A BABA ELÁSTICA…

Foi uma vitória arrancada à fórceps. Por mais uma vez a equipe demonstrou uma grande carência de comando e decisão nas jogadas armadas, somente se impondo quando “se espalhou na quadra”, através forte marcação individual, forçando retomadas e conseqüentes contra-ataques, principalmente no terceiro quarto. O sistema defensivo nos quartos iniciais falhou seguidamente, quando o combate às tentativas de arremessos longos primaram pela indiferença e pela acomodação posicional. Temos na seleção jogadores que de forma alguma se situam num patamar mínimo de exigência defensiva, simplesmente não sabem marcar, e o pior, não se esforçam para melhorar tal deficiência. Com a dedicação defensiva do Alex e do Valter no terceiro quarto, a diferença de 14 pontos foi superada e revertida para uma de 12 pontos ao final do mesmo, numa reação oportuna e que garantiu a vitoria. Mesmo assim, no quarto final a equipe afrouxou a disposição defensiva, e novamente se viu ante a possibilidade de perder um jogo que não ofereceria qualquer obstáculo se houvesse um mínimo de regularidade e constância técnico-tática. A seleção brasileira carece de treinamento e de soluções táticas no jogo de meia quadra, numa indefinição que oscila entre a simples e a dupla armação jamais definida, tornando também indefinidos os papéis dos demais jogadores, basicamente os alas, dois deles nitidamente fora de forma física e técnica, assim como o grande e festejado pivô, que se apresenta fora do peso e com nítido despreparo aeróbico. Com tais indefinições e limitações físicas, uma decorrente fragilidade se avulta, multiplicada pela ausência de tempo hábil de treinamento e da ausência dos grandes nomes junto aos demais jogadores presentes ao mesmo. A equipe não está coletivamente preparada, restando a razoável forma de uns poucos jogadores e suas valentes e corajosas disposições à luta e ao sacrifício, o que infelizmente não ocorre com todos.

No jogo deste domingo, contra a equipe norte-americana, poderemos aquilatar com razoável precisão o quanto de despreparo técnico-tático atinge a equipe, já que os americanos tentarão de todas as formas imporem o seu modo de melhor atuar, baseado na grande e permanente velocidade por toda a quadra, escudados no mais forte de seus argumentos, a grande capacidade no desenvolvimento dos fundamentos básicos do jogo por todos os integrantes da equipe, dos armadores aos pivôs, começando por uma defesa rígida de linha da bola, e culminando com um ataque sem tréguas por todos os setores da quadra e sempre no sentido incisivo da cesta. Para enfrentar tão contundente modo de ação coletivista, duas são as únicas opções. Uma, a de acompanhar tal ação com um comportamento similar, numa esgrimáge em nada aconselhável, pelos inúmeros motivos apontados anteriormente. Outra, cadenciar fortemente o jogo, tornando-o o mais lento e acadêmico possível, similar ao comportamento da seleção argentina no Campeonato Mundial de 86 na Espanha, quando freiou a seleção americana em sua única derrota naquele campeonato em que acabou campeã. Esse jogo tornou-se um modelo clássico de como se torna possível vencer uma partida aprioristicamente perdida, revertendo tal previsão com inteligência tática e lucidez estratégica. Mas para tanto, se torna necessário um bom e forte período de treinamento, efetuado por todo o plantel, sem exceções e privilégios, o que de forma alguma aconteceu no preparo de nossa equipe. Mas mesmo assim, se tivéssemos que optar entre as duas formas de atuar mencionadas, sem duvida nenhuma o cadenciamento do jogo seria a opção mais inteligente e factual, o que nos daria uma razoável chance de bom enfrentamento. Nenhum corcel campeão de corridas reage de bom grado a um potente e enérgico bridão. O problema é saber utilizá-lo por um longo e paciente período de tempo, período este que um só armador seria insuficiente , exigindo, pela própria proposta redutora de velocidade e controle, a utilização de dois.

São conjecturas baseadas em experiências passadas e históricas, mas jamais destituídas de valor e coerência, e que podem ser levadas em consideração na medida em que para determinadas situações repetitivas somente um antídoto as farão inertes, e que mesmo assim não apresentando garantias de sucesso, jamais poderão ser descartadas em seu teor de exeqüibilidade. Coragem é o elemento fundamental para utilizá-las.

Infelizmente, ao percorrermos os mais diversos meios de mídia, observamos incrédulos a instituição quase absoluta de um endeusamento da equipe americana e sua quase mitificação no campo desportivo, numa tendência continuista e colonizada, para a qual, o destino lógico de nossos melhores valores só poderá ser plausível se situado nos caminhos dourados da NBA, numa adoração e veneração que beira ao paradoxismo conceitual, aspecto altamente nocivo ao futuro do grande jogo entre nós, pois carecedor de uma visão dentro da nossa realidade, no âmago de nossa juventude e na concepção de nossas autênticas necessidades, que é a tarefa mais importante e transcendental a ser implantada e desenvolvida pelos técnicos e professores do país. Essa dependência cultural e política é talvez o maior obstáculo que poderemos encontrar na construção de um sistema de jogo que possa enfrentar a galática equipe, e por que não, derrotá-la, senão amanhã, mas um pouco mais adiante, sob o signo do trabalho bem feito e da justa crença de nossa capacidade. Comecemos acreditando em nós mesmos, sem enterradas cinematográficas, sem uniformes absurdos, sem penduricalhos imitativos e macaqueados de uma cultura que não é a nossa, e principalmente sem as influências econômicas que alimentam nossa inferioridade, pagas, e bem pagas àqueles que trombeteiam uma nefasta e exógena influência que não nos diz respeito, sob qualquer aceitável e lógica condição.

Merecemos dias melhores, mas teremos que batalhar por eles, reunindo os bons e esquecidos cérebros de grandes professores e técnicos espalhados por este imenso país, pois enquanto esta tarefa não for reiniciada, com décadas de atraso, não conseguiremos e não iremos a lugar algum, e continuaremos nas mãos da corriola que ai está, entre nefastos dirigentes, pseudos técnicos, e moldadores da opinião pública com seus discursos voltados aos interesses hegemônicos do norte. Houve um tempo, não tão distante assim, em que vencíamos a todos , jogando o nosso jogo, exportando a nossa habilidade e cultura, quando tínhamos um imenso orgulho de rivalizarmos com todos eles, sem a necessidade servil de babarmos humilhantemente como muitos o fazem hoje, ao vivo e à cores. Amém.



4 comentários

  1. Idevan G. 26.08.2007

    Caro professor, apane do segundo quarto me faz temer pelo jogo de hoje. A equipe marcava muito mal, não sei se era por dúvida de fechar o caminho das infiltrações e do jogo dentro do garrafão, ou sair para o arremesso de fora. Acabou que ficou pelo caminho e o frágil, porém valente, time das Ilhas Virgens mostrou nossos piores defeitos. Até o narrador já percebeu que o Marcelinho não consegue marcar (falou mais de uma vez que o Marcelinho “foi novamente batido com facilidade”), aliás acho que o outro narrador da ESPN Brasil (Cledi Oliveira) mais apto a narrar a competição porque narra todas os jogos de basquete que a emissora transmite, mas isso já é uma outra estória.

    Ainda não sei o que viram no Marquinhos, não acho muito útil ofensivamente (apesar de possuir igor físico) e nem tem muita disposição para voltar para a defesa, parece mais um pivô voltando num trote cadenciado.

    Acredito ainda que o Huertas está sendo pouco aproveitado e, jogando junto com o Valtinho na armação, poderíamos ter dias melhores.

    Enfim, acho até que é possívl a vaga, porque a Argentina também não está apresentando um grande basquetebol, mas nem sei se isso agora será mais importante se continuarmos jogando deste jeito, com os “escolhidos” mandando no time e no jeito de jogar.

    Um grande abraço.

  2. Linelson 26.08.2007

    Muito boa sua coluna. Sou do site http://www.basketbrasil.com.br. Qual seu email para trocarmos algumas ideias? O meu é linelsonycastro@yahoo.com.br

    Abraço

  3. Basquete Brasil 26.08.2007

    Prezado Idevan,já me acostumei de bom grado com seus comentários,que de certa forma complementam os artigos que publico.Sempre corretos e equilibrados,oferecendo àqueles que visitam a coluna um amplo espectro de opiniões e sugestões que visam a melhoria do nosso basquetebol.Obrigado portanto pela valiosa colaboração, e continue à prestigiar essa humilde trincheira, que é sua também.Um abraço,
    Paulo Murilo.

  4. Basquete Brasil 26.08.2007

    Caro Linelson,muito obrigado por sua audiência. Meu email-paulomurilo@infolink.com.br,está a seu dispor quando e como quiserum abraço,Paulo Murilo.

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