SEGUINDO EM FRENTE…

Paulo, com tantos jogos emocionantes no NBB, finais de tirar o fôlego, cestas decisivas de três, enterradas animais, duplos duplos em profusão, jogadas mirabolantes, narradores empolgados e criativos, comentaristas caudais e prolixos, onde conhecer o jogo não é tão importante quanto as postagens no twitter dos telespectadores, os infindáveis abraços e beijos retribuídos dos mesmos, além é claro, das piadas de péssimo gosto destiladas a granel pelos microfones, tudo isso em stereo e a cores, pergunto, como você se ausenta deste magnífico proscênio do mais alto nível desportivo, como, e porque?…

Primeiro, porque amo o grande jogo, dediquei muitos anos de minha vida a ele, e por conseguinte, lastimo e odeio vê-lo tão achincalhado, travestido de “produto de primeira linha”, com “peças” do mais alto nível (?) desfilando um jogo medíocre e primário, no caso da esmagadora maioria dos nacionais, além da enganação e empáfia da maioria dos estrangeiros que só tem um ponto a ser valorizado, o de mandar às favas todas as incursões de seus estrategistas na formulação enganosa de jogadas “exaustivamente treinadas” em suas “pranchetas de ofício”, liberando-os para fazer e jogar como bem entenderem, na contramão dos nacionais, cúmplices e coniventes com a mesmice endêmica em que se encontram ad eternum, com raríssimas exceções…

Segundo, porque ainda não perdi de vez a esperança de vê-lo se soerguer da mixórdia em que se encontra, dosando ao máximo pareceres a respeito como professor e técnico que sou, e não um neófito torcedor vítima de tanta empulhação técnico tática, canhestramente mal copiada da matriz, sem ter 1/1000 avos do poder econômico, social e administrativo da mesma, mas que mesmo perante tanta discrepância, é vendido como algo especial por uma mídia mais deslumbrada pela NBA e sua luxuosa embalagem, sonhando um sonho impossível para a nossa dura realidade, do que expor com clareza e honestidade (às vezes, uns poucos, escorregam e mostram a realidade…) o que deveria ser dito e comentado para o bem do nosso combalido basquetebol, através o objetivo e embasado esclarecimento do que realmente ocorre nas quadras, dentro e fora; da formação de base a decantada elite, e não o dourando com apelos ufanistas, como o “esse é o NBB que vocês nunca viram”, sem especificar um mínimo de conhecimento do que realmente ocorre no campo de jogo, com média de 26,6 erros de fundamentos; de 40 a 50 erros nos lançamentos de três num “chega e chuta” descomunal; troca do real sentido defensivo por “faltas técnicas inteligentes” (aquelas cometidas para travar os contra ataques do adversário); ataque “aberto” com a única finalidade dos arremessos de três, ou uma esporádica penetração em velocidade, que é um recurso muito utilizado por jogadores com pouco domínio ambidestro no drible e na troca de mãos; a quase absoluta ausência de contestação defensiva aos longos arremessos fora do perímetro (fator primordial na disseminação da chutação de três), assim como o pleno desconhecimento do que seja defender no 1 x 1 dentro do mesmo; o primarismo tanto ofensivo, como defensivo nos bloqueios, corta luzes e cruzamentos, fundamentos coletivos que são; a cansativa e inócua coreografia dos estrategistas ao lado das quadras, acompanhada pela explícita coerção sobre as arbitragens, que de forma alguma fazem parte do trabalho “natural” daqueles profissionais, num corolário do que não se deve fazer no âmbito do grande jogo, cuja grandeza é minimizada in extremis perante tanta ignorância e absoluta falta de bom senso, porém pródiga em exposição marqueteira e autopromoção, ao pleno gosto e aprovação da mídia especializada e da direção administrativa das franquias…

Por todo este cenário, fica bem clara a influência negativa sobre os jovens que se iniciam no grande jogo, num espelhamento completamente equivocado para seu desenvolvimento técnico, físico e psicológico, ao emular os péssimos exemplos que lhes são apresentados na teoria e na prática, e o pior, com a aprovação e incentivo de técnicos despreparados e coniventes com as “filosofias” emanadas da elite…

Vários ciclos olímpicos já foram perdidos, inclusive aquele jogado aqui em 2016, todos fartamente alertados por aqueles que realmente conhecem basquetebol, o desporto em seu todo, resultante da mais completa ausência de uma política nacional voltada à educação formal, artística, desportiva e cultural neste imenso, desigual e injusto país, oportunizando desvios monumentais de verbas, ainda não investigadas a fundo, como deveria sê-lo, por aventureiros desonestos travestidos de cultores de um progresso, que só a eles beneficiou com fortunas colossais, deixando para trás a imensidão de elefantes brancos inoperáveis e terrivelmente vazios, numa tétrica repetição que parece não ter fim…

Agora mesmo discute-se na mídia as mais avançadas técnicas de ensino, formuladas através processos cibernéticos, computacionais e até robóticos, claro, tendo como fundo balizador o interesse das indústrias globalizadas que as patrocinam, num país que sequer promove, auxilia e remunera decentemente seus professores, que tentam trabalhar em escolas decadentes e destruídas, sem um mínimo de segurança estrutural, física e econômica, onde em 80% delas inexistem quadras esportivas, piscinas e espaços artísticos, culturais, e pasmem, bibliotecas! Recentemente quis doar uma bem formada biblioteca que serviu de base para meus filhos para uma escola primária perto daqui de casa, que não a aceitou por não possuir espaço para alojá-la, assim como numa recente ida a EEFD/UFRJ, perguntei onde era a biblioteca, sendo informado que não existia, mas que livros do assunto poderiam ser encontrados na biblioteca do CCS a um quilômetro dali! Simplesmente não acreditei, mas sobrava espaço no ginásio de desportos coletivos para armar barracas de campismo para um evento de estudantes, aniquilando o piso especial daquele recinto desportivo…

Enquanto isso, o NBB11 vai de vento em popa com seus emocionantes jogos, que servirão de base para as convocações do Petrovic para o Mundial da China em outubro, mas sem antes fazer uma visita protocolar aos Estados Unidos para conversar com o Felício do Bulls, o Raul do Jazz e o Caboclo do Toronto, perá lá, o Caboclo que recentemente se negou a entrar em quadra num jogo de seleção brasileira, um jogador de NBA, adulto, vacinado e que vota, numa negativa em que se tratando de uma seleção nacional não tem volta? Conversar o que? Quanto aos outros dois, que sequer jogam mais do que 5 min, quando jogam, por suas equipes, transacionar o que? Façam chegar a eles a convocação (a internet hoje é de ação imediata) e o resto é com eles, ou não?…

Por fim, fico imaginando como ser ainda possível que uma equipe perca para uma outra arremessando 20/42 de 2 pontos e 7/18 de 3, com o adversário lançando 22/30 e 11/28 respectivamente, com ambas perdendo 4 lances livres cada, e cometendo 17/14 erros de fundamentos, ou seja, a equipe perdedora arremessou 12 bolas a mais dentro do perímetro, e permitiu que a vencedora arremessasse 10 a mais de fora sem as fundamentais contestações? Ainda se “paga para ver” na nossa “elite”. O jogo? Franca 93 x 78 Pinheiros…

O mesmo poderíamos dizer do jogo Botafogo 67 x 73 Flamengo, quando os botafoguenses arremessaram 19/40 de 2 pontos e 7/29 de 3, enquanto os rubro negros lançaram 13/25 e 10/28 respectivamente, com ambos perdendo 3 e 4 lances livres, e com 5/21 erros de fundamentos, ou seja, o Flamengo errou muitos mais fundamentos, convergiu nos arremessos, chutando mais de 3 do que 2 pontos, e mesmo assim venceu o jogo por 6 pontos. Com uma continha básica, primária mesmo, bastaria os jogadores do Botafogo serem instruídos a substituir 3 ou 4 tentativas das 22 de 3 perdidas por arremessos de 2 e possíveis lances livres, para vencer o jogo, ficando faltando somente, o que? Creio que a resposta é mais do que óbvia, ou não?

Sigo trabalhando meu livro (será que sai até novembro, nos meus 80 anos?), e se paciência tiver (minha ranzinzice a tenho desde muito jovem…) ligarei a TV para a dolorosa penitência de assistir jogos mal jogados tecnicamente (todas as equipes ainda não sabem como atacar uma defesa zonal, o que é lamentável e constrangedor), terrivelmente transmitidos, onde até moçoilas destilam inescrutáveis conhecimentos técnicos sobre algo que nem sabem em que se baseiam (porém simpáticas e falantes, o que “valoriza” as transmissões). Pobre grande jogo tupiniquim, com narradores que teimam e lutam para trazer para as quadras o ambiente futebolístico com seus urros ufanistas, ecoando ginásios afora pela ausência de público, comentaristas em sua maioria mais preocupados com gossips do que um mínimo de técnica e tática de jogo, tornando ínfima a participação daqueles poucos que realmente o entendem, sem o caudal e a prolixidade característica de muitos outros, toda uma realidade que em nada auxilia os esforços, que acredito existentes, de um estrangeiro que tenta incutir mais seriedade a uma seleção, cujos jogadores refletem com precisão todo esse processo descrito, e que não será nada fácil mudar suas concepções de jogo, formatado e padronizado por anos e anos de estrada, desde suas formações numa base profundamente equivocada…

Mesmo assim, torço para que ele acerte e consiga razoavelmente mudá-los, sem concessões, a começar pelo respeito a tradição, a camisa nacional, prêmio maior e objetivo sonhado por todo jovem iniciante no desporto, que em hipótese alguma pode ser maculada, negada e esquecida, no que deveria, obrigatoriamente, ser um caminho sem volta, para todos aqueles que esquecerem e negarem seu indelével primado…

Amém.

Fotos – Reprodução da TV, arquivo pessoal, e divulgação CBB. Clique nas mesmas duplamente para ampliá-las.



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