CONDICIONANDO.

Nessa terça-feira o jogador Nenê convocou a imprensa em sua cidade natal, São Carlos, e do alto de seus dois e tantos metros de altura e outros tantos de largura declarou: “Gostaria de retornar à seleção brasileira, pois é chegada a hora de somarmos esforços visando a classificação para as próximas Olimpíadas. Estou ao inteiro dispor da CBB para os treinamentos, bastando somente que a entidade garanta o seguro exigido pela minha equipe nos Estados Unidos. Muito obrigado a todos, e vamos ao trabalho”.

Mas alto lá Paulo, não foi esse o teor da entrevista dele! Sei que você quer ajudar o nosso basquete, como vem fazendo todos estes anos, e bem sabemos que esses deveriam ter sido os termos da mesma, mas cara, não viaja, não foram!

Então, o que foi dito? Contrito, mas não surpreso, torno à leitura da entrevista, e num misto de tristeza e desesperança pesco algumas irretocáveis pérolas de convencimento e arrogância, senão vejamos: “Estive falando com a família e amigos. Refleti e decidi jogar o Pré-Olímpico. Espero uma nova vida. O que passou, passou, agora quero ajudar o basquete e defender a seleção”. Muito bem, reflexão é sempre bem vinda, ainda mais dentro de um contexto tão complexo como seu relacionamento com CBB nos últimos quatro anos. E sobre esse aspecto afirmou “que não tem problemas pessoais com o presidente da entidade Gerasime Bozikis, o Grego. E que seu protesto era voltado principalmente contra a falta de condição ideal na estrutura ao redor da equipe”. E mais: “Meu atrito não era pessoal com o Grego. O que sempre pedi foi estrutura, é a qualidade de treinamento, transporte, alimento, segurança, essas coisas. A gente tem de cortar esse tipo de problema”. Aleluia, precisamos esperar por quatro longos anos para sabermos que a bronca não era contra a pessoa do Grego, e suas sistemáticas falhas administrativas, como pagamento de seguros e salários, mas sim pela falta de estrutura ao redor da equipe, a qualidade do treinamento, alimentação(…), essas coisas. Ou seja, insatisfação com a comissão técnica, seus métodos de treinamento, seus sistemas, problemas que tem de ser cortados. Foram palavras ditas a quem quisesse ouvir, ou seja, explicita ou implicitamente, sugere uma troca no comando da seleção. E para não deixar margens a duvidas vamos continuar reproduzindo a entrevista, que foi publicada no site UOL-Basquete pelo enviado especial Giancarlo Giampietro. Para o jogador, falta repertório de jogadas à seleção nos momentos decisivos. E que para facilitar a criação seria melhor deixar Leandrinho, do Phoenix Suns, mais voltado para a finalização. Também necessita de apoio de atletas mais veteranos. E, por fim, tem de ouvir vozes de técnicos estrangeiros.(…) Se Leandrinho for deslocado mais para a definição do ataque, Nenê já tem um nome para indicar à preparação, Valtinho, de Uberlândia. Assim como o pivô, o armador de 30 anos também disputou sua última partida pela seleção no Pré-Olímpico de Porto Rico, em 2003.O jogador tem relações conturbadas com a seleção, tendo já recusado muitas convocações – mesmo na época em que a equipe era dirigida por Hélio Rubens. “Tenho acompanhado de perto seu jogo no Uberlândia e ele está com um desempenho fantástico…”

Como vemos, suas baterias se voltam agora para a comissão técnica, pois é absolutamente inadmissível que um atleta venha a público declarar insatisfações técnico-táticas, e apresentar soluções e convocações, numa inversão de valores inaceitável. E foi mais longe. Um contato da comissão técnica com “novas idéias”, todavia, seria a prioridade, isto é, se abrir às influências internacionais. “Acho que temos várias oportunidades de aprender com treinadores de fora. Podemos deixar o Lula, mas temos de aproveitar essa experiência. É deixar a vaidade de lado”. Inacreditável, podemos deixar o Lula… O que é isso? Se alguém tem o poder de afastar, mudar, deletar, sei lá mais o que, uma comissão técnica, esse alguém jamais poderá ser um jogador, em tempo algum, em lugar algum. E vem falar em vaidades? E na conclusão: Nenê sugeriu o ex-assistente técnico e scout dos Nuggets, o norte-americano Jarinn Arkana, e o conceituado argentino Carlos Duro, ex-assistente de Hélio Rubens no Uberlândia, como pessoas que estariam qualificadas a trabalhar com a seleção. Os dois falam português. “Arkana é uma pessoa muito amigável, fácil de lidar. O Duro tem muita bagagem e sabe muito sobre jogadas”, disse.

Duas conclusões saltam aos olhos, de tão cristalinas que são: O discurso conciliador se antepõe ao conflito anterior, ou seja, se para não jogar na seleção, por motivos reais que jamais exporá, sub-repticia e inteligentemente focava óbices com a CBB, o Grego em particular. Hoje, se volta hierarquicamente contra a comissão técnica, numa ação diversiva, que culminará, com os fundamentos éticos desrespeitados, numa total e absoluta inversão de valores e responsabilidades, que comissão técnica em lugar nenhum no mundo jamais poderia aceitar, haja visto as declarações dos jogadores Alex e Guilherme, auto elegidos líderes do grupo fechado, feitas após o último mundial, contra o posicionamento do mesmo Nenê, num ensaio, agora confrontado pelo insigne pivô, visando o controle e a liderança do grupo. É uma posição lamentável e altamente comprometedora para a comissão técnica, previamente desqualificada em seus conhecimentos, e o pior, em sua liderança. A outra conclusão é óbvia, ante tantas evidências de proposital posicionamento. Fosse ele agir dessa forma no Nuggets, e estaria desempregado, mas aqui, na Terra de Santa Cruz, o desenrolar de tal comportamento poderá encaminhá-lo, sem culpas e com um ótimo álibi, a não participar da seleção, o que no fundo seria o desejável, já que sem perigos de contusões que arriscassem os milhões em jogo, garantindo uma imagem de bom mocismo, vítima das “circunstâncias adversas” que entravam o basquete brasileiro, apesar de sua abnegada disposição em salvá-lo. Melhor que isso, só dois disso, clama a genialidade popular. Oh deuses, como desejo estar errado pelo que expus acima, e honestamente rezo para que esteja, apesar de que lá no fundo…

PEQUENOS GRANDES VÍCIOS.

Há poucos segundos do final, Franca com três pontos na frente repõe a bola em jogo do meio da quadra. Grande expectativa, a equipe de Uberlândia tentará a falta a fim de recuperar a bola, e sua adversária tudo fará para mantê-la em sua posse. Lateral batido, dois dos três armadores de Franca estabelecem contato bem fora do perímetro, quando um de seus pivôs se apresenta para receber a bola. De posse da mesma, tenta o drible e anda com a bola. Nova chance para a equipe da casa, mas que infelizmente não foi aproveitada. Foi uma jogada emblemática para a equipe francana, e que até poderia ter sido outra equipe, em uma outra situação semelhante. O que salta aos olhos é o vicio estabelecido pela maioria de nossas equipes de que pivô tem de vir atuar fora do perímetro, para efetuar corta-luzes, e bem mais grave, tentar dribles e arremessos de três pontos. Um pequeno grande vicio de conduta técnica quase pôs a perder os esforços de toda uma equipe, inclusive os dele mesmo.

Fora um ou outro deslize de execução técnica dos fundamentos, foi um muito bom jogo, onde brilharam todos os armadores em disputa, de ambos os lados, estabelecendo novos parâmetros para o nosso basquetebol, estendidos inclusive às outra duas semifinalistas, já que a equipe do Minas Tênis também estabeleceu a utilização de dois armadores em sua formação básica. E um novo e alvissareiro pormenor, a exata e precisa atuação do ala Rogério, veterano que se renova, interagindo com seus armadores nas funções de um pivô móvel, o que permitiu ao mesmo um sem numero de conclusões à cesta da posição frontal, e não lateral como se pressupõe ser a região de atuação dos alas tradicionais.

Tivemos também revivido um outro pormenor técnico esquecido pela maioria das equipes nacionais, de todas as categorias, e de todos os quadrantes, o arremesso de media distância, aquele que só vale dois pontos, mas cujos índices de acerto em muito superam os de três pontos, vicio maior estabelecido entre nós. E de dois em dois o placar em nada ficou devendo ao que vem se tornando regra geral em nosso basquetebol, a crença estabelecida e cristalizada de que o que ganha jogo são os arremessos de três pontos, crença esta divulgada à exaustão por comentaristas-técnicos, ou técnicos-comentaristas (nunca soube precisar com razoável certeza…) para os quais o basquete de alta competição (que exemplifica os jovens jogadores) começou, se estabeleceu e só será factível através os arremessos de três pontos. E nem os exemplos apresentados nas finais da NBA, onde os arremessos de três se tornaram risíveis faz com que essa turma se convença de que arremesso é um ato de extrema precisão, campo restrito a alguns especialistas, e que os de dois pontos, mais democratizado entre aqueles menos qualificados, ganham jogo sim senhores!

Foi uma demonstração de que nossas equipes, se renovadas as concepções de seus técnicos muito podem oferecer de qualificação técnica, o que encorajará os muitos técnicos responsáveis pela formação espalhados por esse imenso país, a procurarem novas didáticas para o ensino dos fundamentos que sejam comuns a todos os jogadores, independendo de estatura e posicionamento na quadra, fator único e inquestionável na procura da excelência, técnica e tática.

Acredito que sejam os finalistas desse campeonato nacional, emissários de uma nova postura ante o grande jogo, e que seus técnicos desçam de vez de seus púlpitos absolutistas e caiam na realidade de que ainda têm muito o que aprender e principalmente apreender. Amém.

E MINAS ADERIU…

E o técnico da equipe do Minas Tênis se rendeu às evidências, acompanhou as outras equipes das semifinais, escalou dois armadores de saída, chegou a utilizar um terceiro, e venceu o jogo. Enfrentando em sua casa a equipe de Brasília, que nitidamente subestimou o adversário, haja visto a facilidade como o derrotou na capital, avançou para o quarto jogo, ainda em sua casa, alentado pelo ótimo resultado, e com boas chances de levar a decisão para um quinto jogo em Brasília. Surpresa? Talvez para a equipe candanga, que nitidamente não esperava tão dramática modificação no modo de atuar da equipe mineira. Esta, com armadores tão bons quanto os de Brasília, equilibrou a disputa, e fez ver ao adversário que as chances podem ser iguais na busca de uma vaga na final. Foi uma grande mudança tática, e mais uma vez, como nas outras equipes, sem mexer uma vírgula sequer no sistema de jogo que sempre adotou. Como as demais semifinalistas, simplesmente agilizou e qualificou o modo de jogar através a utilização de jogadores mais hábeis nos fundamentos de ataque e defesa, seus armadores.

Mas, eis que com essa atitude, o técnico mineiro tende a deflagrar um baita impasse dentro da comissão técnica da seleção brasileira, ainda mais quando de comum acordo com os demais integrantes da mesma convocou para o Pan somente dois armadores. Nos jogos classificatórios um outro integrante da comissão, dirigindo a equipe de Rio Claro, já havia ensaiado e utilizado essa composição de equipe com dois armadores, e se não foi bem sucedido, pelo menos demonstrou rebeldia ao sistema do qual é um dos desenvolvedores junto à seleção nacional. Como o técnico principal (mesmo que diga o contrario…) não dirige equipes de clubes, fica no ar a seguinte indagação: Que critérios técnico-táticos serão desenvolvidos e aplicados à nossa seleção, que declaradamente opta por um armador, tendo inclusive convocado somente dois, perante outras opções manifestas pelos demais integrantes “unidos e uníssonos” da comissão, quando os mesmos em seus clubes quebram tais critérios?

Acredito que as respostas a tal indagação poderia desencadear um inicio, não de rebeldia, mas sim uma premente e decisiva procura do bom senso comum, aquele que não sendo “unido e uníssono” representasse a realidade do nosso basquete, em sua decisiva busca pelo novo, pelo audacioso, pelo conceito corajoso de quem quer e precisa se desvencilhar dos grilhões da mediocridade e do servilismo colonial que nos tem sido impostos nos últimos vinte anos. Mas para tanto, há de se ter coragem, muita coragem, aquela que não está arquivada em lapitopis caipiras, aquela que só será mostrada por quem realmente acredita em mudanças, a começar em si mesmos. O basquete brasileiro merece que algo de muito positivo venha em seu socorro, e esse “algo” que já começa a se manifestar em notórias rebeldias, precisa de nosso apoio e vibrante torcida. Falta somente que o grande líder reflita, e quem sabe mude. Fico torcendo que para melhor. Amém.

ENFIM BOAS NOVAS.

Enfim um jogo com muitos aspectos positivos. A começar pela escalação inicial de ambas as equipes, pois tanto Franca, como Uberlândia se postaram na quadra com dois armadores e três homens altos jogando próximo às cestas. E em muitas ocasiões dentro da partida, ambas se utilizaram de um terceiro armador, tornando a disputa intensamente equilibrada. Os alas que me desculpem, mas a escalada dos armadores, inclusive por sobre suas antes inamovíveis posições, aos poucos conotam um substancial acréscimo qualitativo às equipes que corajosamente vêm investindo nessa novel concepção, o que, esperam todos aqueles que ainda acreditam em sistemas diferenciados da mixórdia que campeia entre nós, possa desencadear uma profunda mudança nos sistemas de treinamento dos fundamentos dos nossos jogadores, alas em particular, pois os mesmos estão sendo superados pelos armadores, sem que as suas equipes mudem uma vírgula sequer em seus sistemas de jogo, exatamente pela melhor qualificação dos mesmos no manejo de bola, nos passes, nas fintas e no posicionamento defensivo. Somente na precisão dos arremessos é que se equivalem, o que é pouco ante a qualidade de execução nos demais fundamentos.

Do quarteto finalista, somente a equipe de Minas Gerais se mantêm fiel ao sistema tradicional com um único armador, graças a atitude coerente de seu técnico, integrante da comissão técnica da seleção nacional, e que mesmo sendo equivalente em comando aos demais membros da mesma, segundo testemunho público daquele que deveria ser o líder inconteste, mas que prefere pulverizar seu comando para não se submeter a uma situação sucedânea àquela que vivenciou ao declarar numa entrevista que “a melhor posição numa equipe é a de assistente, pois na derrocada quem quebra a cara é o técnico principal”. Por se tratar de uma posição edificante, pouco se tem a comentar, a não ser o fato de que nenhum dos integrantes da comissão ousou aprofundar mudanças substanciais nos sistemas táticos de suas equipes, e todos “unidos e uníssonos” remetem suas pétreas convicções na convocação da seleção brasileira, na qual somente dois armadores foram convocados. Um que pouco atuou no país, outro que vem inovando a arte de enterrar, pois é sistematicamente marcado e bloqueado por…um aro de cesta, isso quando não se permite abster das finalizações de três pontos nos contra-ataques de sua equipe.

A equipe de Uberlândia venceu um jogo igual e muito bem jogado e melhor defendido, com todos os armadores produzindo um bom basquetebol, onde os detalhes definiram a partida, principalmente um, que quando devidamente compreendido em sua mecânica e momento de execução, dará aos pivôs envolvidos com o mesmo, um acréscimo substancial de força de ataque. Trata-se do passe no ato do arremesso em suspensão. Esse passe, a um outro pivô mais próximo à cesta, só deve ser dado quando um dos defensores optar fortemente pela anteposição ao mesmo, pois dessa forma deixará o segundo pivô em uma situação de 1 x 1. Se o passe for executado estando o jogador livre para o arremesso naturalmente o pivô a quem se dirigirá o passe estará inferiorizado na proporção de 2 x 1. Em três situações, sendo duas na prorrogação os dois ágeis e velozes pivôs de Franca cometeram esse erro, acrescidos pelo fato de que os passes foram dirigidos abaixo da linha do peito, o que obrigava o receptor ao drible, no que foi obstado em todas as vezes. Esse passe, obrigatoriamente, tem de ser dirigido acima dos ombros do receptor, de preferência na forma popularmente conhecida como “ponte aérea”, única forma de aproveitamento veloz e indefensável para tal e corajosa jogada, que como podemos avaliar, exigirá intenso e especializado treinamento.

Aos poucos as equipes ensaiam novos caminhos, mas ainda falta o principal, o estudo e conseqüente aplicação de novos sistemas ofensivos, basicamente aqueles que situem os homens altos o mais próximos à cesta quanto possível, e que destine o perímetro externo aos armadores e àqueles alas com competência para transitar pelo mesmo. Até lá, contentemos-nos com o advento e renascimento de nossos talentosos armadores, mesmo que uma pífia e medíocre comissão somente convoque dois. Rezemos aos deuses que se faça a luz, ainda dá tempo. Amém.

SISTEMAS III- Treinando fundamentos II

Nesse terceiro artigo da série Sistemas, abordaremos a parte dois do Treinando Fundamentos. São princípios básicos e fundamentais no ensino do basquetebol, e que devem sempre ser praticados por todos os jogadores, independentemente de categorias e faixas etárias, como num ritual no qual as repetições embasarão a todos no domínio dos princípios do grande jogo. Treinar sistematicamente os fundamentos é a chave dos grandes jogadores.

TOCOS DE ARO…LAMENTÁVEL.

É difícil explicar, e muito mais difícil tentar entender como uma equipe consegue levar a um ginásio 24000 pessoas já estando classificada com folgas, e numa semifinal se apresenta para uma platéia de menos de mil, e na mesma cidade, a capital do país. Falta de publicidade? Fenômeno passageiro, ou simplesmente um fato inexplicável? Não arrisco palpites, mas que é estranho, isto é.

Mas vamos ao jogo, o primeiro de uma melhor de cinco contra a equipe de Minas Gerais. Foi o encontro de uma nova concepção iniciada pela equipe de Franca, com seus dois armadores, e muitas vezes três na quadra, se antepondo a uma equipe, que dentro da lógica de seu técnico, um dos integrantes da comissão técnica da seleção nacional, se utilizava de um único armador, dois alas naturais, e dois pivôs com pouca mobilidade junto à cesta, se comportando coerentemente com os critérios adotados na seleção. E foi um passeio dado pela equipe brasiliense, timidamente contestado no quarto final, quando, rendendo-se à cristalina evidência da impossibilidade de anular jogadores mais hábeis e velozes que seus alas, o técnico mineiro escalou mais um armador na tentativa, tardia aliás, de contrabalançar tanta desvantagem. Mantendo a lealdade, e até acredito, a convicção de que o sistema utilizado é o que existe de melhor para o nosso basquetebol, viu ruir ante seu pétreo olhar, o grupo que dirige. A equipe de Brasília, acompanhando a tendência inaugurada por Franca, em nenhum momento alterou seu sistema de ataque, mas agilizou-o na utilização de dois, e até três armadores, dois deles com boa estatura, substituindo alas de menor capacitação técnica no domínio dos fundamentos do jogo. Essa tendência, muito bem vinda, qualificou seu jogo, dando ao mesmo condições que não puderam ser anuladas por seu adversário.

Mas nem tudo foram flores, a partir do momento que um dos armadores, um dos dois que foram convocados para o Pan, resolveu incrementar o espetáculo com duas cravadas deslumbrantes, só que ambas foram bloqueadas, por quem? Isso mesmo, pelo aro da cesta, numa situação comprometedora para quem foi escalado para liderar nossa seleção nacional, e sem contar com as inúmeras tentativas de arremessos de três pontos como finalizações de contra-ataques, atitudes imperdoáveis a um armador responsável pela equipe que lidera. Mas isso é outra conversa.

Devemos, no entanto, ponderar que o simples fato da utilização de dois armadores não nos dará, por muito tempo, condições técnicas que nos aproximem das equipes internacionais, se não qualificarmos com certa urgência nossos alas, incentivando-os no árduo treinamento dos fundamentos, principalmente os de drible, fintas e passes, desde as categorias de formação, e mesmo aqueles já formados, e por que não, os de seleção nacional, por mais veteranos que sejam. Nossos técnicos devem baixar de seus púlpitos pranchetados, e se situarem ante a maior de todas as evidências, a que nossos jogadores necessitam muito e muito mais de fundamentos, do que esquemas coreográficos, por não terem estrutura e conhecimentos para desenvolvê-los. O grande problema é sabermos se os técnicos dominam a arte de ensinar fundamentos e as didáticas para exeqüibilizá-los. A maioria ainda tenta se convencer que sistemas ganham jogos, quando na verdade, são as técnicas individuais as responsáveis pelas vitórias. Sistemas são apenas complementos, e até suplementos dentro da realidade do grande jogo, pois sem o conhecimento profundo dos fundamentos todos eles pouco representam para uma equipe bem treinada.

Esperemos os outros jogos da série, na esperança sempre renovada de que boas novas ainda poderão retirar o nosso basquete do limbo em que se encontra. Espero que sim. Amém.

IN VINO VERITAS

Para entrar no clima, fui até a cozinha e coloquei no microondas um desses saquinhos de milho para pipocas. E ele cresceu e entornou de uma tigela gigante, acompanhada de uma lata de coca-cola, isso mesmo,a seiva sagrada de todo americano que se preza. Atenuei a luz da sala e me coloquei em frente da telona para assistir, endeusar e degustar, junto às pipocas é claro, o maior espetáculo da terra, aquele que desencadeia na maioria de nossos sites um caudal de delirantes comentários, detalhadas pesquisas e discussões apaixonadas, culminadas com opiniões e sugestões aos técnicos… de lá, pois os daqui, pobres coitados, não têm o cacife promocional e financeiro necessário para pertencer a tão seleto e sagrado clube. Laudas e laudas são gastas nesse oráculo colonial a que somos submetidos por uma jovem geração de bons, porém descompromissados colunistas, antenados e escravizados pela cornuópica e devastadora NBA.

E vamos ao jogo, mas que jogo? Tento entender os porquês de tantas e acrobáticas penetrações, principalmente por parte do Parker, do Ginóbili e do “menino” Lebron. Com os olhos aguçados e treinados por mais de 40 anos de quadra, observo quão falaciosas são as coberturas a que são submetidos aqueles cracaços em suas fulminantes arrancadas. Nunca em tempo algum um jogo coletivo ofereceu tantas atenuantes defensivas no intuito de facilitar e promover o espetáculo. Chegam às raias do ridículo as tímidas tentativas de quadris para tentarem as mudanças de direção do atacante que penetra, onde as leis que regem as flutuações somente os

beneficiam , existindo, inclusive uma área dentro do garrafão em que os defensores não podem permanecer por mais de 3 segundos. Mas na hora dos tocos, aí sim, o pau canta, para delírio da turba ensandecida. Engraçado, nos torneios internacionais esses mesmos jogadores jamais repetiram tais jogadas, e porque ? Porque o principio do puro 1 x 1, o que propicia o espetáculo circense bate de frente com a também pura realidade da defesa coletiva, assim como o bloqueio físico próximo à cesta encontra nas regras da FIBA um conceito de contato muito diferente do adotado pela NBA. Mesmo assim, uma equipe, como os Spurs, se sobrepõe à do Cavs por um simples e decisivo diferencial, tem mais artistas, mais experientes, mais rodados, e por isso mesmo mais de acordo com o modelo de basquete que praticam. Sim, outro basquete, com outras regras, outros princípios, outros interesses, basicamente o maior e mais esmagador de todos, o financeiro.

É estarrecedor constatarmos ali, nas imagens que invadem a sala, a quantidade de pífios jogadores que, num entendimento com um mínimo de coerência, não fazem jus aos montes de dólares que ganham. E o pior, arrastando para sua órbita o que de melhor o mundo tem produzido para o basquetebol, obrigando-os à pratica de um jogo que não sabem desenvolver, após aprenderem e se notabilizarem em um outro bem diferente. Mas o peso dos muitos dólares mudam, não só as cabeças, como as silhuetas atléticas e bem equilibradas, substituindo-as por uma massa disforme e criminosamente inchada, cujas constatações correm o mundo em milhares de fotos e vídeos reveladores. Muitas seleções nacionais têm sido desfalcadas pela ameaça dos anti-dopings nos campeonatos internacionais, pratica tolerada, e por isso praticada amiúde nas equipes profissionais dos irmãos do norte. Não é atoa que as comissões que combatem tais praticas no senado americano rapidamente se aproximam da NBA, como já o fizeram na NFL e nas ligas de beisebol.

E o jogo, quilométrico se arrasta madrugada à dentro, previsível e de gosto mais do que duvidoso. Vence o mais rodado, o mais acostumado às oscilações de uma liga que se insinua pelo mundo como a deificação do grande jogo, como se o mesmo encontrasse nela seu principio, seu meio, seu fim.

Mas o que acabou mesmo foi a pipoca, companheira dos teimosos cochilos que me assaltaram, como uma providencial fuga de um engodo que me nego energicamente a aceitar, pois professo outro tipo de competição, com regras definidas e aceitas em todo mundo, exceto, lá. Mas algo de bom ocorreu, no esquecimento da lata de coca-cola, substituída alegremente por uma pequenininha taça de vinho tinto, do vale do São Francisco, que degustei com comedido prazer, salvando uma noite que parecia irremediavelmente perdida. Amém.

PRECISAMOS TANTO…

Foi um duelo sem muitos atrativos, por ser desigual. De um lado a equipe do Flamengo atuando no mais puro e indestrutível sistema de um armador, dois alas lançadores e dois pivôs de pouca mobilidade e sempre situados do lado da bola. No outro, a equipe de Franca, com um desenho tático semelhante ao da equipe rubro-negra, mas atuando com três armadores nas posições fora do perímetro e dois pivôs em permanente movimentação dentro do mesmo, exceto em alguns momentos do pivô Estevan, que numa noite pouco produtiva teimava nos embates 1 x 1, deixando o restante da equipe em compasso de espera, quebrando sua principal característica, a movimentação frenética nos passes, nas fintas e nas penetrações. Nesses momentos, a equipe da casa conseguia se aproximar no placar, mas não o suficiente para uma virada decisiva. Como em todas as suas partidas após a ciranda sul-americana e do campeonato paulista, deslanchou no quarto final, quando manteve em quadra sua formação básica, aquela descrita no inicio desse artigo. Em determinado momento desse quarto decisivo, o comentarista do SPORTV mencionou o fato do técnico do Flamengo não ter colocado em quadra mais um armador para ajudar o excelente Fred, tanto na armação como na defesa, contrabalançando os dois armadores de Franca. Acontece que ele teria de lançar dois, já que Franca contava com três em quadra. Nossos comentaristas ainda teimam em considerar uma temeridade jogar com dois armadores, presos que estão ao modelo estratificado entre nós e que se tem mantido, inclusive, sob os auspícios e aprovações dos mesmos. O técnico de Franca não inovou esse enraizado sistema de jogo, basta se constatar sua armação em quadra, mas sim, dinamizou-o com a utilização de jogadores mais aptos nos fundamentos, seus habilidosos armadores, mantendo somente um ala, o veterano Rogério que muito melhorou suas prestações nos fundamentos, mas que ainda muito poderia melhorá-los. As demais equipes, ainda se apegam aos alas tradicionais, bons arremessadores, mas incapazes de se rivalizarem nos passes, dribles e fintas com a ótima safra de armadores que se desenvolvem entre nós. No momento que forem preparados convenientemente nos fundamentos, teremos boas probabilidades de nos soerguermos no plano internacional.

Quanto aos pivôs, na medida em que mudemos nossa forma de jogar, privilegiando a velocidade nos deslocamentos junto à cesta, num rodízio que desloque permanentemente os defensores, propiciando recepções de passes em movimento, ações estas que só poderiam ser exercidas por jogadores ágeis e atléticos, antíteses das massas lentas e disformes que alguns ainda teimam em utilizar, poderemos afirmar que estaremos no limiar de uma nova e vencedora fase do nosso basquetebol. Até lá, teremos de nos contentar com a mediocridade reinante, mas torcendo que nossos técnicos se rebelem do ferrolho a que estão presos, e comecem, como o técnico de Franca a ensaiarem novas concepções de jogo, mesmo que sejam, inicialmente, adaptações do que vêm professando nos últimos vinte anos. Inteligentemente ele declara que para cada jogo estuda e desenvolve uma estratégia condizente ao adversário que irá enfrentar, mas na hora do vamos ver, geralmente no quarto final, são seus três armadores que definem as partidas, fator que por si só já estabelece uma auspiciosa e evolutiva posição ante o marasmo, a mesmice e a chatice que nos tem esmagado em todos os planos.

Precisamos estudar, trabalhar duro, pesquisar, para fazer evoluir o grande jogo entre nós, afinal de contas temos de nos preparar para Londres 2012. Oxalá consigamos. Amém.

MELHOR?

DATA-FRASE:

“Você tem que se cercar de gente melhor que você, porque assim você será melhor que eles”.

Ary Vidal

Assim se inicia a última postagem do excelente site Databasket, com uma frase profundamente controvertida de um técnico que marcou época no nosso basquetebol, sendo inclusive um dos mais laureados. Sua colocação nos leva de imediato a três possíveis indagações: Cercando-se politicamente, tecnicamente ou intelectualmente?

Politicamente é o que vemos hoje em dia, não só no esporte, mas nas atividades em geral. Vivemos a era do QI, do quem indica, na qual os valores por mérito atingiram os mais baixos índices de que se tem notícia em nossa sociedade. Estudar, pesquisar, trabalhar duro de sol a sol, tem muito menor importância do que se cercar de influências e próceres políticos, muito mais interessados em auferirem lucros, de preferência de fundos públicos, do que se dedicarem a causas de somenos importância, como por exemplo, educação. Ao nos cercar de pessoas com melhores influências e conhecimentos políticos, ultrapassaremos os mesmos nos seus nichos profundamente enraizados?

Tecnicamente, como num processo osmótico têm-se a impressão de que o simples fato de cercar-nos aos nossos pares, nos seriam transferidos conhecimentos, experiências, vivências, estudos e pesquisas, tão dolorosas quanto o largo, inescrutável e distante horizonte que nos separam de seus nem sempre ansiados resultados. Seria como se adquiríssemos tais e tantos conhecimentos pelo simples fato de nos cercarmos de quem sabe e os dominam mais do que nós. Mas a que ponto tal ação nos dotaria de tanto saber? Por imitação, ou pela aplicação pura e simples de tais conhecimentos sem maiores e cansativas elucubrações?

Intelectualmente, ao nos cercarmos de pessoas mais preparadas, não necessariamente melhores do que nós, e nos ombrearmos com as mesmas pelos valores culturais, educacionais, filosóficos, existenciais e até científicos, teremos como meta os ultrapassar, ou somarmos aos seus esforços para a melhoria e o engrandecimento da sociedade em que todos nós vivenciamos nossa falibilidade humana? Qual a importância de se mostrar melhor do que todos, o que é uma quimera, quando seus esforços somados aos demais poderiam atingir patamares realmente importantes?

Creio, honestamente que o importante técnico poderia mudar algumas palavras, conotando-as à uma premente necessidade que os nossos jovens precisam adquirir em suas caminhadas para um futuro pouco promissor, porém repleto de esperanças e desejos. A necessidade de se cercarem de pessoas mais cultas do que eles, para juntos, num processo evolutivo, atingirem a excelência, fator básico no progresso de qualquer nação que se considere séria.

Sugiro então uma frase: “Você deve se cercar de pessoas mais cultas, a fim de que juntos todos possam evoluir”.

Amém.

POR QUE NÃO?

As equipes americanas resolveram prestigiar os Jogos Pan-americanos, enviando formações universitárias, que na maioria das vezes não se dão bem quando em confronto com equipes filiadas à FIBA. Mas num confronto com seleções centro e sul-americanas e mais o Canadá , poderão vivenciar um brilhareco oportuno, pois as mais representativas se apresentarão com suas equipes secundárias. Com tais e mais do que previstas participações, o grande e majestoso ginásio não será palco de um verdadeiro e representativo campeonato, e sim um “quebra-galho” de alguns milhões de dólares, que não representam nada para um país rico e poderoso como o nosso, repleto de excelentes escolas e com um povo, que de tão alfabetizado, se permite comandar por um governo que prestigia e desenvolve a cultura, a educação, os esportes, e mantem professores e técnicos num patamar social invejável, à altura de suas importâncias estratégicas. Logo, nada demais em aplaudir as empreiteiras, os especialistas estrangeiros, os profissionais do esporte tupiniquim, os políticos e agregados, todos dentro do espírito voluntário de bem servir o país, não importando os lucros advindos de tanto sacrifício em nome da pátria. Detalhes sem maiores importâncias, como a implantação de transportes de massa, canalização e saneamento das lagoas circundantes do centro nevrálgico dos Jogos, segurança nas grandes vias de acesso ao mesmo, vendas de ingressos democratizadas, representam valores ínfimos ante a desejada e aguardada publicidade internacional de nossa capacidade organizativa, que temo não ser tão competente como apregoam. Vamos ver se o nosso famoso “jeitinho” se coaduna com o gigantismo da empreitada.

E os americanos selecionaram seus jogadores, e a equipe feminina, seguindo uma tradição de representar o nicho onde se encontra a melhor escola de fundamentos do jogo, fato recentemente reconhecido pelo mais destacado técnico universitário de todos os tempos, John Wooden, apresentou uma relação de convocadas, que por si só é uma lição de evolução e comprometimento para o futuro, num momento em que seu basquetebol luta em busca de um soerguimento internacional, haja visto os sucessivos fracassos nas competições mundiais. É uma relação composta de seis armadoras, uma ala-armadora, quatro alas, uma ala-pivô e uma só pivô. A seleção masculina deverá apresentar uma convocação semelhante, pois os princípios evolutivos são os mesmos, velocidade, mobilidade de todos os jogadores e composição física que não entrave tais atributos, bem próximo da maioria das equipes européias.

Mas por aqui, a terra da mesmice implantada e defendida por um grupelho que implantou uma “filosofia de trabalho” baseada no que de pior a NBA nos legou, no máximo dois armadores são convocados, ao lado de uma enchurrada de pivôs de força e alas com domínio pífio dos fundamentos, mas todos compromissados com as coreografias pranchetadas e empurradas goela abaixo de jogadores criminosamente afastados da criatividade e livre iniciativa, fatores que estão muito além da compreensão das doutas comissões e suas arrogantes “filosofias”.

Por tudo isso, seria de bom alvitre começarmos a pensar e a agir tendo como meta Londres 2012, senão 2016 ainda será inalcançável.

Por onde começar? Do zero, numa semibreve de alto tom, nas mãos de quem realmente entenda o grande jogo, de quem realmente enxergue o futuro. Como fazê-lo? Bem sabem, como sabemos, todos aqueles que vivenciaram e vivenciam o basquete brasileiro, mas que num torpor generalizado se omitem ante a realidade de que algo precisa ser feito, com urgência, com destemor e com amor. Muitos que hoje ocupam grandes postos na vida pública brasileira, tiveram no basquetebol uma grande e poderosa escola de seu desenvolvimento, mas que num esquecimento injustificável viram as costas ao mesmo, lançando-o num limbo inescrutável e inexplicável, fruto da ingratidão de muitos, que em suas posições poderiam ajudá-lo a se soerguer. As associações de veteranos espalhadas pelo país estão repletas de homens e mulheres gabaritados e bem sucedidos em suas vidas, repletos de experiências técnicas e administrativas, quiçá políticas, num quadro de importância vital a qualquer processo de revitalização para o basquete que tanto amam. Que tal se moverem nessa cruzada, liderando os mais jovens, mostrando aos mesmos o caminho das pedras que tanto e com maestria souberam trilhar? Por que não? O que esperam? Por que não? Amém.

PS-Um homem que muito amou o jogo e que tentou ajudá-lo se candidatando à Federação do Rio de Janeiro, tendo sido um excelente praticante, nos deixou sete dias atrás. Marvio Ludolf vai fazer falta, muita falta, e daqui dessa humilde trincheira peço aos deuses que o recebam com toda a pompa de que se fez merecedor em toda sua vida. Saudades.