LOUCURAS DE MARÇO, ANÉIS E…CATS.

Computador consertado, estruturado, clarificado e limpo de poeiras internas e externas, pronto para mais uma coletânea de artigos nem sempre pertinentes ao querido basquetebol, esquecido pela mídia e minimizado pela maioria de nossos cronistas, exceto por uma plêiade de blogueiros de primeira qualidade. Então, vamos à luta!

Foi uma semana repleta de jogos, dos mais variados matizes, aqui e lá fora, sobressaindo-se os da NCAA em seu março de loucuras. Vimos bons jogos e outros nem tanto, com duas ou três equipes realmente diferenciadas, num universo que prima pelo sistema do passing game, enquadrado pela posse de bola de 35 segundos, onde a estrela maior e absoluta é a comissão técnica das equipes, secundadas por alguns bons e promissores jogadores, principalmente aqueles que divergem na quadra de alguns esquemas desenhados nas pranchetas de alguns técnicos que se acham, e até são considerados pela imprensa de seu país, acima de qualquer julgamento. Nada mais constrangedor do que a exibição ostensiva de um anel de campeão, através movimentos declaradamente ensaiados, seja na direção da equipe, seja nas entrevistas, e até observando “distraidamente” um jogo, por parte do vaidoso Rick Pitino, que tem como carro-chefe de sua atuação a exigência da marcação pressão toda a quadra por todo o tempo de uma partida. Fora isso, tome de passing game, como a maioria de seus colegas. A globalização desse sistema tem na NCAA todo o embasamento de que precisa a NBA para mantê-lo e desenvolvê-lo no mais alto nível possível. Mas justiça seja feita, em matéria de fundamentos o basquete universitário americano ainda se mantém como uma das grandes escolas no mundo, o que garante a concepção e execução do sistema único de jogo.

Mas, para justificar a regra, pelo menos duas equipes “destoaram” da mesmice reinante, UCLA e Florida, exatamente as finalistas do ano passado, com suas equipes de altíssima movimentação, ótima defesa, e constante troca de funções na quadra, provando que jogadores que dominam os fundamentos, pivôs, alas ou armadores, se destacam muito além de um sistema de jogo, mesmo que este seja o indefectível PG.

Alguns excelentes jogadores se destacaram nas diversas equipes, principalmente os armadores, que é, e sempre foi a grande arma dos norte-americanos no concerto internacional, ainda mais quando têm de manter uma equipe sob controle a cada ataque de 35 segundos, assim como têm de liderar suas defesas pelos mesmos 35 segundos ante seus adversários. Claro, que ao saltarem para as competições cujo tempo limite é o de 24 segundos, esse treinamento físico, técnico e mental fazem dos mesmos jogadores com altíssimo grau de controle e leitura do jogo. Por isso, sempre propugnei que fosse adotado em nosso país os limites de 40 segundos para categorias até os infantis, e 35 segundos para infanto e juvenis, Daí para diante os 24 segundos seriam adotados. Seria uma atitude de respeito ao desenvolvimento gradual por que passam todos os jovens em sua maturação física e mental, dando aos mesmos a oportunidade de um aprendizado seguro e dentro do ritmo de cada um.

Para esta semana, com os 16 classificados poderemos assistir jogos mais equilibrados, mas não muito diferentes taticamente falando, dos que até agora foram jogados, e torço para que, não só UCLA e Florida, sejam aquelas mais diferenciadas, e que outras mais apresentem algo de realmente novo. Duvido que isso possa ocorrer, já que a globalização e pasteurização do grande jogo é passagem de ida na terra do Uncle Sam.

Por aqui, seguem os campeonatos regionais e o nacional, e agora a liga sul-americana, que tratarei mais adiante.

E para não dizerem que de repente deixei passar algo inusitado, posso afiançar que depois de lidar com jovens por quase 50 anos, lutar pela lisura das competições e respeito às leis do jogo, não me contenho com os 18 anos do Greg Oden, que me parece um homem para lá dos 25 anos, como o LeBron, fator que fazem deles tão mais produtivos que seus companheiros de “faixa etária”. Desculpem, mais também eles sabem produzir autênticos e felpudos cats, e anabolizados. Um luxo.

DEI UM TEMPO…

Dei um tempo, e um bom motivo foi a queima da placa-mãe do meu computador, o que me fez parar por uma semana. E foi um tempo, curto bem sei, repleto de muita leitura e de alguns passeios elucidativos. Um deles, aqui perto de casa muito me fez pensar. Peguei o carro e fui até o autódromo, onde se constroi as arenas de jogos coletivos, de natação e saltos e o velódromo, para o Pan-Americano. Claro, não pude entrar, mas a grandiosidade dos estádios salta por cima da amurada, a mesma que transpús em 98 quando acompanhei o filho adolescente ao show do U2, e a um dos Grandes Premios da Fórmula CART. Em ambos, enfrentei os piores congestionamentos de público e carros que tenho lembrança em competições esportivas, e que foram muitas em mais de 50 anos acompanhando esportes. A infraestrutura do local continua a mesma de 15 anos atrás exceto o anel rodoviario construido à frente da Vila Olímpic, ligando-a à grande avenida do autódromo, e só. Nenhuma obra visando transporte de massa sequer foi esboçada e prevejo sérios problemas para o público que desejar assistir as competições naqueles suntuosos locais, principalmente os turistas. Mas as empreiteiras estão exultantes, pois a dinheirama correu solta,
assim como as firmas responsáveis pela administração e controle das competições, algumas extrangeiras, pouco têm a reclamar, sem contar a publicidade milionária. O ineditismo propiciado pela gratuidade das passagens aéreas para todas as delegações fez outra festa para a empresa nacional beneficiada, entre outras benesses a apaniguados e protegidos por esta orgia com o dinheiro público. E apesar de toda cornuópia, algumas competições correm o sério risco de terem seus indices técnicos minimizados pela precariedade de algumas instalações. Enquanto uma multidão de técnicos e especialistas em construções, organização, administração, turismo, cerimoniais, segurança, transportes e outras coisitas mais se locupletam, nossos atletas e técnicos se debatem entre necessidades das mais básicas, como por exemplo, locais condignos de treinamento, alimentação e técnicos bem remunerados. Mas estes são meros detalhes, numa competição em que somente em cinco modalidades os norte-americanos vêm com suas primeiras equipes, e inclusive, depois da negativa em comparecer, os americanos virão ao torneio de basquetebol com equipes compostas de universitários. Mas, a preocupação determinante, sem dúvida nenhuma, é a do deslocamento seguro e ordenado do público nos diversos locais espalhados pela cidade, que mantem sua estrutura falida de transportes, deteriorada nas últimas décadas. E a grande conquista decorrente dos Jogos para a população, a melhoria do transporte
metroviário, uma grande aspiração, foi deixada no papel, trocada por construções que pouco, ou nada acrescentarão às reais necessidades dos cariocas. Temo pelo sucesso dos Jogos, não só pelo baixo índice técnico esperado, mas principalmente, pelo nó górdio que terá de ser desfeito no tráfego dessa terrível cidade. Espero que consigam, mas duvido, honestamente.
Religuei o carro e retornei para casa, sem antes enfrentar uma retenção exatamente no grande trevo da Vila Olímpica naquele fim de tarde, num dia comum, sem maiores implicações desportivas. Dei um tempo em meus artigos, mas, infelizmente, recomeço sem muitas razões para otimismos patrióticos. Amanhã falo de basquete, prometo.

BEM VINDAS INOVAÇÕES.

Jogo final da chave de Franca do sul-americano de clubes, com o time da casa enfrentando o surpreendente Malvin do Uruguai. Um bom jogo,

enriquecido pela nova e já estabelecida postura tática da equipe francana,

com seus dois armadores de boa técnica, e três homens altos jogando dentro do garrafão em trocas constantes e velozes, garantindo os rebotes ofensivos por se situarem próximo à cesta, na contra-mão das demais equipes brasileiras envolvidas no campeonato nacional. Mas, em alguns momentos, o vicio dos demais jogadores assistirem parados as evoluções ofensivas de seu pivô, ainda mantem um resquício do posicionamento antigo, que se superado tornará a equipe difícil de ser batida. Em uma jogada no terceiro quarto ficou demonstrada a grande mudança no comportamento dos armadores de Franca, quando um deles, o Helio, após um passe lateral se infiltrou pelo garrafão, e de repente, como puxado pela cintura, retornou ao perímetro, o que o manteve “ligado” à jogada que se estabelecia naquele momento. Em outras ocasiões, manteria sua trajetória para trás da defesa adversária, para ressurgir no lado oposto, numa postura em que se desligava do foco da ação. Seus dois armadores agora jogam permanentemente fora do perímetro, e sempre ligados entre si e as jogadas que estabelecem para a equipe. Seus homens altos primam pela velocidade e energia reboteadora, atuando com grande e permanente mobilidade, propiciando grandes espaços às penetrações, exercidas com competência por todos da equipe. Enfim, a equipe retrocede um pouco no tempo, e privilegia o jogo baseado nos bons fundamentos de dribles e passes, tornando os corta-luzes mais práticos e eficientes. Pela permanente troca de posições, os arremessos de média e longa distâncias se tornam mais seletivos e equilibrados, pois se sucedem após passes vindos de dentro para fora do garrafão, garantindo o tempo mínimo necessário para sua realização êxitosa. Defensivamente, aumentou sua combatividade, principalmente pela incansável ação dos armadores, e pela mobilidade dos homens altos. Se decidir marcar os pivôs pela frente por toda a partida, será séria candidata ao título sul-americano, pois são os pontos fortes das equipes argentinas, seus formidáveis e ágeis pivôs.

A escalada qualitativa da equipe de Franca vem provar que a utilização de um único armador, e a existência de pivôs pesados e de pouca mobilidade, pode estar chegando ao fim, depois de um tenebroso inverno de atitudes e idéias, fundamentado na cópia canhestra do modelo que nos tem sido imposto nos últimos 20 anos, o modelo NBA, que nem mesmo eles mais acreditam, perante os repetidos fracassos nas competições internacionais.

Espero que essa bem-vinda novidade se mantenha, e que seja difundida pelas demais equipes brasileiras, principalmente nas divisões de base, profundamente engessadas ao exemplo advindo de nossas seleções nacionais. Torço para que isso ocorra, pois nos ajudará na escalada para fora do poço em que nos encontramos. Amém.

ENCONTROS E OUTRAS CLÍNICAS…

E como não há mal que sempre dure, seguindo-se ao esforço de técnicos paranaenses que se reúnem para discutir e estudar basquetebol, em outros dois centros, São Paulo e Espírito Santo, técnicos promovem reuniões no intuito de se aprimorarem e dividir experiências em prol da modalidade.

No ES incluem propostas e estudos para formarem uma associação de técnicos regional, o que é algo alvissareiro em nosso meio. Se SP incluir em seus encontros de técnicos aquela proposta capixaba, e outros estados adotarem essas e outras idéias progressistas, em breve poderemos ter uma sólida base para a fundação da futura associação nacional, que seria fruto de um processo progressivo e natural, embasado pela vontade democrática de todos os envolvidos pelo país afora.

Com exceção dos paranaenses, tais encontros têm em comum palestras técnicas proferidas pelos responsáveis pelas seleções brasileiras, principais e de base, e pelos técnicos envolvidos com o campeonato nacional, que em seus jogos regulamentares nesses estados proferem, à convite, tais palestras. Nos demais estados, os encontros são patrocinados pela CBB, em forma de clínicas, todas com a única participação pedagógica dos técnicos das seleções nacionais, num autêntico monopólio de princípios técnico-táticos, e realizadas geralmente nos estados alinhados politicamente à CBB.

Essa tendenciosa realidade tem como estrutura mater a sedimentação do sistema único de jogo, que nos tem empobrecido nos últimos 20 anos, e que tem sofrido árduo combate aqui dessa humilde trincheira. Torna-se imperiosa a escolha de outros técnicos para estas clínicas, e pelos encontros que aos poucos vão se estabelecendo pelo país. É de fundamental importância que os atuais e futuros técnicos, assim como os jornalistas, diretores, professores e estudantes de educação física se vejam na presença de outras alternativas pedagógicas e técnicas, para terem como avaliar e comparar a atual realidade com outra de tendência, senão antagônica, pelo menos algo diferente da mesmice pachorrenta estabelecida. Temos ótimos técnicos e professores que poderiam alternar tais tendências, como o Marcel, o Wlamir, o Sergio Macarrão, a Maria Helena, a Heleninha, a Laís, o Waldir Bocardo, o Marinho, o Paulo Motta, e muitos outros, com vastíssima experiência nas quadras e fora delas. É doloroso vermos a continuidade de um projeto absolutista sendo imposto sem a menor hipótese de contestação, já que referendado e garantido pelas verbas oficiais repassadas pela CBB. Trata-se de um monopólio suicida e até certo ponto criminoso por ser unilateral.

Proponho veementemente que os técnicos estaduais se reúnam e se organizem, e que convidem técnicos e professores de diferentes tendências

técnico-táticas, para que possam discutir e concluir projetos que atendam as diferenças regionais, aos segmentos populacionais, às estruturas esportivo-educacionais, culturais e econômicas de seus estados, e que principalmente, respeitem a sadia diversidade eugênica de nosso povo.

Creio ser essa a base necessária ao soerguimento de nosso basquete, o esforço regional de seus técnicos, professores, jornalistas, jogadores,e dirigentes, todos envolvidos no processo, que se inicia na discussão de todas as tendências, e não na aceitação passiva e facciosa de um único modelo, de um único caminho. O que aí está só nos levará, cada vez mais, para lá do fundo do poço em que nos encontramos. É preciso mudar.

DRIBLANDO NO PASSADO.

Nos últimos anos, desde a implantação do sistema único de ataque em nosso país, baseado no indefectível passing game, que nossos armadores vêm percorrendo uma via-crúcis digna dos dramalhões televisivos mexicanos. A cada reposição de bola em seu campo defensivo, recebendo o passe de um de seus pivôs, o que desde já se revela uma falha grotesca,pois pesadões que são se desgastam sem necessidade para ultrapassarem o veloz armador, em tempo de se posicionar no ataque. Este, no trajeto para o campo ofensivo, já perdeu uns 2 segundos freando suas passadas para permitir a ultrapassagem de seu colega bem mais lento. Ultrapassando a linha central, trava sua caminhada para sinalizar qual coreografia, digo, qual jogada pretende iniciar, e lá se vão mais uns 3 segundos, que somados aos 6-7 no campo defensivo e mais 2 que perdeu na ultrapassagem do pivô, completam 10-11 segundos dos 24 que sua equipe tem direito para o ataque. E nesse estágio ofensivo se inicia o mais perverso capítulo de incúria tático–ofensiva por que temos passado nos últimos anos. Duas são as atitudes do infausto armador, sozinho com sua parca habilidade dribladora, a saber: A- Na ânsia de ver seus atacantes perfeitamente posicionados, como numa formação de parada militar, dribla no mesmo lugar por uns 3-4, e até mais segundos, muitas vezes exercendo o drible mais absurdo de que temos notícia, aquele de bater repetidamente a bola entre as pernas, no mesmo lugar,até que seu colega pesadão saia do garrafão, que é seu devido lugar, e venha para fora do perímetro para promover um arremedo de bloqueio, geralmente faltoso, no intuito de dar segmento à coreografia exigida pelas pranchetas.A essa altura já temos 15-16 segundos de um balé de segunda categoria, cujo segmento é o de um passe lateral, seguido de outro, e mais outro, numa ciranda que leva a equipe ao limiar dos 24 segundos, e aí, aí tome de arremessos desequilibrados e distantes. B- Nosso armador, dá as costas para o marcador na tentativa de criar um tempo necessário para a competente armação de sua equipe, e após constatar que muito tempo já foi perdido, executa um passe lateral e vai se esconder atrás da última linha defensiva do adversário, na esperança de surgir num repente para o salvador e altamente especializado “chute de três”. Quando sua equipe escala um outro armador para lhe fazer companhia, a qualidade dos passes, e por que não, dos dribles melhoram muito, mas pouco somam de eficiência ante a obrigatoriedade das tramas coreográficas a que têm de se sujeitarem. E segue o jogo, como seguem os sinais de mãos, de cabeça, tirando do mesmo a necessária concentração na arte de superar e ultrapassar seu marcador. Mas, pecado dos pecados, quando consegue uma ultrapassagem, como se tocado por um freio invisível, retrocede à sua posição, dando mais uma chance ao defensor que havia sido vencido, para rearmar a jogada obrigatória. E como o cronômetro não retrocede como ele, lá se vão mais e mais preciosos segundos dentre os 24 previstos pela regra. E tudo isso motivado por um sistema de ataque absurdo, por irreal, já que planejado para um sistema de jogo que privilegia o 1 x 1, pois as coberturas e flutuações são bastante restritas pela NBA. Dificilmente se observa a quebra dos 24 segundos nos jogos daquela liga, exatamente pela proibição das coberturas, mesmo em marcações por zona. E nós aqui, macaqueando servilmente, como bons e apaixonados colonos, o que de pior poderia ser copiado daquele magnífico basquetebol, sim, porque existem ótimos exemplos no basquete americano, à começar por sua excelente escola de dribladores, cujo ápice foi um jogador a muito falecido, Pete Maravich, e que o blog Cestas de Ontem(www.cestasdeontem.blogspot.com), do jornalista Rodrigo Alves publicou um artigo e vídeos definitivos sobre a arte do drible, simples, objetivo, sofisticado, e totalmente voltado à equipe, numa época sem arremessos de três pontos, mas empregado no que poderemos determinar como a perfeita maneira de se jogar basquetebol com arte e com a mais pura e decisiva técnica. E lá se vão 30 anos, numa época em que nós também sabíamos jogar, inovar e vencer. Vão até o blog, e se deliciem com quem realmente soube jogar para sempre. Amém.

"MOMENTOS…"

Fazia muito calor em Rio Claro, e o jogo marcado para às 13 horas com a equipe do Minas antevia um transcorrer de jogo sacrificado e extenuante. E não deu outra, foi maldade pura para com os jogadores. Como o clima não ajudava previa-se um ritmo pausado e econômico em energias, para que restasse algum gás ao final do jogo. Mas não foi o que ocorreu, já que as equipes optaram pela grande velocidade inicial apostando qual delas sucumbiria primeiro à canícula. E sucumbiram, as duas, pois o que se viu daí para diante foi a mais devastadora sucessão de erros de fundamentos a que jamais assisti. E o pior, os técnicos não abriam mão da errada escolha que fizeram ao acelerar o ritmo do jogo. O que se viu de arremessos de três pontos inoportunos e desequilibrados foi uma festa, assim como as perdas seguidas de bola nos dribles e nos passes. Defesa então nem pensar, já que travados pelo cansaço e pela lenta reação mental, pouco ou nada poderiam fazer. Pequenas e médias diferenças no marcador pouco representavam ante a avalanche de erros de ambas as partes, até que, na fase decisiva da partida um dos técnicos, mais perdido que seus jogadores sai-se com essa pérola: “ Basquete é feito de momentos! Estamos perdendo o nosso!” E eu que sempre pensei que basquete fosse feito de jogadores com bons fundamentos, em equipes bem treinadas e dirigidas, antecedendo situações que possam, ou não, beneficiar o time, quando empregarão o que treinaram e ajustaram antecipadamente. Mas não, na ótica do técnico em questão, para o qual “momentos” definirão quem perde e quem ganha, independendo da qualidade de seus jogadores e de seus adversários, um verdadeiro draw poker, onde o blefe é arma poderosa. Os tais “momentos” já vão se tornando lugar comum em nosso dia a dia técnico, e já constatamos desculpas, tais como-“o nosso momento não aconteceu”, ou “não soubemos aproveitar o momento”, ou melhor ainda-“estamos em um mau momento”. É como se eles, os “momentos”, oscilassem entre uma equipe e outra, aleatoriamente, ao sabor da vontade dos deuses, ou como numa perversa loteria, em que nem sempre o melhor é aquinhoado.

Falta-nos doses maciças de humildade e bom senso, de técnica, de estudo, e de uma verdadeira concepção do que venha a ser o preparo eficaz e inteligente de uma equipe. Já é hora de se dar um basta em códigos de sinais, em punhos, polegares, mão na cabeça, signo metaleiro, e outras aberrações que predispõem as equipes em formações que não levam a lugar nenhum, a não ser ao encontro dos tais e fugidios “momentos”, a mais nova panacéia da incompetência reinante.

O jogo chegou ao fim, e o menos desgastado,o Rio Claro, venceu se arrastando em campo, apesar do mágico “momento” ter estado ao lado de seu oponente em duas ocasiões, na opinião de seu técnico.No meu humilde ponto de vista só houve um real momento nesse jogo, aquele ansiado por todos os jogadores para que ele terminasse o mais rápido possível. Pior não poderia ter sido, o tal “momento”…

…MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.

Dentre as modalidades desportivas onde a bola é lançada e não percutida, somente no beisebol e no críquete os jogadores o fazem sem qualquer oposição defensiva, o que não acontece com o handebol, o pólo aquático e o basquetebol. Mas no festival mundial das milionárias estrelas do basquete, com contagens mais do que centenárias, onde, para admiração e aprendizado dos milhões de jovens fãns do mundo inteiro tais estrelas posam de exemplos a serem seguidos, o fator defesa deixa de ser importante como um dos básicos fundamentos do jogo, como bem demonstra essa foto divulgada pela imprensa mundial, e para todos que testemunharam o encontro pela TV. Nela o MVP da noite demonstra como se impor a um adversário completamente ausente da obrigatoriedade defensiva. Jogo de compadres é assim mesmo, para gáudio daqueles que adoram ser enganados. Essa é a NBA. Mas bem ali perto, no vizinho Canadá, o Cirque de soleil apresenta um espetáculo bem melhor, e profundamente mais honesto.

ANATOMIA DE UM ARREMESSO II

Das etapas do All Stars somente uma me fez curioso e paciente para assisti-la, a dos arremessos de três pontos, talvez a única que se possa captar algo de real interesse para a modalidade. As demais foram puro circo e a mais absoluta falta do que fazer. Mas como gera muito dinheiro em divulgação e publicidade, continuam as gaiatices e encontro de cumpadres.

Um jogador relativamente modesto para os padrões da NBA, Jason Kapono venceu o torneio, convertendo 24 tentativas na segunda rodada. Mas o que me chamou mais atenção foi seu domínio no direcionamento da bola, com um elevado controle de seu eixo diametral, fator determinante no grande número de acertos. No artigo Anatomia de um Arremesso que publiquei em 2/11/2006, analisei um arremesso do jogador Marcelinho sob o ângulo de sua empunhadura na bola, e conseqüentes desvios que a mesma sofreria pela errônea colocação de seus dedos em sua superfície no momento do lançamento.Vale à pena dar uma olhada nesse artigo(http://paulomurilo.blogspot.com/2006_11_01_archive.html), como um preâmbulo do que passo a exemplificar.

Recordemos um principio de direcionalidade no arremesso de basquetebol- “Quando a bola sai da mão do arremessador, o faz girando inversamente em torno de um eixo diametral qualquer. Se este eixo se mantiver paralelo ao nível do aro e eqüidistante de seus bordos externos, a direção estará próxima da perfeição, fator determinante para que as demais varáveis intervenientes na ação, tais como força e trajetória, determinem o sucesso do arremesso”. E esse eixo é determinado pela colocação dos dedos na bola no momento final do lançamento. Vejamos então a figura 1, onde constatamos que os dedos polegar e mínimo, responsáveis pelo domínio do eixo diametral, se aproximam dos demais dedos, aqueles que são os responsáveis pela aceleração da bola, quando de suas flexões em direção à palma da mão. Na figura 2, pela determinação gráfica do eixo diametral (a-b) da bola e do alinhamento(c-d) do polegar e mínimo com o mesmo, estando esse alinhamento paralelo ao nível do aro, deduz-se que a bola estará bem direcionada à cesta, fator determinante para o sucesso da tentativa. Nesse tipo de empunhadura, ou pega, a posição dos dedos em nada se assemelha ao corriqueiro principio de espalmar os dedos sobre a bola, com a maior amplitude possível, que é o princípio maciçamente ensinado pela maioria de nossos técnicos, principalmente nas categorias de base. Esse posicionamento do polegar e mínimo empregado pelo Kapono, obrigará que o toque final dos demais dedos na bola obedeçam duas tendências, a saber: A- Os dedos indicador e médio serão os impulsionadores finais, pois de uma forma natural estarão dispostos na superfície da bola ao final do lançamento, mas com menos autonomia de força. B-Com uma retração do dedo médio, colocando-o no mesmo nível do indicador e do anular, a concentração de força será exercida por três dedos, e não por dois como no exemplo anterior. Pela análise da foto pode-se deduzir com pequena margem de erro, ter sido esta a pega utilizada pelo jogador do Miami Heat, assim como o desfoque de letras e ranhuras na superfície da bola demonstra ter sido a mesma imbuída de uma uniforme aceleração no transcorrer do processo de lançamento. Essa concentração a mais de força é muito bem vinda para os longos arremessos de três pontos, mas exige de quem o executa uma grande margem de adaptação anatômica e longo treinamento.

Como vemos por mais uma vez, ser especialista nos três pontos não é para qualquer um, como vem acontecendo comumente entre nós, onde jogadores que sequer sabem definir quais dedos utilizam no momento da soltura da bola, se colocam como especialistas na arte do arremesso.E o pior, com o aval de seus técnicos, não muito interessados nessas insignificantes minúcias de dedos e eixos.Para eles, a fabulosa prancheta resolve esses e todos os demais problemas.Que fiquem os teóricos com essas bobagens. Amém.

CONCEITOS SUCESSÓRIOS.

E a seleção feminina terá novo comandante,o técnico Paulo Bassul,que se afastou do posto de auxiliar técnico da mesma em 2004,por não aceitar mais aquela posição na comissão técnica. Por força de seu recente título na Liga Nacional é nomeado técnico da seleção, mas somente assumirá o posto após os Jogos Pan-americanos, que servirá de despedida do atual e longevo técnico Antonio Barbosa. Em sua entrevista no O Globo de hoje,o atual técnico assim se manifesta:” Vai ser meu quinto Pan,algo histórico.Quero o ouro. Era o momento de mudança, e se analisarmos as dificuldades,quarto no Mundial está de bom tamanho”. Mas continuará como supervisor das seleções femininas, a adulta e as de base, além de coordenar os cursos de atualização técnica pelo país. No site da CBB Barbosa esclarece um pouco mais seus projetos pós-Pan:”Vamos contar com técnicos jovens, aumentando o número de profissionais trabalhando com a base, que é um objetivo da CBB”.

Já o nomeado técnico, em uma entrevista concedida ao jornalista do Rebote, Rodrigo Alves, teceu alguns comentários, a saber: “O Barbosa vai ser o supervisor das categorias de base. Durante todos esses anos, ele fez uma análise precisa e viu a dificuldade que isso traz para a seleção brasileira. Nesse aspecto, ele vai contribuir bastante, dando boas sugestões à CBB para fazer uma transformação na base”. E mais:”(…) a Lei dos Incentivos pode resolver 2 problemas. Primeiro, a quantidade: aumenta o investimento, massifica mais. Segundo, trazer as melhores jogadoras de volta para o país e mudar esse fluxo”. E a uma pergunta do jornalista de como seria trabalhar para o nome mais contestado, tendo sido o mais apoiado pela mídia? “ Eu procuro não misturar a política com o trabalho de quadra(…), o que eu puder dar de contribuição ali dentro, vou dar. Isso não quer dizer que sou a favor ou contra ninguém politicamente. Eu sou técnico, minha bandeira é o basquete”.

Após lermos as entrevistas, e perante tais declarações, também temos alguns comentários a fazer: O atual técnico e futuro supervisor, que com esse posicionamento político continuará a dar as cartas na CBB, destinou a si próprio dois prêmios. A medalha de ouro mais do que ganha com a ausência da equipe americana, e o “histórico quinto Pan de sua carreira”, um recorde auto destinado, deixando para seu sucessor o risco mais do que previsto de uma não classificação nos pré-olímpicos que se avizinham, estes sim, com a presença americana, e as fortes equipes européias. Nem o grego melhor que um presente faria melhor. E como avánt-première do que nos espera, anuncia uma nova geração de jovens técnicos para o trabalho de base, claro, sob seu comando, todos orientados pela “análise precisa” que desenvolveu após todos os anos em que dirigiu a seleção brasileira, quando concluiu pela transformação na base que pretende desencadear, transformação que ele mesmo poderia ter liderado nos últimos 18 anos como técnico de seleção. Não seria mais justo destinar ao novo técnico, não só a incentivadora medalha, e mais precioso tempo nos treinamentos para as difíceis competições pré-olímpicas? E não é exatamente isto que as americanas estarão fazendo, inclusive não participando do Pan? Mas, um título e um recorde são mais importantes que o preparo de uma seleção sob novo comando. Isso é que é supervisão! Quanto aos cursos de atualização, como nos moldes da turma do masculino, continuará a camisa de força do atual sistema de jogo, engessando a nova geração de técnicos que responderão pelo trabalho de base, que segundo ele é do interesse da CBB, o que é terrível e desalentador.

Quanto ao novo técnico duas pequenas ressalvas. Primeira, se afirma que estando lá dentro irá contribuir com trabalho, e que não é a favor ou contra ninguém politicamente, e que sua bandeira, por ser técnico, é o basquete, deveria ter em mente que sua saída em 2004 se pautou na não concordância de ser assistente do atual responsável pela seleção, o que caracteriza explicitamente uma divergência técnica, que se tratando de comando exprime uma posição política. Logo, uma atitude política foi tomada para alcançar o posto que ostentará depois que o seu oponente se retirar, é claro, com a medalha e o recorde no currículo. Segunda, seria bom que se atualizasse perante declarações de que a Lei de Incentivos irá beneficiar o trabalho de massificação e a manutenção das grandes jogadoras no país, pois segundo o presidente do COB, tais verbas não serão utilizadas para pagamentos de atletas profissionais, o que todas as jogadoras de primeira linha são. Isso também faz parte da política desportiva. Finalmente, se ontem como assistente divergiu do técnico principal, a ponto de sair da seleção, como será daqui para diante quando o terá com supervisor técnico? Terá coragem, ou autonomia de voar solo pelos meandros das táticas, estratégias, implantando uma “nova, ou própria filosofia de jogo?” Ou por força da globalização técnico-tática que impera em nosso basquetebol, e que é seguida rigidamente por todos os nossos técnicos de seleções, incluso o da feminina, dará continuidade à mesma, com algumas novas pinceladas progressistas? Bem, para ter tal autonomia, não bastará coragem e determinação, e sim uma grande dose de escoramento político, a tal manifestação que jura de pé junto não fazer parte de seu posicionamento, já que sua única bandeira é o basquete. Espero que seja essa a verdade, para o bem do mesmo. Amém.

"PROFESSORES"…

Em dois artigos instigantes, Homens e robôs I e II, o jornalista Fernando Calazans do O Globo, abordou uma temática para lá de controvertida, e que de certa maneira espelha uma realidade, não só de nosso futebol,como do desporto de uma maneira geral. Sua conclusão final de que “o atleta perdeu a personalidade de jogador de futebol e se submeteu ao técnico, quando passou a chamar o técnico de professor”, deixa no ar algumas dúvidas muito sérias, principalmente naqueles que realmente se dedicam ao magistério, tanto no desporto, quanto fora dele. E aqui cabe uma pequena reflexão, fundamentada em fatos que passam desapercebidos pela maioria daqueles que militam no campo desportivo,em particular no futebol. De algumas décadas para cá, os professores de educação física que se formavam nas universidades, entre eles vários jogadores profissionais de futebol, encontraram no campo da preparação física o espaço propício ao desenvolvimento de seus conhecimentos científicos adquiridos nos estudos e estágios universitários, tendo muitos deles estendido seus conhecimentos em cursos de mestrado e até doutorado.A não ser aqueles que se notabilizaram como jogadores profissionais, que por essas razões tiveram oportunidades como técnicos, a imensa maioria somente encontrou na preparação física o campo empregatício no mundo do futebol profissional. E pelas suas funções e pela qualificação superior eram corretamente chamados de professores pelos jogadores que preparavam fisicamente, dentro de parâmetros científicos que os igualavam aos atletas de alto rendimento.Naturalmente,as terminologias “professor e atleta” se enraizaram no dia a dia do futebol profissional.E é um fato notório aquele que destina ao professor de educação física a mais absoluta dominância nas comissões técnicas,na grande maioria dos clubes brasileiros, no campo da preparação física. Para eles os jogadores têm de ser preparados como atletas, pois as exigências físicas são enormes, principalmente ante o calendário desumano de nossos campeonatos.

Mas, lenta e paulatinamente ocorreu uma inversão de valores, inversão esta matreira e inteligentemente administrada por aqueles que, destituídos do preparo e formação superior dos preparadores físicos, que tinham por parte dos jogadores o respeitoso tratamento de professores, e que em muitos e muitos casos, inclusive em seleções brasileiras campeãs mundiais assinavam pela responsabilidade diretiva das equipes, por exigência legal, permitindo que aqueles dirigissem as equipes na qualidade de técnicos, ou treinadores. E aos poucos, com suas posições estabelecidas à margem da lei, se apossaram do termo “professor”, que não poderia ser exclusivo de profissionais “subalternos” na hierarquia do mundo futebolístico, onde o ‘professor de futebol” era ele. Para completar o domínio, apossou-se também da terminologia “atleta”, pois sendo ele o elemento principal da organização, o reconhecimento teria de ser total. Não são poucos os “técnicos” que gravitam entre clubes sempre acompanhados de seus preparadores físicos de confiança, aqueles que o sustentam na preparação atlética e o garantem no mercado de trabalho. Agora mesmo a seleção brasileira apresenta uma novidade, a explicação pública, publicada pela imprensa nacional, de que o atual técnico não terá problemas legais por que tem a cobertura de um seu preparador físico. Como vemos, a “qualificação professoral” ostentada por muitos técnicos brasileiros vem fundamentada em alicerces não muito legais, e que a sabedoria na arte da sobrevivência da grande maioria de nossos jogadores trata de tirar o máximo partido dessa realidade, mantendo e divulgando, mesmo ironicamente, um título que a de muito vem sendo prostituído em nosso infeliz país. Uma nação que coloca de lado a educação de seu povo, merece que o outrora orgulhoso e estratégico elo de seu desenvolvimento, o professor, hoje seja um título ostentado pela maioria dos “técnicos” de seu maior anestésico social,o futebol. Aliás, já já teremos no seio da outra manifestação anestésica, o carnaval, os títulos de “professores” a muitos carnavalescos, e quem sabe o de “atletas” aos passistas. Panis et Circenses, é a sina nacional.