FORMANDO E FORMULANDO UMA BASE SUSTENTÁVEL…

Tentei pacientemente assistir a decisão do sul americano feminino sub 14, cuja transmissão pela internet anulou, pela péssima qualidade, uma análise mais detalhada, culminando com a minha desistência ante uma imagem congelada persistentemente na tela do computador…

Nenhuma estatística foi veiculada, porém, dentre imagens ativas e paradas, pude pescar no intervalo entre o segundo e terceiro quartos, um muito bom comentário, que salvo engano, foi do técnico da seleção uruguaia, convidado pela produção televisiva a fazê-lo, e do qual enumero algumas de suas observações – ” Sem dúvida alguma, pelo que vimos nesse torneio, a seleção brasileira jogou somente pelo resultado, vide sua permanente defesa por zona, e contando com altíssimas jogadoras, como uma pivô de 1,98m, fisicamente forte e coordenada para seus 14 anos, além de mais duas perto de sua estatura, vencendo os jogos junto às tabelas ofensiva e nos rebotes, defendendo mal no 1 x 1, contra equipes muito mais baixas, porém mais fundamentadas, num processo de formação visando o futuro de jogadoras mais técnicas para as seleções de mais idade, sem o imediatismo enganoso de resultados fora do processo evolutivo de uma formação de base voltada às técnicas fundamentais. Pensamos nós, técnicos participantes, que devemos nos orientar seriamente na formação de jogadoras bem fundamentadas para o futuro do basquetebol sul americano, e não só irmos em busca de resultados imediatos, como vimos na seleção brasileira, com um material humano fora do comum, porém carente de uma base sólida nos fundamentos do jogo”…

Tal comentário se encaixa e explica com perfeição uma realidade do nosso basquetebol que venho expondo a muitos anos, bem antes da existência desse humilde blog, quando fiz parte ativa de uma geração de excelentes técnicos e professores formadores de bem fundamentados jogadores, desde a formação de base, muitos dos quais alcançaram seleções estaduais e nacionais, sem no entanto, a maioria daqueles profissionais conquistarem um quinto dos títulos da geração que os sucederam, principalmente em São Paulo, nas divisões iniciais, exatamente se utilizando de defesas zonais e pivôs desproporcionais à realidade de seus concorrentes, escolhidas nas famosas “peneiras”, e cuja maioria se perdeu pelo caminho, exatamente pela pobreza de sua formação nos fundamentos do jogo, alimentando  currículos abarrotados e “vencedores”, porém sendo mal formados e lamentavelmente perdedores nas divisões superiores, e o pior, inferiorizando aqueles poucos que alcançaram as seleções nacionais, apesar de galardoados prematuramente, frente a seleções de países que buscaram uma formação de base sólida, em vez de vencedoras fora do tempo de aprendizagem e maturação gradual…

Sem a menor dúvida é este o grande problema do nosso basquetebol, masculino e feminino, a falta de uma boa e competente formação na base da pirâmide, sem a qual nenhum conceito técnico de jogo, por mais simples que seja, alcança um patamar razoável frente a países voltados a excelência nos fundamentos, vide a atual e incessante busca de armadores(as) argentinos (as) para nossas equipes das ligas maiores, como vimos nesse sul americano, mesmo perdedoras para nossas torres e defesa por zona, mas antevendo-as como futuros talentos na posição, assim como todas aquelas que, na árdua prática da defesa individual, são preparadas para o superior desenvolvimento de sistemas confiáveis de defesa, muitos pontos acima de uma permanente defesa zonal obrigando suas adversárias aos longos arremessos, muitos dos quais sequer alcançavam o aro, em se tratando de jovens com 13/14 anos, ainda não dispondo de potência muscular  para tentá-los com algum sucesso..

Venceram a competição, alcançaram o resultado pretendido, porém, foi tão sonhada conquista resultado de uma formação realista de base?  Obviamente que não, mas o que parece importar nesse triste momento por que passa o basquetebol brasileiro são resultados, ao preço que for, não importando os meios, os erros, as falhas, o imediatismo, desde que vença, e ponto final. Por essa ótica, aplausos as campeãs, porém pelo critério formativo de qualidade, visando o futuro de nossas seleções adultas, onde o saber atacar e defender é arduamente forjado desde a base, ficam as dúvidas, sérias dúvidas sobre o futuro dessas jovens, formatadas e padronizadas numa “filosofia” de jogo defensivo zonal, apostando na elevada estatura de algumas de suas jogadoras (mesmo sem a mínima fundamentação básica), e ofensivo lançando-as como postes fixos próximas à cesta, sem qualquer oposição defensiva, porém errando passes, dribles, arremessos em demasia, contra equipes com melhores fundamentos, porém não tão altas, fator que estará presente mais adiante quando enfrentarem equipes europeias e americanas do mesmo porte físico e melhores fundamentos, que é o que fatalmente ocorrerá, como vem ocorrendo de muitos anos para cá, pela negligência no ensino competente dos mesmos nas equipes municipais e regionais, e nas seleções de base, porém agregando títulos aos currículos de técnicos, exatamente por aplicarem defesas zonais e postes gigantescos próximos a cesta nas divisões iniciais, buscando-os avidamente e pouco ou nada ensinando os fundamentos básicos do jogo, importando tão somente sua projeção profissional na escalada para as divisões adultas, pulando as fundamentais etapas do amadurecimento técnico, escorados em seus currículos vencedores e multi campeões, sendo, inclusive e injustamente, premiados com a direção de seleções nacionais de base.  É o que vem acontecendo desde sempre, com os óbvios resultados alcançados, quando um ou outro brilhareco, com o aporte de um ou outro talentoso jogador não aqui formado, justifica a regra geral, hedionda e profundamente injusta com os jovens iniciantes, assim como para com aqueles professores e técnicos realmente formadores, experientes, e muito bem estruturados, porém sem o midiático appeal do pétreo corporativismo vigente, que conta e se estabelece com o mais deslavado QI, fundamentado no escambo e troca de interesses político esportivos, fator inamovível neste imenso, desigual e injusto país…

Parabenizo as jovens e vencedoras jogadoras pelo título alcançado, e quanto ao comando técnico, comungo com a opinião do técnico uruguaio, acima mencionado, questionando quantas das integrantes de todas as equipes irmanadas na foto, ascenderão técnica e taticamente no cenário do basquetebol sul americano, estando seriamente preocupado com as nossas jogadoras, que jamais atingirão um patamar razoável defendendo zona como padrão defensivo, e sendo a elas negada uma sólida, competente e razoável formação de base, onde os fundamentos do grande jogo sejam e componham o alicerce de todas elas, principalmente nas seleções nacionais…

Gostaria que algo de inovador, imaginativo e criativo acontecesse na nossa formação de base, com professores e técnicos melhor formados, estudiosos, pesquisadores, e acima de tudo conscientes de sua real importância na formação de base de nossos jovens, onde o amor pelo esporte, pelo basquetebol seja a eles transmitido, assim como o ferramental necessário a sua prática, os fundamentos, transcendendo a titulação forçada, priorizando o ensino responsável e competente, fatores decisivos na correta aprendizagem do grande jogo. Sincera e honestamente anseio por isso…

Amém.

Foto – Divulgação CBB.



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