A DURA E CRUEL REALIDADE…

Creio com convicção que muito do que se diz e se fala da educação em nosso país aí está retratada no mais definitivo argumento dessa realidade, a falência e conseqüente dilapidação de uma profissão sustentáculo das grandes nações deste desigual e injusto planeta, que encontra em nosso país o mais baixo índice salarial na escala de todas as carreiras básicas.

Nos últimos três anos que antecederam minha aposentadoria na Faculdade de Educação da UFRJ, lecionei Didática, Prática de Ensino e Tecnologia Educacional para alunos da Educação Física e da Pedagogia, sendo que para este segmento a maioria dos alunos era composta daqueles que não conseguiram acesso em cursos de Engenharia, Medicina, Odontologia, Economia e demais bem situados no plano da alta rentabilidade, optando pela Pedagogia como última oportunidade de alcançarem uma graduação universitária. Por conta disso a produtividade acadêmica destes alunos era de baixa qualidade, face ao desinteresse e à baixa estima que os assaltavam durante o curso. Era extremamente difícil mantê-los interessados e motivados a continuar os estudos, frente à alta incidência de reprovações e desistências.

Hoje acredito que aquele triste quadro tenha se avolumado, e que, face ao desestímulo de ordem salarial tenda a se agravar de forma definitiva tal realidade.

Hoje, quando nos deparamos com o acintoso despreparo de nossos técnicos desportivos advindos da universidade, e agravado por aqueles que a ela não pertenceram, e ao olharmos detidamente os gráficos que ilustram a reportagem, podemos de pronto avaliar o porquê da baixa qualidade do ensino no país, o mesmo país que ousa promover suntuosos e vultosos empreendimentos desportivos, sem ao menos ter e promover uma política nacional voltada a Educação, e conseqüente valorização das suas reservas intelectuais, seus professores.

Mantê-los na mais baixa escala salarial do país, confirma uma perversa política direcionada à manutenção de seu povo também abaixo de uma escala, na qual sua manipulação sócio política atende os mais altos interesses de uma classe política alinhada com outros interesses hegemônicos que nos esmagam e espoliam.

Em minhas turmas de Educação Física e da Pedagogia lembrava  que éramos o único país ocidental onde nem a esquerda e nem a direita desejavam o país educado. A direita, garantindo o poder pela ignorância do povo, a esquerda querendo-o mais ignorante ainda para usá-lo como massa de manobra para assumir o poder. E é exatamente o que vem ocorrendo com a ascensão da esquerda em nosso país, que após sua vitória adotou o lema direitista para se manter no poder. Um povo educado não se submeteria a uma escala de valores enumerada nessa reportagem, pois sequer elegeria esse tipo de governantes que se estabeleceram de forma tão rasteira. Duas gerações bem educadas e preparadas nos dariam uma outra dimensão de nacionalidade auto sustentável, e não escrava de bolsas disto e daquilo, pois não se deveria dar peixes a ninguém, e sim ensiná-los a pescar.

No microcosmo do desporto, situações que estamos vivendo em nosso basquetebol são o reflexo direto de tão dramática situação em que se encontra a educação no país, o preparo de nossos professores e o progressivo desinteresse dos alunos, fruto da vergonhosa e deprimente classificação postada na reportagem.

Fico muito triste com tudo isso, pois num dia do passado me senti um predestinado pela opção conscientemente tomada, a de ser um professor, um professor do meu país.

Amém.

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2 comentários

  1. Douglas 25.05.2012

    Olá, professor.

    Realmente, não há o que melhor comentar do que a explanação que o senhor fez sobre o assunto. Só tenho um porém: sou morador de São Paulo, atuo na área das ciências da computação, na parte de sistemas informatizados para gestão empresarial. Sinceramente, essa renda média de, aproximadamente, R$3,5 mil é dada a um iniciante na área. Acho realmente estranho esse número, já que conheço muitos que trabalham na área e até mesmo muitas consultoras de RH, especialistas em recrutamento e seleção, que normalmente negociam valores com os selecionados. Esses especialistas falaram que esse valor não é o real, pelo menos nas regiões que eles atuam, e cobrem uma boa parte do país, já que prestam serviços a várias empresas daqui e até de fora do país, levando brasileiros para atuação no exterior. Com toda certeza os professores são muito desvalorizados, mas gostaria de saber a fonte desses valores, já que parecem um pouco estranhos.

    Abraços, professor.

  2. Basquete Brasil 27.05.2012

    Prezado Douglas, seja qual for a origem e fidedignidade destes números, em qualquer escala e pesquisas feitas, os professores sempre ocuparão os últimos escalões da valorização profissional. Essa é a mais dolorosa verdade, que nos envergonha como país.
    Um abraço. Paulo Murilo.

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