ODE AO DESPERDÍCIO…

  Tenho assistido alguns jogos do NBB e da Liga Américas, uns poucos da NCAA e um ou dois da NBA e do europeu, além de raríssimos assuntos publicados sobre o grande jogo, na escassa “mídia especializada” que cobre o nosso indigitado basquetebol…

No entanto, tenho publicado cada vez menos sobre o que vejo e testemunho, por conta do brutal impacto de uma mesmice endêmica que aos poucos, cirurgicamente, vem corroendo o cerne de uma modalidade que um dia foi grande, imensa na preferência de um povo cada vez mais ausente dos ginásios, trocando-a por outras mais medalháveis, midiaticamente mais palatáveis, comercial e economicamente…

Doloroso é assistir um “NBB que você nunca viu”, com jogos acumulando inacreditáveis 45 erros de fundamentos (Franca x Vasco), e 43 (Franca x Brasília), num campeonato com média de erros de 28 por jogo, bastando conferir nas estatísticas dos jogos, editadas pela Liga. Já nem toco mais no fator artilharia de fora, hábito para lá de cristalizado na maioria de nossos jogadores, convictos que estão na liderança mundial desse difícil fundamento, exclusivo de muito poucos altamente especializados jogadores,,,

Mais doloroso ainda, é a constatação final, de que, enfim, atingimos o prana técnico tático do grande jogo neste imenso, desigual e injusto país, quando as seleções nacionais de todas as categorias professam o mesmo sistema tático, imutável, rígido, atreladas a influência direta e coercitiva de fora para dentro da quadra, encordoadas tal como marionetes, por técnicos, estrategistas, sei lá o que representam, decidindo a cada ataque o que e como fazer jogadas pseudas e exaustivamente treinadas, o que é uma deslavada mentira, e sim fazer acontecer os toques geniais através as “pranchetas que falam’, com seus ininteligíveis garranchos e desconexos rabiscos, expostos e jogados na cara de incrédulos jogadores, e mais incrédulos ainda incautos telespectadores, num português eivado de “eu quero”, “exijo”, noves fora os palavrões, assim como num inglês e num portunhol de araque, por conta dos muitos estrangeiros contratados pela maioria das equipes, levados a crer por inacreditáveis comentaristas, estarem testemunhando uma obra de arte criativa, quando na dura realidade testemunham um colossal e irresponsável embuste…

Embuste Paulo? Sim, embuste, porque numa mísera e primária observação, nota-se, com clareza, que os jogadores estrangeiros e a maioria dos nacionais, pouco atentam, e mesmo compreendem as mensagens, brilhantemente expostas nas mágicas pranchetas e no discurso anárquico e irreal que ouvem com postura blasé, quando ouvem…

Somemos a todo esse horror, às atuações hilárias e circenses dessa turma ao lado das quadras, querendo jogar no grito, bailando e correndo por todo o tempo de jogo, como que cercando galinhas, inclusive coagindo arbitragens, insuflando torcedores, forçando mostrar trabalho e empenho, num esforço que deveria ocorrer exclusivamente no treino, que dissociado de plateia, nada soma de apelo mercadológico, mas que no frigir dos ovos, é o definidor de lideranças, o verdadeiro motor na construção de uma equipe de verdade, e não esse circo que aí está…

Mas é o “basquete que você nunca viu”, onde a emoção comanda o espetáculo, mesmo que a técnica fique comprometida, apesar dos 16 argentinos, e muitos americanos, que não estão nem aí para os gênios das pranchetas, fazendo o que querem nas quadras, abiscoitando seus dólares,e  inclusive agora dando início ao premio “craque do jogo”, mesmo perdendo o jogo, bem ao gosto do que fazem na matriz, que de há muito tenta transformar um jogo sofisticado de conjunto, numa reles competição individual, onde a proliferação do jogo de apostas encontra seu provimento maior, fator esse que nos trará enormes contratempos, que um breve futuro nos dirá. Então, como defini-lo, como?…

Basta observarmos os quintetos iniciais, com cada vez mais estrangeiros que nacionais, num lesa-pátria que preenche a vaidade de muitos estrategistas, ostentando o palpável fato de comandar americanos e argentinos, arranhando guturalmente seus idiomas, o que muito pouco importa, frente a realidade de que não estão nem um pouco preocupados com tão ínfimo pormenor, fazendo o que querem no campo de jogo, afastados que se colocam frente ao que presenciam vindo de rabiscos pranchetados e “instruções” numa língua estranha, para logo improvisarem ao seu bel prazer e vontade, preferentemente entre eles próprios, num arremedo de clube do bolinha lamentável…

Todo este impacto sócio, técnico cultural nos coloca de frente com uma situação de transcendental importância, nossas seleções em busca de uma classificação olímpica, suas convocações, treinamento e preparação técnico tática, pois se fundamentadas pelo que realizamos em nossas ligas, pouco, ou nenhuma chance teremos naquelas competições, e o pior ainda, nada, absolutamente nada legaremos aos mais jovens, frente a dura realidade do que vem praticando desde sempre, um basquetebol anacrônico, fundamentado na desenfreada chutação de fora, inclusive por seus pivôs, e pela mais completa ausência de sistematização tática ofensiva e defensiva,  posicionamento estratégico frente à realidade do basquete praticado por países que, de forma geral,  priorizam os fundamentos em sua formação, da base a elite, sem exceções…

Até quando daremos provimento e cobertura a esse autofágico festim, até quando? Estamos no limiar da impossibilidade da volta ao bom senso, sacramentando a debacle final, negando às futuras gerações uma saída honrosa, digna de nossa tradição vencedora de três mundiais e quatro medalhas olímpicas, em tudo e por tudo oposto ao que vimos e testemunhamos nas três últimas décadas, onde a qualidade e o mérito se fez refém da mediocridade e do oportunismo atroz e mercadológico…

Sinto e pressinto uma enorme vontade de parar, diria mesmo, de bater em ferro de ponta, e só não o fiz por honestamente acreditar que exista ainda uma tênue e fugidia nesga de luz no final desse infindável buraco em que lançaram o grande jogo, vivido em sua imensidão por minha geração em mais de seis décadas, o qual vejo fenecer por baixo e esmagado por abomináveis e ridículas pranchetas e canetas hidrográficas, discursos inócuos e ilógicos, estertorando na vontade final de ver renascer a inteligência e o verdadeiro amor por seus valores de grande, grandíssimo jogo, daqueles que o mereceram e ainda o merecem de verdade.

Que os cansados e extenuados deuses nos protejam e ajudem no legitimo anseio de podermos enfrentar essa engessada turminha no campo de jogo, onde as verdades verdadeiras sào ditas e postas de frente, e não essa enganação corporativada que aí está…

Amém.

Em tempo: Quem sabe poderíamos ter tempo de nacionalizar uns dois argentinos e outros tantos americanos para disputar a vaga olímpica, no que seria o sonho dourado da turma que se apossou do destino do grande jogo entre nós. Que tal? 

Fotos -Arquivo pesoal. Clique duplamente nas mesmas para ampliá-las,    



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