
Quantos de nós técnicos, pelo menos uma vez na vida, gostaríamos de treinar e fazer jogar uma equipe num ginásio condigno, tecnicamente adequado, com um piso, senão flutuante, pelo menos uniforme e aplainado, dando aos jogadores a firmeza e a certeza de que contusões poderiam ser minimizadas ante as exigências da intensa e brutal movimentação nas paradas bruscas, nos saltos sucessivos, nas intensas rotações, no arrastar antiderrapante de seus tênis, nas corridas com permanentes mudanças de direção, enfim, evoluírem num piso estudado e construído com esmero para eles? Pois é, por um pequeno lapso de tempo, numa arena gigantesca, nosso mal amado basquetebol pode privar de um solo em tais condições, ali num cantinho do autódromo do Rio, como se escondendo de sua destinação preconcebida por aqueles que o destinaram, não ao desporto, ao basquete em particular, mas aos shows, romarias, cultos de diversas religiões, e sabe-se lá quantas outras atividades que lá serão perpetradas.
Que técnico permitiria que uma senhora, do alto de seus abundantes quilos, calçando estiletes nos pés, distribuísse mossas pelo piso flutuante e macio, pelo simples fato de lá comparecer para idealizar formas de espetáculos nada desportivos, conforme atesta uma reportagem no suplemento Barra de O Globo, em 24 de fevereiro desse ano, num espaço que cálculos estimam em 2000 pessoas, que equipadas com estiletes iguais aos seus, o destruiriam numa única apresentação? E como avant-premiére da hecatombe que advirá, nem mais as demarcações de quadra subsistem, emoldurado pelos 15000 lugares em torno, como, não mais uma quadra de jogo, e sim um picadeiro de circo romano, para o Panis et Circenses que lá se instalará.
E já foi instalado, e continuará a sê-lo, pois em momento algum esse monumento ao desperdício, construído à sombra de verbas super faturadas, num total de 260 milhões, quantia essa suficiente para equipar todas as escolas públicas da cidade com um pequeno espaço coberto, uma piscina de 25 metros e uma mini pista de atletismo, equipamentos mínimos necessários em um país que se diz comprometido com a educação de qualidade, e projetos de força desportiva para o futuro.
Mas isso não interessa a elite de megalômanos que se apossou do esporte brasileiro, unindo suas vaidades aos interesses de construtoras, empresários do culto ao corpo e especuladores dos bens públicos, que são repassados aos mesmos por ninharias, gerando lucros que jamais reverterão ao interesse da população carente.
Onde estão as melhorias de transporte prometidas e que fundamentaram os projetos do Pan, e que voltam descaradamente à baila nos projetos do Mundial de futebol em 2014 e Olimpíada em 2016? A quem mais querem enganar, sentados nos refrigerados espaços do verdadeiro palácio em que se instalaram na Avenida das Américas, em meio ao estrangulado e caótico transito daqueles que tentam chegar ao trabalho todas as manhãs, órfãos dos transportes de massa prometidos e convenientemente esquecidos? Quando serão freados, antes que desencadeiem mais um crime contra a população, em nome de um absurdo progresso que passa a léguas de distância das mais básicas necessidades de nossos jovens em suas precárias e abandonadas escolas? Quando?
Mas, à sombra do que já foi feito, maquiavelicamente bem planejado, e magnificamente realizado, subsistem alguns detalhes que passam ao largo da compreensão do jovem desportista comum, aquele para o qual praticar, na medida do possível, uma atividade esportiva, nem sempre, ou quase sempre, im possível, principalmente dentro de suas carentes escolas, e que perenemente se torna vitima inocente da gangue do culto ao corpo. Já adulto, torna-se cliente de um sem número de academias, algumas tão gigantescas que se tornaram holdings no mega negocio, que seria inviabilizado em sua dimensão se existisse orientação de qualidade nas escolas, aspecto fundamental à cidadania, direito constitucional de todo jovem brasileiro.
Quanto ao basquetebol, do qual foi retirado o direito de ostentar o orgulho de ter o Ginásio Gilberto Cardoso, o Maracanãnzinho, como seu palco original e principal, por força de ter sido construído para o Mundial de 1953, e onde, dez anos mais tarde se sagrou Campeão Mundial, e que ostenta o nome do grande presidente do Flamengo, morto ao assistir uma final de basquete do campeonato carioca, que de conformidade com a declaração de um prócer do COB, ligado ao voleibol, passou a ser o palco de sua modalidade à partir do Pan-Americano, numa apropriação despropositada e provocativa, além de imerecida.
Não foi à toa que a Arena do Autódromo não recebeu um nome ligado ao basquete, como o complexo aquático ao lado, batizado de Maria Lenk, assim como em tempo algum, e de forma nenhuma, o COB jamais intervirá na auditoria das contas da CBB, que somente este ano alcançou a quinta cifra do montante destinado a todas as confederações, mais de 1 milhão de reais. Interessante, que por força de alguns de seus mandatários, ligados à natação, o complexo Maria Lenk passará a ser administrado pelo COB, legando a grande arena aos interesses empresariais. Ou será que, nenhuma chance deverá ser dada ao basquete, que por longos anos foi o segundo esporte no gosto do brasileiro, relegando o voleibol a uma posição secundaria, o que explicaria a bem vinda permanência do grego melhor que um presente à frente ad perpetuam da CBB?
Em verdade, quanto mais se estender o domínio da atual direção da CBB, mais amplo se constituirá o monopólio do vôlei entre nós, pois a par de sua inegável qualidade técnica, e de seus dirigentes e técnicos de ponta, a ausência de uma concorrência de peso, como foi outrora o basquetebol, sedimentará seu domínio, não só desportivo, como político-econômico. Logo, a declaração do grego melhor que um presente de que ainda mandaria no basquete por longos anos, se tornou conveniente a muitos olímpicos, não desejosos de riscos econômicos, políticos e de projeção de mídia, garantidos pela inépcia e irresponsabilidade do mesmo.E o pior, mesmo sabedor dessa conveniência, se mantêm, a qualquer custo no poder, pouco importando a qualificação da outrora brilhante modalidade, até o momento em que se tornar irreversível seu soerguimento, para tranqüilidade daqueles que já detêm o mando da maioria dos ginásios brasileiros, forrados com piso sintético, que senhora nenhuma calçada com estiletes ousaria pisotear. C’est La vie.
Amém.