OLHO NO OLHO…

Houve um tenebroso inverno, envolto em brumas, silêncios constrangedores, exposições reveladoras e sucedâneos desmentidos, ofensas, quebras de comando e ética, e mais silêncios, terríveis e dramáticos, como se quisessem enterrar a verdade no mais profundo dos charcos, deixando e condenando-a ao esquecimento, ao apagão da história. Mas aos poucos, ela emerge, lenta e desconcertante de sua não suficientemente profunda cova, em busca da luz e do ar puro de que tanto necessita para se fazer digna e transparente, pois podem enterrá-la, matá-la, nunca.

“O Marquinhos foi infeliz em dizer que o clima não estava bom entre os atletas. O atrito foi entre os jogadores e a comissão técnica, e ele foi resolvido como tem que ser: olho no olho”. Foram essas as declarações do jogador Marcelo ao Globoesporte.com em 27/9/07.

Mas, e as imagens veiculadas pela TV, nas quais ficaram bem claras as profundas divergências entre esse mesmo Marcelo e o Nenê e o Técnico, onde palavras de baixo calão foram proferidas aos borbotões, fazendo o desarmado telespectador de testemunha de um triste espetáculo, onde a falta de comando ficou demonstrada pela permissividade a uma atitude de desequilibrada agressividade por parte desse mesmo jogador? Que técnico, dono e senhor de uma real e patente condição de comando, permitiria que tal atitude pudesse sequer ser ensaiada, e muito mais concretizada em sua presença, numa quadra de jogo, e na presença do público e de uma audiência de TV? E na consecução da mesma, porque não foi o jogador retirado do recinto, não somente pelo técnico e seus companheiros de comissão, que seria a única atitude a ser tomada naquele momento e naquela situação? Por acaso aquela divergência se fez somar a outras, que foram resolvidas olho no olho no hermetismo de um vestiário? E que papo é esse de olho no olho entre uma liderança de jogadores e os técnicos? Duvido, que uma situação desse quilate ocorresse comigo, ou com qualquer técnico que exercesse um comando de verdade, na acepção do termo, e não lastreado em concessões e bajulações àqueles que tem como única e decisiva obrigação jogar o jogo, dedicar-se e sacrificar-se ao mesmo, e não posarem de líderes de coisa nenhuma, a não ser pelo apoio interesseiro e comercialmente lucrativo de uma certa imprensa e de agentes e agiotas do falso esporte.

“Houve atrito entre a comissão técnica e os jogadores, mas isso é comum. Foi resolvido olho no olho”. (O Globo, 28/9/07), confirmou o jogador.

Isso é comum? Como é comum, em que galáxia? Desde quando jogador toma satisfações com técnicos olho no olho? Ou será que chegamos tão fundo nesse mal cheiroso poço que tal situação entrou no rol da coisa comum? Onde pensam que estão e chegarão com essa quebra de hierarquia? Há, esqueci, chegaram e conseguiram algo de inusitado, pularam fora do Pré-Olímpico, não entreolhando-se, olho no olho como afirmaram, e sim com um pé no traseiro, vergonhosa e pusilanimemente, pleno e justo castigo a quem não sabe comandar de um lado, e não está preparado a ser consciente e responsavelmente comandado pelo outro. Ambas as partes erraram profundamente, provando quão falho, omisso e irresponsável é o comando central desse manicômio esportivo, a CBB, através um dirigente que jamais se verá diante de uma interlocução olho no olho com quem quer que seja, muito mais com comandantes e comandados, quando muito piscando matreiramente com um dos olhos para uma platéia federativa, que é a única garantia de sua efetiva e ainda muito futurosa presença no doce cenário das benesses e das vantagens auferidas por tão desejado ” cargo de sacrifício”. E tudo de soslaio, deixando o olho no olho para os … Bem sabemos quem.

Amém.

O TRISTE DESERTO…

Num sábado calorento e seco, lá fui eu e o filho mais velho, renitente leitor, enfrentar as agruras da longa caminhada pelos corredores da Bienal do Livro, na ânsia de bons títulos e boa leitura, e a esperança de encontrar, no meio de milhares de lançamentos, alguma literatura desportiva, de técnica desportiva, que fugisse um pouco dos chavões oportunistas das autobiografias, das campanhas vitoriosas de algumas equipes, e das familiares ajudas psicológicas aos atletas de alta performance. Para minha surpresa, somente encontrei dois títulos sobre equipes vitoriosas no volibol, e três biografias, duas de personalidades do vôlei e uma do judô. Perdido num estande universitário encontrei uma publicação sobre ciclismo, e mais adiante uma sobre natação. Já me considerava órfão de qualquer livreto que abordasse o basquetebol, quando, numa editora especializada em saúde, encontrei um livro do Prof.De Rose da USP, que abordava alguns aspectos técnicos da modalidade, e, creiam-me, absolutamente mais nada. E olhem, que andei e perambulei por todos os estandes da Bienal, exaurindo-me na busca do impossível, na busca de alguma literatura que abordasse técnica desportiva, que àquela altura, não importava de que modalidade fosse.

Mas, eis que de repente me vejo diante de um estande chamativo e iluminado com três maiúsculas que reacenderam minhas esperanças. Lá estavam, bem a frente as iniciais COB, Comitê Olímpico Brasileiro, o cultor do olimpismo pátrio, o solo da cultura desportiva, o cerne do estudo e da pesquisa voltada a alta performance atlética, filiado ao COI, Comitê Olímpico Internacional, sede da Academia Olímpica de Atenas, onde altos e profundos estudos desportivos e sociais são desenvolvidos, e claro, deveriam ali, naquele feérico estande, estarem representados através farta literatura e profusos relatórios dos estudos e pesquisas realizadas. Atravesso o espaço que me separa do éden prometido pela majestosa apresentação, penetro no recinto com respeitosa reverência, e, e…engolindo em seco, me vejo ante uma estante com pequenos livretos de vários esportes, contendo um breve histórico e algumas regras , e nada mais. Viro-me em 360° e o nada permanece inalterado, e neste momento, reparo que além do que me pareceu um funcionário junto a um terminal de computador, somente eu estava no recinto. Incrédulo, decepcionado e interiormente revoltado, me afastei daquele deserto local, deserto de idéias, deserto de literatura, deserto de esperança. E ao me afastar ainda lanço um olhar inquisidor, como se perguntasse, num grito surdo e inaudível aos circundantes barulhentos e suados, mas que somente ressoou dentro e do alto da minha mais profunda indignação- “Dos três bilhões de reais gastos na cornucópia do Pan-Americano, não sobrou pelo menos algum trocado que financiasse publicações de técnicas desportivas? Ou ao povo brasileiro somente é dado o supremo prazer e honra de assistir aqueles enfatiotados personagens da mais alta política desportiva do país pendurando medalhas e corbeilles em atletas laureados, todos posando para jornais, revistas e TV, inchando seus avultados e desmesurados egos, e que nem estão aí para reles literaturas, ingredientes menores e insignificantes perante suas vaidades e sucessos pessoais”?

Lá, naquele desértico estande, não vi nenhum daqueles personagens que deveriam lá estar, explicando e esclarecendo dúvidas, distribuindo, ou até vendendo a preços módicos um pouco de cultura desportiva, através publicações que atendessem e melhorassem o miserável panorama do esporte brasileiro, ajudando decisivamente a professores e técnicos tornarem realidade seus desejos de atualização cultural e técnica, pois verba é que não tem faltado por aquelas bandas, e que por infelicidade, pouca ou nenhuma importância dá a bibliografias de apoio, que deveria ser prioridade mais do que absoluta para um órgão de tal magnitude.

Na volta, sentado ao lado do filho que dirigia, senti-me triste e diminuído, quando num soslaio li no crachá que ainda ostentava a denominação “professor”, que gostaria que também grafasse “técnico de basquetebol”, por ter constatado mais uma vez, como foi sacrificada a minha missão de instruir e preparar professores e jogadores, mas que nunca neguei a qualquer um dos dois segmentos, novas técnicas, estudos e pesquisas, adquiridas a qualquer preço, indo aonde se encontravam, aqui e no exterior, pagando muitas vezes o preço além das minhas possibilidades. E fiquei triste muito mais ainda pela percepção, não tardia, de que o deserto cultural e informativo ainda perdurará por um bom tempo entre nós, pelo menos enquanto persistirem estandes iluminados e feéricos como aquele, com que me deparei na Bienal.

E o nosso abandonado basquetebol, ainda penará pelas ausências de boa literatura técnica, tão pequena e tão mal distribuída. Ao juntar algumas economias, farei chegar até o fim do ano, através a internet, por este humilde blog, o primeiro livro de uma trilogia, e que será minha última estocada no plexo do maior dos inimigos do progresso desportivo, a ausência e o desestímulo proposital e criminoso de uma bem estudada e embasada bibliografia técnica , inimiga mortal da politicagem e do atraso técnico-cultural desportivo entre nós.

Que os deuses ajudem a todos nós. Amém.

PINÇANDO POR AÍ…

Pinçando aqui, pinçando acolá, algumas declarações em blogs e jornais nos fazem pensar que seriedade e responsabilidade decididamente não fazem mais parte do vocabulário desportivo, sem mencionar a arrogância e o desprezo pelo bom senso e pelo público interessado pelo basquetebol.

1 – Declarações gregorianas : “Há a possibilidade dele ser um estrangeiro, mas nada foi decidido. Tenho mais de 30 técnicos que enviaram currículos, telefonaram, assim como agentes de outros. O planejamento está feito, independentemente do treinador(…)”. ( O Globo. 19/9/07, assim como as demais que se seguem).

Ou seja, mesmo com um planejamento previamente estabelecido, 30 técnicos e seus agentes buscam a boca rica (dólares em profusão…) bancada com o dinheiro público que nunca é auditado..

“ Com certeza um europeu, mas não sei se espanhol. Acho que temos bons técnicos brasileiros, sempre valorizei os técnicos nacionais, mas precisamos de alguém para complementar o trabalho. Toda a comissão técnica será brasileira. O técnico que vier será para passar o bastão aos técnicos brasileiros, e não para ficar para sempre. Ele vai trabalhar bastante, dar clinicas. Nós escolheremos o treinador estrangeiro até dezembro, para que em janeiro ele já trabalhe.”

Para entender melhor vamos ao dicionário- Complementar, adj2g. Que serve de complemento. Complemento SM 1. O que complementa. 2. Acabamento, remate.

Entendido, o nababescamente bem pago, e melhor assessorado técnico estrangeiro, aqui aportará para complementar um planejamento previamente estabelecido por um departamento ou comissão técnica, dará conselhos ou alguns pitacos, algumas estéreis clinicas, passando o bastão a seguir, saindo com muitos dólares no bolso, fruto de uma bem urdida “estratégia de cala a boca”, para uma platéia de basbaques permanentemente iludidos pela supremacia exógena, e que não percebem, nem de longe, o poder de voto e conseqüente continuísmo, emanado do controle técnico de nossas seleções.A FPB agradece penhorada por tal domínio e controle. Pena que adote o continuísmo do que ai persiste, pois em caso contrário o grego melhor que um presente baixaria em outro terreiro.

“ (…) Assisti o Eurobasket e não vejo nada de muito diferente, embora Rússia, Lituânia e Espanha sejam muito fortes. Também não vi nada de mais na Grécia, na Alemanha, na Eslovênia e na Croácia (adversários do Brasil no Pré-Olímpico Mundial)(…)”.

Tudo bem, se nada de mais o nosso diligente e bem informado dirigente observou na Europa, porque razões quer importar um técnico desse continente, que custará, por baixo, algumas centenas de milhares de dólares? Os 30, ou mais currículos de técnicos, mais os agentes interessados, numa transação que via de regra envolve comissões e propinas, não explicariam os prazos até dezembro, quando um rentável leilão poderia ser estabelecido à margem dos verdadeiros interesses , por serem eminentemente técnicos, que beneficiariam a seleção brasileira? No caso de uma nova comissão de brasileiros, como reagiriam e se comportariam perante um técnico complementar pago à peso de ouro? Como hierarquizar tal mixórdia?

“ (…) Vamos a Pequim com as duas seleções. Já reservei 40 bilhetes para lá, 20 para a seleção masculina e 20 para a feminina. Disse ao Paulinho Villas-Boas ( ex-jogador da seleção e atualmente no Comitê Olímpico Brasileiro) para reservar essas passagens. Temos história, ganhamos várias Copas Américas, Pan-Americanos, mas temos esse peso da (ausência do masculino) nas Olimpíadas.”

Convenhamos, quem reservou os bilhetes, a CBB ou o COB? Se a quantia a ser despendida é originaria das verbas federais do COB, o que o impede de, como dono da chave desse cofre em particular, exigir, e até intervir nesse caudal de insensatez e desvario, resultante de tanta incompetência e falta de transparência? Mistérios da natureza… já explicado pelo cancioneiro popular.

Ainda não levantamos os custos. O Eurobasket, com 16 equipes, custou US$ 3,8 milhões. Foi o que a Espanha pagou à Fiba para promover o evento.O Pré-Olímpico das Américas custou US$ 3 milhões. Sobre o Pré-Olímpico Mundial, não temos valores (…)”.

E nesse momento decisivo da grande novela, milhões de dólares para promover o Pré-Olímpico Mundial entre nós, é que, todas as raposas, felpudas ou menos felpudas, algumas inclusive meio carecas, mas todas raposas de DNA indiscutível, esfregam as mãos na antevisão de mais uma festança a fundo perdido, como é de praxe nesse meio, com as verbas emanadas de nossos suados e injustos impostos, na cristalização definitiva de que vale qualquer coisa, qualquer tramóia, qualquer golpe baixo, qualquer política de rastejante nível, para a perpetuação da espécie junto aos galinheiros do poder.

2 – Declaração do técnico responsável pela seleção brasileira cadete masculina para o 20º Campeonato Sul-Americano, que acontece de 1º a 7 de outubro na Argentina.

Vamos começar introduzindo a parte tática para que os atletas se familiarizem com os conceitos internacionais, já que é a primeira competição no exterior para a maioria. O trabalho técnico também vai ser feito em cima do tático. Nesse inicio os jogadores vão adquirir os conceitos e o padrão do sistema de jogo. Como é a primeira seleção, não conheço as outras equipes.Pela tradição acredito que a Argentina, Uruguai e Venezuela são nossos adversários diretos na briga pelo título. Argentinos e Uruguaios fazem um trabalho de médio e longo prazo, assim como estamos fazendo. O objetivo é ganhar bagagem internacional, conhecer outras equipes e estilos de jogo já visando a Copa América e o Mundial da categoria acima, comentou o técnico José Neto”. ( Databasket em 19/09/07).

Inacreditável, que um projeto de formação de uma seleção de jovens entre 14 e 16 anos se inicie com a introdução da parte tática, para adquirirem os conceitos e o padrão do sistema de jogo e que “também” o trabalho técnico irá ser feito em cima do tático. Se coordenador fosse hoje, de um setor técnico de clube, federação ou confederação, não só desqualificaria tal projeto, como despediria seu, ou seus autores, com a justa causa de incompetência, despreparo e imposição anti-natural no ensino para jovens , de uma modalidade desportiva que, em qualquer e responsável sociedade voltada aos princípios básicos educacionais, se iniciaria com o enfoque complementar e aprimoramento dos fundamentos do jogo, condições básicas para a elaboração de sistemas de jogo que se coadunassem com as qualidades adquiridas e observadas no preparo e treinamento iniciais, jamais o contrário, como declaradamente expõe o entrevistado, que hoje é apontado como o futuro candidato a técnico da seleção principal, só não sendo bem esclarecido se seu papel oscilará entre complemento, ou suplemento do estrangeirismo que se avizinha.

Pinçamentos tristes e constrangedores estes, mas que espelham a nossa mais triste ainda realidade, que os deuses em suas infinitas paciências vêem esgotar. Amém.

CLAMORES E CONFORMISMO.

Clamores se elevam na busca frenética de um técnico possuidor de três qualidades: Ter um sistema de jogo definido. Saber implantá-lo com energia e determinação. Ter personalidade forte e disciplinadora. E claro,ser estrangeiro.

Mas, será que essas qualidades serão suficientes para enfrentar o tremendo desafio que terá pela frente, de treinar e preparar uma seleção brasileira profundamente ferida em seus brios e estrutura? E que bastará estar munido de uma serie de jogadas pré-estabelecidas em torno do que chamam sistema de jogo? É absolutamente certo que por aqui aportará um condigno representante do chamado “sistema do basquete internacional” , seguido e adotado pela grande maioria das seleções internacionais, vide os recentes terminados Pré-Olímpicos americano e europeu, quando, com a exceção de argentinos, espanhóis e lituanos, todas as demais equipes atuaram em imagem e semelhança entre si, numa visão bem estabelecida do que e como serão os jogos na Olimpíada do próximo ano. A ditadura da prancheta praticamente cegou e restringiu técnicos e jogadores ao improviso e a autodeterminação, robotizando o jogo, tornando-o previsível e insosso.

A prevalência do talento restringiu-se a uns poucos e corajosos jogadores, em atitudes e decisões, como bem convêm a líderes, apesar das pressões extra-quadra a que foram submetidos. A confirmação do sistema único no basquete dito moderno, situa a maioria dos técnicos, estrangeiros , no patamar dos inalcançáveis, ainda mais quando precedidos da fama de rígidos e disciplinadores, colocando-os na faixa dos mega salários, garantidos e sacramentados pelo conformismo da mídia e do pouco informado público torcedor.

Exatamente por esse despropositado e conivente conformismo, é que republico um artigo escrito em 15/02/2005, Mestres do Olhar e do Movimento, quando confronto e discuto a rigidez dos sistemas de jogo pré-estabelecidos, e que para variar, não recebeu um único comentário, nem que fosse para negá-lo. Pena, pois teria sido estabelecida uma bela e esclarecedora discussão, em um bom e patriótico português.

MESTRES DO OLHAR E DO MOVIMENTO.

Este foi o título de uma reportagem sobre a exposição que explora as afinidades entre o escultor Alberto Giacometti e o fotógrafo Henri Cartier-Bresson publicada no O Globo no dia 17 deste mês. O texto menciona, entre várias coincidências, a vontade de ambos de congelar um momento em movimento. Disse Giacometti- “Toda a ação dos artistas modernos está nessa vontade de captar, de possuir alguma coisa que foge constantemente”. Já Bresson assim se manifestou-“Jogamos com coisas que desaparecem… e, quando elas desaparecem, é impossível fazer com que elas revivam”. Eis duas afirmativas que caem como um diáfano véu sobre as cabeças da maioria de nossos técnicos. Sonham de olhos abertos com a perpetuação dos movimentos que extrapolam de suas pranchetas mágicas, como se fosse possível a perenização das jogadas estabelecidas pelo sistema de jogo que empregam. Sempre que estabelecem contato com os jogadores repetem, e repetem, até a exaustão os mesmos movimentos, as mesmas soluções, clamam pela obediência à jogada, á rotatividade da bola, com uma intransigência que beira ao fanatismo. É como se fosse uma grande coreografia, onde a repetição das jogadas mortais é o supremo objetivo a ser alcançado. Mas, como mencionaram Giacometti e Bresson, os movimentos acontecem na mesma proporção em que desaparecem, e nunca são iguais, por isso viviam em busca de sua captação, a qual Bresson definiu como o “decisive moment”, o momento decisivo, único, fugaz e precioso se captado.Essa foi sua grandeza, pois foi o fotógrafo que mais o registrou no século XX.Nossos técnicos precisam, com urgência, entender que se uma jogada se repetir,com alto grau de freqüência, pode-se afirmar que o sistema defensivo do adversário inexiste pela extrema fraqueza de seus integrantes. Um sistema ofensivo é de alta qualidade, não se der certo seguidamente, e sim se estabelecer situações que desequilibrem, pela imprevisibilidade de suas ações, o esquema defensivo do adversário. A repetição sistemática de jogadas produz situações com alto grau de previsibilidade, e retiram dos jogadores a espontaneidade de suas ações, colocando-os numa situação de meros repetidores de movimentos pré-estabelecidos por seus técnicos. E se os defensores forem de boa qualidade, rapidamente se antepõem aos movimentos ofensivos, anulando sua eficiência. São nesses momentos que se estabelecem as diferenças entre uma equipe bem treinada de outra não tão bem preparada. Quantos são os técnicos que nos coletivos de preparação para os jogos, os interrompem para orientar sua defesa em função de seu próprio ataque pré-estabelecido? Que sempre orienta seus atletas na busca do inusitado, e não do conhecido? Que mesmo tendo um sistema fechado de jogo, propugna por rompê-lo sempre que possível, pois essa sempre será a ação desencadeada pelo adversário? Enfim, que reconhece ser a busca, não de um, mas de vários “momentos decisivos”, o fator a ser alcançado com afinco e dissociado do círculo vicioso coreografia-prancheta. Por praticar fotografia por longos anos, e de ter tido em Henri Cartier-Bresson um exemplo a ser seguido é que desde muito cedo procurei entender e praticar o “decisive moment” com algum sucesso, mas que pela compreensão de seu significado, pude levar a meus atletas um vasto leque de opções que visassem o encontro dos mesmos. “Jogamos com coisas que desaparecem… e,quando elas desaparecem, é impossível fazer com que elas revivam”. Cada jogada constitui um princípio e um fim em si mesmo, e são irrepetíveis. Precisamos entender esse mecanismo para nos libertar das jogadas mágicas e das pranchetas milagrosas. Meus queridos colegas precisamos encontrar novos caminhos, pois esse que aí está sendo trilhado por vocês não levará a lugar nenhum, perdão, sabemos onde ele vai dar…

posted by Basquete Brasil @ 2/15/2005 02:02:00 AM 0 comments

A ILUSÃO SISTÊMICA.

Muito se tem escrito sobre sistemas de jogo, de como jogam os europeus, como agem os americanos, como criam os eslavos, indo da velocidade de “transição” ( ninguém explica o que seja, talvez pela inexistência de tal definição se confrontada com o simplório ritmo de jogo…), até os intrincados termos americanos definidores de jogadas básicas como o dá e segue, os corta-luzes interiores e exteriores, as penetrações por trás da cesta, o jogo de pivôs, os bloqueios, etc.etc., tão ao gosto de narradores e comentaristas, com a desculpa de que se tratam de termos internacionais, argumentação que se dilui ao manusearmos livros de técnica e fundamentos nos mais diversos idiomas, inclusive o nosso. Mas soam bem e aparentam cultura superior, esquecendo os preclaros cronistas que a maioria da população brasileira não conhece o idioma saxão, principalmente os mais jovens.

E páginas e mais páginas são escritas sobre sistemas de jogo, que pela preocupação que despertam parecem existir às dezenas, com particularidades que variam de país para país, até de continentes. No entanto, não se vêem os mesmos descritos e exemplificados em suas nuances e detalhes técnicos, como deveriam fazê-lo, já que os discutem com apaixonada veemência, deixando a audiência basbaque ante tanta sapiência e conhecimento. Um velho e inesquecível professor sempre lembrava que a erudição e o prolixidade era a arma dos enroladores, principalmente quando externada em outro idioma que não o nosso. Entendamos como o popular “se colar, colou…”. Então, que mágicos sistemas são estes que gabaritam técnicos, principalmente estrangeiros, a serem seus fieis depositários? Um deles, já candidato à direção de nossa seleção para o próximo e derradeiro Pré-Olímpico? Afinal, quantos são e como são constituídos esses sistemas? Quais suas decisivas influências? Americanas ou européias? Ocidentais ou orientais?

Sugiro fortemente que se munam de um simples e prosaico lápis, e algumas folhas de papel, e tentem grafar as disposições dos diversos jogadores, das diversas equipes, e dos mais diversos ainda países, ao iniciarem toda e qualquer jogadas de ataque, e mais ainda, com algum esforço, o desenrolar de alguns movimentos das mesmas, num exercício de progressivo encadeamento entre deslocamentos de caráter coletivo, e algumas ações de caráter individual, para chegarem a uma conclusão de assombrosa obviedade, a de que todos, sem exceção jogam rigorosamente iguais. De repente, se darão conta de que o modelo NBA se tornou universal, e que o maior e único beneficiário desse sistema de jogar é a liga mais rica, mais difundida, e por isso mesmo aquela que deve ser preservada em sua dominância político-econômica, mesmo que tenha de “aparentar disfarçadamente” uma aceitação da realidade internacional em torno da FIBA, num exercício estratégico que esconde e camufla sua luta hegemônica e globalizante. Porque o basquete americano é o único, seja amador ou profissional que se nega a seguir as normas, regulamentos e regras aceitas e difundidas no restante do mundo do basquetebol FIBA ? Agora mesmo, varias personalidades americanas foram introduzidas no Hall da Fama da FIBA, como os lendários Dean Smith e Bill Russel, numa prova de suas importâncias para o grande jogo, mesmo que praticado de uma forma diferente, mas que deveria sê-lo da forma como é praticado internacionalmente.

A conclusão a que chegarão após o exercício proposto, é a de que na constatação da existência de um único sistema universal de jogo, o que é lastimável e preocupante, somente duas variáveis ainda podem incidir sobre o mesmo, para sua aplicabilidade com algum caráter personalista, a velocidade e o domínio pleno dos fundamentos. E é exatamente nestes dois pormenores, nestas duas variáveis, é que se encaixam as formas de jogar de muitos países europeus quanto à velocidade, bem menor para os mesmos, como os universitários americanos, os fundamentos para todos, e a variação de velocidades e excelência nos fundamentos para uns poucos, ações estas bem aproveitadas por argentinos, espanhóis, lituanos e croatas, eslovenos e um pouco menos dos gregos. Nosso basquetebol, optou simplesmente pelo modelo cru NBA, sem a base fundamental do mesmo, ou seja, aproveitou o desenho da jogada inicial e seu desenvolvimento, mas sem o suporte exeqüibilizador do mesmo, o pleno, responsável e determinante domínio dos fundamentos do jogo.

Então, como os analistas de plantão, que pouco ou quase nada buscam na origem dos sistemas, alguns dos quais septuagenários, mas que lá estão perpetuados na maior bibliografia existente entre todos os desportos, como, para exemplificar um, que alguns técnicos, inclusive americanos, teimam maliciosamente em requerer autoria, o sistema dos triângulos, que nada mais é do que a aplicação de três dos movimentos básicos do basquete, magistralmente descritos pela geração de um Clair Bee, Dean Smith, Nat Holman, John Wooden , Forrest Allen, e muitos outros que se dignaram doar a seus pósteros livros e estudos magníficos, então, repito, como explicam a existência dos sistemas de jogo? Mas como explicá-los se não definem nem reconhecem a base comum do atual existente? Sim senhores, atualmente só um sistema se mantêm em foco, variando tão somente em ritmo e na excelência de seus praticantes na utilização dos fundamentos do grande jogo. E um outro detalhe de fundamental importância reforça esse conhecimento, o de que a existência do atual e monopolizante sistema sucedeu a outros, bem definidos e largamente utilizados, inclusive e basicamente por nós, em um passado não tão distante assim, quando inovávamos e arriscávamos no novo e no audacioso, sem medos e ressalvas, e que nos levou a muitas e inesquecíveis vitórias. Mas era um tempo de verdadeiros técnicos, de grandes e destemidos jogadores, de formidáveis analistas e colunistas, de dirigentes menos interessados em suas contas bancárias e enganosos prestígios políticos, ao contrário de hoje, onde somente persistem os dirigentes mais politizados e muito mais interessados nas benesses inerentes aos cargos, já que técnicos e jogadores mergulharam de cabeça no modelo NBA, tão à gosto dos mais globalizados e pasteurizados ainda cronistas e analistas de hoje, para os quais os ensinamentos do passado, brilhantes ou não, são relegados a um estorvo que deve ser guardado e esquecido no fundo dos baús da história.

E é em nome desse esquecimento, da negação da história e de seus participantes, daqueles que teimaram estudar, não só os sistemas, mas o teor e a fundamentação dos mesmos, que devemos aceitar e engolir a seco a definitiva implantação do que deveria ser substituído por algo de novo, inédito, audacioso e corajoso, mas que virá, na forma de um eslavo, espanhol ou americano para nos impingir a formula única, e de resultados imprevisíveis, à peso de muitos e muitos dólares, pagos com nossos impostos, sem que possamos sequer argumentar que tantos e sacrificados valores poderiam ser alocados em programas de desenvolvimento e preparação de futuras gerações de técnicos e jogadores, liderados por aqueles que realmente conhecem e dominam a arte de ensinar, treinar e dirigir equipes, que existem, sim senhores, entre nós, faltando somente que os reconheçam e reverenciem, em português mesmo, sem a prepotência daqueles que os negam por ignorância, espírito colonizado, ou mesmo, má fé.

Que os deuses, com o bom senso que os inspiram, nos ajudem a enxergar o óbvio, e que nos faça merecedores de um futuro menos doloroso, ou mais uma vez decepcionante. Amém.

BAIXO E FEIO…

Nesta data, 11 de setembro, três anos atrás, iniciei este blog na intenção de discutir os problemas do basquete brasileiro e seu possível soerguimento técnico. Após 344 artigos ininterruptamente publicados, constato que um universo de decisões terá de ser tomado, se é que será, por todos os envolvidos direta e indiretamente no basquetebol, para que retornemos a um razoável patamar de excelência produtiva, alcançada no passado, hoje esquecido e até discutido em sua veracidade, por uma geração totalmente voltada ao “basquete internacional”, ao basquete NBA, com sua avassaladora dominância econômica, e por que não, política e ideológica. Nem o organizado e poderoso basquete europeu pode oferecer resistência a tamanho poder, lastreado em muitos milhões de dólares, mesmo que títulos internacionais o confrontem e desafiem. E é em nome destes títulos fugidios que o poderoso basquete americano se une em torno de uma composição, reunindo jogadores profissionais e técnicos universitários, mais próximos taticamente do basquetebol FIBA, a fim de, juntos, retomarem a liderança perdida e contestada nas últimas competições internacionais.

Enquanto isso nos perdemos em duvidosas e pouco embasadas discussões sobre que caminho pautar daqui para diante, após as desastrosas participações em mundiais e pré-olímpicos, quando nos afastamos celeremente do grupamento de que sempre fizemos parte, o dos vencedores e titulados. O fator mais determinante nesse retrocesso foi exatamente o processo dicotômico que se instaurou entre as gerações de grandes jogadores e técnicos de um passado não tão distante assim, com as mais recentes, largamente influenciadas pelo inédito progresso das mídias, onde a sigla NBA se instalou e frutificou mundialmente, e que desventuradamente, não contou com uma liderança técnica-administrativa que mantivesse ambas interligadas, num constante diálogo de experiências e ações, para manter acesa a chama das conquistas passadas iluminado as futuras, num transbordo de vivências e exemplos dignos e preciosos de serem seguidos e continuados. Interesses vis e da mais precária e rasteira política continuista, se sobrepôs ao interesse maior, a grandeza do nosso basquetebol, a ser mantido pela permanente lembrança do que fomos, unindo a experiência de seus heróis aos esforços dos mais novos visando um futuro, que mesmo sob a brutal influência vinda do norte, poderia, a exemplo de nossos irmãos argentinos, manter suas tradições de inovadores que sempre ostentou naquele glorioso passado.

Vivemos, após derrotas contundentes, a possível realidade de vermos nosso destino técnico-tático entregue ao domínio internacional, se é que essa tendência possa resultar possível num espaço de um ano até o próximo pré-olímpico, dentro da realidade técnica de nossos jogadores, frágeis que são no domínio dos fundamentos básicos do jogo. Uma realidade que pune grandes técnicos nacionais, a maioria dos quais jamais teve a oportunidade de sequer serem lembrados para seleções de base, escolas experimentais para futuros sistemas de jogo, e não serem, como o foram até os dias de hoje, repositórias de uma “filosofia padronizada” para todas, engessando-as a um principio uno e indissociável do modelo escolhido pela facilidade prêt-à-porter de uso, sem maiores implicações voltadas a desnecessários estudos e pesquisas, o bem elaborado, inteligente e escravizador modelo NBA.

E essa fatal dicotomia, incentivada por sucessivas e mal sucedidas administrações, que em tempo algum procurou a união do ontem com o amanhã, justificando o hoje de suas ações, descartando um universo de estudos, experiências e excelentes resultados, nos levou ao beco sem saída em que nos encontramos, onde uma só solução é antevista por tal liderança, em nome de sua continuidade política, e ao largo de qualquer obstáculo que ensaie a mais tênue desconfiança à perda de tal posição, a pura e simples possibilidade de entrega técnica da seleção a uma liderança estrangeira, mesmo que existam entre nós técnicos capazes e competentes para exercê-la, quase todos pertencentes à geração esquecida e marcada pela desunião provocada pelo ostensivo desapoio às suas honestas tentativas de união classista, duas vezes tentadas através a ANATEBA e a BRASTEBA, levadas à extinção por se anteporem ao interesseiro isolacionismo politico da CBB.

Uma substancial mudança em nosso destino basquetebolistico, fatalmente terá de passar por três estágios:

1 – Um forte e bem elaborado projeto de convencimento técnico-político no âmbito das federações estaduais, a fim de que seus votos espelhem as reais necessidades do basquetebol brasileiro, conduzindo à direção da CBB nas eleições de 2009 uma diretoria representativa e compromissada com a evolução e o progresso do grande jogo entre nós. Sem essa mudança, nada, ou pouquíssima coisa será possível de ser alcançada.

2 – Organização de associações estaduais de técnicos, com a participação de pessoas físicas e jurídicas comunitárias, assim como representação de jogadores, a fim de que juntos possam contribuir com projetos, estudos e soluções de casos inerentes às suas realidades regionais, colaborando e complementando as políticas emanadas e implementadas pelas federações, visando num futuro próximo a criação da associação nacional, que englobaria e divulgaria todas essas experiências em caráter nacional, autonomicamente colaborando com a entidade mater, a CBB.

3 – E emergindo dessa nova realidade, a implantação de uma autêntica escola de técnicos, qualificando-os em níveis progressivos, através cursos diretos e à longa distância com acompanhamento e aferições semestrais de corpo presente por parte dos professores, implantando de uma vez por todas o primado do mérito, desde o nível voltado à iniciação, até a direção de seleções, quando teremos afastado o primado da escolha política, e da troca de favores pessoais.

Estes são os pontos fundamentais para o real soerguimento do basquetebol entre nós, e que são soluções com duas ou mais décadas de atraso se relacionadas aos países que hoje ocupam o espaço que um dia também foi nosso. E afirmo tudo isso, no dia em que esse humilde blog completa três anos, por ter de certa forma percorrido todas as etapas que aqui relacionei, como professor nos três níveis de escolaridade, como técnico de todas as categorias masculinas e duas femininas, como professor de futuros professores de Educação Física, de Pedagogia e de Técnicos de Basquetebol, como fundador e dirigente de associações de técnicos, como pesquisador e doutorado em Ciências do Desporto, com tese em basquetebol, e só não dirigindo uma seleção brasileira, na época em que era considerado entre os melhores, na idade de 25 anos, porque numa escolha para dirigir a seleção feminina que se apresentaria em Paris em 1967 em jogos com a seleção tcheca perante o COI, a fim de decidirem pela inclusão, ou não, do basquete feminino nas Olimpíadas, fui preterido pela direção técnica da CBB, que queria enviar uma seleção que rivalizasse em beleza à seleção tcheca, e que destoaria por ser eu baixo e feio, sendo na ocasião trocado por um técnico alto e bonito, o que foi realmente perpetrado. Não acreditei quando o velho e amigo Chico, roupeiro das seleções nacionais e funcionário dedicado da EEFD/UFRJ me contou constrangido, depois de ter testemunhado a escolha quando servia o café na sede da CBB. Desta data em diante, promet lutar para que um dia, por mais distante que fosse, visse estabelecido no âmbito desportivo, no basquetebol em particular, o primado da excelência, da competência, do mérito enfim.

Em tempo – O técnico escolhido foi o Ary Vidal, tijucano, alto e bonito, e bom técnico também, mas não melhor.

INEFÁVEL RAPOSA…

“O que for para somar, sempre vai ser bom. Nunca vamos perder a nossa característica do basquete brasileiro, de velocidade, de transição e arremessos de três pontos. Mas temos de aprender a dominar mais a bola e a defender melhor” – afirmou o grego melhor que um presente antevendo a possibilidade de contratação de um técnico estrangeiro, de preferência da escola eslava.

Formidável, senão trágico. Um técnico eslavo,ou similar, deverá ser contratado para ensinar fundamentos aos jogadores da seleção, já que mantidas as características do basquete brasileiro, de velocidade…etc.etc. E os ingênuos de plantão propugnando uma reformulação técnico-tática nos moldes do basquete europeu! Tenho repetidamente aqui enfatizado que sistemas de jogo, sejam os que forem escolhidos e empregados, somente se manterão dentro de uma desempenho aceitável, se profundamente lastreados nos conhecimentos e pleno domínio dos fundamentos do jogo, por parte de todos os jogadores envolvidos no processo, e que de nada adiantarão sistemas sofisticados sem o suporte dos princípios fundamentais. Em síntese, somente países que adotam o ensino e a pratica constante dos fundamentos, desde as divisões iniciantes, até as seleções, é que alcançam a excelência técnico-tática, já que atendidos os pré-requisitos básicos da modalidade. Contratar técnicos eslavos, chechenos ou marcianos para treinar fundamentos para jogadores da seleção é uma ofensa ao bom senso, já que se tratando de um conhecimento padrão e universal, inclusive para os técnicos e professores brasileiros. O óbice, este sim, absurdamente jamais é enfrentado, é a não criação de condições mínimas de planejamento e execução de um plano que abrangesse e divulgasse o ensino dos fundamentos, como exigência básica, em todas as latitudes do país, alocando verbas para tal, que existem, mas somente vem ao conhecimento público em seus valores, quando a possibilidade de exposição política e partidária se faz presente, ante a possibilidade de mega eventos, como a tentativa de trazer para o Rio o próximo e decisivo Pré-Olímpico do ano que vem.

E a famigerada forma de jogar européia, como fica? Resposta óbvia : Fica com os europeus, e os argentinos que vêm se preparando a duas décadas para adotá-la com sucesso, estruturada sob as bases de uma forte associação nacional de técnicos, de uma liga em três vias de acesso e de uma forma coerente de desenvolver o basquetebol através o ensino massivo dos fundamentos .

Por outro, e fundamental caminho, pois é o responsável pela manutenção da realidade política da CBB, sinalizou o grego melhor que um presente, para a possibilidade do aproveitamento do componente da comissão técnica ora deserdada, que se desligou da mesma para dirigir a seleção sub-19 no Campeonato Mundial, onde alcançou a quarta colocação, como um provável candidato ao posto, angariando por este posicionamento as boas e determinantes graças da FPB, cujo voto e influência junto a outras federações, são a garantia de continuísmo nas eleições cebebianas em 2009.

Por fim, caros e ingênuos postulantes à urgente e transcendental necessidade de um “eslavo” entre nós, acreditem, que se eu fosse um deles, dos mais graduados e reverenciados, jamais aceitaria entrar numa fria como esta, ao consultar, antes de referendar o contrato, as tabulações estatísticas dos jogadores brasileiros durante o torneio pré-olímpico, no qual, as mais contundentes falhas estavam enumeradas nas perdas de bola, nas infrações, e nas sistemáticas falhas nos arremessos, sem contar a absoluta ausência de conhecimento de como se marcar um adversário, com ou sem a posse de bola, fatores estes que inviabilizariam toda e qualquer tentativa de desenvolver um efetivo sistema de jogo, principalmente ante as exigências técnicas necessárias a um bom, ou até razoável, padrão europeu.

Mas como no mundo atual em que vivemos, tudo pode se tornar exeqüível, na medida do tamanho e teor da conta bancária, nada impede que por aqui aporte um vistoso e imponente “eslavo”, portando uma prancheta mágica, uma entourage de assessores , para, repetindo e confirmando nossa proverbial subserviência colonial, embasbacar a outra entourage, a tupiniquim, para a qual, o que presta realmente é “aprender a dominar mais a bola e defender melhor”, argumentos decisivos de quem detém a chave do cofre, a inimitável e fulgurante raposa mestre, o grego melhor que um presente, que para concluir sua enexcedível capacidade de burilar as verdades sempre a seu favor, fuzila os ingênuos de plantão afirmando :”Nunca tivemos um ambiente tão bom. O problema foi com os treinamentos (duração)”. Para bom entendedor, sua plena palavra basta…

Amém.

A OPORTUNA DICOTOMIA…

“Precisamos de um técnico estrangeiro, e que um técnico brasileiro faça às vezes de auxiliar técnico, para aprender como se joga o basquete europeu, atual campeão do mundo, cujos princípios técnicos e estratégicos são seguidos pela Argentina, a campeã olímpica”. Esse é o clamor que toma vulto entre os “entendidos” do grande jogo, visando influir na decisão final e irrecorrível que advirá da vontade absolutista do grego melhor que um presente, e sua acessoria técnica da mais alta qualidade e competência, claro, votos federativos à parte.

Lembro-me como se fosse hoje, uma participação num seminário técnico-prático em Lisboa no final dos anos oitenta, quando fazia meu doutorado com uma tese sobre arremessos com uma das mãos no basquete, e naquela ocasião o célebre técnico espanhol Juan Teña liderava o seminário junto aos mais de 200 professores e técnicos portugueses, onde o ensino dos fundamentos era o tema central. Na época, a associação dos treinadores espanhóis já se posicionava como o elo mais importante para a hoje internacionalmente reconhecida escola espanhola de basquetebol, trabalho este que evoluiu até à recente conquista do Campeonato Mundial. Tive a oportunidade de debater longamente com o Juan sobre o preparo e treinamento de pivôs, cujos princípios diferiam profundamente entre nós. Foi uma proveitosa discussão que se prolongou até o jantar de despedida que os técnicos e a federação portuguesa ofereceram a ele. Nesta noite foram lançadas as bases da associação de técnicos de Portugal, entidade que implantou uma nova era de progresso, qualificando-o no forte cenário do basquete europeu. Hoje mesmo, a equipe portuguesa surpreendeu ao se qualificar para as quartas de final do Pré-Olimpico que se realiza na Espanha.

Porque rememoro esta minha passagem por terras européias? Exatamente por ter constatado que a base de todos os sistemas ora empregues pelas equipes do velho mundo, têm como pétreo alicerce o domínio didático e pedagógico do ensino dos fundamentos, único e decisivo elemento que o diferia da grandeza do basquete norte-americano, com sua cultura de massa na difusão e prática dos fundamentos do jogo, sem os quais nem a mais primaria das jogadas coletivas, o give and go, o dá e segue, poderia ser concretizada com um mínimo de qualidade e sucesso. A existência quase mítica de pequenas tabelas ovais de basquete fixadas em portas de garagens residenciais, cercas em pradarias, e até mesmo emergindo de nevascas, como o ícone determinante junto aos jovens, chamando e incentivando-os aos embates de um contra um, onde dribles, fintas, arremessos e posicionamento defensivo eram progressivamente desenvolvidos, calou fundo no desejo incontido dos europeus em se rivalizarem aos americanos, e cujo único caminho a ser trilhado para a consecução de tal objetivo, era ensinar e divulgar os fundamentos de forma igual ou superior alcançada pelos mesmos.

Então, com esses princípios de ensino qualitativo dos fundamentos implantado pelos técnicos, em torno de associações que se espraiaram pelo continente europeu, apoiadas e aceitas pelas federações, como entidades autônomas, os princípios de qualquer sistema de jogo que pudesse ser empregue, adaptado, criado, e até inventado, seria lastreado pelo domínio técnico individual de cada jovem envolvido no processo, participante das diversas categorias de equipes, divididas entre clubes e escolas, até chegarem às categorias de elite, às seleções.

E de repente por aqui aporta um destes técnicos (importante saber com precisão sua real origem e comprometimento profissional), que se deparará com uma realidade que deixou de existir no seu velho continente 40 anos atrás, tomando em mãos o preparo de uma seleção que peca nos mais comezinhos detalhes dos fundamentos, com armadores nem sempre ambidestros no drible e nas fintas, com jogadores que passam mal e fora de enquadramento, que desconhecem os posicionamentos básicos defensivos, que saltam erradamente nos rebotes, que arremessam desconhecendo a mecânica dos lançamentos, que desconhecem os sentidos lateralizados de coberturas defensivas, mas plenos de força física, de velocidade e de alguma, senão presunção, de que pertencem à elite do basquete mundial, por participarem, na maioria dos casos, como reservas em suas equipes estrangeiras.

E ele, com seus conceitos táticos, que foram os responsáveis pela sua contratação, vide a mania e o engodo nacional de que técnico de quadra é um, técnico de preparação é outro, canhestra dicotomia que sedimentou entre nós a mentira de que sistema tático( o que denomino coreografia…) é que vence jogo, instrumento este de posse e uso de uma comunidade de técnicos que o implantou, divulgou e disseminou por todo o país, e para os quais perder tempo no ensino dos fundamentos é assunto censurado e sequer discutido, fazendo-os sempre estar acompanhados daqueles poucos jogadores que executam razoavelmente determinados fundamentos, garantindo a manutenção do padrão de jogo único praticado por todos, e ele, repito, se vê perante tal realidade, manietado pelas limitações óbvias retratadas ante seus olhos. E o que faz, ou melhor, o que fará, ou, o que exigirão que faça?

A resposta mais plausível e lógica? Nada, absolutamente nada! Por mais genial que seja, por mais desprendido e otimista que seja, por tradição de oficio, e por conhecimento profundo de causa, logo diagnosticará, assistindo um simples taipe, quão frágeis são as bases de técnica individual de nossos melhores jogadores, principalmente no conhecimento e na prática dos fundamentos, que em consideração final , é o fator determinante de nossa fragilidade técnico-tática.

Aplicará seu tempo hábil, tão destemido técnico estrangeiro, no preparo técnico individual dos jogadores, ou partirá célere na implantação dos princípios táticos praticados no continente europeu? Se bem conheço, e os conheço, nenhum técnico de alto nível arriscará seu prestígio e tradição na direção de uma equipe incapaz de prover suas exigências técnicas, pela exigüidade de seus fundamentos, a não ser que abra mão de Pequim 2008 em função de Londres 2012, quando então terá tempo suficiente para se fazer entender e divulgar em sua concepção do grande jogo.

Claro, que nada pode evitar que apareçam candidatos estrangeiros ao cargo, pois aventurar e jogar com o acaso não é reserva de mercado somente nossa, eles também a têm, vagando pelo mundo, angariando bons lucros com o ouro dos tolos e deslumbrados.

Temos as soluções aqui mesmo em nosso país, soluções estas factíveis na proporção direta em que influências políticas e personalistas dêem passagem ao bom senso e aos técnicos de verdade, aqueles não dicotomizados pela criminosa e oportunista separação entre estrategistas e suas pranchetas milagrosas e técnicos que preparam e dirigem seus jogadores num todo, entre fundamentos e sistemas de jogo, indissociados entre si, por se completarem e interdependerem. O mais é conversa fiada de quem torce e deseja que as coisas continuem como estão, pois facilitam e perpetuam suas decrépitas permanências, logo que a tempestade de poeira baixar. Amém.

OS ESLAVOS…

“Os eslavos são perfeccionistas. Treinam excessivamente, com atenção aos detalhes. E não abrem mão da disciplina. Para resumir: o trabalho deles se assenta em disciplina, treinos e liderança.”

“Gostaria de ver um eslavo na seleção brasileira. O basquete que a Argentina joga, e que o Uruguai tenta jogar, é o basquete que os eslavos inventaram. É placar baixo, que aproveita os 24 segundos de posse de bola. Em suma, o antijogo”.

São estas as propostas e sugestões do hoje comentarista, palestrante, torcedor, e também sofredor Oscar Schmidt, segundo sua própria definição, em uma entrevista dada no O Globo de hoje.

Definamos inicialmente o termo eslavo, segundo o Dicionário Aurélio:

Eslavo SM. 1. Grupo étnico e lingüístico que abrange os poloneses, checos, eslovacos, búlgaros, russos e outros povos afins, da Europa Central. 2. Indivíduo deste grupo. Adj. 3. Desse grupo.

A Enciclopédia Wikipédia ainda classifica os eslavos dessa forma:

Eslavos ocidentais – polacos, checos, eslovacos.

Eslavos orientais – bielorrussos, russos, ucranianos.

Eslavos meridionais – eslovenos, sérvios, montenegrinos, croatas, bósnios, búlgaros, macedônios.

Com tanta opção e escolha, qual tipo de eslavo seria o escolhido para dirigir nossa seleção? Um russo? Um croata? Um sérvio? Um esloveno? Qual seria o melhor para nós? Se o critério for definido pelo fato de ter de ser um eslavo, a escolha vai ser difícil pela ampla oferta eslávica. Sob o critério da exigência técnica em treinamentos, disciplina e liderança, terá de ser um eslavo latinizado, tanto lingüística como culturalmente preparado para encarar a realidade tupiniquim, a não ser que prepare e treine a equipe na Europa, mais exatamente num ambiente eslavo. Aliás, e mais propriamente, treinamentos exigentes e detalhistas, assim como ungidos pele disciplina e liderança técnica não são exclusividade de sérvios, balcânicos, latinos, americanos,chechenos, esquimós ou guaranis, e sim de todo e qualquer profissional sério, estudioso, pesquisador, respeitador, democrático e voltado ao novo sem omitir o velho, pelo menos como balizador de experiências, que são válidas enquanto vividas. Por outro lado, cabe aqui um pequeno esclarecimento, acerca da afirmação de que o atual jogo praticado na Europa, Argentina e um pouco pelo Uruguai, foi uma invenção eslava, pela valorização dos 24 segundos de posse de bola, e os baixos placares, constituindo-se como o antijogo. Trata-se na realidade de uma evolução do sistema de jogo empregado pelas equipes universitárias americanas desde que as mesmas evoluíram do tempo livre de posse de bola, para a regra dos 45 segundos, mais além com os 40 segundos, estabilizados nos dias atuais em 35 segundos, situações que não ensejam largas margens de pontos por partida, e que são, para os americanos, a grande escola de disciplina de jogo e domínio dos fundamentos, preservada pelo longo tempo de posse de bola. A antiga Iugoslávia, que era formada por vários povos de origem eslava, fundamentou-se na escola americana que teve uma grande influência na península itálica após a II Grande Guerra, e cuja proximidade à região dos balcãns, onde se encontrava propiciou um intenso intercâmbio, o que originou também uma grande rivalidade desencadeada pelos regimes políticos implantados em ambas as regiões, democrata de um lado, comunista do outro. Essa maior proximidade com o mundo ocidental, fez com que a escola iuguslava passasse a praticar um tipo de basquetebol misto da disciplina tática emanada pela influência oriental, com a nascente velocidade originada pela implantaçãop dos 24 segundos no lado ocidental. Nem mesmo o sistema defensivo baseado na linha da bola foi um primado eslavo, já que a mesma teve suas origens no mesmo basquete universitário americano à partir da década de 30, quando as bases do grande jogo foram estabelecidas e normatizadas pelos grandes técnicos da época, como Nat Holman, Clair Bee, John Wooden, Forrest Allen, e muitos outros formidáveis professores.

A par destas influências, fruto da grande penetração e divulgação de uma vasta bibliografia, que se mantém até os dias de hoje como a mais profícua entre todas as modalidades esportivas, foi que o grande jogo evoluiu e se ramificou pelo mundo, inclusive entre nós em algum momento de um passado não tão distante assim, mas que nos últimos vinte anos sofreu um processo refreador, que somente encontra uma explicação plausível na precariedade dos segmentos diretivos que se sucederam na direção das entidades federativas estaduais e principalmente na entidade nacional, a CBB.

A vinda de um técnico estrangeiro, eslavo ou não, somente se justificaria se o mesmo estivesse comprometido num vasto e amplo projeto organizacional do basquetebol em seu todo, desde a formação, até às seleções nacionais, que seria o resultado do desenvolvimento e aplicação de todo o trabalho proposto. Pela diversidade cultural e a enormidade do território nacional, não acredito que um técnico de fora dessa incontestável realidade obtivesse resultados, nem mediato, nem mesmo a um longo prazo, a não ser que viesse tapar a peneira do imediatismo, na tentativa de preparar uma seleção fragmentada e descaracterizada, visando o dificílimo Pré-Olímpico do ano que vem.

Ao entendermos que as atuais formas de jogar, ao estarem divididas entre o modo americano, e o modo europeu, não poderemos jamais omitir o fato de que ambas as escolas, se assim quisermos definir, se baseiam num elemento uno e indivisível para ambas, o domínio dos fundamentos, sem os quais, jogar de forma lenta e acadêmica, valorizando a posse de bola, ou atuar em velocidade respaldada num poderoso sistema reboteiro de defesa, jamais seriam bem sucedidas sem o completo domínio dos mesmos. Quando na atualidade, jogar com um ou dois armadores, um ou dois pivôs plantados no garrafão, ou mesmo atuar sem nenhum, diluindo as diversas tarefas e posições entre os cinco jogadores, se tornam cada vez mais presentes nas quadras, como opções táticas e até estratégicas, um só e determinante fator se apresenta como unânime em sua utilização e preparação rígida, o domínio dos fundamentos do jogo, aqueles mesmos que foram classificados e codificados por uma plêiade de geniais técnicos e professores na remota década de 30 do século passado. Por tudo isso, ninguém em qualquer parte do mundo eslavo , americano ou de outra procedência pode ter a ousadia de se considerar inventor, do que na realidade é uma evolução lenta e contínua de pequenas conquistas que no seu somatório deságua nas diversas concepções do grande jogo.

E por que não possam existir entre nós, técnicos que atinjam os patamares de seus colegas estrangeiros? Por que tão negativa presunção que não carece da mais simples adjetivação, transita entre nós, como se fossemos uns deserdados do conhecimento, prática, experiência, comprometimento, liderança e patriotismo? Que pecado cometem aqueles, que ao se encontrarem ao largo dos conchavos político-esportivos, dos apadrinhamentos interesseiros, das maquinações empresariais, se vêem obstados de sequer constarem pelo seu trabalho honrado e de qualidade, de qualquer possibilidade de colaboração, por mais simples que fosse, visando a melhoria do basquete entre nós, exatamente por serem contrários às pseudo lideranças que nos têm sido impostas nos últimos vinte anos?

Este é o real óbice que vem entravando e entrava nossa evolução no basquetebol. Temos sim, ótimos técnicos, formidáveis professores, gente que estuda e se sacrifica na missão de ensiná-lo, pesquisá-lo e difundi-lo por esse enorme país, onde encontramos, americanos, orientais, africanos, índios e até, eslavos. O que realmente necessitamos, com a urgência de ontem, é que esses profissionais se reúnam, se organizem, discutam e decidam, de uma vez por todas se preferem se manterem no ostracismo dos covardes, ou encarar a dura realidade da boa luta, aquela que não garante vitórias, mas que vale sempre à pena de ser travada, por ser justa e corajosa.

Amém.

DANDO AS MÃOS AO DESTINO.

Depois do cataclismo que se abateu em nossas esperanças de classificação olímpica, um mar de dúvidas assaltam o nosso futuro no grande jogo. Discutem-se mudanças estruturais, técnicas, políticas, numa proporção e envolvimento nem sempre dentro de padrões orientados pelo exeqüível e pelo bom senso. Pequenos acertos, soluções simples, atitudes e decisões factíveis, possíveis ao cidadão comum, ao professor e ao técnico, ligados pelo amor ao basquetebol, são substituídas pela luta de poderes, pela manutenção do status quo.

Tenho recebido inúmeros emails pedindo sugestões, orientações, ou mesmo ajuda no trabalho de uma plêiade de jovens técnicos, abandonados em suas carências bibliográficas e materiais, esquecidos em seus ingentes esforços para continuarem a trabalhar no que amam, apesar da indiferença que os cercam, por parte daqueles que possuidores das senhas que os qualificariam tecnicamente, as negam sistematicamente, por não atenderem e preencherem as vantagens políticas que os mantêm no poder.

E é exatamente neste ponto que pode vir a se operar a tão desejada e aguardada mudança no panorama do basquete brasileiro. A esmagadora existência daqueles que, espalhados por esse imenso país, trabalhando em condições precárias, tanto de locais, como de materiais mínimos, mantendo viva a chama do basquetebol, em escolas, clubes e quadras comunitárias,sem apoios e verbas razoáveis aos seus trabalhos, aguardam ansiosos, sem esmorecimento, que algo de positivo ainda possa vir de encontro aos seus sonhos de atualização técnica, e de um mínimo de apoio material, assim como de um veiculo informativo que os permitam captar e divulgar experiências, estudos e pesquisas, instrumentos essenciais ao seu dia a dia e desenvolvimento.

À professora gaúcha que ontem me escreveu contando sua inexperiência, suas dúvidas, e seu enorme desejo de evoluir nos conhecimentos didáticos e técnicos do basquetebol, darei todo o apoio e colaboração que me seja possível dar e doar em nome de seu esforço e dedicação, no que deveria se tornar rotina entre os mestres encanecidos e largamente experientes e seus ansiosos e esperançosos jovens professores e técnicos que povoam, dos mais recônditos lugarejos, às mais populosas cidades e capitais, aguardando uma palavra, uma instrução, um pequeno roteiro, um prazeroso incentivo assinado por quem conhece os começos, os meios e os fins da arte de ensinar, treinar e dirigir equipes.

Associações de técnicos regionais, municiadas pela ferramenta mais poderosa que jamais existiu no campo do relacionamento e troca de conhecimento humano, a internet, seria o vetor por onde trafegaria a seiva desse e dos futuros conhecimentos advindos da troca permanente de informações, e sua divulgação democrática e patriota, assim como tenho feito, na pequena escala facultada por minhas limitações materiais, como o fiz desde sempre ao fundar duas associações nacionais e uma regional, descontinuadas e perdidas nos meandros das penosas e retrogradas políticas desportivas existentes entre nós.

Técnicos e professores, fundem suas associações regionais, divulgue-as e enriquece-as pelo mágico caminho da grande rede mundial, que é gratuita e poderosa, e o mais importante, dissociada e independente dos redutos políticos e atrasados que infestam as federações e a CBB. Jamais se permitam ser dirigidos, orientados e balizados por tais órgãos, cujas determinações e decisões se pautam no interesse exclusivamente político. Trabalhem e ajam dentro dos parâmetros e limites da ação educacional e social, nas quais o valor é medido e avaliado pelo mérito, e pelos alicerces dos princípios éticos.

Quando estiverem suficientemente fortes e estabelecidos, alinhados e conectados pelas trocas e experiências transmitidas e divulgadas pela grande rede, aí sim, se abrirão os espaços para a fundação de uma associação nacional, com a garantia de que jamais cairá nas mãos de oportunistas de ocasião e acólitos dos mandatários que nos tem levado para o fundo do poço em que nos encontramos.

Pensem bem, discutam bem, e resolvam se realmente querem e desejam de coração tomarem em mãos essa que poderá vir a ser a verdadeira revolução que poderá salvar o que ainda resta de tradição e passado do nosso querido e maltratado basquetebol. Lembrem-se também, que “as grandes conquistas começaram com pequenas e decisivas escolhas, devagar e inexorável”. Torço por todos vocês. Amém.