DISCUTINDO UMA ESCOLA…

  • ·  Rafael  Ontem

Prezado Dr.Murilo,
Sou um fã do Basquete, e quero vê-lo crescer e melhorar no Brasil. Com esse objetivo, me pergunto se o ENTB contribui ou não para que isso se torne realidade ? Pelo que vi até agora, ajuda, pois visa elevar o nível de jogo dos jogadores pela capacitação dos técnicos.

Não vejo sentido em ter uma variedade de sistemas que comprovadamente não tem a capacidade de produzir jogadores excelentes. No momento que o sistema em questão se mostrar ultrapassado, ou falhar em produzir jogadores de qualidade, pode se repensar o sistema, mas ser contrário a uma padronização que visa educar os treinadores a formar excelência em basquete(mesmo que nos moldes atuais não alcance isso) me parece não ter sentido. Qual o sentido de defender a “nossa vocação histórica pela prática diversificada e generalista, respeitando as regionalidades e a constituição multifacetada de nosso gentio” se isso não tem demonstrado bons resultados ?(Visto o tempo que faz que o Brasil não participa de uma olimpíada)! Por outro lado, os hermanos, com suas padronizações e sistemas, tem se tornado a potencia latino americana no Basquete. Não seria a questão de reconhecermos isso e, humildemente, aprendermos a lição ?

Esse comentário foi postado ontem na matéria Enfim discuti-se a ENTB/CBB…, postada em 24/01/2011, com uma colocação bastante interessante à discussão estabelecida pelo teor do artigo, e que deve refletir, sem dúvida alguma, o pensamento e posicionamento de muitos técnicos, professores e mesmo entusiastas do grande jogo.

Gostaria então de estabelecer algumas considerações a respeito, torcendo para que esse debate possa ter a continuidade que merece tão importante assunto para o estabelecimento de uma verdadeira Escola de Treinadores em nosso país, se é que ainda é possível.

Inicialmente, insisto na definição do enfoque generalista que deve ser estabelecido pelo professor em sua função de instruir e educar jovens, através das atividades físicas e do desporto, pois, antes de ser um técnico ele é um professor, que não pode e nem deve, se limitar a um modo, ou técnica unitária de ensino frente a um alunado cuja diversidade e experiências de vida transcende em muito tal limitação.

Situação econômica, família, limites sociais, excessos ou carências afetivas, saúde, alimentação, religiosidade, desvios físicos e morais, descaminhos, sonhos, são fatores que obrigam o professor a se aprofundar em diversificados estudos, que conotarão seu comportamento e conhecimento generalista de educação, tornando-o apto ao enfrentamento de tão instigantes  e desafiantes situações.

O mesmo ocorre, ou deveria ocorrer, no âmbito do ensino desportivo, face às mesmas situações acima descritas, por que passam todos aqueles jovens que se iniciam na aprendizagem de uma modalidade desportiva, principalmente o basquetebol, certamente a mais complexa dos desportos coletivos.

Se o ensino aprofundado dos fundamentos do jogo dota seus jovens executantes de boa técnica de execução, independendo se altos ou baixos, encorpados ou esguios, lentos ou rápidos, flexíveis ou rígidos, tornando-os detentores dos princípios de bem jogar, e por conseguinte aprender a amar o jogo, muito antes de serem entronizados em como jogá-lo taticamente, definem a qualidade do treinamento proposto, tornando-os aptos, para ai sim, assimilarem sistemas de jogo, que respeitem suas qualidades e individualidades, pela escolha dos mais adequados, e não direcioná-los a um sistema único, que na maioria das vezes beneficiará uns e depreciará outros, e que talvez a médio ou longo prazo, poderiam, por uma questão de ritmo diferenciado nos mecanismos das aprendizagens físicas e psicomotoras, se mostrarem mais habilidosos e talentosos do que aqueles mais beneficiados no inicio do processo.

E nesse ponto do raciocínio, devemos lembrar que a coercitiva padronização e formatação precoce de um sistema, que vem sendo imposta nos últimos vinte anos, em tudo contrasta com as gerações de grandes jogadores, tanto em quantidade e qualidade  que antecederam essas duas décadas, e que nos levaram a ser reconhecidos como a quarta maior força do basquete do século XX, fruto exatamente da diversidade de sistemas ensinados e aplicados às mesmas, numa prova mais do que inconteste do fracasso de tal conceito unicentrado.

Quanto aos hermanos, não podemos omitir a dura verdade de que, ao contrario de nosotros, nestas mesmas duas décadas, eles padronizaram somente a forma de ensinar os fundamentos, nunca os sistemas, e a prova disso é materializada em sua forma diferenciada de atuar na dupla armação, na utilização dinâmica de seus pivôs e da sofisticada técnica de seus alas, que são ações somente possíveis pela diversificação de sistemas que privilegiam o coletivismo, sem no entanto, prescindir da improvisação, e tudo isso na contra mão da adoção do sistema único no preparo de nossos jovens, cujos nefastos resultados colhemos até hoje.

A vinda do Magnano somente expôs com mais clareza essa nossa deficiência nos fundamentos do jogo, obrigando-o a dinamizar o sistema único que adotamos através da utilização do passing game, até o momento em que, talvez por sua própria influência, adotemos um ensino mais sério dos fundamentos, e quem sabe, a substituição do sistema único por algo mais fluido e inteligente.

Finalmente, torna-se inadmissível uma escola de futuros técnicos que professe a via única, que é o caminho dos medíocres e incapazes de criar, sequer improvisar, pois só improvisa quem domina integralmente sua atividade profissional, generalista e universal.

Enfim, só improvisa quem sabe.

Amém.



4 comentários

  1. Henrique Lima 18.09.2011

    Bela discussão.

    Professor, um dos maiores problemas da ENTB é o tempo de curso.

    Como se aprofundar em qualquer coisa em 36 horas ?

    Como mesclar um cursco nível I e nível III ao mesmo tempo ?

    Como realizar um curso nível I e não ter absolutamente NADA sobre o jogo escolar ?

    Aliás, eu acho bom ter a ENTB, acho que é um passo para frente, porém é necessário, ao meu ver, formar treinadores para a iniciação, num proceso que seja o melhor possível.

    Ao final deste ano poderei ser técnico nível I, tenho que realizar um trabalho ainda, é a parte à distância (que também acredito deva existir), porém as horas e os conteúdos para isso poderiam ser muito maiores, os encontros pelo menos dois por ano, com maior duração.

    Ser em um estilo de uma Pós-Graduação, algo em torno de 360 horas ou mais, para o nível I.

    Aí sim, acho que poderia explorar a quantidade de temas que vimos rapidamente e alguns apenas de passagem, em 36 horas.

    Um abraço

  2. Basquete Brasil 18.09.2011

    Mas Henrique, se em 36hs de curso itens básicos e fundamentais são pincelados, e outros tão ou mais importantes, como o jogo escolar, bem lembrado por você, inexiste, o que poderiamos esperar de conteúdo com dez vezes mais horas de curso, além do acréscimo proporcional nos pro laborem(?)do corpo docente fixo da escola?
    É mais um nicho exclusivo dentro da CBB, voltado à formatação e padronização do que consideram ser o futuro da modalidade, tendo como condição de sobrevivência de seus conceitos técnicos e didático pedagáogicos, o afastamento de toda e qualquer influência que discuta, conteste ou se anteponha ao seu monopólio de pretenso e unilateral saber. Reserva de mercado é isso ai, Henrique, lamentavelmente.
    Um abraço, Paulo.

  3. Rafael 18.09.2011

    Concordo, disciplina em excesso destrói a criatividade nos pontos em que ela é necessária. O que precisamos aprender com os hermanos é realmente levar a sério os fundamentos(esse é o ponto que parece precisar de disciplina).

    Grato pela elaborada resposta,

    Abraço,
    Rafael

  4. Basquete Brasil 19.09.2011

    Não só disciplina Rafael, mas conhecimento sólido e dominio das técnicas didatico pedagógicas para ensiná-los. Não serão poucas horas de escola que operarão o milagre de transformar iniciantes em técnicos da base, mas um longo e supervisionado treinamento teórico prático, que em nada se compara ao que tem sido feito pela ENTB, com sua superficialidade e falho planejamento.Muito teria de ser corrigido, mas não creio que o farão, infelizmente.
    Um abraço. Paulo Murilo.

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