"MOMENTOS…"

Fazia muito calor em Rio Claro, e o jogo marcado para às 13 horas com a equipe do Minas antevia um transcorrer de jogo sacrificado e extenuante. E não deu outra, foi maldade pura para com os jogadores. Como o clima não ajudava previa-se um ritmo pausado e econômico em energias, para que restasse algum gás ao final do jogo. Mas não foi o que ocorreu, já que as equipes optaram pela grande velocidade inicial apostando qual delas sucumbiria primeiro à canícula. E sucumbiram, as duas, pois o que se viu daí para diante foi a mais devastadora sucessão de erros de fundamentos a que jamais assisti. E o pior, os técnicos não abriam mão da errada escolha que fizeram ao acelerar o ritmo do jogo. O que se viu de arremessos de três pontos inoportunos e desequilibrados foi uma festa, assim como as perdas seguidas de bola nos dribles e nos passes. Defesa então nem pensar, já que travados pelo cansaço e pela lenta reação mental, pouco ou nada poderiam fazer. Pequenas e médias diferenças no marcador pouco representavam ante a avalanche de erros de ambas as partes, até que, na fase decisiva da partida um dos técnicos, mais perdido que seus jogadores sai-se com essa pérola: “ Basquete é feito de momentos! Estamos perdendo o nosso!” E eu que sempre pensei que basquete fosse feito de jogadores com bons fundamentos, em equipes bem treinadas e dirigidas, antecedendo situações que possam, ou não, beneficiar o time, quando empregarão o que treinaram e ajustaram antecipadamente. Mas não, na ótica do técnico em questão, para o qual “momentos” definirão quem perde e quem ganha, independendo da qualidade de seus jogadores e de seus adversários, um verdadeiro draw poker, onde o blefe é arma poderosa. Os tais “momentos” já vão se tornando lugar comum em nosso dia a dia técnico, e já constatamos desculpas, tais como-“o nosso momento não aconteceu”, ou “não soubemos aproveitar o momento”, ou melhor ainda-“estamos em um mau momento”. É como se eles, os “momentos”, oscilassem entre uma equipe e outra, aleatoriamente, ao sabor da vontade dos deuses, ou como numa perversa loteria, em que nem sempre o melhor é aquinhoado.

Falta-nos doses maciças de humildade e bom senso, de técnica, de estudo, e de uma verdadeira concepção do que venha a ser o preparo eficaz e inteligente de uma equipe. Já é hora de se dar um basta em códigos de sinais, em punhos, polegares, mão na cabeça, signo metaleiro, e outras aberrações que predispõem as equipes em formações que não levam a lugar nenhum, a não ser ao encontro dos tais e fugidios “momentos”, a mais nova panacéia da incompetência reinante.

O jogo chegou ao fim, e o menos desgastado,o Rio Claro, venceu se arrastando em campo, apesar do mágico “momento” ter estado ao lado de seu oponente em duas ocasiões, na opinião de seu técnico.No meu humilde ponto de vista só houve um real momento nesse jogo, aquele ansiado por todos os jogadores para que ele terminasse o mais rápido possível. Pior não poderia ter sido, o tal “momento”…

…MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.

Dentre as modalidades desportivas onde a bola é lançada e não percutida, somente no beisebol e no críquete os jogadores o fazem sem qualquer oposição defensiva, o que não acontece com o handebol, o pólo aquático e o basquetebol. Mas no festival mundial das milionárias estrelas do basquete, com contagens mais do que centenárias, onde, para admiração e aprendizado dos milhões de jovens fãns do mundo inteiro tais estrelas posam de exemplos a serem seguidos, o fator defesa deixa de ser importante como um dos básicos fundamentos do jogo, como bem demonstra essa foto divulgada pela imprensa mundial, e para todos que testemunharam o encontro pela TV. Nela o MVP da noite demonstra como se impor a um adversário completamente ausente da obrigatoriedade defensiva. Jogo de compadres é assim mesmo, para gáudio daqueles que adoram ser enganados. Essa é a NBA. Mas bem ali perto, no vizinho Canadá, o Cirque de soleil apresenta um espetáculo bem melhor, e profundamente mais honesto.

ANATOMIA DE UM ARREMESSO II

Das etapas do All Stars somente uma me fez curioso e paciente para assisti-la, a dos arremessos de três pontos, talvez a única que se possa captar algo de real interesse para a modalidade. As demais foram puro circo e a mais absoluta falta do que fazer. Mas como gera muito dinheiro em divulgação e publicidade, continuam as gaiatices e encontro de compadres.

Um jogador relativamente modesto para os padrões da NBA, Jason Kapono venceu o torneio, convertendo 24 tentativas na segunda rodada. Mas o que me chamou mais atenção foi seu domínio no direcionamento da bola, com um elevado controle de seu eixo diametral, fator determinante no grande número de acertos. No artigo Anatomia de um Arremesso que publiquei em 2/11/2006, analisei um arremesso do jogador Marcelinho sob o ângulo de sua empunhadura na bola, e conseqüentes desvios que a mesma sofreria pela errônea colocação dos dedos em sua superfície no momento do lançamento.Vale à pena dar uma olhada nesse artigo(http://paulomurilo.blogspot.com/2006_11_01_archive.html), como um preâmbulo do que passo a exemplificar.

Recordemos um principio de direcionalidade no arremesso de basquetebol- “Quando a bola sai da mão do arremessador, o faz girando inversamente em torno de um eixo diametral qualquer. Se este eixo se mantiver paralelo ao nível do aro e eqüidistante de seus bordos externos, a direção estará próxima da perfeição, fator determinante para que as demais varáveis intervenientes na ação, tais como força e trajetória, determinem o sucesso do arremesso”. E esse eixo é determinado pela colocação dos dedos na bola no momento final do lançamento. Vejamos então a figura 1, onde constatamos que os dedos polegar e mínimo, responsáveis pelo domínio do eixo diametral, se aproximam dos demais dedos, aqueles que são os responsáveis pela aceleração da bola, quando de suas flexões em direção à palma da mão. Na figura 2, pela determinação gráfica do eixo diametral (a-b) da bola e do alinhamento(c-d) do polegar e mínimo com o mesmo, estando esse alinhamento paralelo ao nível do aro, deduz-se que a bola estará bem direcionada à cesta, fator determinante para o sucesso da tentativa. Nesse tipo de empunhadura, ou pega, a posição dos dedos em nada se assemelha ao corriqueiro principio de espalmar os dedos sobre a bola, com a maior amplitude possível, que é o princípio maciçamente ensinado pela maioria de nossos técnicos, principalmente nas categorias de base. Esse posicionamento do polegar e mínimo empregado pelo Kapono, obrigará que o toque final dos demais dedos na bola obedeçam duas tendências, a saber: A- Os dedos indicador e médio serão os impulsionadores finais, pois de uma forma natural estarão dispostos na superfície da bola ao final do lançamento, mas com menos autonomia de força. B-Com uma retração do dedo médio, colocando-o no mesmo nível do indicador e do anular, a concentração de força será exercida por três dedos, e não por dois como no exemplo anterior. Pela análise da foto pode-se deduzir com pequena margem de erro, ter sido esta a pega utilizada pelo jogador do Miami Heat, assim como o desfoque de letras e ranhuras na superfície da bola demonstra ter sido a mesma imbuída de uma uniforme aceleração no transcorrer do processo de lançamento. Essa concentração a mais de força é muito bem vinda para os longos arremessos de três pontos, mas exige de quem o executa uma grande margem de adaptação anatômica e longo treinamento.

Como vemos por mais uma vez, ser especialista nos três pontos não é para qualquer um, como vem acontecendo comumente entre nós, onde jogadores que sequer sabem definir quais dedos utilizam no momento da soltura da bola, se colocam como especialistas na arte do arremesso.E o pior, com o aval de seus técnicos, não muito interessados nessas insignificantes minúcias de dedos e eixos.Para eles, a fabulosa prancheta resolve esses e todos os demais problemas.Que fiquem os teóricos com essas bobagens. Amém.

CONCEITOS SUCESSÓRIOS.

E a seleção feminina terá novo comandante,o técnico Paulo Bassul,que se afastou do posto de auxiliar técnico da mesma em 2004,por não aceitar mais aquela posição na comissão técnica. Por força de seu recente título na Liga Nacional é nomeado técnico da seleção, mas somente assumirá o posto após os Jogos Pan-americanos, que servirá de despedida do atual e longevo técnico Antonio Barbosa. Em sua entrevista no O Globo de hoje,o atual técnico assim se manifesta:” Vai ser meu quinto Pan,algo histórico.Quero o ouro. Era o momento de mudança, e se analisarmos as dificuldades,quarto no Mundial está de bom tamanho”. Mas continuará como supervisor das seleções femininas, a adulta e as de base, além de coordenar os cursos de atualização técnica pelo país. No site da CBB Barbosa esclarece um pouco mais seus projetos pós-Pan:”Vamos contar com técnicos jovens, aumentando o número de profissionais trabalhando com a base, que é um objetivo da CBB”.

Já o nomeado técnico, em uma entrevista concedida ao jornalista do Rebote, Rodrigo Alves, teceu alguns comentários, a saber: “O Barbosa vai ser o supervisor das categorias de base. Durante todos esses anos, ele fez uma análise precisa e viu a dificuldade que isso traz para a seleção brasileira. Nesse aspecto, ele vai contribuir bastante, dando boas sugestões à CBB para fazer uma transformação na base”. E mais:”(…) a Lei dos Incentivos pode resolver 2 problemas. Primeiro, a quantidade: aumenta o investimento, massifica mais. Segundo, trazer as melhores jogadoras de volta para o país e mudar esse fluxo”. E a uma pergunta do jornalista de como seria trabalhar para o nome mais contestado, tendo sido o mais apoiado pela mídia? “ Eu procuro não misturar a política com o trabalho de quadra(…), o que eu puder dar de contribuição ali dentro, vou dar. Isso não quer dizer que sou a favor ou contra ninguém politicamente. Eu sou técnico, minha bandeira é o basquete”.

Após lermos as entrevistas, e perante tais declarações, também temos alguns comentários a fazer: O atual técnico e futuro supervisor, que com esse posicionamento político continuará a dar as cartas na CBB, destinou a si próprio dois prêmios. A medalha de ouro mais do que ganha com a ausência da equipe americana, e o “histórico quinto Pan de sua carreira”, um recorde auto destinado, deixando para seu sucessor o risco mais do que previsto de uma não classificação nos pré-olímpicos que se avizinham, estes sim, com a presença americana, e as fortes equipes européias. Nem o grego melhor que um presente faria melhor. E como avánt-première do que nos espera, anuncia uma nova geração de jovens técnicos para o trabalho de base, claro, sob seu comando, todos orientados pela “análise precisa” que desenvolveu após todos os anos em que dirigiu a seleção brasileira, quando concluiu pela transformação na base que pretende desencadear, transformação que ele mesmo poderia ter liderado nos últimos 18 anos como técnico de seleção. Não seria mais justo destinar ao novo técnico, não só a incentivadora medalha, e mais precioso tempo nos treinamentos para as difíceis competições pré-olímpicas? E não é exatamente isto que as americanas estarão fazendo, inclusive não participando do Pan? Mas, um título e um recorde são mais importantes que o preparo de uma seleção sob novo comando. Isso é que é supervisão! Quanto aos cursos de atualização, como nos moldes da turma do masculino, continuará a camisa de força do atual sistema de jogo, engessando a nova geração de técnicos que responderão pelo trabalho de base, que segundo ele é do interesse da CBB, o que é terrível e desalentador.

Quanto ao novo técnico duas pequenas ressalvas. Primeira, se afirma que estando lá dentro irá contribuir com trabalho, e que não é a favor ou contra ninguém politicamente, e que sua bandeira, por ser técnico, é o basquete, deveria ter em mente que sua saída em 2004 se pautou na não concordância de ser assistente do atual responsável pela seleção, o que caracteriza explicitamente uma divergência técnica, que se tratando de comando exprime uma posição política. Logo, uma atitude política foi tomada para alcançar o posto que ostentará depois que o seu oponente se retirar, é claro, com a medalha e o recorde no currículo. Segunda, seria bom que se atualizasse perante declarações de que a Lei de Incentivos irá beneficiar o trabalho de massificação e a manutenção das grandes jogadoras no país, pois segundo o presidente do COB, tais verbas não serão utilizadas para pagamentos de atletas profissionais, o que todas as jogadoras de primeira linha são. Isso também faz parte da política desportiva. Finalmente, se ontem como assistente divergiu do técnico principal, a ponto de sair da seleção, como será daqui para diante quando o terá com supervisor técnico? Terá coragem, ou autonomia de voar solo pelos meandros das táticas, estratégias, implantando uma “nova, ou própria filosofia de jogo?” Ou por força da globalização técnico-tática que impera em nosso basquetebol, e que é seguida rigidamente por todos os nossos técnicos de seleções, incluso o da feminina, dará continuidade à mesma, com algumas novas pinceladas progressistas? Bem, para ter tal autonomia, não bastará coragem e determinação, e sim uma grande dose de escoramento político, a tal manifestação que jura de pé junto não fazer parte de seu posicionamento, já que sua única bandeira é o basquete. Espero que seja essa a verdade, para o bem do mesmo. Amém.

"PROFESSORES"…

Em dois artigos instigantes, Homens e robôs I e II, o jornalista Fernando Calazans do O Globo, abordou uma temática para lá de controvertida, e que de certa maneira espelha uma realidade, não só de nosso futebol,como do desporto de uma maneira geral. Sua conclusão final de que “o atleta perdeu a personalidade de jogador de futebol e se submeteu ao técnico, quando passou a chamar o técnico de professor”, deixa no ar algumas dúvidas muito sérias, principalmente naqueles que realmente se dedicam ao magistério, tanto no desporto, quanto fora dele. E aqui cabe uma pequena reflexão, fundamentada em fatos que passam desapercebidos pela maioria daqueles que militam no campo desportivo,em particular no futebol. De algumas décadas para cá, os professores de educação física que se formavam nas universidades, entre eles vários jogadores profissionais de futebol, encontraram no campo da preparação física o espaço propício ao desenvolvimento de seus conhecimentos científicos adquiridos nos estudos e estágios universitários, tendo muitos deles estendido seus conhecimentos em cursos de mestrado e até doutorado.A não ser aqueles que se notabilizaram como jogadores profissionais, que por essas razões tiveram oportunidades como técnicos, a imensa maioria somente encontrou na preparação física o campo empregatício no mundo do futebol profissional. E pelas suas funções e pela qualificação superior eram corretamente chamados de professores pelos jogadores que preparavam fisicamente, dentro de parâmetros científicos que os igualavam aos atletas de alto rendimento.Naturalmente,as terminologias “professor e atleta” se enraizaram no dia a dia do futebol profissional.E é um fato notório aquele que destina ao professor de educação física a mais absoluta dominância nas comissões técnicas,na grande maioria dos clubes brasileiros, no campo da preparação física. Para eles os jogadores têm de ser preparados como atletas, pois as exigências físicas são enormes, principalmente ante o calendário desumano de nossos campeonatos.

Mas, lenta e paulatinamente ocorreu uma inversão de valores, inversão esta matreira e inteligentemente administrada por aqueles que, destituídos do preparo e formação superior dos preparadores físicos, que tinham por parte dos jogadores o respeitoso tratamento de professores, e que em muitos e muitos casos, inclusive em seleções brasileiras campeãs mundiais assinavam pela responsabilidade diretiva das equipes, por exigência legal, permitindo que aqueles dirigissem as equipes na qualidade de técnicos, ou treinadores. E aos poucos, com suas posições estabelecidas à margem da lei, se apossaram do termo “professor”, que não poderia ser exclusivo de profissionais “subalternos” na hierarquia do mundo futebolístico, onde o ‘professor de futebol” era ele. Para completar o domínio, apossou-se também da terminologia “atleta”, pois sendo ele o elemento principal da organização, o reconhecimento teria de ser total. Não são poucos os “técnicos” que gravitam entre clubes sempre acompanhados de seus preparadores físicos de confiança, aqueles que o sustentam na preparação atlética e o garantem no mercado de trabalho. Agora mesmo a seleção brasileira apresenta uma novidade, a explicação pública, publicada pela imprensa nacional, de que o atual técnico não terá problemas legais por que tem a cobertura de um seu preparador físico. Como vemos, a “qualificação professoral” ostentada por muitos técnicos brasileiros vem fundamentada em alicerces não muito legais, e que a sabedoria na arte da sobrevivência da grande maioria de nossos jogadores trata de tirar o máximo partido dessa realidade, mantendo e divulgando, mesmo ironicamente, um título que a de muito vem sendo prostituído em nosso infeliz país. Uma nação que coloca de lado a educação de seu povo, merece que o outrora orgulhoso e estratégico elo de seu desenvolvimento, o professor, hoje seja um título ostentado pela maioria dos “técnicos” de seu maior anestésico social,o futebol. Aliás, já já teremos no seio da outra manifestação anestésica, o carnaval, os títulos de “professores” a muitos carnavalescos, e quem sabe o de “atletas” aos passistas. Panis et Circenses, é a sina nacional.

LEMBRANDO O MELHOR

Sintonizo a TV para o jogo Assis e Araraquara, que como todos os outros que acontecem em nosso país nos oferecem um espetáculo padronizado e previsível. Mas, no primeiro pedido de tempo feito por um dos técnicos, ouve-se a voz do comentarista Wlamir Marques, e como que impulsionado por uma potente mola vou aos controles da TV e mudo de canal, pois naquele momento se iniciava o programa de entrevistas do Juca Kfuri na ESPN, justamente com o Wlamir, e que eu havia indesculpavelmente esquecido. E valeu à pena, pois mesmo com uma pequena duração, dada à importância do entrevistado, algumas jóias puderam ser pinçadas, à começar pelo testemunho do grande jogador de que na sua época(e que época!) não existia essa classificação de jogador 1, 2, 3, 4 e 5, como são rotulados hoje em dia. “Todos nós fazíamos de tudo, e a única posição com certa especificidade era a de pivô”. A uma pergunta sobre os técnicos daquela época, comparando-os com os de hoje, respondeu-“ A grande diferença está no aspecto profissional que impera nos dias atuais, o que retira das mãos dos técnicos os longos períodos de treinamento que antecedem os grandes torneios internacionais, já que os atletas convocados têm de cumprir suas agendas com os clubes. Afora este pormenor, não vejo grandes diferenças”. Instado pelo entrevistador à falar sobre sua atuação como jogador decisivo e genial que foi, mencionou como exemplo o grande jogo contra o Real Madrid em 74, quando atuava pelo Corinthians, como tendo sido a maior partida acontecida em território brasileiro, com o placard final de 118 a 114 para sua equipe, numa época onde ainda não tinha sido implantado os arremessos de três pontos. Nesse jogo marcou 53 pontos. Mencionou ainda a beleza do basquetebol que era jogado, com os contra-ataques em linha de três, as pontes aéreas entre ele e Ubiratan, e a característica mais marcante, a do jogo aéreo, originado pela grande impulsão dos jogadores aliada à grande velocidade de que eram possuídos. Ou seja, a grande e hoje esquecida identidade do basquete brasileiro, bicampeão mundial e duas vezes medalhista olímpico. Infelizmente, apesar de mencionado, não comentou o célebre jogo contra o St,Joseph College, dirigido pelo célebre Jack Ramsey, que invicto por um giro pelas Américas, perdeu para sua equipe em uma de suas maiores atuações como jogador. Deve-se mencionar, que Jack Ramsey se notabilizou no basquete universitário como o introdutor de sistemas defensivos revolucionários, como o principio de Defesa Linha da Bola, e autor de um dos dez maiores livros de fundamentos em todos os tempos. Foi o primeiro técnico vindo dos Colleges a assumir uma equipe da NBA, os Blazers. Mas no jogo contra o Corinthians, não encontrou meios e recursos para se defender de atacantes como Wlamir, Amauri, Rosa Branca, Ubiratan, entre tantos outros.

O grande jogador ainda fez um pequeno relato de sua vida profissional, que sucedeu ao seu tempo de atleta, quando cursou Educação Física,tendo trabalhado em escolas, e também de sua função de técnico, que só abandonou por problemas de saúde, mas que ainda hoje leciona basquetebol em uma Faculdade de Educação Física. Teve tempo ainda de cursar jornalismo áudio-visual, o que o qualificou para a carreira que hoje exerce, a de comentarista. Uma trajetória perfeita, segmentada pela experiência, e fundamentada no estudo e pelo seu grande carisma. Pena que toda essa bagagem e reconhecimento público restrinja um pouco o teor de seus comentários, como se temesse ferir suscetibilidades ante o rigor do que realmente ocorre nas quadras, mundo este que ninguém conhece melhor do que ele nesse país. Se seus mais diretos comentários seguissem o extremo rigor de seu comportamento técnico enquanto jogador, seria imbatível, e forçaria poderosas reflexões daqueles que hoje dirigem nossas equipes. A experiência válida é a experiência vivida, e essa ele tem como ninguém. Fiquei emocionado com a entrevista, e advogo para mim, que desculpe o Juca Kfuri, também o título de maior fã deste formidável jogador, professor e técnico, Wlamir Marques

Depois da entrevista não tive a menor vontade de retornar ao jogo que via no inicio, e sequer sei o placard final. Me desculpem, mas aprecio acima de qualquer coisa as grandes lições que o basquete nos proporciona, principalmente vindo de quem realmente conhece.

ECOS DE UMA VAIA.

No final dos anos 50, fui ao Maracanã para assistir um espetáculo inesquecível.Era um sábado, numa tarde de verão, e lá fui eu para o inesperado. A Miami University, apresentaria para o público brasileiro uma autêntica exibição de Football, o deles é claro, e no maior estádio do mundo.Naquela época, assistências de 180 mil pessoas era lugar comum nos grandes jogos. Entrei para as arquibancadas, e o que vi meu Deus? Pra começar, dois enormes chifres pregados nas balisas sagradas, e um monte de faixas pintadas no gramado dividindo-o em pequenos espaços. E o mais espantoso, 5 pessoas sentadas naquele mundaréu de concreto, eu e mais 4 incautos. Nem cachorro quente Geneal, nem mate Leão, nadinha. De repente, da boca de um dos túneis emerge um batalhão que já prenunciava as vestimentas intergaláticas que fariam furor na década seguinte. Começa o jogo com um chute de bico numa bola(?), ou algo parecido com um quibe gigante. Daí para diante foi um tal de conversas ao pé do ouvido, entremeadas de pancadaria explícita, e uma corrida desenfreada de vez em quando, só que não entravam no gol. E os chifres?Para que serviriam? E de repente ouviu-se uma vaia estrondosa emitida por três dos presentes, como um uivo numa pradaria. Naquele dia descobri que o majestoso Maracanã tinha eco. Termina o primeiro tempo com o humilde placard de 14 a 14 se bem me lembro. Para não morrer de sede descubro uma torneira no grande corredor, e volto para o segundo tempo, que não houve, pois a formidável Miami University se mancou de que aquele não era,decididamente, um local amistoso ao seu football. Aquele insignificante estádio era de soccer, um jogo menor.Na minha concepção, aquela vaia emitida pela trinca infernal, ecoou como uma bomba de indignação ante tal sacrilégio, e só sentia ao sair uma tremenda tristeza em não ter vaiado também.

No final dos anos 60, lá estava eu no país do football, o deles é claro, fazendo um estágio técnico em basquetebol. Como que um castigo, fui convidado a assistir, com acessória técnica e tudo, que me explicaria tintim por tintim todos os aspectos técnicos e táticos, assim como as claras regras do jogo, aquele jogo nacional. Confesso, que apesar de me considerar razoavelmente inteligente, não pesquei absolutamente nada daquela demonstração de violência e catarse coletiva. Chovia,o que tornava o campo um lamaçal só, e o numero de contusões foi muito elevado.Só de fraturas foram duas. Foi um espetáculo edificante.Há , a cidade era Baltimore. À noite, numa pequena recepção, perguntaram-me o que tinha achado do football, que de inicio apelidei de Talkball, pois mais se falava do que jogava, e quando o faziam o pau cantava. E que football era o jogo que se jogava com os pés, como nós e o resto do mundo adotavam, e que no dia que os americanos descobrissem o lado democrático do jogo, do nosso football, as coisas tenderiam a mudar por lá. Nada mais me foi perguntado, e me isolei na minha insignificância.

Ontem, como numa provação bíblica, ou penitência por alguns erros cometidos e por outros que o serão no futuro, assisti, na íntegra.o Super Bowl, o campeonato mundial, a supremacia desportiva, acima de qualquer outra no planeta. Mas, um pouco antes do inicio da contenda(termo adequado, já que não uma partida, ou simples jogo), lembrei-me de um editorial escrito por um dos jornalistas do Sports Illustred na semana do inicio do Campeonato Mundial de Futebol da Alemanha, quando mencionava, com todas as letras, que não entendia como o mundo seria paralisado por 15 dias para que assistisse e torcesse para um jogo que se utilizava dos pés como instrumentos, em vez das mãos, que era o aspecto que diferenciava os homens dos animais na escala evolutiva. E que os Estados Unidos aguardavam o encerramento de tão inditoso evento para retomar a hegemonia política do mundo. Quem duvidar recorra à internet e leia o editorial na Sports Illustred. Pois bem, depois de três horas de terror, consegui chegar ao fim da pancadaria, e a lembrança mais presente que me assaltou foi a voz afetada pelo sotaque de caipira do Alabama,ou congênere, do comentarista brasileiro da ESPN, em suas tiradas lingüísticas absolutamente ininteligíveis, e mais do que nunca tive uma imensa saudade daquele vagido em forma de vaia ecoando pela imensidão do Maracanã, emitido por aquela brava trinca de indignados cariocas.E mais uma vez me assalta um outro pesadelo, o do próximo All Stars da NBA, a vitrine dos votados e coroados reis do basquete, com seus milhões de dólares e empáfia além do imaginável, prontinhos para se verem de frente com o resto do mundo no Torneio Pré-olímpico e até mesmo nas Olimpíadas, e que como eles, também se utilizam das mãos para jogar o grande jogo.Só com uma sutil diferença, jogado dentro de regras internacionais, aceitas democraticamente por todos, com uma exceção, a deles mesmos, os norte americanos, para os quais o mundo não vai além de um Super Bowl.

FRAGMENTOS

Mexe daqui, futuca dali, e de repente, do meio de uma tremenda papelada salta um pequenino recorte de jornal, publicado no O Globo de 8 de junho de 2006, que se reporta a um testemunho do Sr.Geschwindener, capitão da seleção alemã de basquetebol nas Olimpíadas de Munique-72, que há 12 anos atrás iniciou o treinamento do ala Dirk Nowitzki, então com 16 anos, e que foi considerado o melhor jogador do Mundial-2002 em Indianápolis. O interessante em seu trabalho foi a inclusão de algumas atividades extras, tais como esgrima, remo, balé, guitarra e saxofone. Perguntado sobre em que Nowitzki pode melhorar, Geschwindener respondeu: Arremesso. E provavelmente aspectos intelectuais, mentais e psicológicos. Obviamente, Não refinou muito a defesa. Mas diminuímos esta lacuna nos últimos dois anos- declarou ele.

Como Dirk é considerado por muitos o melhor jogador do mundo, tais declarações e colocações de seu técnico inicial, aquele que o introduziu nos fundamentos do jogo, define um campo de influência com tal ordem de importância na formação do jogador e cidadão, que muitos duvidarão de tais afirmativas. Dança, remo, esgrima e música? O que é isto? Só pode ser invenção e autopromoção. E o máximo do absurdo, aspectos intelectuais? Filosofia? O cara é maluco! Pois é, caros técnicos brasileiros, isso é o usual na formação de um jovem atleta no velho mundo, pois cultura e educação se coadunam magnificamente com atividades desportivas, com a música, com a dança. Algum técnico brasileiro já tentou incluir a dança no treinamento daqueles jovens muito altos, e por isso muito descoordenados? Não? Pois saibam que funciona muito bem, já que ritmo é a base de um bom trabalho de pernas. E que o remo desenvolve o trabalho de equipe, e que a esgrima apura os reflexos, e que um instrumento musical aguça a disciplina. Mas, para que todas essas bobagens se temos a perfeita solução dos problemas de formação? Temos a peneira! E estamos conversados. Retorno o papelzinho para uma caixa mais segura, e deixo-o lá como prova inconteste de que bons técnicos de formação existem nesse mundão que gravita por fora de oportunas, desleais e ineptas peneiras.

Vou ao site Rebote, sempre muito boa leitura, e me debruço sobre um texto Do Rodrigo Alves sobre o Boston Celtics. Muito bom e bem alinhavado, e que culmina com sugestões ao Danny Ainge, superintendente da equipe, para o soerguimento do atual e falido plantel no campeonato da NBA. Mas algo ficou faltando. Talvez a existência do Rebound, site congênere publicado nos states com as matérias do Rebote nacional, para que o Danny tivesse a oportunidade de ler as sugestões, se é que o faria, ainda mais de um articulista brasileiro.E ai me deparo com uma evidência que me assustou. Um ótimo jornalista, articuladíssimo, e trabalhador, direcionando grande parte de seu talento a um basquetebol de sonho, de quimeras, quando o daqui se debate com a ausência de talentos como ele, que foi tão presente nos mundiais do ano passado, e que fizesse tão brilhantes análises, como a de hoje, sobre as equipes que disputam nosso campeonato tupiniquim. Como amaria tê-lo na trincheira,como bem definia o Melk, nessa luta sem muito ibope pelo nosso basquete, que pela ótica dos irmãos do norte é tão inexpressivo que sequer merecerá a presença dos mesmos no Pan, um verdadeiro chute no nosso traseiro, fato que ainda não foi analisado e comentado por nenhum site que se dedica ao basquete lá de cima.

Dois pequenos fragmentos de nossa realidade, mas que me fizeram pensar bastante, e sonhar com dias melhores. Amém.

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