REFLEXOS DO TREINO…

 

Diego Felipe  

Professor, o que dizer do feminino? Fico com uma sensação de déjà vu: pouca defesa exterior, nada de rebotes, ‘gatilhaços’ pouco efetivos de 3, nenhuma movimentação de bola, somente uma jogadora (Chuca) tentando trazer o jogo para o interior, uma Érika efetiva, porém tolhida pelo resto do time… seria a repetição da seleção masculina de até 3 anos atrás?(…)

Recebi esse comentário hoje junto ao artigo de ontem Os Inseparáveis Dilemas, justo quando terminei de assistir o jogo com a Rússia, quando mais robusteceu em mim a vontade de não comentar mais nada sobre esse pastiche em que transformaram o grande basquete feminino do país, basquete esse em que me tornei campeão nacional como técnico no brasileiro de 1966.

Assisti os últimos jogos da seleção, da preparação às rodadas iniciais dessa olimpíada, e o que testemunhei gerou em mim um tal estado de angústia que decidi nada mais escrever ou externar para não me magoar mais do que já me magoei. Então, prezado Diego, foi esse sentimento de tristeza e decepção o responsável pelo mutismo, pela ausência de maiores comentários sobre o assunto.

Mas, não posso negar algumas considerações ao seu questionamento, pois nunca nesses anos todos de Basquete Brasil deixei qualquer pergunta sem resposta, inteligentes ou despropositadas, negando somente as desaforadas e ofensivas, e claro, as anônimas.

O que dizer objetiva e francamente? Talvez algumas poucas verdades, não as de caráter pessoal, mas sim as de foro profissional e técnico, fatores ausentes nesta seleção tão mal administrada e pior dirigida e orientada. Aliás, não compreendo como algum técnico sério e responsável poderia aceitar um cargo tão obliterado por uma coordenação, por uma supervisão tão equivocada, tão primária, tão amadora e medíocre.

Que mais dizer sobre uma seleção que se preparou por um longo tempo e não consegue apresentar sequer um resquício de sistema de jogo, de apresentar alguns dos fundamentos básicos do grande jogo, de sequer saber aproveitar sua melhor qualidade, a honesta e sensível disposição de suas componentes em fazer o melhor possível dentro de suas limitadas possibilidades técnicas, não menciono sequer as táticas, estando receptivas a um preparo realmente técnico, e não interessado em currículos, tão mais falsos quanto as premissas de ensino e aprendizagem negadas às mesmas da forma mais pusilânime possível, pois uma seleção nacional não tem o direito de se apresentar dessa forma tão carente, tão ignorante, tão equivocada.

Se nesses três meses de pseudo trabalho, viagens desnecessárias, jogos mais desnecessários ainda fossem substituídos por um programa realmente competente de preparo fundamental, não veríamos talentos como uma Damiris se perder na mediocridade de seu jogo jamais dirigido e orientado, ensinado enfim, assim como uma pivô da qualidade de uma Erika, de uma promissora Clarissa, abandonadas em suas solitárias lutas nas tabelas, onde arremessos são perdidos por não saberem como direcionar corretamente a bola na cesta, assim como alas e armadoras que mal sabem driblar, fintar, passar, sequer arremessar com um mínimo de qualidade. O que vemos são técnicos defendendo seus sistemas de jogo (que no fundo é um só, o que sabem e pensam dominar, como um molde a ser implantado nas equipes que dirigem, ou pensam dirigir…), suas pranchetas coreográficas, exigindo de jogadoras mal e pouco fundamentadas comportamentos de alta técnica e conhecimento de jogo, que são os fatores necessários para que vinguem, ou seja, os fundamentos do jogo. Se nesses meses todos tivessem treinado somente os fundamentos individuais e coletivos, somente os fundamentos, garanto que se apresentariam num nível bem superior ao que vem apresentando de forma tão melancólica, ou acham que as americanas desenvolveriam seus sistemas sem a rigorosa fundamentação que possuem?

É o que tenho a dizer, prezado Diego, e nada mais falarei a respeito, e se o faço agora, repito, é em respeito ao seu questionamento, já que me cansei de tanta… Deixa pra lá.

Amém.

Foto – A grande diva do basquete nacional…

OS INSEPARÁVEIS DILEMAS…

Outro dia o Giancarlo Gianpetro do blog VinteUm mencionou o fato de que deveria ser prioritário que um blogueiro não devesse acessar outros blogs antes de emitir sua opinião, para não se influenciar. Bem, normalmente não sigo esse critério, pois num ponto me diferencio um pouco dos demais analistas, o fato de também ser um técnico do grande jogo.

E um técnico tem como prioridade se manter informado, no geral, nos detalhes, nas entrelinhas, nos comportamentos, nas reações, e principalmente, se dissociando das emoções puras e simples, que de uma maneira bem ampla tende a mascarar as verdades, as reais conjunturas que envolvem a competição, naquele ponto mais nevrálgico, a precisão comportamental, técnica e tática.

Nesse ponto, dois foram os dilemas que possivelmente assaltaram o Magnano nesse inicio de competição, como primeiramente deveria se comportar ante o previsto desgaste do Huertas sob a enorme pressão de uma caminhada de curta e cruel exigência física e mental, concomitante a uma genérica possibilidade prevista em todos o jogos futuros, ante a presença de um forte jogo interior através nossos excelentes pivôs, que fatalmente em determinados e estratégicos momentos sucederia um jogo exterior mais desimpedido pela enorme concentração defensiva sobre os mesmos.

Frente a estas duas fundamentais e previsíveis situações, e ante a fragilidade técnica de um inexperiente Raul, uma tendência oscilatória do Larry, previsivelmente coubesse ao Leandro ou Alex as funções de um segundo armador, atuando junto ou separadamente do Huertas quando da necessária rotação, assim como, na segunda evidência, a importante presença de um arrematador de media e longa distância naqueles momentos de alta concentração defensiva dentro do perímetro, e neste caso a escolha, também estratégica entre um encanecido especialista como o Marcelo, ou um insinuante Marcos, ambos, porém, possuidores de uma grave limitação, a defensiva.

E o que ocorreu neste fundamental jogo contra uma perigosa e tradicional oponente desde sempre? Acertaram?

Nosso jogo interior se estabelecia pujante, dominador e efetivo, assim como nossa defesa também interior, falhando, mais uma vez, na contestação exterior, quando sofreu um 4/22 nos três pontos, felizmente imprecisos, mas que não os serão contra equipes mais qualificadas nesse pormenor, e que por conta  da mencionada superioridade ofensiva interior abriu possibilidades nossas de arremessos exteriores mais desimpedidos e possivelmente mais precisos e equilibrados. Optou então o argentino pelo Marcelo, que falhou num 1/8 devastador, quando deveria, face à sua larga experiência retornar, como num bumerangue, o jogo interior brevemente desimpedido pelo afrouxamento defensivo sobre os grandes pivôs, face a sua presença presumivelmente pontuadora.

No caso do Leandro, algo semelhante ocorreria se sua atuação fosse mais dirigida à armação e não às finalizações pós penetrações nem sempre bem sucedidas, pois seus 16 pontos quase foram sufocados por erros de avaliação, leitura de jogo, e mesmo erros de fundamentos, que propiciasse a descompressão defensiva sobre nossos atuantes pivôs. Errou tanto que o Magnano o admoestou publica e enfaticamente, sem muito sucesso, alias.

Vimos então dois dos grandes dilemas que o bom argentino enfrentará dentro da realidade de uma competição que já venceu, enfrentando, sem dúvida alguma, outros tão ou mais complicados como os deste jogo.

Mas venceu, o que foi importante, não acreditando, porém, que volte a ter mais dúvidas quanto a futuras decisões de tão transcendente importância, voltando ao Marcos suas atenções e ansiada confiança, assim como poderá vir a optar por uma real dupla armação, levando para o lado do Huertas um Larry também habilidoso, apesar de oscilante ofensivamente, mas eficiente na defesa, e que poderá, em quadra, aliviar as enormes pressões porque passará o excelente armador brasileiro daqui para frente, com o Alex e o Leandro exercendo uma rotação mais comedida no ataque, ou mais combativa na defesa, dependendo do qual for escalado.

Fato é que num ponto e nevrálgico detalhe estamos muito bem no ataque, o declínio acentuado nas famigeradas bolinhas, não ultrapassando as 15 tentativas nos últimos dois jogos, fator que viabilizaria nosso pujante jogo interior, que poderia ser implementado de forma ascendente no restante transcurso da competição, o que deveria ser conveniente e decisivamente compreendido e aceito por nossa armação, como a forma mais inteligente e verdadeiramente estratégica de avançar com firmeza e determinação rumo a uma participação honrosa na maior das competições, a Olimpíada.

Dilemas são companheiros permanentes de um técnico de alto nível, e acredito que o Magnano saberá enfrentá-los com a maestria que o tornou no campeão que é. Boa sorte a ele e a equipe brasileira.

Amém.

 

Fotos – Nas duas sequências reproduzidas da TV, podemos acompanhar e analisar os equívocos ofensivos do Leandro, projetando-se sobre um forte esquema defensivo, e na segunda, o jogo de pivôs não totalmente bem aproveitado por nossa armação. Notar o quanto de possibilidades não aproveitadas por uma armação que deveria acelerar ao máximo nosso poderoso jogo interior.

Nota – Clique nas fotos para ampliá-las.

FIAT LUX…

Terminaram os segredos, os treinos secretos (exceto o jogo com a Austrália que não foi veiculado pela TV, mas o da mesma Austrália com a França foi…estranho, não?…), os “esconde jogos”, as artimanhas, as experiências táticas, os erros táticos, os falsos acertos, os contumazes equívocos, os prometidos e ensaiados acertos, enfim, à partir de amanhã ou jogamos como se deve jogar, ou…

E como jogaremos? No sistema único? Com um ou dois armadores? Com um, dois ou três pivôs? Cadenciando ou soltando o jogo? Como jogaremos?

Como os espanhóis ou os americanos? Aliás, fico ansioso pela perspectiva de ouvir narradores e comentaristas escalando de 1 a 5 os americanos, pois vai ser bastante divertido e elucidativo vê-los trocando suas arraigadas concepções do grande jogo, pequeno para alguns deles…

Mas algo salta bem aos olhos, o fato de que somente avançaremos na grande competição se de alguma forma, inovassemos. Jogando no sistema que todos jogam, sairiamos um tempo atrás contra adversários mais entrosados e experientes, ao passo que se atuassemos com algo “proprietário”, algo somente nosso, sem dúvida alguma poderíamos surpreender positivamente, ainda mais numa competição de tiro tão curto, onde contra partidas, correções e ajustes  se perdem pela premência de tempo.

Nas duas últimas apresentações aqui veiculadas, um fator sobressaiu, sugerindo uma séria mudança em nossa forma de jogar, o decréscimo drástico e oportuno no número de arremessos de três pontos, levando, por conseguinte o jogo para o perímetro interno, onde uma trinca de bons pivôs e dois ou três alas pontuadores poderiam, de 2 em 2, levar os jogos a bom e seguro termo, anulando a desnecessária sangria dos longos e na maioria das vezes imprecisos arremessos de três, reservando-os para quando as condições de equilíbrio e tempo hábil os tornariam eficientes, principalmente após passes do interior para o exterior do perímetro.

Defensivamente, uma vigilância mais precisa nas trocas, ou mesmo uma relutância às mesmas precisariam de acertos e coordenação, principalmente ante as sempre perigosas jogadas de corta luzes incisivas à nossa cesta, onde trocas poderiam provocar sérios desequilíbrios defensivos, como aconteceram nos jogos amistosos, além de uma ação zonal em alguns decisivos e estratégicos momentos dos difíceis jogos que enfrentaremos.

Por tudo isso, torçamos por uma equipe que pode  surpreender na medida em que saia, por pouco que seja de um sistema inibidor e previsível, atuando de forma diferenciada das demais, como a exemplo da americana, que não teme investir em algo realmente antagônico à mesmice globalizada que se faz presente nas duas últimas décadas. E que a palavra chave da seleção seja uma só, inovação, encorpada com muita coragem e determinação, que são os ingredientes básicos das grandes equipes, e que Fiat Lux.

Amém.

Foto- Clique na mesma para ampliá-la.

QUEM FAZ UM CESTO, FAZ UM CENTO…

Paulo, nada sobre a Iziane? Nada sobre o IOB (Instituto Olímpico Brasileiro)? Está perdendo a forma?

Caramba, não exagera cara, já publiquei tudo que teria de publicar sobre esses assuntos, não preciso ficar batendo em ponta de faca, tenho mais o que fazer.

Mas, para não deixar seus questionamentos pendurados na broxa, acesse os dois links abaixo, e acredito que atenderei suas criticas. Vamos lá:

http://blog.paulomurilo.com/2010/01/02/a-condicao/

 

http://blog.paulomurilo.com/2007/09/24/o-triste-deserto/

 

O primeiro artigo define sob meu ponto de vista, toda uma situação que deveria ter sido equacionada levando-se em conta um único fator, a ética desportiva, nada mais do que isso, a ética e seus princípios reguladores do comportamento básico do desportista.

O segundo descreve e demonstra a imensa distância que separa o discurso pretensioso e hipócrita da lamentável realidade do nosso “olimpismo”. Organizar um Instituto Olímpico Brasileiro, para preparar treinadores de alto nível, sem a base bibliográfica fundamental e cientifica (para desportistas, e não paramédicos…) cheira a mais um cabide de empregos para alcólitos e aspones que circundam o poder do desporto (?) nacional. Mas lembrando as palavras do meu velho pai e grande causídico (e não advogado bissexto…), “cada povo tem o governo que merece”. Mas lá no fundo somos culpados e cúmplices desse tenebroso carnaval. A omissão libera a existência de tudo isso, lamentável.

Amém.

NO FINALZINHO…

Bem no finalzinho o Magnano deixou esboçado o seu recado, talvez pelo  sentimento que assalta todo técnico que quer vencer jogos, principalmente os difíceis, mas se conteve ao olhar mais à frente, sabedor que ainda resta um embate de preparação contra um forte adversário, e que seu verdadeiro objetivo ainda pode ser contido até a hora da competição à valer, ao estabelecer uma rotatividade exagerada, encobrindo suas verdadeiras intenções.

Foi nos minutos finais que a equipe decididamente jogou lá dentro, com dois e até três pivôs e uma declarada dupla armação, ensaiada na combinação fatorial de três jogadores, Huertas, Larry e um previsível Leandro nas funções de um ainda imaturo Raul, que não entrou hoje, mas pode atuar logo mais, numa derradeira oportunidade de se firmar, o que será sumamente difícil numa árdua e áspera competição como a que se avizinha, e onde os erros têm de ser restringidos ao mínimo permitido.

Interpretando as fotos acima, podemos perceber com clareza esse exercício de mimetismo tático, onde a equipe percorreu toda uma gama de ações ofensivas, desde o sistema único (com a “chifre” em particular…), à disposição aberta e um pivô, o jogo interior com dois, e o instigante final com três, numa progressão somente possível pela surpreendente contenção nos longos arremessos de três, através um econômico (para os padrões tupiniquins…) 5/14, ou seja, 15 pontos para um total de 76, salientando-se o fato dos franceses arremessarem somente 4/9 de três, ou 12 pontos para um total de 78.

Enfim, jogaram as duas equipes de 2 em 2, privilegiando o jogo interior, seus pivôs, os DPJ’s franceses e alguns contra ataques brasileiros, provando por mais uma vez que as finalizações de curta e média distância têm de se constituir no objetivo prioritário, face aos seus altos índices percentuais quando confrontados aos de longa distância, que somente devem ser tentados em ótimas condições de liberdade e equilíbrio, para que sejam precisos e eficientes.

Defensivamente pecou a equipe na sua rotina de trocas, gerando sérios desequilíbrios, já que as coberturas se viam inócuas ante a habilidade dos franceses em provocá-las seguidamente, o que exigirá ajustes radicais para os embates em Londres, mas nada que não possa ser devidamente corrigido.

Nossos jogadores tem de entender e aceitar uma decisiva evidência sobre o fator precisão, quanto aos dribles desprotegidos, aos passes paralelos à linha final (tivemos dois deles interceptados pelos franceses), pelos arremessos apressados ou forçados de três, e pela necessidade crucial de atuarem em movimentação constante no ataque, consolidando aquele decisivo fator.

Finalmente, a desvinculação na grade de ações técnicas e comportamentais do fator arbitragem em uma competição do mais alto nível, se constitui também uma prioridade, já que pode fazer pender um resultado favorável para o adversário em face de indesejáveis e comprometedoras faltas técnicas como a de hoje contra o Huertas, que contabilizaram 3 pontos para os franceses numa vitoria de 4.

Acredito que a seleção tende a encontrar na fase inicial do torneio olímpico um planejamento estratégico razoavelmente bem estruturado, pois se tratando de um torneio de tiro curto, pouca ou quase nenhuma margem de ações equivocadas poderá ser corrigida em tempo hábil.

O jogo de logo mais contra a Austrália, sem dúvida alguma se conota da mais alta importância, por se tratar de um contumaz e duro adversário, e pelo fato maior de que a seleção precisa sedimentar seu jogo coletivo ofensiva e defensivamente, se pretende avançar nas fases da grande competição.

Amém.

 

Foto 1 – Armação do Leandro e Larry numa disposição aberta apesar de dois

pivôs.

Foto 2 – Formação inicial do sistema único.

Foto 3 – Jogo externo com arremesso de três.

Foto 4 – Jogo interior com dois pivôs.

Foto 5 – Jogo interior com dois pivôs e um ala.

Foto 6 – Jogo aberto de contorno.

Foto 7 – Um pivô dentro e dois fora.

Foto 8 – Três pivôs dentro e dois armadores fora.

Foto 9 – Bola decisiva com má opção do Larry ao enfrentar uma tripla defesa,

não tentando o passe.

Foto 10- Fechando o jogo.

 

Fotos – Reproduções da TV. Clique nas mesmas para ampliá-las.

12.345…

“Para que pivôs com um time desses?”

“Já estão jogando com três armadores na quadra, não é um time de sonho?”

Foram algumas das exclamações do comentarista da TV, um sério defensor dos “cincões” nas equipes nacionais, principalmente nas que dirige.

E a grande pérola – “É a grande novidade tática, essa de jogar com os cinco abertos, sem pivôs…”

Engraçado, ou vi outro jogo, ou apaguei em frente à TV, como no jogo feminino…

Prefiro manter um conceito que trago comigo desde que me interessei pelo grande jogo, o de que uma equipe plena e basicamente preparada nos fundamentos supera aquela que, carente nos mesmos, aposta em sistemas padronizados e formatados de jogo, com controle absoluto de fora da quadra, através coreógrafos travestidos de técnicos, desculpem, estrategistas…

Indo aos blogs o que mais vemos são comentários sobre posições 1, 2, 3, 4 e 5, suas combinações, seus componentes setorizados com um ou outro transitando em mais de uma especialização, como capitanias hereditárias, estáticas, inamovíveis, gravitando em torno de um sistema único mais granítico ainda, cristalizando uma mesmice endêmica asfixiante e covarde.

No último mundial o Coach K ensaiou a grande mudança, venceu o campeonato, mas foi criticado por aqui acusado de ferir um principio “consagrado”, o do sistema único, que em caso de ser aceito colocaria muita gente para estudar e pesquisar novas soluções táticas, fator que não interessaria ao status quo vigente e corporativista.

Passaram-se dois anos, e eis que ele de volta mantém seu ousado conceito, só que no comando de melhores jogadores, inclusive os mais emblemáticos, com dois na posição 1, dois na 5, e oito na 12.345, posição de todo jogador que professa e pratica de verdade os fundamentos básicos, tanto os individuais, como os coletivos, e o inusitado, trazendo os outros quatro para formarem na polivalência que dominam magistralmente.

E o que vemos, e veremos daqui para diante um pouco além “dos 5 abertos” senão um entre e sai do perímetro interno, por dois, três jogadores atléticos, altos e profundamente senhores dos fundamentos do grande jogo, alimentados por dois, e até três armadores mais senhores ainda da arte do drible, das fintas, do passe…

E do sentido maior do jogo, a forte defesa, intransigente, antecipativa, física no interior, combativa, insistente, contestadora no perímetro externo, sentido este que viabiliza todo o arsenal de conhecimentos e técnicas ofensivas, determinando dessa forma os resultados planejados e executados sob a égide e a coragem de um técnico na acepção da palavra.

12.345 é a posição do jogador de um amanhã que se aproxima inexoravelmente, queiram ou não os puristas e defensores do sistema único, do qual nunca pertenci, desde que iniciei minha humilde caminhada a mais de cinqüenta anos atrás.

Podem até perder a grande competição, mas o recado tem sido dado com tamanha convicção que nos priva da dúvida, da incerteza, do descrédito.

Nossa seleção encontrará grandes e poderosos obstáculos, mas poderia também inovar, ousar um pouco além do “trivial simples” do dia a dia do nosso insosso basquete, colocando o nosso melhor transitando no âmago das defesas que enfrentaremos, inclusive a americana, impulsionado por dois armadores determinados ao jogo coletivo, à defesa mais coletiva ainda, rompendo com a mesmice endêmica que nos limitou e asfixiou geração atrás de geração, numa pungente autofagia desde sempre.

Contudo fico muito triste por não ser permitido participar dessa mudança que indevidamente propus no NBB2, que se continuada poderia ter inspirado novas formas de se jogar o grande jogo, aqui mesmo, nessa imensa terra tupiniquim, dos “grandes conhecedores” do jogo, que talvez agora não estivessem ridiculamente embasbacados com um LeBron jogando de 5, assim como o Carmelo e o Durant, e por que não e eventualmente os armadores da grande equipe, e um Kobe fazendo menos de 15 pontos por partida.

Aguardo com franca e honesta curiosidade os dois jogos preparatórios deste fim de semana, mesmo sabendo que muito de táticas será pouco mostrado, talvez insinuado, para que na competição à vera um novo conceito seja exposto para um novo tempo, um novo grande jogo entre nós. Torço para que aconteça.

As fotos que incluo neste artigo mostram que 5 abertos quase sempre se transfiguram em efetivas ações internas e externas, precisas e velozes, sendo que reduzi um pouco a velocidade de captação das mesmas a fim de que constatemos a permanente movimentação de todos, dos cinco, e não de um ou dois. Clique para ampliá-las e deleitem-se com o mimetismo posicional destes grandes jogadores.

Amém.

 

Fotos – Reprodução da TV.

APARANDO ARESTAS…

Assisto ao jogo com meu filho basqueteiro, anoto jogadas, detalhes, e bato fotos, muitas fotos, que com sua crueza de imagens estáticas revelam muito mais do que sequências animadas, onde se perdem as entrelinhas dos sistemas, das ações individuais e coletivas, do comportamento atemporal dentro de uma competição de alto nível. Bem mais tarde, madrugada adentra, revejo o replay, com mais calma, e sob uma visão muito mais abrangente, depois de ter ido à minúcias na transmissão ao vivo, num exercício de captação e observação às avessas que muito tem me ajudado como técnico vida afora (a sempre bem vinda Engenharia Reversa).

Se foi um jogo levado a valer pelos contendores, muito esconderam, principalmente nosso astuto técnico, que somente se irritou de verdade quando no segundo quarto os americanos impuseram um 13 x 2 (vide foto) forçando uma marcação extremamente agressiva em cima da nossa armação, principalmente através o Raul, que aos 19 anos não possui maturidade e técnica desenvolvida para competições do quilate que querem que ele enfrente, e tem mais, se não corrigirem, melhor dizendo, ensinarem o menino como deve se comportar e agir tecnicamente na armação, nem em 2016 ele chega na condição de dono da posição como anunciam os marqueteiros de plantão.

E o básico que deve ser ensinado se resume a um detalhe, que se não corrigido agora, tolherá sua atuação pelo resto da vida, o de jogar no drible e na finta o mais próximo possível de seu marcador, jamais recuando para obter espaços, e sim avançando para criá-los onde não existem, fazendo com que seu marcador, ao tê-lo colado a seu corpo não aja em antecipações, e sim reaja a uma ação ou atitude ofensiva, mantendo-o sempre um tempo atrás em suas reações. Um bom armador agride, recua, e torna a agredir concomitante à troca de mãos, criando pequenos espaços por onde se infiltra, ou revertendo junto ao corpo do defensor, sempre em equilíbrio instável, provocando o desequilíbrio defensivo, tanto corporal, como espacial, e o mais importante, ambidestralmente.

Mas numa seleção como a nossa, onde até dirigente compõe o banco (com que função?), um detalhe destes de fundamentos deveria ser avaliado, pois contar somente com estrategistas de prancheta em punho jamais resolverá problemas e situações como esta, ou outros, como por exemplo, a equivocada empunhadura do Spliter nos arremessos livres, onde correções podem ser feitas por quem entende de fundamentos. De estrategistas bastam dois, como os temos argentinos, e dos bons.

Exatamente em cima dessa lamentável deficiência foi que os americanos retomaram as rédeas do jogo, pressionando, dobrando, e incentivando o jovem armador a recuar, recuar e lateralizar, para enfim, sucumbir. Maldade essa queimação de filme, mas não muito menor que o aperto que deram no Leandro e de passagem no Huertas, dois macacos velhos das quadras.

Acesos os faróis de alerta, vimos daí para diante um Huertas armando e conduzindo de verdade, a bola, os passes, as fintas os arremessos e as explendidas assistências, jogando como deve jogar um armador, “dentro do marcador” fungando ele mesmo, e não o oponente, no cangote do outro.

Mas algo de instigante ocorreu, e desde o começo do jogo, quando os americanos ao se espalharem aleatoriamente (?) pela quadra de ataque, provocaram situações aonde nossos pivôs vinham marcar fora do perímetro, e os armadores ou alas, dentro, criando impasses onde nossos rebotes defensivos se tornavam ineficientes, provocando trocas sucessivas, nem sempre nos beneficiando, mas sim a eles, que agindo dessa forma equilibravam sua carência de pivôs de oficio, bem aos moldes de sua campanha no último mundial.

Conseguimos, no entanto, equilibrar um pouco essa movimentação ofensiva dos americanos, obrigando-os aos longos arremessos, no que foram ineficientes por um largo período de tempo, quebrado no quarto final pelo LeBron, com seus arremessos da linha NBA.

Nosso ataque, propositalmente (desconfio que sim pela tranqüilidade do Magnano…) não aproximava os pivôs, mesmo jogando com eles, como que testando suas ações técnico individuais, e não o jogo entre eles mesmos, acrescido do apoio do ala, que deverá ser fundamental em Londres se quisermos ir mais além do quem a simples classificação, e nesse ponto fica uma preocupação, a forma do Marcos, pois dos alas convocados é aquele que reúne as melhores características para interagir com os pivôs, não só por sua elevada estatura, mas pela precisão de seus arremessos médios. O Guilherme e o Marcelo poderão compor no apoio em determinados jogos, não os de maior impacto e exigência física, assim como o Alex na marcação de um jogador mais atuante fora do perímetro.

Finalmente, a grande interrogação que se delineia na possível estratégia do Magnano de vir a jogar com dois armadores, que nesse caso se restringiria ao Huertas e o Larry, com um possível, porém temerário Leandro na rotação, e nunca o Raul, principalmente contra europeus e americanos com sua sufocante pressão defensiva, já que uma armação solitária desgastaria o Huertas de forma cruel, o que nenhum adversário descartará, pois reduziria o potencial ofensivo brasileiro em praticamente 50%.

Se atuarmos em dupla armação, como em alguns ensaios feitos nos últimos jogos de ações de pivôs qualificados como os nossos, ai sim, apresentaremos algo de realmente novo neste cenário monocórdio do basquete internacional, somente quebrado pela atitude fragmentária no modo de jogar da equipe americana, não como muitos pensam pela falta de pivôs, e sim pela retomada das habilidades, da grande arte do domínio dos fundamentos, independendo de alturas, pesos, idades, e mesmo, posições.

Ficam alguns questionamentos, tais como:  – Se é real e comprovadamente verdade de que um armador somente atinge sua plenitude perto dos 30 anos, porque forçarmos a barra em cima de um de 19?

– Se aceitarmos a evidência palpável de que o jogo de pivôs nos beneficiará nas grandes competições, porque levar um que sequer atua num jogo preparatório?

– Porque ainda pecamos tanto na convocação de “nomes”, esquecendo aqueles que se destacaram no NBB?

Terminemos dando uma passagem pelas fotos apresentadas, comparando-as com o que aqui foi exposto, e também no que pudemos observar no transcurso do jogo, num exercício de conhecimento e descoberta das entrelinhas do grande jogo. Divirtam-se.

Amém.

 

Fotos – Reproduções da TV. Clique nas mesmas para ampliá-las.

INSIDE (?)…

Paulo,viu o time jogar como você gosta? Vi, mas não do jeito que gosto, mas como deveria jogar sempre, lá dentro, na cozinha deles, e sendo abastecido por dois bons armadores, por todo o tempo, cirurgicamente, e contando com um ala que deveria estar por perto dos pivôs, para de dois em dois otimizarem seus ataques, como quase fizeram desta vez. Note que foram 7/16 de bolinhas de três, 21 pontos num total de 91, ou seja, 70 pontos de 2 e 1 pontos! Imagine a quanto iria o placar se a metade das bolas de três perdidas fossem trocadas por tentativas de dois? Cem pontos…

Mas foram bem melhores do que vinham jogando, e nunca uma briga nos favoreceu tanto em termos de ajustes táticos do que a travada entre o Marcelo e o Gutierrez, os dois melhores arremessadores de três de suas equipes, que alijados do jogo propiciaram como nunca o jogo interior, ora e vez quebrado pelas teimosas tentativas de três dos dois remanescentes cardeais, principalmente o Guilherme, que sempre se postava fora do perímetro, quando deveria estar mais próximo de seus dois pivôs, em bloqueios, em cruzamentos, todos em movimento constante, sempre bem colocados para os rebotes ofensivos, para a bola curta e precisa, e provocando faltas de seus oponentes, e o mais importante, bem posicionados para retardar e mesmo contestar os contra ataques adversários, que sem dúvida alguma será a grande arma dos americanos na segunda feira, como foi contra os dominicanos.

Então Paulo, como você gostaria de ver um time jogar com três alas pivôs sob dupla armação?  No caso da seleção, que pode sempre escalar dois bons e ágeis pivôs, contando com um ala de boa estatura e bom arremesso, como o Marcos (2,07), o Guilherme (2,05), o Marcelo (2,00) e o Alex (1,93), e três eficientes armadores compondo duplas sempre em jogo, tal sistema funcionaria muito bem na medida em que todos os jogadores se movimentassem ininterruptamente, mantendo dessa forma seus marcadores próximos a eles, atenuando muito as flutuações defensivas, comprimindo-os dentro do garrafão, quando ai sim, liberariam generosos espaços para arremessos médios de dois e mesmo os de três pontos.

E estão muito próximos deste cenário, bastando percorrer com atenção as fotos acima postadas, que revelam o quanto ainda teriam de evoluir para preencherem os mais importantes requisitos para executarem o sistema com precisão, começando com os deslocamentos constantes, principalmente após efetuarem os passes; a colocação de frente para a cesta de todos os jogadores nos arremessos, inclusive os pivôs; a presença constante do ala próximo aos pivôs, interagindo com os mesmos por todo o tempo, abrindo espaços sempre que a leitura defensiva assim o permitisse, e finalmente, que os armadores jamais saíssem do foco das ações, na entre ajuda e no domínio do perímetro exterior, agindo como armadores e não se comportando um deles como um ala adaptado.

Foto 1 – Raul na armação inicial, com os dois pivôs bem colocados, e o Larry penetrando, quando deveria ser esta uma ação do Guilherme, que se mantêm fora do perímetro, num típico posicionamento para um arremesso externo…

Foto 2 – De novo o posicionamento errado do Larry, onde deveria se encontrar o Guilherme…

Foto 3 – Mais uma vez o Guilherme fora do perímetro interno…

Foto 4 – Ação correta dos armadores, mas…

Foto 5 – Boa ação dos dois pivôs, mas sem a ajuda próxima do ala…

Foto 6 – Outra ação dos pivôs, mas com um deles na ala, desfalcando em muito o posicionamento para o rebote.

Enfim, a seleção se encontra num limiar auspicioso, na medida em que sua direção inove na maneira de jogar, já que impôs novos hábitos e atitudes, principalmente na disposição defensiva, pressionada, forte e atuante, mas que deveriam ser acrescidos de maior contundência ofensiva, mais ousada e diferenciada das demais equipes, fator que a qualificaria entre as mais instigantes da grande competição.

O técnico Magnano, com sua experiência e notória competência, sem dúvida alguma saberá percorrer o caminho árduo e pedregoso de uma competição que já venceu com méritos. Assim espero, assim torcerei.

Amém.

Fotos – Reproduções da TV. Clique nas mesmas para ampliá-las.

HUM, SEI NÃO…

Paulo, 16/25 de 3, 64%!! Que artilharia, que precisão, principalmente do Marcelo. E agora, caiu a ficha de que estamos em rota de colisão com uma medalha olímpica? E olha que foi contra a Espanha, 101 x 68, é pouco cara?

Hum, sei não, uma Espanha que envia um time B para testar brasileiro, e não faz o que o A leva como ação básica, defesa forte e perímetro atuante, sendo ambos pertencentes à mesma e tradicional escola de formação?

Num ponto eles poderão ficar algo curiosos, quanto ao quem é quem na artilharia nacional, afinal Leandro, Marcelo, Guilherme, Raul, Huertas chutaram bolinhas a valer (vide fotos em sequência), as do Alex só consegui registrar a bola (última foto), e a do Larry nem isso…

Enquanto isso, num jogo com pivôs poderosos em ambos os lados, nos eximimos de treiná-los, pois preferiram alguns passes de dentro para fora, alimentando a turma do perímetro, além de pegarem rebotes para os muitos contra ataques da equipe, e adiando o fundamental jogo interno, mesmo cometendo erros,  no ponto que definirá muitos jogos em Londres.

Enfim, honestamente me preocupa uma equipe em que todos os seus armadores e alas se acham especialistas de três, quando deveriam ser arrasadores nos dois pontos, no jogo interior onde os percentuais são mais altos, e as possibilidades de provocarem faltas nos pivôs adversários se torna estrategicamente crucial, qualificando cada ataque, cada oportunidade de conclusão, pois se pensam que vão encontrar as facilidades de hoje na grande competição (inclusive contra a Espanha A…), estarão cometendo o maior dos erros, o de auto-estimarem suas reais possibilidades ante uma realidade antítese à de hoje.

No jogo de hoje com a Argentina, esses e outros fatores deverão ser minuciosamente mesurados, com realismo e bom senso, principalmente no jogo exterior, ainda muito circundante, numa busca óbvia para o tiro longo, quando a primeira opção deveria ser a do jogo interno, onde se decidem os jogos, os campeonatos, onde os americanos vão incidir como nunca, assim como algumas das grandes equipes européias, e a argentina também. Que prestemos muita, muita atenção nesse jogo, dada a sua importância a essa altura da preparação, pois os demais jogos antes de Londres espelharão toda uma tendência a ser desenvolvida na grande competição, onde incidirão os maiores esforços da equipe, se dentro ou fora do perímetro, se na velocidade explicita ou no jogo armado e cadenciado, se definido e decidido nas tabelas, ou na hemorragia nossa conhecida e estratificada até o jogo de ontem, a bolinha com seus mágicos 64% (16/25), claro, se deixarem, pois em caso contrário, hum, sei não…

Amém.

Fotos – Reproduções da TV. Clique nas mesmas para ampliá-las.

O CORROSIVO ÁLIBI…

(…)Mas em absoluto foram os motivos reais, e sim os progressivos traumas provocados pela sequência cumulativa de erros de arbitragens, jogo a jogo, temporada a temporada, por muitos juízes que se sentem no direito de julgarem aprioristicamente, de interferirem nas zonas de atuação uns dos outros, e que mesmo se seu número aumentasse para 4 ou 5, continuariam nas intromissões indevidas e pouco éticas, causando apreensões e medos indevidos em jogadores e alguns técnicos, num confronto absurdo que sempre me neguei a participar, arbitro que fui na federação do RJ, e professor de técnica de basquete nos cursos de formação de árbitros, onde tais comportamentos eram discutidos e dirimidos, evitando a criação de  áreas de atrito permanentes e antipáticas, levando muitos jogadores a se colocarem em antagonismo com os mesmos logo que a bola subia para o jogo.

Mesmo ante tais evidências, esse também não foi o motivo real da derrota, e sim a incapacidade de alguns jogadores em abstrair tais influências, longamente plantadas em suas mentes, tornando-as indesejáveis companheiras de suas realidades desportivas, e não inconscientes álibis para constantes derrotas.

Perdemos pela ausência dessa abstração, que será de agora em diante um objetivo a ser estudado, discutido e erradicado de seus comportamentos, para quando amanhã se defrontarem com a verdade das quadras mantenham o equilíbrio e a devida distância de uma variável imutável, mesmo que sob o domínio do erro crasso, da vontade e da decisão irrecorrível, correta ou errada do trilar do apito de um juiz.(…)    ( trecho do artigo O décimo nono dia, publicado em 27/2/2010).

Os parágrafos acima foram escritos após a derrota da equipe do Saldanha para o Pinheiros no returno do NBB2, quando constatei aquele que seria o maior dos problemas que enfrentaríamos dali para diante, a busca inconsciente de álibis que justificassem derrotas, cuja manifestação primeira era a de culpar as arbitragens pelas mesmas, numa omissão inconsciente de seus próprios erros, pouco ou nunca admitidos. Foi um trabalho penoso a que submeti toda a equipe em seus treinamentos, principalmente nas prolongadas e cansativas praticas em meia quadra, onde ataques e defesas duelavam intensamente, e onde privilegiava as ações defensivas dentro ou mesmo fora das regras, principalmente quanto às faltas pessoais que não eram assinaladas propositalmente.

De inicio todos estranharam, e mesmo reagiam surpresos, mas insisti ao máximo que cargas nos armadores e pivôs fossem elevadas ao máximo, que os bloqueios fugissem das regras regulares, e que em nenhum momento o homem da bola respirasse com liberdade, e que nenhum arremesso fosse executado sem anteposições, faltosas ou não, enfim, eram dadas à defesa todas as facilidades possíveis, e o máximo de dificuldades às ações ofensivas, a ponto de um dia um dos jogadores me interpelar dizendo que não entendia o por que do meu pedido constante de não querer ver o sistema que treinávamos dar certo ante defesa tão enérgica e até desleal, dando-me a oportunidade ansiada para responder que, se ante tantas dificuldades, o sistema pudesse se desenvolver, obrigando todos a uma leitura ampla e fundamentada no improviso consciente, ai sim, estaríamos preparados para vencer, ou mesmo perder, sem nos preocuparmos em buscar desculpas e álibis, culpando arbitragens, e desculpando nossos erros.

Porque trago esse exemplo prático de direção de equipe ao presente artigo? Porque é o que vejo se avolumar no âmbito de nossas equipes, e o pior, em nossa seleção. –“Fomos roubados na Argentina”- “Não fosse a arbitragem teríamos vencido…”- “Impossível fazermos 33 faltas e eles só 17”- E muitas e muitas outras manifestações nos blogs, nos comentários televisivos, contestando o resultado, culpando a arbitragem pela derrota.

Preocupa-me a síndrome do álibi inconsciente, embasando desculpas a erros que não deveriam ser omitidos, a erros que se corrigidos, arbitragem nenhuma influenciaria no resultado de partidas. A seleção precisa com urgência se desvincular das arbitragens, e se concentrar na aprendizagem e sedimentação de seus sistemas de jogo, sejam eles quais forem, a começar pela direção da equipe, cuja permanente tranqüilidade transmitiria a equipe o enfoque absoluto e necessário para superar os obstáculos, inclusive arbitragens.

Precisa a seleção optar pelo jogo seguro, pela escolha correta e inteligente do melhor arremesso, do jogo interior, da colocação estratégica nos rebotes, com o maior número possível de participantes, com a execução de passes incisivos e não circundantes, numa perda de tempo inconcebível, com um posicionamento correto e efetivo na defesa, na anteposição aos arremessos e passes de nossos adversários, sem tréguas, sem omissões.

Olhem as fotos e vejam como atacamos no interior, com pouca movimentação e deslocamentos de todos os jogadores, e não somente dos pivôs intervenientes, assim como a trágica opção das bolinhas (6/23), principalmente através os cardeais e um Leandro impreciso quando mais necessária a sua habilidade penetradora ao fim da partida, além da falência defensiva individual, quando alguns de nossos luminares jogadores simplesmente não sabem marcar.

Tudo isso pode ser atenuado, corrigido em médio prazo, mas encontrará um sério obstáculo que anularia os esforços da equipe, o fator arbitragem, o álibi que precisam expurgar ao enfrentar e reconhecer suas falhas e carências.

Amém.

Fotos – Reprodução da TV. Clique nas mesmas para ampliá-las.

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