TERÁ VALIDO A PENA?…

Daqui a um pouco a Argentina tentará o título mundial contra a Espanha na China, contrariando uma grande parte da mídia especializada internacional, que não previa o sucesso platino com uma equipe renovada e liderada por um senhor jogador de 39 anos, derrubando todos os prognósticos contrários, que ultrapassando equipes tidas como favoritas, viu sobrar apenas a espanhola, que medirá sua grande tradição e experiência contra a força de conjunto de uma equipe modelar, que representa um país absolutamente competente na arte do formar jogadores da mais alta qualidade, tendo um dos grandes campeões olímpicos a liderá-los, o Scola…

Será um jogo duríssimo, com ambas as equipes se utilizando da dupla armação com jogadores extremamente habilidosos, inteligentes e letais nos passes, nas infiltrações, e até mesmo nas conclusões precisas de todas as distâncias, alimentando alas pivôs de grande mobilidade, velocidade e força nos rebotes, revertendo de forma definitiva o reinado do sistema único, com suas formações dogmáticas de 1 a 5, deflagradas pela NBA, e copiadas pelo mundo afora, como um inamovível modelo a ser difundido desde a formação de base, e que a partir da influência técnico tática do coach K quando na direção das equipes americanas olímpicas e nos mundiais, subverteu a ordem vigente, a começar com a substituição dos corpulentos pivôs por jogadores mais velozes, hábeis e flexíveis na refinada arte de jogar o grande jogo…

Sem a menor dúvida o jogo está se tornando mais arejado, criativo e inventivo com essa forma de atuar de armadores e alas pivôs, inclusive na formação defensiva, que aos poucos vai se amoldando a jogadores incisivos, em constante movimentação, e de criatividade contínua, muitos furos acima da mesmice técnico tática que vinha asfixiando os “especializados” jogadores de 1 a 5, incensados e deificados por uma plêiade de osmóticos estrategistas copiando uns aos outros, afogados em suas elucubrações fantasiosas transcritas para pranchetas ininteligíveis e absolutamentes inúteis. Fica mais do que claro que as duas equipes finalistas são produtos de um longo e minucioso treinamento nos fundamentos, através professores didático pedagogicamente muito bem preparados e formados em escolas de técnicos e cursos superiores da mais alta qualidade, supervisionados por anos, e não diplomados em cursos de 5 dias, como até bem pouco tempo formávamos (?) nossos técnicos…

Tenho me divertido muito com a mudança dos comentários televisivos feitos por narradores e comentaristas sobre a dupla armação e os cada vez mais velozes e atléticos alas pivôs internacionais, e até mesmo em nossos campeonatos regionais e nacionais, principalmente sobre a desenfreada chutação dos 3 pontos, vício que nos tem levado a resultados amargos e constrangedores no cenário internacional. E pensar que aqui dessa trincheira neste humilde blog venho a 15 anos tentando convencer esse corporativismo insano de que existem outras formas diferenciadas de jogar o grande jogo, inclusive o demonstrando em quadra, bem sei que por pouco tempo na elite do NBB, porém por mais de 40 anos na formação de base em clubes e colégios, em seleções regionais masculinas e femininas, dando cursos em muitas regiões do país, em palestras e conferências aqui e no exterior, desde sempre sugerindo e demonstrando o poder da dupla armação e da trinca de homens altos velozes e atléticos, repito, por mais de 50 anos, e tendo o privilégio de assistir logo mais às 9hs uma decisão de campeonato mundial, onde as duas equipes praticam um sistema ofensivo 2-3 absolutamente lapidar, como um corolário de uma evolução técnico tática negada por muitos, principal e unanimemente por nossos extraordinários e competentes estrategistas, dentro e fora das quatro linhas da quadra. Dá um amargo gosto ouvi-los discursar sobre dupla, e até tripla armação, jogo interior com alas e pivôs, muito aquém dos uzeiros comentários sobre a “importância fundamental” dos arremessos de 3, das enterradas monumentais, das precisas defesas (no entanto jamais explicam que defesas sejam estas), omitindo a importância do domínio dos fundamentos do jogo em toda sua amplitude individual e coletiva, adquirida no treino, no desgastante e doloroso treino, e o fazem por ainda se encontrar arraigados aos rachões, que para a maioria deles é a base na aquisição de rítmo de jogo, assim como os amistosos pré temporadas, substituindo os nada midiáticos treinos, destituídos de glamour, porém inundados de saberes, conquistas e certezas, aquelas, até mais simples, que levam as vitórias, ao trabalho bem feito e acabado…

Veremos não só um grande jogo, mas uma grande aula de como dois países, coesistindo em uma mesma formação de base, com bons professores e técnicos, chegam com méritos a uma decisão mundial, nos deixando uma inquietante questão – Terá valido a pena a subserviência preguiçosa e interesseira ao modelo do sistema único por quase três décadas, ferindo de morte toda e qualquer tentativa de contestá-lo sadia e eticamente, com um outro diferenciado na forma, no ensino, aprendizagem, e na prova em quadra, para vê-lo pujante e completo pela televisão, praticado por países que não o nosso, terá valido?…

Amém.

Fotos – Reproduções da TV.  



5 comentários

  1. João 16.09.2019 (4 weeks ago)

    Treinador ..enquanto por aqui muitos teimam em não evoluir optando por um continuísmo irracional que estabeleceu uma grande zona de conforto nos incrustando nessa mesmíce que nos empurra para a 2ª linha do basquete mundial, temos esta declaração do Treinador Larry Brown que até algum tempo estava trabalhando na Europa..” Eu vim para a Europa porque fiquei impressionado com a forma como o jogo é jogado aqui. Desde que eu vim, meu respeito e admiração vêm crescendo. Eles jogam da maneira correta, dão a bola, jogam e eu adoro a forma de jogar, porque muito simplesmente cada um aceita o seu papel.
    Eu acho que o jogo deveria ter cinco caras jogando juntos na defesa e no ataque e o que eu aprendi aqui é que todas as equipes entenderam isso. Eu vim aqui para ensinar, mas finalmente sou eu quem aprende “…realmente estamos presenciando um jogo que cada vez mais impõe uma participação total dos atletas envolvidos não importando suas posições mas sim o conhecimento e domínio total dos fundamentos técnico/táticos …grato Coach.

  2. Alex 16.09.2019 (4 weeks ago)

    João, exceção feita à Grécia.

    Que nessa Copa do Mundo jogou o basquete ‘individual’:

    https://i.ytimg.com/vi/f2YNKLUrhSA/maxresdefault.jpg

  3. João 16.09.2019 (4 weeks ago)

    Realmente Alex…o time grego ficou muito dependente do talento individual do Antetokounmpo e o atleta mesmo com todo seu recurso técnico sentiu, principalmente , a falta de espaços que sobra no jogo 5×5 aberto e de exibição” que a NBA vem nos apresentando ao longo das ultimas temporadas estimulado pela conquista do mercado mundial e do lucro , e que em nada lembra os grandes confrontos desta mesma liga das décadas de 80 e 90..mas é inegável que os americanos possuem diversos excelentes jogadores, mas como disse o Kobe: ” a época do Dream Team acabou, a diferença é muito pequena, qualquer elenco que os EUA mandarem terá problemas, o basquete se desenvolveu muito no mundo inteiro”…portanto, quem não implementar um trabalho sério nas suas bases voltado a um desenvolvimento total dos requisitos técnico/tático dos futuros atletas visando competições internacionais ( mundial e olimpíada) estará teimosamente afastando-se do caminho evolutivo deste grande esporte.

  4. Basquete Brasil 16.09.2019 (4 weeks ago)

    Que importante depoimento do Larry Brown, lúcido e verdadeiro, digno de um professor da mais alta qualidade, que é aquele que aprende mais do que ensina, através do exemplo e do diálogo democrático e crítico, onde o contraditório terá sempre de ser respeitado. Ainda custaremos um pouco para chegar a tal patamar, mas tenho esperanças de que lá chegaremos. Um abraço João.
    Paulo Murilo

  5. Basquete Brasil 16.09.2019 (4 weeks ago)

    Vamos ao debate lógico e livre pessoal, precisamos ir fundo nos problemas que nos afligem, sem retóricas, politicagens e interesses velados. Não temos o direito de jogarmos fora mais uma geração que clama por um ensino mais qualificado e profissional. O espaço aqui está a disposição para todos aqueles que se identificarem e assinarem seus depoimentos. Deixo os anônimos e os heterônimos para os blogs que valorizam os likes e milhares de acessos, que absolutamente não é o caso do Basquete Brasil. Um abraço a todos.
    Paulo Murilo.

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