MOTTA…

No jogo de véspera contra o Uruguai, tecí sérias críticas ao sistema padronizado e formatado como jogam nossas seleções e a maioria quase absoluta das equipes nacionais, de todas as categorias, desde a formação a elite, num sistema único implantado pela NBA, do qual nos tornamos utentes vitalícios, e que combato de forma persistente aqui neste humilde blog, e dentro das quadras quando me oportunizaram equipes para treinar, sempre com resultados surpreendentes para muitos que somente conhecem o grande jogo pelo viés equivocado do insidioso sistema…

A seleção sub 15 masculina, não fugiu do modelo estruturado e implantado coercivamente desde sempre, que por conta deste enraizado vício vem nossa base perdendo, ano após ano, a liderança sul americana, pois o mesmo prioriza jogadas rigidamente armadas, comandadas de fora para dentro da quadra, e induzidas através pranchetas avidamente rabiscadas pelos estrategistas de plantão, rigidamente preocupados com a consecução do mesmo, do que o preparo vital nos fundamentos básicos do jogo, viabilizador de todo e qualquer sistema ofensivo e defensivo que se pretenda desenvolver, ousando ainda afirmar que uma equipe bem preparada e estruturada nos fundamentos individuais e coletivos, principalmente nas formações de base, sempre levará vantagem sobre qualquer outra que se sinta preparada somente com sistemas de passo marcado, inclusive se tratando mesmo de seleções, municipais, estaduais e nacionais…

Perderam para o Uruguai exatamente por isso, quando os orientais se impuseram pela qualidade nos fundamentos de dois de seus principais jogadores, principalmente nos arremessos médios e longos, enquanto nos perdíamos enredados em esquemas falhos no ataque e na defesa, situando nossos melhores jogadores afastados do perímetro interno fustigados pela intensa defesa uruguaia…

No jogo de ontem, contra uma equipe com preparo fundamental superior a nossa, mais alta inclusive, e com duplas de armadores potentes, iniciamos o jogo ferindo-os no seu âmago defensivo através a “soltura” (pessoal ou autorizada) de três jogadores, Rodolfo, Leoni e Felipe Motta, com seus afiados e ousados fundamentos de drible, fintas, passes e arremessos, somados a acentuada melhoria no sistema defensivo individual da equipe em seu todo, para dominar os portenhos nos dois primeiros quartos, arrefecer no terceiro, e, por conta de um desgaste físico da trinca, exigida ao máximo para a sua idade (Rodolfo atuou por 42:43 min e Motta por 39:47), permitir o empate no tempo normal, provocando uma extenuante prorrogação vencida com méritos e muito sacrifício, qualificando-se para a grande final de hoje contra a única equipe que a venceu na classificação, e donos da casa…

Neste cenário cabe uma reflexão, importante e sensível reflexão, na jovem e impactante figura de um jogador singular, ainda não desenvolvido em seus segmentos físicos e articulares, parecendo desengonçado em alguns movimentos, ao correr, ao se deslocar lateralmente, tropeçando às vezes em seus enormes calçados, com um TOC perceptível na preocupação constante com seu calção, porém magnífico quando de posse da bola, espaçando suas pernas numa vasta superfície impossível de ser coberta por seu marcador, nos seus giros velozes e incisivos, liberando-o para os tão esquecidos DPJ´s, bandejas ambidestras, libertando-se lateralmente para um longo arremesso do alto de seus 1,97 m de adolescente altura, que facilmente chegará acima dos 2,05 m, driblando com desenvoltura mesmo preso às draconianas exigências do sistema em que está inserido, acredito inclusive que em sua equipe italiana também, pois seu comportamento assinala para essa constatação, precisando aprimorar as fintas com e sem bola, a variação de velocidade nos corta luzes e bloqueios, e principalmente a leitura mais incisiva de jogo, somente possível quando for exigido por outros sistemas e forma de atuar, e claro, defender com a clarividência daqueles que se conhecem no terreno de jogo, com seus atalhos e maneios, projetando-os em seus eventuais oponentes…

Na breve conversa que tive com ele no ginásio dos Afonsos onde treinava, disse-me que ainda necessitava melhorar muito na defesa e no preparo físico, ficar mais forte e resistente. Bem, no duro e viril jogo de ontem contra os argentinos, ele jogou por quase 40 minutos, desgastantes, marcou 28 pontos (8/14 de 2 pontos, 2/5 de 3 e 6/10 de lances livres), pegou 11 rebotes (3/8), deu 2 assistências, perdeu 3 bolas e assinalou 25 pontos de eficiência, sendo a arma exponencial de sua equipe, logo, forte e resistente para a sua idade, condição esta que se aprimorará com o passar dos anos, naturalmente até os 17/8 anos, quando suas epífises ósseas se solidificarão, para aí sim, e se desejar, adquirir massa muscular adequada ao seu posicionamento e evolução em quadra, basicamente optar pela armação como parece se destinar pelo talento e desenvoltura. Não faltarão “candidatos fisio não sei lá das quantas” prontos para “transformá-lo” em super e velocíssimo atleta, saltador reboteiro inigualável, trombador massificado, entre outras mais valências “cientificamente comprovadas”, como aos montes que aí estão pululando em equipes com suas equivocadas prestações, que passam a muitas léguas de um verdadeiro e cerebral jogador ( Bird e Bodiroga que o digam…), firme e lógico nos fundamentos, lúcido nos arremessos, e generoso com seus companheiros, vencendo ou perdendo…

Sugiro veementemente que invista no preparo fundamental, com critério e insistência, orientado por bons professores, ou mesmo sozinho enfrentando suas dúvidas, descobrindo-se sempre, aberto ao novo embasado nos antigos, diversificando seu preparo com os estudos, as artes, o rítmo (tão importante nos tempos de fintas e ocupação dos espaços), a uma outra atividade desportiva complementar, que ajude na coordenação motora, no trabalho grupal (o remo é magistral nesse campo), quem sabe um instrumento musical, afinando-se na compreensão do improviso, que é um dos sustentáculos da criatividade, pois “só improvisa quem sabe, quem domina seu instrumento de trabalho”, que no caso do grande jogo é aquele algo volúvel e instável que atrapalha tantos “jogadores”, a bola…

Enfim, Felipe Motta é uma grata surprêsa/realidade que tive o imenso prazer de conhecer pessoalmente, e assistir jogando pela TV, sabedor de seu singular DNA esportivo, na figura de seu avô, a quem iniciei no basquetebol, e seu pai, excelente jogador, técnico e hoje descobridor de talentos para a NBA na Europa.

Torço para que alcance o sucesso por que tanto luta e persevera, pelo seu inegável talento e qualidade humana de que é possuído, não importando o resultado do jogo de daqui a pouco, pois muito bem sei e prevejo com segurança o promissor futuro que o aguarda, bastando querer de verdade e trabalhar arduamente por ele, incondicionalmente…

Amém.

Fotos- Reproduções da Internet (Fiba Americas). Clique duplamente nas mesmas para ampliá-las.



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