FALANDO DE TÉCNICOS…

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José –  Enviado hoje

Sei lá Professor, não seria o caso de se procurar o melhor treinador na categoria sub19 para dirigir essa seleção? Já que os jogadores são dessa categoria, acho que não precisaria de um treinador do adulto e sem experiência com jovens.

            O leitor José postou esse comentário no último artigo, e que abre um bom leque de discussões, claro, se nos predispuséssemos a enveredar num cipoal de equívocos de tal ordem,  que dificilmente sairíamos com alguma conclusão, por mais simplória que fosse.

Porque não sairíamos com alguma conclusão, Paulo?

Porque tentar explicar corporativismo, ações entre amigos, trocas de interesses e favores, padronização e formatação de sistemas de jogo e de formação de técnicos (?) dentro de uma triste e repetitiva realidade, profundamente sedimentada no nosso basquetebol, parece, não, temos a mais absoluta certeza ser uma tarefa fadada ao sempre possível fracasso, frente a mesmice endêmica que se enraizou na modalidade, onde quaisquer resquícios de mudanças se perdem e anulam ante a vontade explicita de que seja mantido o que ai está, aspecto garantidor de um mercado de trabalho beneficiário de seus membros.

Mesmo assim, lutar contra tal realidade torna-se absolutamente necessário, apesar de inglório, pois mesmo que marginal, posicionamentos antagônicos à mesma poderão reverter em longo prazo um cenário que tem levado o grande jogo ao estado de penúria técnica e tática que vem se estabelecendo de muito, e que merece uma oportunidade de se reerguer através posicionamentos diametralmente  opostos ao que foi coercitivamente implantado.

Então Paulo, dentre tantas deficiências, quais aquelas que justificam esse estado pré-falimentar?

Jornalistas de diversas origens, quase que unanimemente conotam as péssimas administrações junto à CBB como o fator preponderante na situação que se estabeleceu no âmbito do basquetebol, num posicionamento que discordo com veemência, pois o problema que nos atinge, antes de ser administrativo, é basicamente técnico, pois desde sempre tivemos bons e maus dirigentes, boas e más administrações, mas tínhamos bons professores e melhores técnicos, que ao sabor das políticas vigentes à época, sabiam manter a formação e a direção eficiente de equipes num alto nível, produto de um tempo em que a ajuda fraterna, o estudo compartilhado e a divulgação democrática dos saberes faziam o grande jogo se manter na dianteira do desporto nacional, chegando bravamente a ser considerada a segunda modalidade mais querida e apoiada pelo povo brasileiro, e sem um quinto das verbas hoje existentes, porém esbanjadas irresponsavelmente.

Uma criminosa e pretensiosa fusão política, que transformou o segundo estado mais rico e influente da nação, o estado da Guanabara, num município pobre e problemático, catapultou para baixo o tradicional e histórico confronto com os demais estados, principalmente com São Paulo, deixando-o quase que solitariamente na liderança do grande jogo, propiciando o unilateralismo técnico tático que sob alguns aspectos se mantêm até os dias de hoje.

E de repente, uma saudável rivalidade dentro das quadras, com suas multiplicidades em sistemas de treinamento, preparação, formação e táticas de jogo se viu sob o manto de um dominante centrismo que desencadeou a implementação de um sistema único copiado, e mal, do basquete profissional americano, que mergulhou o grande jogo na mesmice endêmica, robustecida por uma das mais devastadoras síndromes técnicas, a ditadura do jogo externo, através a inesgotável e torrencial hemorragia dos arremessos de três, que nos corroei e diminui ante o basquete internacional.

Logo, com a dissociação dos nossos técnicos, onde uns poucos se constituíram em um circulo fechado, dominando o centro decisório e de comando da estrutura técnica do jogo nos últimos vinte e poucos anos, e mais recentemente liderando as metodologias no preparo dos futuros técnicos junto a ENTB, mergulhou a modalidade em uma espiral descendente, inclusive no nível sul e centro americano, perdendo sua hegemonia para argentinos e mais recentemente ameaçada por países, antes normalmente derrotados por nós.

Atualmente, apesar do relativo e ainda indeciso sucesso da LNB, ante o fracasso técnico administrativo de uma CBB eivada de incompetência, o basquetebol se mantêm manietado e enclausurado numa forma unilateral de ver e fazer o jogo fluir, como se existisse somente o que implantaram, mantêm e divulgam aos novos técnicos, um sistema único de jogo que desde sempre combati e continuo combatendo em nome da diversidade e da criatividade perdidas ao longo do tempo, em nome de uma liderança centrada nos “estrategistas” que teimam em poluir e entravar o futuro do grande jogo entre nós.

Clamo e sempre clamarei ser a atual liderança entre os técnicos ditos da elite, como a responsável pela falência do grande jogo no país, e os resultados internacionais nas divisões de base ai estão para comprovar tão grave situação (vide o excelente artigo do Fabio Balassiano em seu blog, onde relata os resultados de nossas seleções de base nas competições internacionais), confirmando o acima exposto, pois dirigentes ruins e administrações piores  ainda sempre existiram em nosso viciado meio, mas que nunca foram e jamais irão às quadras preparar e treinar jogadores, bastando ver a composição de componentes comissionados em seleções nacionais que se igualam em numero ao de jogadores, e até mais, todos envolvidos numa forma de agir, e que mal ou bem tem tido a oportunidade de treinarem os jovens talentos do país, da forma mais canhestra e simplória possível, já que atrelados a formatações e padronizações egressas das lideranças da elite, a mesma que desde sempre faz parte do corpo docente e organizacional da ENTB nos cursos de formação (?) de técnicos em 4 dias, numa cruzada simplesmente absurda, continuísta e coercitiva, sem em momento algum liderar, como deveria se séria fosse, um movimento que congregasse os demais técnicos, muitos dos quais mestres na arte do treinamento, para participarem na elaboração de uma política que englobasse metodologias e didáticas de ensino e aprendizagem, espalhados que estão nesse imenso país, com suas regionalidades e especifico gentio, e que no final das contas resultaria no associativismo tão clamado pela comunidade basqueteira, mas que ao resultar na capilarização e pulverização das  informações técnicas nos mais distantes e carentes quadrantes do país, sem duvida alguma colocaria em cheque o centrismo e domínio de tal liderança, originando aquele fator que nos falta, que nos tiraria dessa tirania técnico tática, que nos alforriaria dos grilhões de um corporativismo cruel e profundamente egoísta, uma autêntica, forte e independente Associação Nacional de Técnicos, que congregaria suas congêneres estaduais, e seria a lídima representante classista, responsável direta pelas diretrizes sócio desportivas que direcionariam o soerguimento do grande jogo ao seu devido e imorredouro lugar no cenário nacional.

Para o mês, o Prof. José Curado, presidente da Associação das Associações de treinadores de Portugal, e também Secretário da Associação Internacional de Treinadores, virá ao Brasil, e pela enésima vez direi a ele da impossibilidade de nos filiarmos a tão importante entidade, porque simples e vergonhosamente, não temos uma associação nacional, muito menos congêneres estaduais, pois a elite que governa e define o basquetebol no Brasil, não tem interesse em participar de tais movimentos, sequer promovê-los como jamais o fizeram, com duas honrosas exceções, a ANATEBA em 1971, e a ABRASTEBA em 1976, ambas idealizadas por mim e dirigidas por técnicos e professores profundamente engajados e compromissados com o grande jogo, mais tarde anuladas pela pesada ingerência da CBB nas mesmas, decretando suas liquidações, pois afinal de contas como está deverá continuar, mantendo garantido e sob controle o nicho de trabalho tão dura e politicamente conquistados. É uma pena, mas é a dura realidade. Vida que segue sem que culpemos tão somente os dirigentes que repito, não serem aqueles que vão para dentro das quadras iniciarem, desenvolverem e treinarem nossa juventude desportiva, claro, exceto os sempre presentes e decisivos estrategistas de plantão, que põem para jogar o que temos egressos da formação, que como sabemos, reflete o que ai está, escancarado para quem quiser (ou não) ver e avaliar, seja sob o prisma dirigente, seja pela ótica técnica.

Amém.

Foto – Professores Paulo Murilo e José Curado em Lisboa, quando do III Congresso Mundial de Treinadores da Língua Portuguesa, onde proferi a conferência de abertura do mesmo. Clique na mesma para ampliá-la.

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2 comentários

  1. Jose 07.07.2013

    É Professor nem associação de técnicos e nem de atletas, dificultam ao máximo tal associações.
    Fico imaginando após as olimpíadas, quando as torneiras se fecharem como será.
    Muito bom o texto, parabéns.

  2. Basquete Brasil 07.07.2013

    As torneiras vão se fechar bem antes, prezado José, pelo menos as da técnica e da criatividade, mantendo-se aberta a das verbas nababescas para usufruto da turma que se instalou na modalidade, e que não está nem ai para 2016, na medida em que as mordomias sejam mantidas. Muito triste. Um abraço, Paulo Murilo.

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