O PURISTA COÇADOR…

Caros leitores, sei estar em falta com vocês, mas aos poucos está se tornando muito difícil escrever e comentar sobre o atual basquetebol brasileiro, pelos motivos que todos vocês já sabem de muito, principalmente pelo marasmo, torpor, imobilidade do mesmo a toda e qualquer iniciativa que priorize a criatividade, o novo, o ousado, o proprietário a uma forma diferenciada de jogar o grande jogo, optando pela mesmice endêmica que o asfixia no aspecto técnico tático e de formação de base, repetidamente a cada temporada, e sem perspectivas de mudanças pelo prazo que for, lamentavelmente…

Mesmo assim, teimam alguns em projetar “revoluções sistêmicas” que prenunciam “novos tempos”, invencionices, ou mesmo pura cópia do que se faz lá fora, na maior, sem discutiveis implicações, seguindo a máxima dos despreocupados em estudar, pois – “se dá certo para eles, por que não para nós? “- E tome de chutação de três, afinal o Curry e os Warriors se dão bem, por que não nos daremos também? E outros mais que já preconizam enfáticos que na real, este é o basquete atual, e não há muito como negar, pois mais dia , menos dia, isso vai se impor no mundo. Será mesmo, em que se baseiam para afirmar tamanho equívoco, suas largas e profundas experiências, ou o clamor de uma mídia daqui, e de lá também, ávida em descobrir a pólvora, again?…

E por conta disso promovem a gênios, estrategistas tupiniquins, comandando jogadores que pecam seguidamente nos fundamentos, que não marcam ninguém, nem a própria sombra (aliás, um eficiente exercício de defesa muito utilizado pelos grandes lutadores de box, mas claro, esnobado por todos eles), porém exigindo aos berros e ameaças que chutem, chutem, quando livres ( que é um lugar comum pela ausência de qualquer impulso opositor contestatório), e que se não o fizessem seriam “pegos lá dentro por ele”, numa ameaça absolutamente condenável e constrangedora frente a uma função educadora e social, que obviamente não interessa, quando um novo umbral do grande jogo se descortina a um novo tempo que o mudará definitivamente, fazendo os puristas se coçarem todos com tanta modernidade. Todos? Mesmo?…

Morro de rir, assistindo essa farsa teatral, ainda mais quando me recordo da equipe do Praia Clube de Uberlândia dos anos sessenta que arremessava logo que transpunha o meio da quadra, se celebrizando com tal modernidade, assim como os mestres dos longos arremessos, da mesma época, como os inesquecíveis Angelin, Dutrinha, Luizinho, Paulo Cesar, Valtinho, Boccardo, Montenegro, Zezé, Zequinha, Conde, e muitos outros realmente especialistas nos longos arremessos, além dos lá de fora, como o Bird, o Roberson, o Riva, o Brabender, todos inseridos em suas equipes, compondo-as, e não fazendo das mesmas suprimentos para as tentativas de  transformar uma modalidade eminentemente coletiva em individual, que celebrizaram alguns midiáticos nominados, ainda mais sob o manto dos três pontos, mas que em hipótese alguma conseguiram mudar o jogo, não mesmo, a não ser o mítico Hank Luizetti (em 1937)  com seu jump shot revolucionário…

Agora mesmo as grandes equipes americanas e européias já se dedicam e se ajustam à defesa fora do perímetro com mais intensidade, perdendo o medo de serem penetradas por alas e armadores contestados lá fora, afinal tentam dois e não três pontos por vez, sendo que algumas delas oferecem a porta de entrada confiando nos bloqueios de homens cada vez mais altos, atléticos, flexíveis e velozes, equilibrando em muito as tentativas de fora, como aconteceu com o Mogi no Sul Americano em jogo contra o Paulistano, quando provocou vários “air balls” e algumas interceptações de passes (o sistema único é pródigo nos passes de contorno, onde uma defesa linha da bola se torna eficiente), virando um jogo contra uma equipe que optou definitivamente pela convergência nos arremessos de dois e três pontos, mantendo estes últimos como prioritários em seu “sistema moderno e revolucionário de jogo”, perdendo-o e a classificação na competição, porém nos brindando com uma obra prima de modernidade no vídeo acima veiculado. Claro, que dentro do medíocre, repetitivo, padronizado, e formatado padrão a que está submetido o grande jogo em nosso país, equipes como esta levam inquestionável vantagem, já que inserida na mesmice endêmica que nos devasta e humilha, pela mais absoluta ausência de criatividade, de ousadia, de coragem para investir em algo realmente novo, e optar pela desenfreada chutação de três, que em absoluto representa evolução, frente a inexistente e competente contestação defensiva, colocando a todos num mesmo barco, onde chutam a valer, ganhando quem mete a última e apaga luz, incapazes que são de efetuarem decentes e eficientes bloqueios , corta luzes, jogo sem a bola, movimentação constante e dinâmica de todos na quadra de ataque, defesa participativa e de constantes coberturas, num exemplo tácito do mais autêntico coletivismo, inescrutável tabu entre nós…

O trágico, é constatar que frente a um mínimo de contestação, como a transferência da velocidade horizontal em vertical (os cortadores e bloqueadores do vôlei o fazem costumeiramente) no intuito de alterar a trajetória de um arremesso, e não travá-lo (daí as sucessivas faltas para três arremessos livres), jamais é treinado, sendo mesmo desconhecido, assim como os próprios arremessos com as devidas técnicas de empunhadura e direcionamento (o purista aqui estudou, pesquisou, e escreveu uma tese de doutoramento exatamente sobre este assunto, não precisando se coçar para fazê-lo…), pouco ou nada são decupados e estudados indivíduo a indivíduo, como deveria sê-lo, abandonando o modelo estético que a maioria absoluta dos analistas conotam como a “mecânica perfeita”, e não só os analistas, mas muitos e muitos técnicos da base e estrategistas da elite, que simplesmente ordenam -”chutem, chutem, assumam a responsabilidade, a confiança, não importando se errarem, pois se não o fizerem pego a todos lá dentro”…

Aliás, basta recordar a atitude defensiva da equipe argentina do Almagro, que simplesmente conjugou o verbo contestar, jogou lá dentro de 2 em 2, e despachou a revolucionária equipe paulista de volta ao campeonato que poderá até vencer, o NBB, com sua constelação de “monstros”, “enterradas magistrais” e chutação despreocupada e irresponsável de bolinhas, emolduradas por midiáticas e ridículas pranchetas, autenticados por estrategistas revolucionários, e analistas que babam nas sobras de um basquetebol, cujos componentes sequer sabem qual a capital deste enorme, injusto e desigual país, que povoam as páginas dos nossos jornais, TVs e redes da web, num servil e colonial exemplo do que não devemos simplesmente copiar e divulgar, e já vejo o dia em que todas estas manifestações serão veiculadas em inglês, macarrônico ou não, para a glória e êxtase dessa “especializada, corporativa e revolucionária turma”…

Amém.

Video – Reprodução da Tv.



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