UMA ESCATOLÓGICA DECISÃO PELA LANTERNA…

david_jackson

Foi algo indescritível num momento decisivo do jogo, quando um atacante vascaíno irrompe poderoso pelo garrafão, absolutamente livre e, numa subida majestosa para a consagradora enterrada leva um toco de aro acachapante, originando um rebote de meio de quadra para o armador botafoguense, que investindo para o contra ataque serve seu pivô que em alta velocidade arremete para retribuir a enterrada anterior, e como aquela, também leva um toco de aro arrepiante e absolutamente lamentável, numa sucessão de indesculpáveis erros nessa divisão de elite (?), mas que de imediato recebem a aprovação do comentarista televisivo, que ainda complementa sua prestação defendendo o abaixamento do aro para os jogos femininos, a fim de que a “emoção máxima do jogo” (opinião dele…) estivesse ao alcance das jogadoras, que por serem mulheres saltam menos, em sua concepção. Engraçado que já se estuda na NCAA a elevação do aro, a fim de que as técnicas de arremesso voltem a ser desenvolvidas e aplicadas, pois enterrada é a antítese das mesmas, queiram ou não nossos colonizados especialistas tupiniquins…

Foi um jogo horrendo, centrado na atuação dos americanos encerando a quadra de uma lado ao outro, na procura de um brechinha para forçar suas individualidades, onde sistemas de jogo ofensivo passavam a léguas do que imaginaram seus estrategistas nos garranchos apostos nas indefectíveis pranchetas, sob o soslaio indiferente da turma lá de cima, que em nada por nada jamais se entregará aos caprichos sem tradução de seus comandantes (?). Era um enfrentamento algo equilibrado de americanos contra americanos, até o momento que o melhor do lado botafoguense se machucou, saindo da refrega, dando aos vascaínos a vantagem que faltava, mesmo sob a saraivada de bolinhas de três (8/30 com 13/31 de dois pontos), numa convergência que desmentia ser a equipe lanterna do campeonato a de melhor defesa da competição, que mesmo optando pelo jogo interno (foram 20/34 de dois e 5/21 de três), viram seu esforço ofensivo se perder com um 13/25 nos lances livres, contra 22/30 de seu adversário…

Uma equipe, que incoerentemente é reconhecida como a melhor defensora e segue na lanterna da competição, só pode ostentar uma única explicação, a ausência absoluta de um sistema organizado de jogo, assim como uma maior ainda ausência de fundamentação individual e coletiva, prato mais do que bem vindo a americanos bem mais versados, mesmo sendo de terceira ou quarta linha, que dominam as mesmas com razoável técnica e conhecimento, se comparados com a nossa incompetência nos fundamentos mais básicos do jogo…

Enfim, essa é a realidade que nos tem sido imposta, em que tudo que beneficie o espetáculo é permitido, a começar pela padronização e formatação do modelo técnico tático que aí está, onde a mesmice impera soberana, servindo de base facilitadora na formação de equipes, pelo relacionamento padrão entre técnicos e jogadores, com imediata assimilação de sistemas comuns a todas as franquias, variando somente quanto aos mais nominados jogadores, na maioria das vezes produtos de um bem realizado projeto mercadológico, bem acima do real posicionamento técnico dos mesmos, deixando de lado muitos bons jogadores desamparados pelo marketing vigente. Some-se a tudo isto toda uma publicidade voltada ao “público consumidor”, na forma de lazer e diversão copiada de uma NBA, que é produto de uma outra realidade sócio econômica desportiva, que não encontra quaisquer resquícios no âmago da nossa, a não ser o proposital esquecimento e alheamento na forma de ver e jogar o grande jogo, esquecida e aviltada através a canhestra e covarde cópia de uma matriz antítese da nossa, e cujo maior interesse é o econômico, e nada mais…

Escrevi e publiquei muitos artigos sobre este “interesse” nesse humilde blog,  que parecem inócuos até os dias de hoje, mas que continuarei publicando, como um solitário e indignado alerta sobre o absurdo que representa tanto interesse assim, mas claro, sendo mantido o status quo técnico e tático que apoiam, opostos aos que deveríamos estabelecer na busca de nossa identidade perdida, mas tão do agrado e aceitação do corporativismo mafioso beneficiário que nos esmaga e humilha…

Começam a tardar as reformas prometidas pela nova administração da CBB no que concerne aos novos rumos técnicos que deveríamos trilhar, principal e estrategicamente na formação dos novos técnicos e reformulação dos existentes, ações estas que se proteladas nos manterão neste inescrutável limbo, muito bem exemplificado pelo jogo que comentei nesse artigo, e de muitos outros que se sucederão daqui para um futuro que prevejo nada positivo, a começar pela formação de base, que emula sofregamente o que assiste na elite, cujos exemplos são aterradores…

Que os deuses, em sua infinita paciência e sabedoria inspire algo de novo e arejado em nosso tão maltratado basquetebol.

Amém.

Foto – Divulgação LNB. Clique duplamente na mesma para ampliá-la



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