que venha a ser basquetebol coletivo. Um abração a todos, feliz Natal e um 2020 repletos de esperanças, principalmente para o grande, grandíssimo jogo.

Amém.

Foto – Arquivo pessoal.
Um oportuno adendo clicando aquihttp://www.coracaoemquadra.blog.br/2010/04/02/joinville-63-x-71-saldanha-da-gama/.

SURPRESA!!!(From Rome)…

`    Eis-me em Roma, conhecendo um pouco de seus encantos e cantos históricos, e são tantos, em suas ruínas imperiais, em sua modernidade contrastante, no povo apressado pilotando um mundaréu de motonetas e Smart’s minúsculos, em sua mesa farta, aromática e deliciosa, apreciada após longas caminhadas de encontro a museus inesquecíveis. Enfim, uma magnífica prévia do que apreciaremos em Florença, Veneza e Bolonha, num périplo continuado em Dublin, Lisboa e Madri, voltando ao Rio, com sua magnificência, pobreza, injustiça, minha adorada terra natal…

    Foi o presente que meus filhos me deram pelos 80 anos de trabalho duro, de intensa luta pela educação justa e de qualidade, pelos muitos anos de quadra junto ao grande jogo, num projeto de vida que me orgulha e jamais trai, no magistério, na técnica desportiva na paternidade integral e democrática…

    E dessa lonjura não abro mão de saber tudo que possível sobre o basquetebol nacional, pelos blogs, emails, e um ou outro jogo veiculado na grande rede, até agora impossível mesmo assinando o DAZN, ausente fora do Brasil. Talvez um próximo pelo facebook ou twitter, quem sabe. Tento as estatísticas na LNB, e logo no primeiro relatório de um jogo, Mogi 91 x 84 Minas, tenho a mais grata surpresa, e que surpresa, um jogo definidor de nosso adiantado estágio técnico tático, pois não é todo dia que uma partida tão importante apresenta números tão determinantes da era inovadora que se avizinha, ou mesmo, se estabelece como apanágio de um novo tempo, a da chutação oficializada, institucionalizada, para gáudio e realização do corporativismo enraizado no grande jogo desde muito tempo. Sim, surpresa das surpresas, vê-lo definitivamente esmagado pela mediocridade insana e absolutamente estúpida, descerebrada, criminosa, fatores que serão cobrados pesadamente quando enfrentarmos seleções de verdade nos grandes torneios mundiais e olímpicos, se la chegarmos…

    Ah, os números, desculpem o esquecimento (seria uma dádiva esquecê-los), constrangido os replico, desejando ardente e do fundo do coração não repetí-los alhures, claro, sabedor de que la estarão, dia após dia, por meses e, infelizmente, mais alguns anos, enquanto durarem os estoques de gente que definitivamente odeia o grande jogo, jamais o entenderá, nunca aprenderá sua significativa importância técnica, estratégica e cultural, pois são ignorantes funcionais forjados pelo apadrinhamento continuísta, pelo QI político, pela permanente negação do novo, do instigante e desafiador improviso produzido pelo pleno conhecimento da fundamentação do jogo, contraponto definitivo da mesmice crônica em que o lançaram da forma mais absurda e abjeta possível. Ah, os números minha gente, os números: 41/70 bolas de 2 pontos (20/36 para Mogi, 21/34 para Minas), 20/73 de 3 pontos (9/31 e 11/42 respectivamente, 33/38 lances livres (24/28 e 9/10), tudo somado a 19 erros de fundamentos (10 e 9)…

    O que temos? Isso ai bem esfregado na cara dos quem defendem, adoram e dizem amar o grande jogo, principalmente aqueles profissionais (?) que margeiam as quadras, com seus esgares, shows midiáticos, coercitivos, cúmplices de jogadores que não os levam a serio, e fazem o que bem entendem (principalmente os estrangeiros), de que estudam, pesquisam e planejam suas equipes, numa deslavada tapeação que tarda merecer um basta definitivo, um basta radical, Equipes que se defrontam, lançando mais de 60 bolas de 3 beiram o desastre indefensável, ofensivo, e principalmente defensivo, num duelo tolo e irresponsável, atentando aos que assistem tanta estupidez, e que aos poucos se afastam ante espetáculos ridículos e muito abaixo do sofrível, desqualificando e minimizando um grande, grandíssimo jogo, caindo nos braços da NBA, quando muito pelo feérico espetáculo…

    Temo seriamente pelos jovens que se iniciam, ate mesmo aqueles que vem ganhando sul americanos de um jogo só, quando muito, dois, a maioria se espelhando na turma de cima, nos Durant, Curry, Thompson, numa cultura de jogo equivocada e colonizada, fora de uma realidade que não é a nossa, em qualquer perspectiva que se tente comparar, numa entrega absurda e caótica. Os números estão a cada jogo, a cada temporada a disposição de todos, frios e objetivos, porém determinantes na busca do que realmente queremos e desejamos para nossas futuras gerações, reféns do desconhecimento técnico do que venha a ser os fundamentos do grande jogo, ferramenta básica para o desenvolvimento e consecução das técnicas e táticas exigidas para a sua correta e eficiente prática, e não essa pelada monstruosa, irresponsável e aventureira em que transformaram o basquetebol nacional, que daqui a muito pouco tempo terá em quadra em sua liga maior oito estrangeiros e dois brasileiros se defrontando para a glória tupiniquim, e bem provável, sendo narrado no mais puro slang do basketball hegemônico do norte, já que caminhamos céleres, sorridentes e agradecidos por essa dádiva concedida, claro, muito bem claro, em troca do comercio de muitos milhares de camisas e tênis personalizados de Lakers, Bulls, e todos os demais, é o que merecemos por nossa omissão e subserviência…

    Que os deuses nos ajudem.

    Amém.

Fotos – Arquivo pessoal (Paulo Murilo, Andre Luis e Joao David). Reprodução da TV.

15 ANOS ATRÁS…

Este foi um dos primeiros artigos publicados nesse humilde blog, 15 anos atrás. O que mudou de lá para cá? Pouco, quase nada, infelizmente…

Basquetebol brasileiro-Fracasso ou omissão?

Domingo, 12 de setembro de 2004 por Paulo Murilo–  2 Comentários

Por 44 anos venho lutando pelo basquetebol no Brasil, e gostaria de fazer desta página um fórum de discussão acerca dos diversos motivos que levaram essa modalidade ao retrocesso que constatamos, infelizmente, em nosso país. Para dar partida peço licença para, na forma de um pequeno artigo, expôr algumas constatações que ao longo dos anos testemunhei como técnico e professor de futuros técnicos. Em 1963, no Ginásio Gilberto Cardoso no Rio de Janeiro, a equipe masculina do Brasil sagrou-se bicampeã mundial em uma final com os Estados Unidos, resultado que muitos e atuais jogadores, técnicos, jornalistas e dirigentes teimam em minimizar a qualidade do basquete praticado na época.Na equipe americana seis dos jogadores se profissionalizaram na NBA, onde atuaram por mais de 6 anos, sendo que um deles, Willis Reed, faz parte do Hall da Fama como um dos cinco maiores centros de todos os tempos com suas atuações no New York Knicks. Na equipe brasileira atuavam maravilhosos jogadores com Amauri, Wlamir, Rosa Branca, Ubiratan, Menon, Jatir e muitos outros que fizeram do jogo um espetáculo inesquecível. Quatro deles arremessavam de distâncias equivalentes à linha dos três pontos atuais, Jatir, Vitor, Rosa Branca e Amauri, o fazendo com uma bola de 18 gomos costurados à mão, com uma esfericidade que nem de longe se comparavam às verdadeiras jóias tecnológicas das bolas atuais, corrugadas e com sulcos profundos onde os dedos encontram base e aderência para exercerem total domínio direcional nos arremessos. Tivessem na época tais bolas e uma linha de três pontos todas, afirmo, todas as vitórias da equipe brasileira teria ultrapassado os 100 pontos. Jogávamos com dois armadores, dois alas e um centro, num rodízio permanente de posições, compensando com velocidade e astúcia a inferioridade na altura, principalmente os centros.Jogava-se com a bola nas mãos, em pleno domínio da arte do drible, onde os passes faziam a ligação que antecedia o arremesso, e sempre com um mínimo de três jogadores participando dos rebotes. Por anos dominamos a arte do drible e dos rápidos corta-luzes, onde os armadores dominavam a maior das habilidades, criar espaços onde não existiam, progredir em direção à cesta, estabelecer a superioridade numérica sempre que possível, arremessar como opção, e não como prioridade. Os alas e o centro em permanente rodízio iam sempre de encontro ao passe e não esperando por ele estaticamente. Antecipando o movimento sempre conseguiam o melhor posicionamento ofensivo, obrigando os defensores a se movimentarem e por conseguinte desestabilizarem suas ações. Enfim, jogava-se com a bola sob domínio físico e não, como hoje, sob o domínio do absurdo passing game. No final dos anos setenta e início dos anos oitenta a NBA se encontrava numa fase de afirmação econômica. Era necessário levar público aos ginásios, era fundamental encontrar-se um sistema de jogo que privilegiasse o um contra um, em duelos dentro do jogo, se possivel entre gigantes, e melhor ainda se entre brancos e negros.Nascia o passing game, formula perfeita para gerar duelos individuais, e melhor ainda se respaldado pela proibição da defesa por zona e pela flutuação na defesa individual. Não se ia aos ginásios para ver Lakers versus New York, e sim Jabar versus Willis Reed. O gosto do torcedor americano pelo embate de gigantes no Boxe, no Football teria de ter sucedâneo no Basketball para que despertasse seu altamente lucrativo interesse. O passing game era a solução técnica, como os embates um contra um seria a solução financeira. A divulgação maciça pela mídia, principalmente a televisiva lançou ao mundo o modelo NBA, que com o sucesso alcançado motivou o governo americano a utilizá-lo como sutil propaganda de sua superioridade esportiva, cultural e política perante o mundo. Cometeram um erro porém, ao subestimar a importância das regras internacionais, ao subestimar a FIBA, estando hoje colhendo alguns fracassos pela inabilidade de seus jogadores quando submetidos às mesmas em mundiais e recentemente nas olimpíadas. Mas no caso do Brasil o estrago já tinha sido letal. Nos últimos 20 anos mudamos nossa forma de jogar e adotamos o modelo NBA, o modelo baseado no passing game. Nossos armadores empolgados pelo um contra um passaram de organizadores para finalizadores, esqueceram a arte do drible, assim como os alas simplesmente a aboliram. Da posição básica no ataque, com a bola de encontro ao peito, prontos para o drible, o passe ou o arremesso, retrocederam para a posição da bola acima da cabeça, simplesmente para a execução do passe, dando continuidade a verdadeira coreografia em que se transformou o jogo, ao passing game. O”basquetebol Internacional”, como muitos apregoam, realmente se estabeleceu pela maioria dos países, pois subserviência cultural não é prerrogativa do Brasil, no entanto, alguns deles não descuidaram do ensino dos movimentos básicos, e cito a Argentina, a antiga Iugoslávia, a Lituânia e a Rússia como exemplos. Conseguiram os mesmos manter um excelente nível no domínio dos fundamentos, principalmente o drible, e hoje colhem os resultados desta saudável atitude. Ao esquecermos nossa herança de duas vezes campeões do mundo e três vezes medalhistas olímpicos, mergulhando numa mediocridade técnica na tentativa de imitarmos um sistema planejado, estudado e executado para a manutenção do domínio do modelo NBA, esquecemos também que fundamentando o modelo americano sempre existiu a massificação de jogadores nas escolas e nas universidades, ao contrário da pobreza franciscana de nossa realidade. Transpor modelos estrangeiros fora de nossa realidade é a atitude mais estúpida que se possa tomar, mais é sem dúvida nenhuma a mais fácil de ser utilizada por um grupamento de pseudo técnicos que determinaram omitir nossa passada grandeza em nome de uma realidade absurda e irresponsável. Em 1971 sugeri e ajudei a fundar a primeira associação de técnicos de basquetebol do Brasil, a ANATEBA, onde exerci o cargo de secretário. Mais tarde, em 1976 também ajudei a fundar a BRASTEBA da qual fui o vice-presidente, e no Rio de Janeiro a ATBRJ que como as anteriores logo se desintegraram. Mais recentemente fundou-se em São Paulo a APROBAS, que encontra sérias dificuldades para expandir-se. O fator restritivo é, como foi no passado, o total desinteresse pela discussão dos problemas técnicos, culturais e até sociológicos que submetem nosso desporto aos interesses de um grupo que se apossou do comando do mesmo, um feudo, onde alguns empunham microfones para em transmissões esportivas criticarem e oferecerem soluções táticas e técnicas, visando empregos futuros nas equipes de ponta, numa flagrante falta de ética profissional, já que do outro lado não existem microfones para a defesa. Sofremos de um unilateralismo crônico, ontem no aspecto de sistema de jogo, hoje de divulgação de um modelo em que somente um dos lados exerce o domínio da informação. Sempre tivemos bons e maus dirigentes, grandes e pequenos técnicos, perene falta de incentivos, pouca divulgação da modalidade, intercâmbio pouco desejável, mas alcançávamos resultados, discutíamos mais, e às vezes até brigávamos , procurando adaptar novas tecnologias e novos sistemas à nossa realidade, enfim, sabíamos administrar nossa pobreza. Hoje reina a omissão e prevalece a mesmice, a cópia a falta de imaginação e a ausência de criatividade. E a classe que no fim das contas é a que dita as normas de conduta técnica, de sistemas de jogo, de estratégias a serem seguidas, dentro e fora das quadras, é a classe que peca pela omissão, por que de todas as envolvidas no processo decisório é a que tem por obrigação deter o domínio e o conhecimento do jogo. Por isso considero serem os técnicos, que por seus conhecimentos, estudos e pesquisas deveriam comandar e estruturar as políticas referentes ao desenvolvimento do jogo, os grandes responsáveis pelo seu declínio, por negarem as tradições, os conceitos e a verdadeira índole de nossos jovens, ao trocarem esses valores por soluções estrangeiras sem as devidas adaptações por ser uma solução fácil e desprovida de responsabilidades. Podemos fugir deste modelo? Difícil, porém possível. daí a sugestão para o debate. Até o fim do ano publicarei meu livro, onde estenderei ao máximo esses pontos de vista, e aí sim poderei expor com todas as letras o que vivi, senti e experimentei nos últimos 40 anos de basquetebol.

Amém.

2 comentários

  • M Ponte
  • Yesterday
  • Excelente, Professor.
    Foi visível, real e tristemente, a incentivação deliberada ao jogo egoísta, por ditame midiático e publicitário, com deletérias consequências ao desporto e à sociedade, sem dizer uma irresponsável e mesmo abominável atropelação em massa prol uma sub-cultura (?) de segregação 
  • Basquete Brasil
  • Yesterday
  • E o pior, prezado Ponte, é que nada aprendemos até a data de hoje. Lamentável e constrangedor. Um abraço. Paulo Murilo.

Deixe seu comentário

O ENTER – QUINZE ANOS DE BASQUETE BRASIL…

Quinze anos atrás, 11 de setembro de 2004, às 4hs da madrugada, hesitei em dar um Enter, iniciando a saga do Basquete Brasil. Não por receio de não ser compreendido, ou mal compreendido, haja vista meus sempre contestados posicionamentos e pontos de vista, mas pelo forçado afastamento das quadras, pelo distanciamento movido pelas decepções e pelas injustiças cometidas com o basquete pátrio, pelo avesso sentimento ao que de pior vinha se apossando do comando do grande jogo nesse imenso e pobre país. Pensei muito, e considerei ser profundamente injusto guardar só para mim o pouco que sei e  amealhei pelas andanças da vida, sempre estudando, pesquisando, e trabalhando muito, dentro e fora das quadras, nas salas de aula, do primário à universidade, nos clubes, nas seleções, aqui e lá fora.

A primeira matéria ali estava, na brilhante tela já a algum tempo, como me enfrentando, mais um dos incontáveis desafios que enfrentei por toda a vida, ganhando e perdendo, mas sempre aprendendo, sempre transferindo o saber, sempre buscando novos rumos, novos desafios.

Fui a cozinha e peguei uma xícara de café, voltei ao escritório, e lá estava a página incólume, brilhando, e uma imagem me desafiando com um sorriso no canto da boca, olhando bem dentro de meus próprios olhos.

Não vacilei, e com firmeza e determinação dei o ENTER, e graças aos deuses nunca me arrependi de tê-lo feito.

Amém.

OS HERMANOS E SEU SCOLA MAGISTRAL…

E os hermanos chegaram às semifinais, derrotando a favorita ao título e atual campeã, a Sérvia, por 97 x 87, numa partida memorável, onde um Scola, aos 39 anos, liderou a equipe com maestria, competência, talento,  e acima de tudo, amor a camisa de seu país, onde a negação a ela é algo inimaginável, absolutamente impossível de acontecer, sequer pensar, ao contrário de jogadores que a macularam em nosso imenso, tosco e culturalmente fragilizado país, num comportamento aceito e tolerado por quem abomina a tradição, a mística e a representatividade de um símbolo que em hipótese alguma pode ser desrespeitado. abjurado, negado, ao preço que for…

O grande jogo é cultuado e respeitado na Argentina, desde a formação de base, ensinada, preparada e treinada por professores bem formados nessa complexa modalidade, e cujos frutos vem amadurecendo de vinte anos para cá, pujantes e vencedores. Torna-se emocionante e inspirador termos o privilégio de testemunhar o brilhantismo das grandes equipes argentinas, atuando com uma dupla armação magistral, e alas pivôs, jovens e veteranos primando pela velocidade, agilidade, flexibilidade e profunda prontidão aos detalhes do jogo, numa leitura somente atingida com uma excelente e detalhada formação, espelhada pelos magníficos exemplos de consagrados jogadores, como o Scola nessa equipe que disputa o Mundial…

Talvez não cheguem a grande final, mas o que alcançaram os definem, não como um milagre, ou um produto de um chaveamento menos exigente, mas sim como uma prova cabal na arte de formar jogadores técnicos, fortes fisicamente, e melhor ainda, mentalmente. Se arremessarem um pouco menos da linha dos três, reforçando o jogo interior, será muito difícil de serem batidos, sem a menor dúvida…

Amém.

Foto – Reprodução da TV.

2-3 OFENSIVO, UM SISTEMA A SER CONSIDERADO SERIAMENTE…

Peguei o jogo com quase 6 min corridos, o despertador me pregou uma peça, e a primeira informação captada foi do comentarista Marcelo dizendo que até aquele momento a equipe brasileira havia arremessado 0/6 bolas de três, estando atrás 5 pontos, e que havia necessidade de incrementar o jogo interno que manteve a equipe invicta até aquele momento, depoimento esse inusitado vindo de um convicto arremessador nos muitos anos de seleção por ele vivido, e que agora fora das quadras começa a perceber o jogo de outra maneira, o que é muito bom e promissor…

E foi o que permaneceu acontecendo no transcorrer da partida, com a volta da chutação de fora com 8/27, enquanto os checos arriscaram 8/20, com 12 ataques improdutivos contra 19, somente em bolinhas de 3, ou seja, conseguiram contestar os arremessos com mais consistência do que nós, otimizando física e tecnicamente 7 posses de bola, além de nos ferir lá dentro da cozinha com uma elevada 28/44 conclusões, contra 19/40, vencendo a partida mesmo perdendo 5 lances livres contra 2 dos nossos, e até errando 13 fundamentos contra 11, porém dominando os rebotes com 39 captados, contra 28…

No entanto, as diferenças entre erros e acertos nos arremessos, mesmo expondo a crueza dos números, não explica o outro e determinante fator, o técnico tático, senão vejamos – Nos jogos anteriores, nossa dupla armação funcionou no muito bem realizado rodízio entre o Huertas, o Luz e o Benite, com presenças pontuais do Alex e do Leandro, sem que o Yago participasse do mesmo por sua jovem inexperiência, o que radicalmente mudou pela presença de armadores muito altos e técnicos dos checos, não só na contestação dos longos arremessos, como no duro enfrentamento nas fases dribladoras e fintadoras dos mesmos, deixando-os sem muitas opções ao jogo interno com os alas pivôs, o que aparentemente obrigou o técnico tentar algo inusitado, arriscado, porém diferenciado, lançando o Yago, que frente a uma barreira monstruosa de armadores e pivôs descomunais, rápidos e combativos, de saída cometeu um 0/4 nas bolas de 3, no momento em que os checos alargavam o placar, e inclusive se utilizando da arma tática brasileira da marcação zonal, da qual não soubemos sair, sendo inoculada com o mesmo veneno utilizado contra os gregos. E nesse ponto acontecia a maior das diferenças técnicas e táticas dentro da quadra, pois ambas as equipes se utilizavam da dupla armação, e de três homens altos transitando dentro do perímetro interno, a começar pela qualificação biotipológica dos checos, muito mais altos que nossos armadores, e tão rápidos e lépidos quanto os mesmos, porém com uma diferença determinante, possuidores de uma base sólida nos fundamentos e na leitura de jogo, assim como seus altíssimos e velozes alas pivôs, transitando numa média acima dos 2,10m, superando em alguns palmos nossos homens mais altos…

Interessante mesmo foi a constatação de que ambas as equipes, ao contrário das demais nesse Mundial (ainda não tive a oportunidade de ver os americanos), utentes do sistema único e universalizado de jogo, propunham o especialíssimo sistema de dupla armação e uma trinca de alas armadores interiorizados no perímetro, a brasileira através uma recentíssima guinada de seu técnico, a checa através uma longa convivência com a mesma (em breve conto uma boa e instigante história sobre essa opção checa aqui no blog), fator determinante na longa experiência somada a qualificação desde muito jovens nos fundamentos do grande jogo (fui testemunha dessa qualificação quando em 1997 disputei com a equipe infanto juvenil do Barra da Tijuca o torneio da Amadora em Portugal, onde a pré seleção checa da categoria jogou conosco vencendo de 8 pontos, num jogo memorável para a gurizada tupiniquim…). No ano seguinte essa seleção, cuja geração antecedeu a esta que disputa o Mundial, foi vice campeã cadete europeia perdendo para a Itália dirigida pelo Piero Gamba. que por conta desse título dirigiu a seleção do mundo de jovens no Torneio Goodwill contra os americanos no palco das finais da NCAA em San Antonio, e em cuja equipe despontaram o Scola e o Dirk Novinsky, e sabe com que sistema o Gamba venceu os americanos? Isso mesmo, com a dupla armação e três alas pivôs rápidos, atléticos e flexíveis ( penso em veicular ambos os vídeos, o da Amadora e o do Goodwill, aqui no blog, e claro, de co mo o sistema foi parar nas mãos inteligentes do Gamba)…

E nesse ponto sobressai uma questão – Como e porque o sistema ofensivo 2-3 foi desenvolvido prioritariamente na República Checa, tornando-a hoje adversária temível na Europa e agora no Mundial, fugindo radicalmente do sistema único adotado pela maioria esmagadora das demais equipes? Ouso afiançar, que a adoção de tal sistema, (do qual fui o introdutor aqui no país 40 anos atrás), como desencadeador de uma visão mais ampla e criativa do grande jogo, foi adotado pelo inconteste fato de que iguala o ensino e a aprendizagem dos fundamentos individuais e coletivos por todas as faixas etárias, por todas as posições em quadra, onde baixos e altos, franzinos e corpulentos tem a oportunidade de se exercitar por igual, nivelando habilidades, lendo melhor as situações de jogo, cooperando coletivamente e acima de tudo, raciocinando em função do outro, e não em causa própria, que é o que vemos e constatamos no mundo do basquetebol moderno, visto hoje, e mais do que nunca, como um business a ser alcançado ao preço que for…

Perdemos um jogo decisivo exatamente por termos, corretamente concordo, executado um sistema de jogo promissor em toda sua extensão pedagógica visando um futuro de amplas oportunidades, frente a uma equipe que o adotou duas décadas atrás, e que hoje colhe os bons frutos de sua ousada e corajosa escolha. ìnsisto ser de enorme importância mantermos o mesmo frente aos americanos logo mais decidindo a classificação às quartas de finais, isto porque, desde o advento do Coach K que eles mesmos, donos absolutos do sistema único, subverteram a ordem estabelecida e se bandearam para o atleticismo e velocidade de seus alas pivôs, abandonando as massas estratosféricas de seus pivosões, assim como, adotaram a artilharia de três a partir das universidades, mas que hoje, frente a retomada defensiva, contestando cada vez mais aquela tendência, retornam ao jogo interior, porém todos afeitos e acostumados às regras da NBA, encontrando sérias dificuldades sob às da FIBA, principalmente na defesa interior do garrafão, aspecto que podemos explorar com algum sucesso pelos bons pivôs e alas pivôs que temos, e pena, muita pena mesmo que outros mais bem dotados para essa briga não tenham sido convocados, ainda mais quando um Augusto sequer entra em quadra…

Temos que atuar com nossos melhores armadores no maior tempo de quadra possível, revezando-os ao mínimo, pois com a possibilidade de classificação, cansaço nenhum será justificativa em se tratando de profissionais tarimbados e experientes, o mesmo para os alas pivôs, todos juntos para o “bola ou búrica” de suas vidas…

No caso de uma vitória da Grécia sobre a República Checa, mais ainda terá de ser o esforço para o enfrentamento com os americanos, quando a vitória simples nos classificará. Vencendo os checos, difícil mas não impossível chegarmos lá. Torçamos então e quem sabe…

Amém. 

Fotos – Reproduções da TV.