A OPORTUNA DICOTOMIA…

“Precisamos de um técnico estrangeiro, e que um técnico brasileiro faça às vezes de auxiliar técnico, para aprender como se joga o basquete europeu, atual campeão do mundo, cujos princípios técnicos e estratégicos são seguidos pela Argentina, a campeã olímpica”. Esse é o clamor que toma vulto entre os “entendidos” do grande jogo, visando influir na decisão final e irrecorrível que advirá da vontade absolutista do grego melhor que um presente, e sua acessoria técnica da mais alta qualidade e competência, claro, votos federativos à parte.

Lembro-me como se fosse hoje, uma participação num seminário técnico-prático em Lisboa no final dos anos oitenta, quando fazia meu doutorado com uma tese sobre arremessos com uma das mãos no basquete, e naquela ocasião o célebre técnico espanhol Juan Teña liderava o seminário junto aos mais de 200 professores e técnicos portugueses, onde o ensino dos fundamentos era o tema central. Na época, a associação dos treinadores espanhóis já se posicionava como o elo mais importante para a hoje internacionalmente reconhecida escola espanhola de basquetebol, trabalho este que evoluiu até à recente conquista do Campeonato Mundial. Tive a oportunidade de debater longamente com o Juan sobre o preparo e treinamento de pivôs, cujos princípios diferiam profundamente entre nós. Foi uma proveitosa discussão que se prolongou até o jantar de despedida que os técnicos e a federação portuguesa ofereceram a ele. Nesta noite foram lançadas as bases da associação de técnicos de Portugal, entidade que implantou uma nova era de progresso, qualificando-o no forte cenário do basquete europeu. Hoje mesmo, a equipe portuguesa surpreendeu ao se qualificar para as quartas de final do Pré-Olimpico que se realiza na Espanha.

Porque rememoro esta minha passagem por terras européias? Exatamente por ter constatado que a base de todos os sistemas ora empregues pelas equipes do velho mundo, têm como pétreo alicerce o domínio didático e pedagógico do ensino dos fundamentos, único e decisivo elemento que o diferia da grandeza do basquete norte-americano, com sua cultura de massa na difusão e prática dos fundamentos do jogo, sem os quais nem a mais primaria das jogadas coletivas, o give and go, o dá e segue, poderia ser concretizada com um mínimo de qualidade e sucesso. A existência quase mítica de pequenas tabelas ovais de basquete fixadas em portas de garagens residenciais, cercas em pradarias, e até mesmo emergindo de nevascas, como o ícone determinante junto aos jovens, chamando e incentivando-os aos embates de um contra um, onde dribles, fintas, arremessos e posicionamento defensivo eram progressivamente desenvolvidos, calou fundo no desejo incontido dos europeus em se rivalizarem aos americanos, e cujo único caminho a ser trilhado para a consecução de tal objetivo, era ensinar e divulgar os fundamentos de forma igual ou superior alcançada pelos mesmos.

Então, com esses princípios de ensino qualitativo dos fundamentos implantado pelos técnicos, em torno de associações que se espraiaram pelo continente europeu, apoiadas e aceitas pelas federações, como entidades autônomas, os princípios de qualquer sistema de jogo que pudesse ser empregue, adaptado, criado, e até inventado, seria lastreado pelo domínio técnico individual de cada jovem envolvido no processo, participante das diversas categorias de equipes, divididas entre clubes e escolas, até chegarem às categorias de elite, às seleções.

E de repente por aqui aporta um destes técnicos (importante saber com precisão sua real origem e comprometimento profissional), que se deparará com uma realidade que deixou de existir no seu velho continente 40 anos atrás, tomando em mãos o preparo de uma seleção que peca nos mais comezinhos detalhes dos fundamentos, com armadores nem sempre ambidestros no drible e nas fintas, com jogadores que passam mal e fora de enquadramento, que desconhecem os posicionamentos básicos defensivos, que saltam erradamente nos rebotes, que arremessam desconhecendo a mecânica dos lançamentos, que desconhecem os sentidos lateralizados de coberturas defensivas, mas plenos de força física, de velocidade e de alguma, senão presunção, de que pertencem à elite do basquete mundial, por participarem, na maioria dos casos, como reservas em suas equipes estrangeiras.

E ele, com seus conceitos táticos, que foram os responsáveis pela sua contratação, vide a mania e o engodo nacional de que técnico de quadra é um, técnico de preparação é outro, canhestra dicotomia que sedimentou entre nós a mentira de que sistema tático( o que denomino coreografia…) é que vence jogo, instrumento este de posse e uso de uma comunidade de técnicos que o implantou, divulgou e disseminou por todo o país, e para os quais perder tempo no ensino dos fundamentos é assunto censurado e sequer discutido, fazendo-os sempre estar acompanhados daqueles poucos jogadores que executam razoavelmente determinados fundamentos, garantindo a manutenção do padrão de jogo único praticado por todos, e ele, repito, se vê perante tal realidade, manietado pelas limitações óbvias retratadas ante seus olhos. E o que faz, ou melhor, o que fará, ou, o que exigirão que faça?

A resposta mais plausível e lógica? Nada, absolutamente nada! Por mais genial que seja, por mais desprendido e otimista que seja, por tradição de oficio, e por conhecimento profundo de causa, logo diagnosticará, assistindo um simples taipe, quão frágeis são as bases de técnica individual de nossos melhores jogadores, principalmente no conhecimento e na prática dos fundamentos, que em consideração final , é o fator determinante de nossa fragilidade técnico-tática.

Aplicará seu tempo hábil, tão destemido técnico estrangeiro, no preparo técnico individual dos jogadores, ou partirá célere na implantação dos princípios táticos praticados no continente europeu? Se bem conheço, e os conheço, nenhum técnico de alto nível arriscará seu prestígio e tradição na direção de uma equipe incapaz de prover suas exigências técnicas, pela exigüidade de seus fundamentos, a não ser que abra mão de Pequim 2008 em função de Londres 2012, quando então terá tempo suficiente para se fazer entender e divulgar em sua concepção do grande jogo.

Claro, que nada pode evitar que apareçam candidatos estrangeiros ao cargo, pois aventurar e jogar com o acaso não é reserva de mercado somente nossa, eles também a têm, vagando pelo mundo, angariando bons lucros com o ouro dos tolos e deslumbrados.

Temos as soluções aqui mesmo em nosso país, soluções estas factíveis na proporção direta em que influências políticas e personalistas dêem passagem ao bom senso e aos técnicos de verdade, aqueles não dicotomizados pela criminosa e oportunista separação entre estrategistas e suas pranchetas milagrosas e técnicos que preparam e dirigem seus jogadores num todo, entre fundamentos e sistemas de jogo, indissociados entre si, por se completarem e interdependerem. O mais é conversa fiada de quem torce e deseja que as coisas continuem como estão, pois facilitam e perpetuam suas decrépitas permanências, logo que a tempestade de poeira baixar. Amém.

OS ESLAVOS…

“Os eslavos são perfeccionistas. Treinam excessivamente, com atenção aos detalhes. E não abrem mão da disciplina. Para resumir: o trabalho deles se assenta em disciplina, treinos e liderança.”

“Gostaria de ver um eslavo na seleção brasileira. O basquete que a Argentina joga, e que o Uruguai tenta jogar, é o basquete que os eslavos inventaram. É placar baixo, que aproveita os 24 segundos de posse de bola. Em suma, o antijogo”.

São estas as propostas e sugestões do hoje comentarista, palestrante, torcedor, e também sofredor Oscar Schmidt, segundo sua própria definição, em uma entrevista dada no O Globo de hoje.

Definamos inicialmente o termo eslavo, segundo o Dicionário Aurélio:

Eslavo SM. 1. Grupo étnico e lingüístico que abrange os poloneses, checos, eslovacos, búlgaros, russos e outros povos afins, da Europa Central. 2. Indivíduo deste grupo. Adj. 3. Desse grupo.

A Enciclopédia Wikipédia ainda classifica os eslavos dessa forma:

Eslavos ocidentais – polacos, checos, eslovacos.

Eslavos orientais – bielorrussos, russos, ucranianos.

Eslavos meridionais – eslovenos, sérvios, montenegrinos, croatas, bósnios, búlgaros, macedônios.

Com tanta opção e escolha, qual tipo de eslavo seria o escolhido para dirigir nossa seleção? Um russo? Um croata? Um sérvio? Um esloveno? Qual seria o melhor para nós? Se o critério for definido pelo fato de ter de ser um eslavo, a escolha vai ser difícil pela ampla oferta eslávica. Sob o critério da exigência técnica em treinamentos, disciplina e liderança, terá de ser um eslavo latinizado, tanto lingüística como culturalmente preparado para encarar a realidade tupiniquim, a não ser que prepare e treine a equipe na Europa, mais exatamente num ambiente eslavo. Aliás, e mais propriamente, treinamentos exigentes e detalhistas, assim como ungidos pele disciplina e liderança técnica não são exclusividade de sérvios, balcânicos, latinos, americanos,chechenos, esquimós ou guaranis, e sim de todo e qualquer profissional sério, estudioso, pesquisador, respeitador, democrático e voltado ao novo sem omitir o velho, pelo menos como balizador de experiências, que são válidas enquanto vividas. Por outro lado, cabe aqui um pequeno esclarecimento, acerca da afirmação de que o atual jogo praticado na Europa, Argentina e um pouco pelo Uruguai, foi uma invenção eslava, pela valorização dos 24 segundos de posse de bola, e os baixos placares, constituindo-se como o antijogo. Trata-se na realidade de uma evolução do sistema de jogo empregado pelas equipes universitárias americanas desde que as mesmas evoluíram do tempo livre de posse de bola, para a regra dos 45 segundos, mais além com os 40 segundos, estabilizados nos dias atuais em 35 segundos, situações que não ensejam largas margens de pontos por partida, e que são, para os americanos, a grande escola de disciplina de jogo e domínio dos fundamentos, preservada pelo longo tempo de posse de bola. A antiga Iugoslávia, que era formada por vários povos de origem eslava, fundamentou-se na escola americana que teve uma grande influência na península itálica após a II Grande Guerra, e cuja proximidade à região dos balcãns, onde se encontrava propiciou um intenso intercâmbio, o que originou também uma grande rivalidade desencadeada pelos regimes políticos implantados em ambas as regiões, democrata de um lado, comunista do outro. Essa maior proximidade com o mundo ocidental, fez com que a escola iuguslava passasse a praticar um tipo de basquetebol misto da disciplina tática emanada pela influência oriental, com a nascente velocidade originada pela implantaçãop dos 24 segundos no lado ocidental. Nem mesmo o sistema defensivo baseado na linha da bola foi um primado eslavo, já que a mesma teve suas origens no mesmo basquete universitário americano à partir da década de 30, quando as bases do grande jogo foram estabelecidas e normatizadas pelos grandes técnicos da época, como Nat Holman, Clair Bee, John Wooden, Forrest Allen, e muitos outros formidáveis professores.

A par destas influências, fruto da grande penetração e divulgação de uma vasta bibliografia, que se mantém até os dias de hoje como a mais profícua entre todas as modalidades esportivas, foi que o grande jogo evoluiu e se ramificou pelo mundo, inclusive entre nós em algum momento de um passado não tão distante assim, mas que nos últimos vinte anos sofreu um processo refreador, que somente encontra uma explicação plausível na precariedade dos segmentos diretivos que se sucederam na direção das entidades federativas estaduais e principalmente na entidade nacional, a CBB.

A vinda de um técnico estrangeiro, eslavo ou não, somente se justificaria se o mesmo estivesse comprometido num vasto e amplo projeto organizacional do basquetebol em seu todo, desde a formação, até às seleções nacionais, que seria o resultado do desenvolvimento e aplicação de todo o trabalho proposto. Pela diversidade cultural e a enormidade do território nacional, não acredito que um técnico de fora dessa incontestável realidade obtivesse resultados, nem mediato, nem mesmo a um longo prazo, a não ser que viesse tapar a peneira do imediatismo, na tentativa de preparar uma seleção fragmentada e descaracterizada, visando o dificílimo Pré-Olímpico do ano que vem.

Ao entendermos que as atuais formas de jogar, ao estarem divididas entre o modo americano, e o modo europeu, não poderemos jamais omitir o fato de que ambas as escolas, se assim quisermos definir, se baseiam num elemento uno e indivisível para ambas, o domínio dos fundamentos, sem os quais, jogar de forma lenta e acadêmica, valorizando a posse de bola, ou atuar em velocidade respaldada num poderoso sistema reboteiro de defesa, jamais seriam bem sucedidas sem o completo domínio dos mesmos. Quando na atualidade, jogar com um ou dois armadores, um ou dois pivôs plantados no garrafão, ou mesmo atuar sem nenhum, diluindo as diversas tarefas e posições entre os cinco jogadores, se tornam cada vez mais presentes nas quadras, como opções táticas e até estratégicas, um só e determinante fator se apresenta como unânime em sua utilização e preparação rígida, o domínio dos fundamentos do jogo, aqueles mesmos que foram classificados e codificados por uma plêiade de geniais técnicos e professores na remota década de 30 do século passado. Por tudo isso, ninguém em qualquer parte do mundo eslavo , americano ou de outra procedência pode ter a ousadia de se considerar inventor, do que na realidade é uma evolução lenta e contínua de pequenas conquistas que no seu somatório deságua nas diversas concepções do grande jogo.

E por que não possam existir entre nós, técnicos que atinjam os patamares de seus colegas estrangeiros? Por que tão negativa presunção que não carece da mais simples adjetivação, transita entre nós, como se fossemos uns deserdados do conhecimento, prática, experiência, comprometimento, liderança e patriotismo? Que pecado cometem aqueles, que ao se encontrarem ao largo dos conchavos político-esportivos, dos apadrinhamentos interesseiros, das maquinações empresariais, se vêem obstados de sequer constarem pelo seu trabalho honrado e de qualidade, de qualquer possibilidade de colaboração, por mais simples que fosse, visando a melhoria do basquete entre nós, exatamente por serem contrários às pseudo lideranças que nos têm sido impostas nos últimos vinte anos?

Este é o real óbice que vem entravando e entrava nossa evolução no basquetebol. Temos sim, ótimos técnicos, formidáveis professores, gente que estuda e se sacrifica na missão de ensiná-lo, pesquisá-lo e difundi-lo por esse enorme país, onde encontramos, americanos, orientais, africanos, índios e até, eslavos. O que realmente necessitamos, com a urgência de ontem, é que esses profissionais se reúnam, se organizem, discutam e decidam, de uma vez por todas se preferem se manterem no ostracismo dos covardes, ou encarar a dura realidade da boa luta, aquela que não garante vitórias, mas que vale sempre à pena de ser travada, por ser justa e corajosa.

Amém.

DANDO AS MÃOS AO DESTINO.

Depois do cataclismo que se abateu em nossas esperanças de classificação olímpica, um mar de dúvidas assaltam o nosso futuro no grande jogo. Discutem-se mudanças estruturais, técnicas, políticas, numa proporção e envolvimento nem sempre dentro de padrões orientados pelo exeqüível e pelo bom senso. Pequenos acertos, soluções simples, atitudes e decisões factíveis, possíveis ao cidadão comum, ao professor e ao técnico, ligados pelo amor ao basquetebol, são substituídas pela luta de poderes, pela manutenção do status quo.

Tenho recebido inúmeros emails pedindo sugestões, orientações, ou mesmo ajuda no trabalho de uma plêiade de jovens técnicos, abandonados em suas carências bibliográficas e materiais, esquecidos em seus ingentes esforços para continuarem a trabalhar no que amam, apesar da indiferença que os cercam, por parte daqueles que possuidores das senhas que os qualificariam tecnicamente, as negam sistematicamente, por não atenderem e preencherem as vantagens políticas que os mantêm no poder.

E é exatamente neste ponto que pode vir a se operar a tão desejada e aguardada mudança no panorama do basquete brasileiro. A esmagadora existência daqueles que, espalhados por esse imenso país, trabalhando em condições precárias, tanto de locais, como de materiais mínimos, mantendo viva a chama do basquetebol, em escolas, clubes e quadras comunitárias,sem apoios e verbas razoáveis aos seus trabalhos, aguardam ansiosos, sem esmorecimento, que algo de positivo ainda possa vir de encontro aos seus sonhos de atualização técnica, e de um mínimo de apoio material, assim como de um veiculo informativo que os permitam captar e divulgar experiências, estudos e pesquisas, instrumentos essenciais ao seu dia a dia e desenvolvimento.

À professora gaúcha que ontem me escreveu contando sua inexperiência, suas dúvidas, e seu enorme desejo de evoluir nos conhecimentos didáticos e técnicos do basquetebol, darei todo o apoio e colaboração que me seja possível dar e doar em nome de seu esforço e dedicação, no que deveria se tornar rotina entre os mestres encanecidos e largamente experientes e seus ansiosos e esperançosos jovens professores e técnicos que povoam, dos mais recônditos lugarejos, às mais populosas cidades e capitais, aguardando uma palavra, uma instrução, um pequeno roteiro, um prazeroso incentivo assinado por quem conhece os começos, os meios e os fins da arte de ensinar, treinar e dirigir equipes.

Associações de técnicos regionais, municiadas pela ferramenta mais poderosa que jamais existiu no campo do relacionamento e troca de conhecimento humano, a internet, seria o vetor por onde trafegaria a seiva desse e dos futuros conhecimentos advindos da troca permanente de informações, e sua divulgação democrática e patriota, assim como tenho feito, na pequena escala facultada por minhas limitações materiais, como o fiz desde sempre ao fundar duas associações nacionais e uma regional, descontinuadas e perdidas nos meandros das penosas e retrogradas políticas desportivas existentes entre nós.

Técnicos e professores, fundem suas associações regionais, divulgue-as e enriquece-as pelo mágico caminho da grande rede mundial, que é gratuita e poderosa, e o mais importante, dissociada e independente dos redutos políticos e atrasados que infestam as federações e a CBB. Jamais se permitam ser dirigidos, orientados e balizados por tais órgãos, cujas determinações e decisões se pautam no interesse exclusivamente político. Trabalhem e ajam dentro dos parâmetros e limites da ação educacional e social, nas quais o valor é medido e avaliado pelo mérito, e pelos alicerces dos princípios éticos.

Quando estiverem suficientemente fortes e estabelecidos, alinhados e conectados pelas trocas e experiências transmitidas e divulgadas pela grande rede, aí sim, se abrirão os espaços para a fundação de uma associação nacional, com a garantia de que jamais cairá nas mãos de oportunistas de ocasião e acólitos dos mandatários que nos tem levado para o fundo do poço em que nos encontramos.

Pensem bem, discutam bem, e resolvam se realmente querem e desejam de coração tomarem em mãos essa que poderá vir a ser a verdadeira revolução que poderá salvar o que ainda resta de tradição e passado do nosso querido e maltratado basquetebol. Lembrem-se também, que “as grandes conquistas começaram com pequenas e decisivas escolhas, devagar e inexorável”. Torço por todos vocês. Amém.

O SABER UTÓPICO.

E o Pré-Olímpico chegou ao fim, e com ele nossas esperanças de classificação até uma nova e dificílima oportunidade no ano que vem. Muito se discutiu , muito se escreveu, mas no final das contas todos nós perdemos algo de muito precioso, a fé em nosso futuro imediato, sem muitas perspectivas no futuro remoto. E o principal fator, aquele menos discutido, até mesmo omitido do conhecimento da massa torcedora, e convenientemente negado pela elite diretiva do nosso desporto, é que qualquer mudança, possível ou não, sempre estará condicionada à realidade política que a mantém sob o rígido controle e comando da nefasta elite, para a qual a continuidade diretiva é o supremo troféu a ser alcançado e mantido ditatorialmente. Democracia e seus conceitos de progresso humano e político, são objetivos a serem renegados sempre que possível, garantindo o continuísmo desvairado, ao custo de benesses e sistemáticas trocas de favores e votos.

Logo, esqueçamos que substanciais mudanças possam vir a ocorrer, que ponham em risco tão ciclópica estrutura. A direção e comando de seleções brasileiras são um peso considerável no jogo político, principalmente quando os votos de federações poderosas e influentes lastreiam o continuísmo vigente. Qualificação e conhecimento técnico reconhecido e testado não representam muito quando o que está em jogo é a segurança e manutenção de uma alcatéia bem treinada em sobrevivência e propriedade das chaves dos cofres. O apadrinhamento que garante o escambo político definirá quem o representará na forma de comissões técnicas. Sempre foi assim, e assim continuará sendo, até um dia que consigamos estabelecer no país uma política desportiva que privilegie o talento, o conhecimento e o respeito pelos valores educacionais e técnicos.

Mas, ainda não nos negaram o direito aos sonhos, que é um legado daqueles que sempre estarão do outro lado da cerca, e que ainda teimam em passá-los e incentivá-los pelas gerações de jovens que acreditaram, acreditam e continuarão a acreditar no sonho que de tão impossível pode ser sonhado como plausível, tocado e vivenciado por algumas mãos que o poderão tornar realidade, um dia.

Iniciei este artigo na forma de uma resposta a um post e alguns emails que recebi perguntando o que faria se fosse guindado à direção da seleção brasileira depois do recente desastre no Pré-Olímpico. E a melhor e utópica resposta já consta de muito dos arquivos deste humilde blog, que sugiro, num exercício, que sei e avalio penoso, uma releitura dos mesmos, que foram tantos, mas numa concisa e restrita escolha, passo a enumerar:

O QUE NOS FALTA TREINAR-28/09/2005

O QUE NOS FALTA TREINAR II -03/10/2005

COMO GOSTO E SEMPRE JOGUEI – 24/10/2004

COMO DEVERIAMOS JOGAR – 25/11/2004

POR ONDE (RE) COMEÇAR – 06/01/2005

O QUE TODO TÉCNICO DEVERIA SABER – 11/02/2005

Após a cansativa leitura, acredito que entenderão quão utópicas são as respostas, na medida direta da mais utópica ainda pergunta. Mas como não nos custa sonhar o sonho impossível, que ao menos fiquem os posicionamentos e princípios técnico-táticos, assim como os conceitos éticos e culturais, como sinceras e honestas sugestões para aqueles que serão os responsáveis pelo futuro de nossas seleções. A todos eles desejo sucesso e bom trabalho. Amém.

CHECKLIST FALL

CONSUMATUS EST…

Meu velho e inesquecível pai, grande causídico uma vez me disse: “Podem enterrar a verdade, matá-la, nunca, pois por mais fundo que a enterrem, mais cedo ou mais tarde aflorará em busca de sua redenção”. E fiz destas simples palavras um relicário comportamental, que me acompanhou pela vida acadêmica e desportiva, e me acompanhará até o fim de meus dias. São como alicerces dos princípios éticos que devem balizar e orientar todo relacionamento humano, naqueles momentos em que a sinceridade, o objetivo comum, a busca da superação, o esforço irmanado, a honestidade absoluta, o irretocável juramento, a luta impessoal em função do todo, o sacrifício voluntario, a renuncia às vaidades, o bem comum, o amor espontâneo, o orgulho participativo, a alegria da vitoria, o embalo na derrota, o compromisso inalienável com a verdade, somente a verdade, pautarão e indicarão o caminho a ser seguido por um grupamento humano, uma equipe, sob o comando do eleito aceito por todos no inicio da jornada, qualificando-o no posto até que ela seja percorrida por completo. O preceito de hierarquia ao ser estabelecido e aceito por todos, jamais poderá ser rompido, sob pena de se instalar o caos pela perda da autoridade e da responsabilidade participativa e honesta. Trair tais preceitos, acordados no inicio da caminhada, é o erro mais torpe e abjeto que pode ser cometido por um grupamento, por uma equipe que almeje e se sinta merecedora de respeito e consideração, que almeje a vitoria, mesmo que manchada pela perfídia da traição. Decididamente não é esse tipo de vitoria que almejamos e desejamos para o nosso tão combalido, massacrado, injustiçado e agora traído basquetebol.

A reportagem de David Abramvezt do site Lancenet, com o jogador Marquinhos, desligado da seleção brasileira por contusão, é estarrecedora, inacreditável, e põe um ponto final em toda e qualquer especulação, que possa vir a ser estabelecida, sobre o verdadeiro teor da reunião secreta que os jogadores organizaram logo após a derrota para a equipe de Porto Rico. Nego-me a transcrever qualquer afirmativa exposta na reportagem, mas convido o público leitor a tomar conhecimento da mesma, e não as transcrevo por se tratar de um testemunho pusilânime, covarde, ignorante, que só poderia ser originado de um traidor, em concluio com os demais traidores, figuras abjetas e absurdas, e que bem representam o retrato fiel da improbidade e delinqüência que se instaurou na CBB, com sua absoluta falta de autoridade, competência e legitimidade. O Grego melhor do que um presente, deveria estar envergonhado em participar de tamanha fraude, de tamanha vilania. Se comandante fosse, um basta deveria ter sido dado ante tanta baixeza. Sua permanente ausência ao que o rodeia é a prova inconteste de sua nulidade.

Não estou aqui defendendo a comissão técnica, muitas vezes criticada por mim em artigos aqui publicados sobre seu trabalho. Defendo, isto sim, o primado da autoridade, o cumprimento do estabelecido e aceito por todos, incondicionalmente. Defendo a existência de uma unidade de objetivos e de comportamentos compatíveis visando alcançá-los. Defendo o respeito aos mais experientes, aos mais velhos, mesmo que alguns não concordem com determinados conceitos emanados pelos mesmos, pois existem caminhos e até atalhos que podem ser utilizados na busca do entendimento respeitoso e responsável. Mas, caminhos há que não devem ser trilhados, principalmente aqueles que levam à perfídia, ao hermetismo interesseiro, às sombras que ocultam os traidores, as resoluções que visam interesses próprios, na maioria das vezes escusos, e que em muitos casos vêm envolvidos em falsos pacotes patrióticos, que visam o sucesso nem sempre, ou quase sempre imerecido.

Agora podemos entender perfeitamente certas declarações de jogadores, olhando a câmera diretamente, como passando um recado a todos aqueles que não seguirem suas cartilhas, do alto de seus contratos vultosos no exterior, onde não têm peito nem coragem de se insurgirem contra seus patrões e empresários, escravos que são, da forma como se insurgem e agem covardemente entre nós. Podemos entender a recusa deprimente de se negar a defender a equipe brasileira quando solicitado a fazê-lo em pleno jogo. Podemos entender a agressividade chula e infantilóide contra uma imprensa que, por obrigação e direito expõe suas mazelas. Infelizmente, podemos agora entender o que vem a significar ter um grupo”fechado”, já que composto de desqualificados e indignos de vestir a camiseta de uma seleção que conquistou o mundo com lealdade, técnica e acima de tudo honra.

Amanhã, esta equipe tentará uma classificação olímpica, renegando seus técnicos, renegando suas tradições de lisura e dignidade. Amanhã, esse grupelho, comandado técnicamente por não sei quem, já que decidiram omitir e desconhecer as determinações dos técnicos, enfrentarão a equipe argentina, que torço para que vença, pela força de sua equipe, de seus técnicos e dirigentes, pela força de sua organização desportiva, pelo orgulho patriótico, pela limpidez de seu trabalho. Caso percam, subsistirá entre nós o agora primado da traição, a inversão definitiva de valores, a instauração do caos, que nem uma taça e uma vaga olímpica perdoará, e nos fará esquecer. Estou envergonhado e profundamente triste. O basquetebol brasileiro não merecia, e não merece passar por tal constrangimento. Consumatus est.

A HORA DAS VERDADES…

Dentro de duas horas americanos e argentinos decidem a liderança do Pré-Olímpico em sua fase classificatória às semi-finais. A equipe brasileira, ao vencer largamente os uruguaios nesta noite classificaram-se para uma das semi-finais, e se os prognósticos não sofrerem nenhuma surpresa, os argentinos serão nossos adversários a uma das vagas olímpicas.

A vitória brasileira contra os uruguaios pode ser definida como convincente? No plano estritamente técnico, sem dúvida nenhuma, apesar do inequívoco racha nas inter relações de alguns jogadores, e do alheamento de alguns deles com relação à comissão técnica. E que não venham, escudados em uma vitória facilitada pela fragilidade defensiva e reboteira da equipe uruguaia, tentarem desmentir o que qualquer profissional atento tem captado nos gestuais, nas agressões verbais, e o pior, no descaso escancarado de alguns de seus componentes às instruções técnicas nos pedidos de tempo, beirando mesmo ao desprezo. As tristes e reveladoras imagens da ESPN Brasil, mostrando em todas as minúcias o ataque sofrido por uma jornalista de um diário paulista, por parte dos jogadores Guilherme e Huertas, e do técnico Lula, pela publicação do teor da reunião fechada dos jogadores logo após a derrota contra o Porto Rico, além de profundamente constrangedor, expôs o alto grau de descontentamento e divisão que tanto tentam esconder, pois quem não deve não teme, nunca. Ainda mais, partindo tais ações de um jogador que se auto intitula porta-voz do grupo, fato indesmentível, desde quando após o último mundial de triste lembrança, veio a público criticar o posicionamento de seu atual companheiro de equipe, Nenê, por não defender a seleção, expondo inclusive as condições que o mesmo teria de aceitar para voltar ao grupo”fechado”. Quanto ao técnico, é inadmissível que o mesmo se dirija publicamente a uma jornalista, na companhia de dois jogadores, para exigir reparações, que se consideradas afrontosas, deveriam ser encaminhadas pelos canais previstos em lei, sendo um direito acessível a qualquer cidadão que se julgue injustiçado. Sua primaria obrigação era afastar os jogadores daquela lamentável situação registrada por cameras, e ato contínuo, solicitar ao responsável pela chefia da seleção o encaminhamento legal que o caso exigisse. Sua atitude intempestiva tipificou um evidente desequilíbrio de comando, ainda mais na presença de um jogador, que junto a alguns outros estabeleceram na equipe um tipo de liderança de total e irrestrita responsabilidade do técnico da equipe, ainda mais, como na atual forma de comando, à comissão técnica. Pairaram no ar pinceladas de media junto a alguns jogadores que contestam sua integral liderança, e naquele momento a encurralada jornalista se prestava convenientemente àquele papel, reforçado pela presença televisiva. Foi uma atitude reprovável, que em situação de normalidade técnica-administrativa careceria de qualquer importância.

A vitória aconteceu através um consistente jogo interior, onde os poucos e limitados pivôs uruguaios, à exceção do Gonzales, não opuseram resistência aos pivôs brasileiros, principalmente nos rebotes, e ao jogo exterior responsável e paciente, desenvolvido por alas e armadores contidos em suas aventuras de três pontos, substituído-as por eficientes penetrações e deslocamentos em velocidade, principalmente nos contra-ataques. A defesa funcionou melhor na justa medida do domínio dos rebotes, não permitido aos uruguaios as segundas tentativas. Os arremessos alcançaram médias razoáveis e o placar elástico premiou o esforço que devem ter assumido em face de desencontros, descontentamentos, falsos juízos, e muita falta de humildade e desprendimento. Mas o desencontro com a comissão técnica ainda se faz presente e visualizada, exigindo que algo deva ser feito para que as grandes e aguçadas arestas comportamentais e de comando sejam aparadas, fator essencial ao possível sucesso no confronto decisivo de sábado próximo.

Enfim, apesar dos grandes tombos e desavenças, a seleção atingiu o estágio de semi-finalista, numa façanha que demonstra com perfeição o grande potencial de seus jogadores, e necessitando daqui para diante que um comando efetivo e digno de crédito seja estabelecido e almagamado ao corpo da equipe, para que juntos tentem a vitoria possível. Em caso contrário, toda uma geração expiará pelos muitos e perpetuados erros cometidos nos últimos anos de descalabro técnico-administrativo, erros estes que atingem, como vem atingindo aqueles que menos podem reverter tal situação, os jogadores.

Que se faça um pouco de luz e bom senso, é o que desejo de coração. Amém.

VELADAS VERDADES…

Aconteceu em um dos muitos mundiais de que participamos, mais propriamente durante a era de Oscar e companhia, quando tínhamos uma brilhante equipe, mas, nem sempre bem dirigida e orientada. O jogo era contra uma Lituânia com três formidáveis jogadores, um deles o inesquecível Arvidas Sabonis, e uma plêiade de jovens inexperientes que submetiam sua seleção a uma forçada, porém necessária renovação. Sabedores de que somente venceriam a equipe brasileira se chegassem no momento da decisão com os três grandes jogadores em quadra, o que fez o técnico lituano? Isso, acertou bem na mosca caro leitor, orientou seus craques a não cometerem faltas pessoais, no momento em que constatou que a equipe brasileira não abrandaria de forma alguma sua voracidade pelos arremessos de três pontos, sua marca registrada. Pratica e sutilmente “propôs” ao técnico brasileiro um trato de cavalheiros, ao afrouxar sua defesa aos arremessos curtos, em contrapartida à notória e histórica inapetência em defender da equipe brasileira, para, nos momentos finais da partida decidirem o vencedor. Claro, que em se tratando de uma proposta velada, e que propiciaria à equipe lituana sua única chance de vitória, apostou seu técnico que os brasileiros, por hábito e excesso de confiança, não abririam mão de seus arremessos de três em função de meros dois pontos. Outrossim, através seus três formidáveis e únicos jogadores experientes ia minando os pivôs brasileiros no jogo interior, de dois em dois pontos, pacientemente mantendo um razoável equilíbrio no placar. No entanto, tal equilíbrio se tornou permanente no momento que os arremessos de três teimavam em não cair numa proporção inferior aos de dois dos lituanos, e assim chegaram aos minutos finais. O quadro de faltas quanto aos três experientes lituanos era ridículo, pois somente cometeram três, uma para cada, ao passo que os brasileiros já começavam a sentir o peso das muitas faltas acumuladas na tentativa de segurarem os curtos arremessos lituanos. Note-se que em momento algum a equipe brasileira se deu conta de que os lituanos, por força de sua limitação de jogadores experientes, jamais oporiam forte marcação aos arremessos curtos, os de dois pontos, tão desprezados pelos brasileiros, atrelados à sua volúpia pelos de três. O que ocorreu então nos minutos finais? Na mosca de novo, caro leitor. Os lituanos apertaram na marcação, pois tinham 12 faltas para gastar naqueles decisivos momentos, nos quais os brasileiros resolveram apelar para as penetrações ante o decréscimo de acerto nos arremessos de três, fator este que definitivamente equilibrou um jogo, que pela análise comparativa entre as equipes, pendia claramente para o lado brasileiro, dada a qualidade e experiência de seus jogadores, ao contrario dos lituanos com seu juvenis reforçada de três excelentes veteranos. A equipe do Báltico nos venceu de 10 ou 12 pontos, não me recordo o placar, e despachou nossas chances naquele mundial.

E porque essa reminiscência tirada lá do fundo do baú? Perfeito, caro leitor, acertou mais uma vez. O jogo de ontem, e alguns outros que temos perdido pela manutenção daquela volúpia que persiste entre alguns de nossos jogadores, viúvas inconsoláveis e eternos candidatos ao trono do mítico Oscar. Numa partida, talvez a única até o presente momento em que tínhamos alguma supremacia no jogo interior, tanto pelo Spliter e o Murilo, como pelo delfin, resolveram alguns de nossos mais do que experientes jogadores, abandonarem o óbvio pelo arriscado e até certo ponto aventureiro arremesso de três pontos, aquele mesmo que em muitas ocasiões enterraram justas e oportunas chances de resultados positivos para nossa seleção, assim como pela imperícia e passividade da comissão técnica para simplesmente exigir que o jogo interior tivesse prioridade absoluta, pois, com uma vantagem de 17 pontos ao inicio do quarto final, bastariam jogarem e pontuarem de dois em dois pontos, permitindo aos argentinos tão somente a mesmas pontuação, para que a administração da vantagem fosse mantida.

Mas não, o que é isso, cara? Duvidar de nossa capacidade pontuadora, mortal e decisiva? Nem pensar, nos garantimos ! E tanto se garantiram que ante uma preguiçosa seleção argentina, pascáciamente descansada em sua garantida classificação, se viu forçada a assumir um pequeno esforço, que não custava nada ante tanta permissividade de nossa equipe, e foi de encontro a uma vitória renunciada por uma grupo que não se une, e que é dirigido sobre a égide da “coisa planejada”, que de tão pretensamente imaginada, sequer tem o apoio da equipe e o respeito de seus perdidos jogadores. Lastimável e preocupante, muito mais do que preocupante, trágico, simplesmente isto, trágico.

Hoje, contra o Uruguai, que não se descuidem, pois é uma equipe, que apesar de limitações e até uma certa indisciplina por parte de um jogador, é valente e com uma concepção de jogo coletivo apreciável e profundamente perigoso. Se não mudarmos certos comportamentos, não só técnicos, mas de relacionamentos inter pessoais, poderemos amargar um resultado em nada conveniente ao nosso combalido, mal administrado e pessimamente dirigido basquetebol.

Torço honestamente para que a equipe supere suas barreiras coletivas e inter pessoais, e que conquiste aquele lugar compatível às suas qualidades e ao seu justo merecimento.

Amém.

12 HORAS DEPOIS…

Ato contínuo à vitoria contra a fraca equipe mexicana, e os arautos renascidos da secreta reunião de Las Vegas, onde somente os jogadores participaram, vêm através da imprensa ( O Globo de hoje) externarem opiniões personalistas, em assuntos, que no mínimo, pertenceriam aos membros da comissão técnica em seu pleno direito de comando, já em muito arranhado pela não participação na referida e divulgada reunião.Eis o que foi publicado : “Um dos destaques da vitória, o pivô Nenê, com 17 pontos, disse que depois da derrota para Porto Rico o elenco conversou e se acertou. O pivô do Denver Nuggets acrescentou que os jogadores atuaram como equipe contra o México, ao contrário do que ocorrera na humilhante apresentação da véspera. Para o ala Guilherme, existe a possibilidade de a comissão técnica poupar alguns atletas, hoje, contra a Argentina, pensando no Uruguai : -Vamos entrar para ganhar da Argentina, mas cabe à comissão técnica saber quem vai usar, se pode fazer rotação maior e poupar para a decisão com o Uruguai. Se corrermos na mesma direção, fica mais fácil ser um time vencedor”.

Num dos trechos da ótima coluna da jornalista Mirian Leitão nesse mesmo jornal podemos ler : “Os escorregadios caminhos da mente produzem frases reveladoras, já explicou Freud” , definindo o ardil psicológico que assalta certas declarações de homens públicos.

Jogadores de seleções nacionais também são homens públicos, com imensa audiência e decisiva influência junto à opinião pública, principalmente aquela que os tem e adotam como referências e exemplos a serem seguidos em suas declarações e atos. Por estes motivos é que tais declarações e posições tomadas em reunião secreta de jogadores, óbviamente repassadas à comissão técnica, com imediatas modificações de critérios nas escalações da equipe e em seu modo de atuar, é que calam fundo na desconfiança de que os preceitos indiscutíveis de comando foram irremediavelmente corrompidos pela aceitação incondicional do que foi consensual na decisão dos que deveriam se manter como comandados. Um dia antes, num jogo do Uruguai, um dos pivôs se insurgiu violentamente contra seu técnico, atitude agressiva documentada pela transmissão de TV, e que teve uma interpretação esclarecedora da realidade que se espraiou no seio da comunidade profissional do basquete sul-americano, por parte de um dos técnicos –comentaristas da SPORTV, defendendo o ponto de vista de que tal e agressiva atitude de um jogador contra seu técnico, deveria ser levada como “natural no ardor da disputa, e que o técnico ofendido publicamente em sua autoridade deveria relevar com amor tão agressiva atitude, enaltecendo a grandiosidade do perdão”. Ao final da partida, em seu quarto final, retornou triunfante o grosseiro e violento jogador, ante a passiva e condescendente conivência de seu técnico, numa decisão que o desqualifica como líder de um grupo que se pressupõe ligado e amalgamado por preceitos de disciplina e educação desportiva.

Temo pela evolução de tantas e negativas influências que vicejam no sentido inverso do espectro social, onde participantes de um pacto coletivista, sob a égide de um comando aceito à priori por todos, se insurge contra o mesmo, fazendo-o refém de uma decisão majoritária, liderada por aqueles participantes que jamais deveriam exercê-la de pleno direito, os jogadores, ainda mais quando tais decisões e posicionamentos são tomadas à revelia de quem de direito, a comissão técnica. Imposição de uns, e aceitação de outros, o eterno embate entre o certo e o errado, o positivo e o negativo, o vitorioso e o irremediavelmente derrotado, que no frigir dos ovos representa a derrota de todos nós, que por vários caminhos e estradas da vida aprendemos um dia o valor e respeito à ética social. Rompidos tais preceitos, pouco ou nada de saudáveis e transparentes objetivos comuns poderão ser alcançados, a não ser aqueles envoltos pela neblina e pela escuridão do que de pior pode aflorar no seio de uma equipe, a inversão de valores.

Anseio que se façam claras e transparentes as importantes e decisivas decisões e definições a serem estabelecidas daqui para diante, único caminho a ser trilhado em busca do bem comum, a classificação olímpica, obedecidos , e que se farão necessários, os princípios da ordem e de comando, sem os quais imperará o caos e o desrespeito. Amém.

REUNIÃO EM LAS VEGAS.

E de repente, emergindo de uma reunião logo após a tremenda e constrangedora derrota contra Porto Rico, ressurge um outro time, uma outra disposição para o enfrentamento, uma outra concepção de liderança, uma outra relação inter pares, enfim, uma outra equipe. Pouco ou nada se sabe sobre o teor da reunião, a não ser alguns entreveros flagrados pela TV, onde abundaram ofensas e graves quebras de hierarquia logo após o encerramento do jogo, ainda em quadra. No entanto, duas entrevistas que antecederam o jogo desta noite com o México, dadas à imprensa pelo delfin e pelo Guilherme, deixaram no ar que pontos muito sérios e controvertidos foram postos à discussão aos presentes na mesma, que pasmem, era composta exclusivamente pelos jogadores, sem a presença do comando da equipe, a comissão técnica com seus três integrantes. Numa linguagem evasiva e hermética, externaram ter sido a reunião um ajuste entre algumas posições divergentes e pessoais, realizada olho no olho, e que culminou num “fechamento” de objetivos a serem alcançados por todos. E tantas eram as divergências, que o treino desta manhã deu lugar a um segundo tempo de reunião, onde mais posicionamentos foram definidos.

E então, o que se viu ainda no primeiro quarto do jogo contra os mexicanos, foi uma guinada radical na escalação da equipe, quando, contrariando o seu reiterado posicionamento de partidas anteriores, a comissão técnica fez entrar os até aquele momento inaproveitados Guilherme e Huertas, encostando de forma visível e acintosa os jogadores Nezinho e JP Batista, reservas preferidos do técnico principal, que somente participaram nos minutos finais do jogo, e cujos semblantes demonstravam nitidamente suas insatisfações ante a nova situação. Outrossim, Marcelo e Alex se firmaram em suas inabaláveis posições, agora na companhia do Guilherme, exatamente o trio de cardeais que expuseram pela mídia, ao término do Campeonato Mundial de triste memória, seus posicionamentos contrários àqueles jogadores que se negavam à participar da seleção, o delfin em especial. Com a definição da base da equipe, formada pelo Valter, Leandro e o delfin, de a muito definida no check list nenesiano, o grupo cardinalício formado pelo Marcelo, Alex e Guilherme se impôs nas escalações levando consigo o Huertas, preterido claramente pela comissão nos jogos do torneio, em favor do Nezinho . No campo dos pivôs, os posicionamentos do delfin, do Spliter e do Murilo, não poderiam ser obstados pelo novato JP Batista, preferido pelo técnico principal em muitas das etapas percorridas pela equipe, mesmo sendo um bom jogador.

Com estas disposições estabelecidas, constatou-se de uma vez por todas o conservadorismo técnico-tático enraizado no âmago dos jogadores, acostumados e sedimentados no sistema de jogo tradicional com um armador e suas movimentações padronizadas e repetitivas. Essa forma de jogar e atuar garante o aproveitamento permanente dos alas, dos cardeais, num rodízio de três para duas posições, destinando o Huertas à reserva direta do Valter, em vez do preferido Nezinho. Claro, que com a adoção de dois armadores a divisão territorial das capitanias hereditárias seria alterada para menos, o que não era de interesse dos cardeais.

O que se viu daí para diante, foi a tremenda ascensão da liderança dos jogadores por sobre o comando da comissão, que não pode sequer disfarçar tal evidencia, haja visto as radicais mudanças de escalação testemunhadas por todos aqueles que entendem um mínimo de basquetebol, e mesmo por aqueles que pouco entendem do mesmo, bastando para isto revisar os jogos anteriores. Temos então estabelecida uma nova ordem, item final do check list onde o quadradinho permitindo a continuidade do técnico pode ser preenchido pelo xis do delfin e dos cardeais.

A entrevista do delfin, onde explica ao seu modo como a equipe se comportava tecnicamente, e como mudou esse mesmo comportamento após o estabelecido na secreta reunião, nos esclarece a dimensão do que lá ocorreu, e do que foi modificado, aspectos estes demonstrados através a performance da equipe na vitória contra os mexicanos. E tudo à revelia da comissão, que se tiver um pingo de dignidade, se vê na obrigação de tomar duas atitudes : ou restabelece seu primado de comando, agora mesmo submergido pela liderança dos que deveriam ser os comandados, ou, por uma questão de quebra irrecorrível e definitiva de hierarquia e de ética, se retira de um campo de luta a que não mais pertence por deposição de comando, antes de que seja vitima de seus próprios erros, de suas omissões.

Mas meu amigo, se tais mudanças levaram a equipe à vitória, por que tanta objeção a uma simples e retórica reunião de jogadores bem intencionados? Bem, vimos o que ocorreu no jogo contra o México, uma equipe fraca e de pior performance defensiva do torneio. Esperemos os dois jogos à seguir, contra argentinos e uruguaios, onde as definições serão de maior monta, para aquilatarmos objetivamente quem realmente deve comandar uma equipe nacional de basquetebol lutando por uma vaga olímpica, se uma comissão técnica , ou um núcleo de jogadores opositores da mesma. Bem sabemos a resposta, e a coragem necessária para assumí-la. Tudo o mais é conversa de compadres colocando panos quentes, no afã de não perderem feudos conquistados também em reuniões ,tão ou mais fechadas e herméticas do que esta em Las Vegas.

Amém.