O CORROSIVO ÁLIBI…

(…)Mas em absoluto foram os motivos reais, e sim os progressivos traumas provocados pela sequência cumulativa de erros de arbitragens, jogo a jogo, temporada a temporada, por muitos juízes que se sentem no direito de julgarem aprioristicamente, de interferirem nas zonas de atuação uns dos outros, e que mesmo se seu número aumentasse para 4 ou 5, continuariam nas intromissões indevidas e pouco éticas, causando apreensões e medos indevidos em jogadores e alguns técnicos, num confronto absurdo que sempre me neguei a participar, arbitro que fui na federação do RJ, e professor de técnica de basquete nos cursos de formação de árbitros, onde tais comportamentos eram discutidos e dirimidos, evitando a criação de  áreas de atrito permanentes e antipáticas, levando muitos jogadores a se colocarem em antagonismo com os mesmos logo que a bola subia para o jogo.

Mesmo ante tais evidências, esse também não foi o motivo real da derrota, e sim a incapacidade de alguns jogadores em abstrair tais influências, longamente plantadas em suas mentes, tornando-as indesejáveis companheiras de suas realidades desportivas, e não inconscientes álibis para constantes derrotas.

Perdemos pela ausência dessa abstração, que será de agora em diante um objetivo a ser estudado, discutido e erradicado de seus comportamentos, para quando amanhã se defrontarem com a verdade das quadras mantenham o equilíbrio e a devida distância de uma variável imutável, mesmo que sob o domínio do erro crasso, da vontade e da decisão irrecorrível, correta ou errada do trilar do apito de um juiz.(…)    ( trecho do artigo O décimo nono dia, publicado em 27/2/2010).

Os parágrafos acima foram escritos após a derrota da equipe do Saldanha para o Pinheiros no returno do NBB2, quando constatei aquele que seria o maior dos problemas que enfrentaríamos dali para diante, a busca inconsciente de álibis que justificassem derrotas, cuja manifestação primeira era a de culpar as arbitragens pelas mesmas, numa omissão inconsciente de seus próprios erros, pouco ou nunca admitidos. Foi um trabalho penoso a que submeti toda a equipe em seus treinamentos, principalmente nas prolongadas e cansativas praticas em meia quadra, onde ataques e defesas duelavam intensamente, e onde privilegiava as ações defensivas dentro ou mesmo fora das regras, principalmente quanto às faltas pessoais que não eram assinaladas propositalmente.

De inicio todos estranharam, e mesmo reagiam surpresos, mas insisti ao máximo que cargas nos armadores e pivôs fossem elevadas ao máximo, que os bloqueios fugissem das regras regulares, e que em nenhum momento o homem da bola respirasse com liberdade, e que nenhum arremesso fosse executado sem anteposições, faltosas ou não, enfim, eram dadas à defesa todas as facilidades possíveis, e o máximo de dificuldades às ações ofensivas, a ponto de um dia um dos jogadores me interpelar dizendo que não entendia o por que do meu pedido constante de não querer ver o sistema que treinávamos dar certo ante defesa tão enérgica e até desleal, dando-me a oportunidade ansiada para responder que, se ante tantas dificuldades, o sistema pudesse se desenvolver, obrigando todos a uma leitura ampla e fundamentada no improviso consciente, ai sim, estaríamos preparados para vencer, ou mesmo perder, sem nos preocuparmos em buscar desculpas e álibis, culpando arbitragens, e desculpando nossos erros.

Porque trago esse exemplo prático de direção de equipe ao presente artigo? Porque é o que vejo se avolumar no âmbito de nossas equipes, e o pior, em nossa seleção. –“Fomos roubados na Argentina”- “Não fosse a arbitragem teríamos vencido…”- “Impossível fazermos 33 faltas e eles só 17”- E muitas e muitas outras manifestações nos blogs, nos comentários televisivos, contestando o resultado, culpando a arbitragem pela derrota.

Preocupa-me a síndrome do álibi inconsciente, embasando desculpas a erros que não deveriam ser omitidos, a erros que se corrigidos, arbitragem nenhuma influenciaria no resultado de partidas. A seleção precisa com urgência se desvincular das arbitragens, e se concentrar na aprendizagem e sedimentação de seus sistemas de jogo, sejam eles quais forem, a começar pela direção da equipe, cuja permanente tranqüilidade transmitiria a equipe o enfoque absoluto e necessário para superar os obstáculos, inclusive arbitragens.

Precisa a seleção optar pelo jogo seguro, pela escolha correta e inteligente do melhor arremesso, do jogo interior, da colocação estratégica nos rebotes, com o maior número possível de participantes, com a execução de passes incisivos e não circundantes, numa perda de tempo inconcebível, com um posicionamento correto e efetivo na defesa, na anteposição aos arremessos e passes de nossos adversários, sem tréguas, sem omissões.

Olhem as fotos e vejam como atacamos no interior, com pouca movimentação e deslocamentos de todos os jogadores, e não somente dos pivôs intervenientes, assim como a trágica opção das bolinhas (6/23), principalmente através os cardeais e um Leandro impreciso quando mais necessária a sua habilidade penetradora ao fim da partida, além da falência defensiva individual, quando alguns de nossos luminares jogadores simplesmente não sabem marcar.

Tudo isso pode ser atenuado, corrigido em médio prazo, mas encontrará um sério obstáculo que anularia os esforços da equipe, o fator arbitragem, o álibi que precisam expurgar ao enfrentar e reconhecer suas falhas e carências.

Amém.

Fotos – Reprodução da TV. Clique nas mesmas para ampliá-las.



4 comentários

  1. Luiz Felipe Willcox 08.07.2012

    Paulo Murilo, precisas observações, como sempre. Por trás da cortina de fumaça da arbitragem, ficam escondidos alguns erros básicos, contra um adversário já em declínio, mas que possui ótimo elenco, liderado por um jogador absolutamente extraordinário – Manu Ginóbili.

    Destaco dois desses erros em momentos decisivos:

    -Ginóbili faz uma “tabelinha” com Scola e termina o lance em uma prosaica bandeja. No meio dos dois, um Leandrinho perdido, em pé, sem nenhuma postura de marcação. Manu faria lance quase igual, marcado pelo Larry, que escorregaria quando já corria atrás do argentino.

    -Huertas, em um ataque logo após a Argentina passar a frente e perto dos 2 min finais, chega à frente e queima uma bolinha de 3 com cerca de 15 s de posse ainda. Simbolicamente, a bola nem tocou o aro e a Argentina abriu mais 2 pontos no ataque, consolidando a vantagem e a posterior vitória.

    Abraços,

    Luiz Felipe

  2. Basquete Brasil 08.07.2012

    Esses foram dois erros dos muitos que aconteceram no jogo, principalmente no plano ofensivo, onde arremessos impróprios foram desferidos a granel, prezado Luiz. Precisamos corrigí-los com urgência, pois uma competição olímpica não perdoa desvios de tal ordem.Esperemos que os sejam.
    Um abraço, Paulo Murilo.

  3. Mauricio Cuencas 09.07.2012

    Infelizmente não consegui ver o jogo, porém pelo que vi de lances na internet e lendo sua análise, fica claro Paulo de que o Brasil, apesar de todas as nossas “estrelas” da NBA, fica devendo no jogo em equipe, na marcação cerrada e visão de jogo no ataque.

    Um comparativo eu faço com o jogo da República Dominica (e suas também “estrelas” da NBA) e a Nigéria, que aproveitou essas inconsistências de jogadores muito elevados no ego e pouco envolvidos no espírito de equipe. No final das contas, vimos uma Nigéria classificada para as Olimpíadas e Dominicanos a chorar.

    Espero que esta imagem não persiga o time brasileiro em Londres.

    Abraços,
    Maurício

  4. Basquete Brasil 09.07.2012

    Com uma atitude rigidamente comprometida e compromissada com o grupo, ego nenhum sobreporá tal força, bastando somente que cumpram o acordado, que é a regra básica das grandes equipes. Isto alçançado, o que não é fácil, caminhos se abrem, reacendendo legitimas esperanças para a grande competiçãode suas vidas. Espero que concordem em fazê-lo.
    Um abraço, prezado Mauricio. Paulo Murilo.

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