DRIBLANDO A MESMICE…

“Paulo, já vi que você não vem aqui na Arena. Se mudar de idéia me telefone, tenho um convite para a tribuna para você”( o amigo Pedro Rodrigues ontem ao telefone…).

Confesso ter inventado uma resposta, tal como o perigo que estaria correndo tendo de trafegar às 23 horas, numa cidade acuada pelo medo, ao voltar para casa, e coisas e tais. Mas a verdade verdadeira não foi expressamente dita, a de não agüentar mais assistir um jogo, vários jogos, estruturalmente fundamentados numa mesmice técnico tática irritante, arrepiante. E o Pedro deve ter compreendido, entendido minha ausência, conclusão lógica de nossas longas conversas pelos celulares da vida, recheando contas telefônicas bem fornidas.

Mas, como todo entusiasta em basquete, em desporto educacional e competitivo, exceto os “excepcionais e altamente educativos” campeonatos ( inclusive mundiais…) de Poker e MMA, vinculados impunemente por nossas mídias jornalísticas, ligo a TV e assisto os jogos deste sul americano de clubes, preocupado, profundamente preocupado, se na idade que estou, tenho o direito de desperdiçar um tempo precioso para analisar algo cujo grau de previsibilidade atinge o inenarrável.

Todas as equipes jogando iguais, TODAS, com  pequeníssimas adaptações nas formações iniciais, com a utilização de dois armadores (um deles substituindo um ala de formação), numa padronização formatada ao longo dos últimos 20 anos, variando um pouco também na velocidade de execução. E o incrível, com a novel adesão das equipes argentinas, apesar da inquestionável supremacia no domínio dos fundamentos que ostentaram nestes mesmos últimos 20 anos, agora comprometidos pela mesmice nebiana, pela utilização do sistema único de jogo, preocupados em seguirem os caminhos trilhados pelo Ginobili, Oberto e Scola, esquecendo que não jogaram dessa forma ao serem campeões olímpicos e vice mundiais.

Minha perplexidade aumenta mais ainda ao acompanhar jogos do campeonato brasileiro sub 17 em Santa Maria, veiculado pelo site Multiweb, no qual todas as equipes, TODAS, seguem o modelo padronizado e formatado pelas clinicas da CBB e pelos técnicos de nossas seleções de base e principal, e com um alarmante índice de erros de fundamentos, que beira ao inacreditável.

Enfim, perante um cenário de tal ordem, creio não ter o direito de me deslocar a uma deserta Arena, a preços extorsivos e correndo reais perigos no asfalto, agora freqüentado pela bandidagem do tráfico, para testemunhar algo que de olhos fechados posso relatar:

– O armador fulano gesticula um sinal, passa ao lado, corre para o fundo da quadra, ao mesmo tempo em que o ala (ou o armador improvisado) beltrano recebe um bloqueio do pivô sicrano fora do perímetro (agora acrescido de mais 50cm, tornando o afastamento do mesmo da zona de rebote mais crítico…), originando ou não um indefectível pick and roll, de defesa primaria se feita com atenção, ou a continuidade de mais passes visando os mais indefectíveis ainda arremessos de três, e nos limites dos 24seg, uma penetração afobada e desequilibrada, ações estas repetidas ad infinitum pelas duas equipes, quebradas em algumas situações de contra ataque, originadas pelas constantes falhas de nossos “especialistas” nos três pontos, ou nas primarias violações e erros crassos de fundamentos que cometem.

E como num moto contínuo de mediocridade explicita, segue o grande jogo sua via crucis, emblematicamente emoldurado pelo sistema único, pela panacéia a que nos condenaram assistir, situação por mim negada, pelo menos in loco.

Mas como professor e técnico de inabalável otimismo, ainda mantenho a tênue esperança de poder, um dia, testemunhar o desvanecimento dessa mesmice, para que tenhamos e usufruamos de dias melhores para o grande jogo.

Amém.



13 comentários

  1. Luiz Eduardo 27.11.2010

    Bom dia Professor!
    Ontem na ESPN (no mesmo horário de Franca x Flamengo) estava passando um documentário intitulado “Once Brothers” sobre o que aconteceu com a amizade dos jogadores servios e croatas da seleção iugoslava de basquete, durante o processo de desintegração da Iugoslávia. O programa é centrado nos jogadores Divac e Petrovic.
    Aparecem imagens da seleção iugoslava (Divac, Petrovic, Kukoc, Radja, Paspalj, etc) que na minha opinião conferem a ela uma equipe que praticava o Grande Jogo na sua plenitude. Jogadores que independente da posição( as odiaveis 1,2,3,4,5) ou tamanho executavam os fundamentos com mestria.
    Valeu a pena ter trocado o jogo pelo documentário.
    Abraços

  2. Basquete Brasil 27.11.2010

    Bom dia Luiz Eduardo.Infelizmente, e por força de ter de fazer comentários sobre o sul americano, não pude assistir o video em questão, mas tentarei busca na grade de programação da ESPN um horário alternativo para que possa usufruir um documentário desse porte. Sem dúvida alguma foram outros tempos de um basquete mais rico em possibilidades técnico táticas, e onde os fundamentos atingiram culminâncias negadas hoje em dia, em nome de uma globalização mercadológica do grande jogo no mundo. A escola iuguslava, produto da mescla do basquete americano implantado na Europa pós segunda guerra, e mais propriamente numa Italia fronteiriça por mar com o país balcânico( hoje dividido em varias nações), somado à influência do leste europeu de influência soviética, produziu um dos basquetes mais instigantes de que temos lembrança, herdado por países como a Croácia, Servia, Eslovênia que faziam parte daquela federação. Foram os jogadores iuguslavos os primeiros a serem convocados pela NBA, não só por suas qualidades técnicas,mas como um polo de abertura a um mercado que se abriria naquela região conflagrada após sua inevitável dissolução. A NBA, como um importante aliado à politica politico econômica dos Estados Unidos, não poderia deixar escapar tal oportunidade, continuada hoje com os avanços no oriente e numa China continental com uma população bilionária.
    Obrigado pela oportuna lembrança Luiz, e tudo farei para assistir o documentário se repetido for.
    Um abraço, Paulo Murilo.

  3. Pablo 01.12.2010

    Hoje as 22 horas ESPN

    Um abraço

  4. Basquete Brasil 01.12.2010

    Na grade de TV do jornal que leio nada é mencionado para este horario na ESPN, prezado Pablo. Mesmo assim darei uma olhada. Obrigado. Paulo Murilo.

  5. Pablo 02.12.2010

    E ai, paso pela TV??

    O jornal estava certo o estava certo eu?

    E assim com tantas coisas….

    Se cuide e bom fin de semana

  6. LORENA 02.12.2010

    EU queria saber quais as influencias norte americanas no basquete brasileiro. Me diz.Por favor.

  7. Clayton 02.12.2010

    Assisti o documentário, muito bom mesmo, uma aula de História!

  8. Basquete Brasil 03.12.2010

    Señor Pablo,como assinante da NET recebo uma revista mensal,MONET,onde toda a programação de TV a cabo é apresentada em detalhes. Só, que nunca a leio, ou por falta de tempo, ou de interesse mesmo. Como apontado pelo señor, lá estava o programa sugerido, que já conhecia, mas que não me impediu de revê-lo.E alvissaráz, é antes de mais nada um documento de profundo cunho sociológico, e acima de tudo politico, e mais, com fortes pinceladas racistas e hegemônicas, tendo como mote condutor uma extraordinária geração de basquetebolistas, confirmando em muito minhas colocações anteriores tão contestadas pelo señor.
    Lembre-se que àquela época, somente três países os enfrentavam em iguais condições, Estados Unidos, União Soviética, e…acertou, nós, os subdesenvolvidos brasileiros, magistralmente excluidos do documentário em questão, onde um fato deveria ter sido incluido, o de que a estreia daquela fantástica equipe se deu em uma excursão ao nosso país, sendo que outra estreia nessa viagem foi marcante, a do Drazen, aos 17 anos, em um jogo contra a seleção brasileira no ginásio do Parque São Jorge, e que nos vencemos. O Alexander, irmão do Drazen era o capitão da equipe, e lá estavam, o Paspali, o Kukoc e o narrador do documentário, o Divac. Ah, e eu estava lá presente.
    Como vê prezado Pablo, bem antes de vocês, temos uma bela história a ser contada e reconhecida. O que aí está é pontual, e que nunca apagará o que fomos e o que realmente somos.
    Um abraço, Paulo Murilo.

  9. Basquete Brasil 03.12.2010

    Prezada Lorena, em muitos artigos desse blog enfoco o assunto de sua pergunta, mas, nem precisando ir muito longe, os comentários acima também exemplificam o teor de sua pergunta. Dê uma boa navegada no blog e se divirta. Um abraço, Paulo Murilo.

  10. Gil Guadron 03.12.2010

    Recuerdo la cuadrangular en el Maracanzinho en Julio de 1972, previa a los Juegos Olimpicos de Munich : EEUU, Yugoeslavia, Puerto Rico y Brsil

    Saludes.

    Gil

  11. Basquete Brasil 05.12.2010

    E outros mais naquela decada dourada Gil.URSS, Italia, Mexico, eram outras equipes sempre presentes em nossos torneios, num intercâmbio valioso e fundamental. Mas a incúria de administrações até hoje presentes em nosso basquetebol, determinou o fim do sonho, nos impingindo essa dolorosa realidade que aí está. Uma pena, e um grande, enorme desperdício. Mas um dia melhora Gil, tem de melhorar. Um abração, Paulo.

  12. Michael 05.12.2010

    Caro Prof.

    Acho difícil que Divac e Kukoc também estivessem jogando com Drazen nessa viagem ao Brasil. Os dois são 4 anos mais novos que Drazen. Eles jogavam na Seleção da Yougoslavia com 13?

    Atenciosamente,

    Michael

  13. Basquete Brasil 05.12.2010

    Tem toda razão Michael, dentre os jogadores que deixei de mencionar um era o Cosic, e o tecnico ainda era o grande Novosel. São lapsos desculpáveis de memória, mas sempre contando com leitores atentos e informados como você. Obrigado. Paulo Mujrilo.

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