CONCEITOS X FUNDAMENTOS…

“Estamos iniciando uma nova geração nas categorias de base. O Sul-Americano Sub-15 classifica para a Copa América Sub-16 de 2009 que, por sua vez, garante vaga para o Mundial Sub-17 em 2010. Assim, temos que trabalhar essa geração com cuidado e antecedência, pois são muito jovens e inexperientes. Esta será a primeira de três etapas de treinamento, e os objetivos dessa fase inicial são desenvolver a parte física e introduzir os conceitos ofensivos e defensivos, para que assimilem bem o conteúdo. Além disso, convocamos um número bastante amplo de atletas para observarmos o potencial de cada um e desenvolver um trabalho a médio e longo prazo – explicou o técnico Christiano Pereira”.

Com este relato e posicionamento, o novo técnico das seleções de base da CBB inicia seu ciclo de influência na mais importante das categorias, aquela que definirá ao longo dos próximos anos o futuro da modalidade em termos nacionais e internacionais. E do alto de sua larga experiência, estudos e pesquisas, lastreado que está pela outorga que lhe foi designada pelo alinhamento político da FEBERJ com a CBB, delineado nas últimas eleições, quando o histórico estado opositor da situação confederativa, foi defenestrado, passando para a esfera de influência continuista da mesma. Como prêmio pelo bom e condescendente desempenho, é premiada com o comando da seleção Sub-15 masculina, a pedra de toque fundamental ao soerguimento do basquete no país.

E nosso experiente técnico inicia bem sua caminhada, que aliás, em seus primeiros passos, se alinha aos princípios técnico-táticos impostos de cima para baixo pela comissão sênior, como se fez corriqueiro nos últimos anos. Uma frase define esse propósito: “(…) Esta será a primeira de três etapas de treinamento, e os objetivos dessa fase inicial são desenvolver a parte física e introduzir os conceitos ofensivos e defensivos, para que assimilem bem o conteúdo (…)”. Ou seja, tudo aquilo que se pretende incutir de sistemas ofensivos e defensivos, disfarçados de conceitos, que se tornou marca registrada de todos os técnicos que assumiram nossas seleções nos últimos vinte anos, colocando-as dentro de amarras a serviço de concepções de propriedade absoluta dos mesmos, no auto-proclamado “princípios do basquetebol moderno” ( leia-se sistema NBA…), e que retira e afasta de saída aqueles jovens jogadores que não se adequarem a esse terrível critério. Anunciou-se a convocação de 39 jovens de vários estados, alguns deles de pouquíssima tradição em convocações, mas que contarão bons votos em futuras eleições e um ou outro convite para mudarem de estado. E o mais emblemático é que nenhum convocado pertence a equipe e ao clube do novo técnico.

Claro, que no decorrer da fase inicial de assimilação dos conceitos ofensivos e defensivos, somente aqueles egressos dos melhores centros, nos quais os fundamentos são levados um pouco mais à sério, continuarão na liça, sem maiores implicações de ordem técnica e ética para o corte dos demais, cumpridores de suas funções técnico-políticas.

Meus Deuses, mais uma vez se repete o que vem ocorrendo em outras convocações de divisões de base, onde a prioridade absoluta é a manutenção e imposição dos conceitos ofensivos e defensivos do jogo, e não a massiva prática dos fundamentos, formativos e corretivos, independendo de posições, estaturas e estados de origem, dados por competentíssimos mestres na arte de lidar com a bola, com o corpo, com a mente, para depois das fases planejadas, construir-se sistemas de jogo, sistemas de defesa, em concordância e adequação às características dos selecionados finais, e dos preteridos também. Nada mais absurdo do que sistemas apriorísticos, propriedade sufocante de uma geração de técnicos descompromissados com a dureza irreconhecida do ensino lento e gradual dos fundamentos, mas adeptos incondicionais dos resultados advindos de sistemas padronizados e pseudamente testados pela esmagadora maioria deles, e que mais do que claro, postos em prática em jogadores “peneirados”, fruto do trabalho dos trouxas da formação (parece inverossímil, mas existem…), exatamente dentro dos critérios que vem sendo adotado pela CBB e suas comissões de cunho político.

Desafio a novel comissão a adiar seus conceitos ofensivos e defensivos, trocando-os por uma histórica clínica, de preferência com a presença dos técnicos daqueles convocados, na qual ensinariam como se treinam os fundamentos, individuais e coletivos, suas minúcias, suas aplicabilidades genéricas e setoriais, dando aos jovens jogadores e seus técnicos a suprema oportunidade de aprenderem e apreenderem a arte dos fundamentos, deixando para a parte final o ensino dos sistemas, obviamente criados e adequados à luz da evolução técnica dos convocados em sua formação final. O contrário disso cheira a queima oportuna e descompromissada dos menos dotados tecnicamente, e a exposição pré-profissional dos mais talentosos, numa repetição tediosa e repetitiva do que vem ocorrendo sistematicamente por anos a fio. Os resultados desalentadores das divisões de base brasileiras é a prova mais do que cabal do fracasso dessa política protecionista e de nepotismo político, que substitui criminosamente o mérito pelo Q.I.

Lembro que, independendo de categorias e faixas etárias, seleções nacionais é tarefa para os melhores, os mais experientes, os mais reconhecidos pelos seus pares, principalmente nas de base. É a norma vigente naqueles países que lideram as modalidades esportivas no mundo.

E se vierem afirmar que treinarão conceitos ofensivos e defensivos num horário e fundamentos em outro, ainda assim mantenho o critério extensamente aplicado, estudado e pesquisado de que em categorias de base essa dualidade é didático-pedagogicamente inaplicável, pois denota aquisição de hábitos e rotinas díspares, e pré-dependentes, ou seja, só pratica com razoável precisão conceitos de jogo, aqueles com embasamento alicerçado nos fundamentos, e nunca o contrário. O resto é conversa fiada de quem sempre afirma que não tem tempo a perder com detalhes. É o campo fértil e onipresente das pranchetas de plantão, com seus inefáveis conceitos e soluções prét a porter.

Amém.



12 comentários

  1. walter carvalho 04.03.2008

    Professor Paulo Murilo,
    E uma vergonha! 39 atletas! 2 tabelas e quantos tecnicos? Qual o objetivo do programa? Competicao ou formacao? Um pais como o Brasil deveria oferecer tal oportunidade para 100 ou mais garotos em cada estado e, o ideal, com a utilizacao dos tecnicos locais que ja tenham participado de um programa elaborado de formacao tecnico-didatica sob a supervisao de professores como voce para cada regiao. Qual a experiencia que o tecnico atual traz em relacao a formacao de jogadores? Quantos kms rodados tem este rapaz – para a ele ser atribuida tal responsabilidade? Qto mais eu leio as noticias do basquetebol brasileiro mas eu acho que tudo o que eu aprendi deve estar errado!!!!

  2. Basquete Brasil 05.03.2008

    Caro Walter,o grego melhor que um presente e sua turma de especialistas em basquetebol,repete o mote mais enraizado nas tradições corruptas de nosso infeliz país,para se manter no poder, que é a distribuição de cargos e tarefas, mesmo as mais técnicas e fundamentais para a modalidade, entre os que o apoiam e o garantem,pelo voto de cabresto,no comando de sua capitania mais do que nunca,hereditária.Se nosso congresso se permite cabalar cargos e comissões, por que não nossas confederações desportivas?Quanto ao futuro do basquetebol? Ora,caro Walter,o que importa isso para essa gente? E é nesse nicho de politica rasteira que se intrometem os oportunistas de ocasião,para os quais ética e mérito é alimento de trouxas,assim como nos,pensam eles.Mas um dia a ficha há de cair,pois toda mentira,todo blefe têm vida curta.Um abração,
    Paulo Murilo.

  3. keila Doiany da Silveira 21.10.2008

    Carissimo, Professor Paulo Muliro

    Gostei muito do seu site, mas infelismente
    não encontrei o que eu queria, mas mesmo assim agradeço.

    Um grande abraço.

  4. Basquete Brasil 22.10.2008

    Prezada Keila,sinto não ter atendido suas expectativas,mas valeu por sua sempre benvinda audiência.Um abraço,Paulo Murilo.

  5. carlos alberto 23.10.2008

    oi professor meu nome e carlos, sou de fortaleza nascido em 1991 e tenho 1,88 de altura
    gostaria de saber se em sao paulo ou no rio de janeiro existe algum clube com alojamentos
    estou numa exelente fase,mas em fortaleza nao existe oportunidades
    obg pela atenção
    espero resposta
    meu email;carlincearamor@hotmail.com

  6. Basquete Brasil 24.10.2008

    Prezado Carlos,sinto não poder ajudá-lo diretamente,pois aqui no Rio não tenho conhecimento de nenhum clube que possa atender sua reivindicação.Em São Paulo algumas cidades mantém um programa de novos jogadores,como Franca, Piracicaba, Assis, Rio Claro.Tente acessar o site das prefeituras destas cidades,e quem sabe possa obter alguma resposta para seu saudável desejo de jogar basquetebol.Desejo toda sorte do mundo para você.Um abraço,
    Paulo Murilo.

  7. Mahara 25.02.2009

    caro professor ifelismente não achei oq estava procurando, mais seu site é muito interesante muito obrigado..

  8. Basquete Brasil 25.02.2009

    Que tal prezada Mahara você me informar sobre a sua busca.Quem sabe poderia ajudá-la? São mais de 500 artigos,que admito não serem de facil procura. Um abraço, Paulo Murilo

  9. […] de jogo de todas as seleções masculinas, serão trabalhados ( assunto que desenvolvi no artigo  Conceitos x Fundamentos). Se bem entendo, quando estes conceitos são totalmente baseados no passing game, que é a […]

  10. gaby 13.06.2009

    tb ñ encontrei oq procuro mais achei muito interessante se poderem me ajudar falem onde posso encontra principios tecnicos do basquete muito obrigado

  11. Basquete Brasil 13.06.2009

    Prezada Gaby, acesse no blog o espaço Buscar Conteúdo(acima à direita)e digite o elemento técnico desejado, como Drible, Fintas, Passes, Arremessos, Defesa, Ataque, Rebotes, Debates, Sistemas, e terá em sua tela uma grande quantidade de material para seus estudos.Obrigado pela audiência e aceite um abraço.Paulo Murilo.

  12. […] -CONCEITOS X FUNDAMENTOS…(3/3/08) […]

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