BASQUETEBOL FEMININO-O ERRO ESTRATÉGICO

No dia seguinte à chegada da seleção brasileira feminina que havia conquistado o Campeonato Mundial na Austrália, estávamos, eu,o Diretor Técnico e Chefe daquela delegação, Prof.Raimundo Nonato e o Prof.Ary Vidal no auditório do Instituto de Educação Física da UERJ, participando como conferencistas nas solenidades de aniversário daquela instituição. Durante a primeira palestra, do Prof.Raimundo passei um rápido olhar pelo caderno esportivo do Jornal do Brasil,onde tomei conhecimento de uma entrevista dos integrantes da comissão técnica sôbre as futuras intervenções que seriam estabelecidas nas preparações subsequentes daquela seleção campeã mundial. Chamou-me a atenção uma declaração estarrecedora, a de que à partir daquele momento seriam desenvolvidos treinamentos de pêso para aumento substantivo de massa muscular, e consequente aumento de pêso das jogadoras altas da equipe.Custei a acreditar no que havia lido, mas estava lá com todas as letras,as jogadoras esguias e velozes, que por sua constituição física conseguiram anular as gigantescas pivôs dos Estados Unidos e da China marcando-as pela frente,evitando que as mesmas recebecem bolas em condições de arremêsso, seriam submetidas a treinamentos com pêsos para rivalizarem “em iguais condições” com as oponentes que haviam vencido exatamente por não serem pesadas e pouco ágeis!
Na minha intervenção como palestrante, comuniquei aos presentes que mudaria o assunto antes estabelecido, para expôr minha posição opinativa sôbre o que havia lido. Dirigí-me especialmente ao Diretor Técnico da CBB alí presente,e passei a analisar todo um percurso que aquelas atletas,algumas já veteranas, trilharam por longos anos desprovidas de luta nos rebotes ofensivos e defensivos,perdendo campeonatos internacionais exatamente por não contarem com a altura comum às suas oponentes. A qualidade técnica extraordinária daquelas atletas sempre encontraram limites às vitórias pela ausência de rebotes. Mais eis que surgem novos valores,altos, esguios,habilidosos, básica e estratégicamente velozes, a ponto de anularem suas enormes oponentes,de vencê-las onde se consideravam invencíveis,nas disputas dos rebotes.Paula, Hortência e Janeth enfim poderiam fazer e manter a diferença pontual que exerciam sem vencer.
Reagí àquela catilinária com o vigor que sempre possuí através minha vida desportiva, indiguinei-me com a atitude tôla e irresponsável, por destituida de sabedoria técnica e objetividade estratégica.Um pouco de lógica sociológica se fazia necessário na análise da hecatombe que se armava. Terminei a palestra pedindo aos deuses do imponderável que lançassem luz ao mal que estava por vir.
Tempos depois, em nova competição internacional, eis que emerge do lado norte-americano uma jogadora alta, esguia e rápida, Lisa Leslie, que veio substituir a pesada centro, destituida da velocidade exibida pelas brasileiras,numa resposta contundente perante nossas jogadoras,agora magistralmente energisadas, com massa muscular desenvolvida,menos velozes,com as articulações comprometidas pelos excessos cometidos em um treinamento despropositado estratégicamente e falho culturalmente.Resultado? Passamos a perder o que ganhavamos, demos o mapa da mina para os adversários, mas ninguém se ergueu contra o retrocesso, continuamos a investir no aumento da massa muscular para gáudio de”especialistas”em preparação de montanhas de músculos,agora desprovidas de nossas maiores armas, a velocidade,a agilidade e a destreza para marcarmos pela frente, ou mesmo para nos antepor às agora ágeis,esguias e velozes adversárias.Ao inverterem os papéis, demos aos adversários todos os anos de lutas,todo um investimento técnico, toda uma geração de jóvens ágeis e rápidas.Transformamo-as em jogadoras lentas e inabilitadas pela pouca velocidade. Ao contrário, nossos adversários exibem hoje o que tivemos ontem,
mas o pior é que mantemos o modêlo sem perspectivas de mudança.Pior para nós.

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