REPLAY( MESMO SEM PEDIDOS…)

Em 12 de setembro de 2004 publiquei um artigo, que como a maioria, não foi alvo de um comentário sequer, mas, que teimosamente republico, como um alerta a certos maneirismos que insistem em impor ao nosso combalido basquetebol, principalmente em seu futuro técnico-tático.

Triângulos, Passing game, Pick and Roll e outras bobagens afins…

Peguemos um pedaço de giz e desenhemos na lousa as figuras geométricas de um círculo, de um quadrado, de um pentágono, de um triângulo e uma reta. Em cada uma das figuras tentemos distribuir os cinco jogadores de uma equipe. Em duas delas é possível distribuir igualmente os cinco jogadores, o circulo e o pentágono. No quadrado somente quatro jogadores, na reta, dois, e no triângulo, três. Tanto ofensiva quanto defensivamente, a distribuição no círculo e no pentágono mantém os jogadores distantes entre si, propiciando grandes espaços ao domínio dos jogadores oponentes. No quadrado também se formam esses distanciamentos com menos um jogador. Na reta só é possível a participação de dois jogadores, tornando a ação dos oponentes majoritária. Somente na forma do triângulo podemos exercer superioridade numérica, tanto pela proximidade física quanto pela abrangência visual. Por essa singularidade as formações triangulares sempre foram objeto de estudo pelos grandes técnicos, a partir de Clair Bee, no longínquo ano de 1932, quando da publicação de sua coleção clássica de livros voltados para o estudo do basquetebol. Recentemente alguns técnicos norte-americanos redescobriram a roda, tentando convencer o mundo da criação do sistema mágico dos triângulos. Aqui no Brasil, nos anos sessenta quando as marcações por zona reinavam absolutas, sugeri ao técnico Paulo Cesar do Grajaú T.C., que decidia com o Botafogo o campeonato carioca juvenil, que utilizasse uma movimentação fundamentada em triângulos móveis dentro da defesa por zona, o que resultou em total domínio ofensivo.Um pouco mais adiante utilizei a mesma movimentação no Campeonato Brasileiro Feminino em Recife, quando vencemos a grande equipe paulista, magnificamente treinada pelo mítico Campineiro. A movimentação dos triângulos móveis é utilizada até os dias atuais por alguns técnicos que não se deixaram enfeitiçar pelo modelo NBA de passes quilométricos em contorno do perímetro da cesta. Há de se convir que para um limite de 24 segundos, o excesso de passes torna os arremessos precipitados e, por conseguinte, desequilibrados. A figura da reta somente propicia uma ação ofensiva, que é o “Dá e Segue” (Pick and Roll?), que muitos narradores teimam em rotular como uma ação triangular, pelo fato de um dos jogadores se deslocar de um ponto para outro para conseguir a posse da bola.Toda ação ofensiva visando a supremacia numérica em uma determinada área da quadra é fundamentalmente triangular, fator descrito desde os anos trinta pelos autores clássicos do jogo como Nat Holman, Clair Bee, John Bunn e Forrest Allen, nenhum deles mencionados pelos descobridores do Sistema dos Triângulos. Oportunistas também existem pela terra de Tio Sam, ainda mais pelo peso dos dólares do profissionalismo desenfreado.

Gostaria de tentar explicar o que vem a ser e o porquê da existência do Sistema de Passing Game, tão apaixonadamente adotado pela maioria dos técnicos brasileiros, e de tão funesta influência sobre o nosso modo de jogar. Como é do conhecimento de todos, até os anos sessenta vigorava no basquetebol universitário americano o tempo ilimitado de posse de bola após a ultrapassagem do meio da quadra. Essa característica dava aos técnicos o tempo que quisessem para fazer com que suas equipes utilizassem não uma, mas quantas movimentações fossem necessárias para suplantar a defesa. Com o advento dos 45 segundos tornou-se necessária a adoção de uma movimentação que mantivesse os jogadores presos ao comando tático exercido pelos técnicos de fora das quadras. A troca seqüencial de passes propiciava esse comando, e mesmo quando da diminuição de 45 para 35 segundos de posse de bola ele foi mantido.O jogo baseado no drible determinava ações que fugiam do rigor tático e, por conseguinte, do controle das ações pelos técnicos. O Passing Game preenchia essa necessidade de controle das ações ofensivas por parte dos técnicos, dando aos mesmos todo e qualquer poder decisório.Transformaram as ações ofensivas em coreografias, onde quase todos os movimentos eram determinados pela vontade deles, mesmo não participando das ações diretas. Nascia também a influência das pranchetas, até hoje presente na maioria esmagadora dos jogos. O jogo com a limitação de posse de bola nos 24 segundos só é utilizado nos Estados Unidos entre os profissionais, mas a utilização do Passing Game ainda é mantida, graças a um estratagema inteligente, a obrigatoriedade das defesas individuais ou por zona não se beneficiarem das flutuações, fator que inviabiliza o confronto de um contra um. No caso do basquetebol jogado pelas regras internacionais, com a permissão de flutuações laterais ou longitudinais à cesta, o Passing Game como o empregado pelos profissionais americanos transformou-se em um festival de erros e precipitações nos arremessos ocasionados pela premência de tempo, pois 24 segundos sob as ações permitidas às defesas pelas regras internacionais limitam criticamente as liberdades que as mesmas detêm sob as regras da NBA. Esses fatores só se tornam visíveis quando os profissionais jogam sob as regras internacionais, e mesmo seus fracassos recentes não fazem com que nossos técnicos reconheçam o quanto estão enganados ao adotarem tal sistema. O poder da propaganda, com uma mídia bem direcionada e mundialmente divulgada obliterou em muito a capacidade de pensar e de analisar de técnicos, críticos e jornalistas envolvidos com os fundamentos do jogo, quando para a maioria as “enterradas”, os “double-doubles” e os “triples-triples” passaram a ser a essência do jogo. Alguns países já tentam superar essa globalização do “basquete internacional” e o resultado das últimas olimpíadas atesta bem isto. Só espero que os técnicos brasileiros acordem de seus berços esplêndidos e voltem a estudar e a soerguer nossa verdadeira maneira de jogar, pois não foi jogando como jogamos hoje que conquistamos dois campeonatos mundiais e três medalhas olímpicas entre os homens, e um campeonato do mundo e duas medalhas olímpicas entre as mulheres. Muito trabalho temos pela frente, e podemos começar pelas atitudes mais básicas em qualquer manifestação humana, humildade e muito estudo.



2 comentários

  1. Anonymous 01.10.2006

    Mi respetado amigo Paulo:
    Sin lugar a dudas los clasicos entrenadores de nuestro deporte como ; Clair bee,Red Auerbach, Joe Lapchick, Pete Newell, John Wooden ,y a los que llamo contemporaneos como : Dean Smith Bobby knight, siempren han considerado como prioridad el trabajo sistematico e intenso de los “fundamento del basquetbol”, y la disciplina en el entreno ; como consecuencia llegara el mejoramiento de las destrezas tanto defensivas como ofensivas de los jugadores y la prioridad del equipo sobre la individualidad.
    Y esos conceptos deberian de ser axiomas para quienes entrenamos basquetbol.
    Me atreveria a decir colocando como ejemplos a : Michael Jordan, Larry Bird, Magic Johnson, Kareen Abdul-Jabbar,Bill Russell etc, que fueron jugadores extraordinariamente fundamentados, capazes de las jugadas mas espectaculares tanto en la defensa como en el ataque y, capacidad cognoscitiva de adaptacion frente a las cirscunstancias basquetbolisticas,( ya la “clavada” espectacular”, como en letal tiro de media o larga distancia o el esfurezo defensivo ) como producto del trabajo sistematico de entrenadores que estaban para guiar a los jugadores , y no para ‘adaptarse ‘a los deseos de estos.
    Al respecto cito a Mike Warren, ex-jugador de la UCLA bajo la direccion tecnica de Jonh Wooden:” coach Wooden creia firmemente en la preparacion fisica, en los fundamentos del basquetbol, y en la simpleza del juego y habia una solo manera de hacer las cosas, a la manera de el”.
    Sin lugar a dudas una clara filosofia sobre el basquetbol es imperativa para cada uno de nosotros y me atrevo a decir que la ruta ya esta trazada por los clasicos entrenadores, es cosa de hacer a un lado el mercantilismo.
    Paulo, sobre el movimiento constante al que usted se refiere cito a Kareem: ” ofensivamente siempre trate de estar en constante movimiento alrededor de los tres puntos del area de los tiros libres, para de esta manera hacerle mas facil a mis compañeros el darme la pelota y poder ejecutar un rapido tiro de “gancho”que era bastantante efectivo,o el devolverles la pelota para que ejecutaran un tiro de media distancia completamente desmarcados.Trate siempre de hacerme dificil de ser marcado , de que el jugador defensivo jamas supiera donde yo estaria ubicado, pues siempre estaba en constante movimiento”.
    Felicitaciones por su interes en beneficio del “basquetebol brasileiro” .
    Abracos.
    Gil Guadron

  2. Basquete Brasil 02.10.2006

    Amigo Gil,creio que ambos concordamos, que sem o domínio dos fundamentos, nada em matéria de tática torna-se possivel.
    Infelizmente, muitos técnicos não pensam dessa maneira por aqui,acreditando,e querendo que acreditemos,em sistemas mirabolantes de jogo, produtos fantasiosos e fantasiados em suas pranchetas mágicas.A quase totalidade de nossos jogadores seniors,cometem os mesmos erros de fundamentos de quando eram juniores, sem qualquer correção ou orientação técnica que os façam melhores.E quando falham nos momentos decisivos,são cobrados por aqueles que não os ajudaram, não os ensinaram.O pior é que não saberiam fazê-lo,pois na concepção deles o que importam são os sistemas,”as jogadas”.Muito triste.
    Um abração, Paulo Murilo.

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