O QUE TODO PIVÔ DEVERIA SABER I…

Você pivô,é o jogador que atua mais próximo da cêsta,o que não o obriga a fazê-lo de costas para a mesma.Por hábito, ou imitação dos pivôs americanos,pesados e lentos,conceituou-se entre nós que deveriamos atuar de costas para a cêsta,quando o ideal seria exatamente o oposto,jogar de frente para ela.Pode parecer estranho e inusitado,mas um pivô com ações e reações rápidas se tornará mais efetivo na proporção direta em que se situe de frente para a cêsta. Nessa situação, ao se manter sempre do lado oposto em que se encontre a bola, obterá sempre o espaço necessário para a recepção segura de um passe,e melhor,obtendo-o em movimento! É a perfeita situação em que o domínio sobre o defensor se fará pela surprêsa e pela antecipação,além da possibilidade real de,em deslocamento, efetuar o arremêsso, o drible ou o passe em condições de grande segurança. Ao movimentar-se permanentemente dentro do garrafão,mantendo-se sempre em oposição à bola,criam-se os espaços, não só para as recepções e conclusões,como abrem-se oportunidades para as penetrações dos demais jogadores.Muda a dinâmica do jogo,sua velocidade, pois as ações estáticas deixam de existir,dando lugar a uma movimentação envolvente de todos,repito, de TODOS os atacantes. E quando ocorrer o rebote ofensivo, um giro de 180° após o domínio da bola o colocará de frente para a quadra, na única situação em que o ficar de costas para a cêsta se torna a ação ideal, pois nessa situação as possibilidades de um passe,de um drible ou de uma tentativa de arremêsso se torna cabível e natural.Com a movimentação sagital ou transversal em função do garrafão fluirá a dinâmica ideal, ou seja, a de todos os jogadores dentro da zona de ataque. E quando todos se movimentam espaços ocorrem seguidamente, provocados pela antecipação contínua dos atacantes em oposição aos defensores. Massa física, musculatura inchada e pêso anormal quando estático, não oferece oposição inteligente ao atacante que se desloca em velocidade tão perto da cêsta, pois quanto menor for essa distância menos poder de reação terá o defensor para bloqueá-lo.Nossos pivôs, historicamente faziam parte dessa elite que enfatizava a velocidade em detrimento da força física, e com eles alcançamos os píncaros do basquete internacional. Desde que optamos em copiar as montanhas de músculos da NBA só fizemos definhar em nossa posição de liderança, e a cada dia mais e mais fracassamos. Um sistema de jogo que privilegiasse essa movimentação dentro do garrafão, por um pivô, dois e até três, sem dúvida ofereceria uma gama de opções a todos os envolvidos em cada ataque, isso porque tantos seriam os espaços criados que as oportunidades de cêstas ocorreriam com equilíbrio e total contrôle do tempo disponível dentro da regra dos 24 segundos. Essas atitudes, por assim dizer táticas, por parte de um pivô, evitariam que o mesmo fugisse de sua zona de ação para vir para fora da linha dos três pontos efetuar passes lateralizados, ou arremêssos distantes, abandonado com essas atitudes,completamente anacrônicas, suas funções de reboteador.Como defensor, se mantidas suas características de velocidade, a marcação intransigente do pivõ adversário efetuada à frente, o transformará em arma de eficiência decisiva dentro da equipe, e inclusive adiará em muito tempo o limite das 5 faltas pessoais. Uma atitude defensiva desse porte somente será obtida por pivôs rápidos e resistentes, e perfeitamente afinados com o restante da equipe, onde a palavra de ordem seja a da antecipação aos passes, de forma permanente e corajosa.
Com sua velocidade e flexibilidade mantidas,ao pivô se destinará uma carga de treinamento onde a ênfase sempre será localizada nos fundamentos de drible,fintas,
passes e rebotes, na mesma intensidade dos demais jogadores, sem concessões, assim como uma grande carga de arremêssos de média e curta distâncias, com padrões elevados de acêrtos.Um lembrete aos pivôs quando tentarem a cêsta muito próximo dela.
Executem a finalização sempre com a mão do mesmo lado em que estiver em função da mesma, pois terão mais chances de conseguirem os pontos, como a possibilidade de receberem uma falta se torna real. É incrivel como os pivôs brasileiros perdem cêstas por não observarem essa simples regra.E que treinem muito o drible, tanto em progressão como no garrafão, pois diminuirão em muito as limitações impostas por esse desconhecimento. Quanto as enterradas, substituam o tempo dedicado às mesmas por mais
e mais arremêssos de curta e média distâncias, pois são estes que ganham os jogos.Que adianta levantar a torcida e perder o jogo? Finalmente, procurem desenvolver senso rítmico em suas passadas,o maior obstáculo na performance de homens altos, e que se bem desenvolvido propiciará ações rápidas e coordenadas no pequeno espaço que dispôem para jogar. Praticar dança de salão pode operar milagres na melhora rítmica exigida nas ações de ataque.Pode parecer estranho e até constrangedor para alguns, mas realmente funciona. No mais, é treinar e treinar, com afinco e dedicação. Sejam felizes e, eficientes.

BENVINDAS COINCIDÊNCIAS

Coincidências acontecem,e quando acrescentam evolução tanto melhor.Em 8 de janeiro publiquei o artigo”Um possível(re)começo”,onde propunha que os clubes do Rio de Janeiro,principalmente os de futebol,formassem suas equipes principais com aqueles jogadores egressos dos juvenís,e inclusive dei o exemplo do campeonato de 1997 quando dirigia o Barra da Tijuca,onde pude constatar o alto grau de qualidade daqueles jovens nas 12 equipes participantes,dos quais somente 3 estariam atuando no Campeonato Nacional.A maioria deles seguiu seu caminho de estudos e trabalho,estando hoje na faixa dos 24-26 anos, que é a fase do amadurecimento técnico.Muitos seguiram jogando nas universidades e nos fins de semana,pois o amor à modalidade não deixa de existir jamais.De 97 aos dias atuais outros tantos foram relegados para darem lugar aos craques que percorrem as prefeituras do país atrás de seus vultosos contratos como uma “caravana rolidei” de mesmice cristalizada.Mas eis que no O Globo do dia 15
e no de hoje,19,publicou que aqui no Rio a Federação organizará um campeonato municipal entre março e julho sem a presença da equipe patrocinada pela prefeitura, o que permitiria uma formação não profissional das equipes que participassem,ou seja
se abririam portas para uma nova geração de jogadores,e por que não, aqueles que hoje formados e no mercado de trabalho poderiam dedicar 3 horas de suas vidas, 3 vezes por semana ou diariamente para entrarem em forma se bem treinados e orientados.Hoje o Flamengo anunciou que irá disputar o Sul-Americano de clubes com uma equipe de jovens e com o técnico dos juvenis,no que se constitue em um ato de coragem dificil de acontecer nos dias de hoje.Se tudo isso se tornar realidade só teremos a lucrar nos próximos anos, pois ficará provado que para o nível do nosso basquetebol trabalho e estudo não seria entrave a bons campeonatos.Mas paralelamente a essa conquista que fosse afastado de nossas equipes o fantasma do monolítico modelo
NBA,com seu padrão fundamentado no Passing Game,e que foi definido não sei por quem de “basquetebol internacional”,numa tentativa absurda de globalização técnica,e que as enterradas e a religião dos três pontos sejam colocadas em suas devidas proporções
e não como os fócos do jogo, o anacrônico espetáculo.Tudo isso pode e deve ser atingido se houver vontade de fugir de um esquema suicida e estúpido, e que até hoje só beneficiou uns poucos oportunistas que se apossaram dos destinos do basquetebol campeão do mundo e medalhista olímpico,levando-o ao estado de indigência técnica que hoje apresenta.Que estes novos jogadores se exercitem nos fundamentos,se dediquem a uma boa preparação fisica, e que, mesmo sem o marqueting das atuais estrêlas nos dêem
esperanças em dias melhores.Mas que juntamente ao aproveitamento desses jogadores, que os clubes premiem seus dedicados técnicos de categorias de formação,pois eles conhecem bem quem formam, ao contrario de alguns luminares que quando muito administram jogadores sem olhar em seus olhos,já que ficam magnetizados pela figura onírica e irreal de uma simples e inodora prancheta.Esses jovens precisam de tecnicos,de professores e não de coreógrafos.Que o Diretor Técnico da Federação do Rio de Janeiro,que foi um ótimo aluno meu, tome essa atitude corajosa e que tenha argumentação poderosa para convencer os clubes para uma cruzada que pode dar excelentes frutos.Assim desejo, e torço.

PARA AQUELES QUE QUEREM MUDAR.

Com o término do campeonato paulista,que para muitos espelha o que existe de melhor em nosso país,podemos tirar algumas conclusões, que ao contrário do que poderiamos imaginar,somente aumentam nossa preocupação com o futuro do basquetebol.
Para começar, nunca o estrelismo atingiu a classe dos técnicos como na atualidade,
onde até microfones sem fio foram instalados em seus corpos para que todo o país pudesse acompanhar, não só a côres e ao vivo,como também com vozes, soluços e esgáres suas performances estelares,centristas e profundamente autoritárias.Ficou faltando(pecado capital…)as legendas que elucidariam os intrincados hieróglifos rabiscados em suas pranchetas e um microfone em cada jogador participante, para ai sim, termos uma mais autêntica participação no jogo.Um absurdo que técnicos,pela mais pura vaidade,se permitam expor ao ridículo de serem monitorados em seu mistér,em suas ações,em seu mais sagrado direito,a privacidade no colóquio olho no olho com seus atletas,fonte de inspiração e confiança.Eles não têm o direito de nos impôr tal comportamento,gerando o mais profundo constrangimento.Lamentável!Na concepção técnica e tática o que vimos? Jogadas polegar,punho,coc isso, coc aquilo,executadas por ambas as equipes,idênticamente, e é claro que aquela que antecipasse a defêsa e tivesse mais calma venceria as partidas.Diferenças de 10,15 e até 20 pontos eram tiradas com facilidade,isso porque quando duas equipes jogam em esquemas idênticos(o famigerado”basquete internacional”,ou passing game)basta um ajuste defensivo,com antecipações nos mais do que previsiveis passes,para que em três ou quatro retomadas de bola o equilíbrio fosse restabelecido,sem contar com a limitadíssima técnica na condução e proteção de bola de nossos armadores-cestinhas.
A total ausência de marcação frontal ao pivô,não por alguns instantes,mas permanentemente,com a consequente diminuição de espaços sobre o jogador de posse da bola, inviabilizando os passes perpendiculares à cesta, obrigando aos passes laterais
e de recuo são lugar comum em nossas melhores equipes,e que é exatamente o que as equipes estrangeiras que atuam contra nós empregam,sabedoras de nossas já cansativas deficiências.Mas para o consumo interno é o suficiente, numa demonstração de pobreza cultural e técnica.A alguns anos atrás um menino muito alto surgiu no Fluminense, e que pelas suas qualidades atléticas se anunciava como real esperança para o basquetebol.Nos anos subsequentes seu comportamento técnico se situou em uma penosa
indecisão,ser um pivô ou um ala.Com sua altura(2,11m)e boa mobilidade deveria ter sido orientado a jogar o mais próximo da cesta possível, no entanto o mantiveram na mais total indecisão.Hoje seu ponto razoàvelmente positivo é o arremêsso de três pontos, em uma zona em que suas habilidades de drible deixam muito a desejar.Mas como na movimentação inicial do passing game os pivõs saem do garrafão para se situarem na zona dos três pontos,como arrietes para passes laterais, aos poucos foram
tomando consciência de que poderiam arremessar daquela posição,já que dificilmente era acompanhado por seus marcadores.E deu no que deu,se tornaram”especialistas” nos três pontos,quando acertam,e ausentes dos rebotes,quando erram.Nosso menino do Fluminense foi a primeira vítima desse perverso sistema de jogo, amado e endeusado pela maioria dos técnicos,cégos pela plasticidade dos movimentos,que quanto mais previsíveis,mais os deixam extasiados,numa coreografia dirigida e centrada por seus egos diretivos e impositivos.Sistemas que privilegiam o improviso,por Deus,nem pensar
pois como se justificariam através suas indecifráveis pranchetas e pelos agora introduzidos gadgets eletrônicos,os microfones pessoais.O basquetebol não merece,juro que não.E como não resta muita coisa a comentar, aquele simpático comentarista passa toda a transmissão a mandar abraços e beijos a seus fãns, até que os técnicos passem a transmitir também as instruções dadas ao intervalo,DIRETO do vestiário.A antítese de tudo isto é o que todo técnico deve praticar se quisermos realmente mudar o destino de nosso basquetebol, e enquanto isto não se torna realidade lastimo profundamente pelo futuro de alguns excelentes jogadores,obrigados a jogarem como se pertencessem a uma equipe de ginástica rítmica,prêsos a coreografias cada vez mais rígidas, em detrimento de um basquetebol criativo e magistralmente improvisador que é a nossa vocação, liderados por mestres técnica,cultural e sociológicamente preparados, como muitos que nos fizeram respeitados no mundo inteiro.O que vemos hoje em dia, sem dúvida nenhuma, nos levará mais para o fundo do poço em que nos encontramos a 20 anos.Lamentável!

DUAS HISTÓRIAS DO VELHO TOGO

08012012191Vindo do bairro da Sulacap em direção de Jacarepaguá passo por um pequeno conjunto de bem cuidados apartamentos e o que leio na parede ao lado da portaria de entrada me fez voltar no tempo. Lá estava em letras majestosas-Condomínio Togo Renan Soares- o velho e inesquecível Kanela.De imediato me veio a lembrança de que no pequeno auditório da CBB foi entronizado o nome de James Naismith e não o do bicampeão mundial Kanela.Para nós brasileiros homenagear um estrangeiro,mesmo da importância do inventor do basquetebol,se sobrepõe ao mais laureado de nossos técnicos, numa imperdoável injustiça. Mais adiante no trajeto para casa lembrei-me de
duas pequenas, porém elucidativas histórias sobre a polêmica personalidade daquele técnico genial.A primeira vez que ví o Kanela foi numa decisão do campeonato de aspirantes entre o Flamengo e o Grajaú TC no ginásio do Tijuca em 1958. Jogo duríssimo,ginásio lotado e uma tensão elevada,não só pelo calor reinante, como pela atuação intimidadora sobre a arbitragem por parte do Kanela.Na metade do 2°tempo, com
o jogo empatado observo uma figura que sorrateiramente se aproxima por trás do banco de reservas do Flamengo empunhando um imenso megafone azul.Trememos na base ao reconhecermos na figura que se aproximava do banco o Sergio Maluco,o auto elegido chefe de torcida do Grajaú.Por trás do Kanela,num movimento rápido,retira de dentro do megafone um porrete e desfere certeiro golpe na cabeça do desditoso,mas agitado e vociferante Kanela.Foi um momento de estupefação em todo o ginásio,com o Kanela caído e sangrando e o Sergio Maluco engolfado pela torcida do Flamengo ali presente.A confusão se estabeleceu e o jogo foi interrompido.Para satisfação geral o golpe não causou maiores estragos,a não ser uns poucos pontos aplicados na enfermaria do Tijuca.Quanto ao Sergio,um pouco machucado foi salvo da furia flamenguista pelos policiais presentes ao jogo.Dias depois, com os portôes fechados ao público o Grajaú sagrou-se tri-campeão da categoria. Ao conhecê-lo naquelas circunstâncias não pude deixar de admirar um técnico que suscitava tantas e díspares opiniões, tantos sentimentos opostos e conflitantes.Cinco anos mais tarde,no Campeonato Mundial realizado no Maracãnanzinho, assistí o reverso do jogo do Tijuca,
no intervalo da partida entre o Brasil e a União Soviética, também um jogo duríssimo e indefinido até aquele momento.O arbitro uruguaio,que vinha se destacando no mundial
e que dirigia o jogo,se retirava para o vestiario quando o Kanela dele se aproximou e sem maiores explicações desferiu uma bofetada que foi ouvida até por quem estava sentado no último degrau da arquibancada. Correu um frisson no estádio, ninguem poderia entender aquela atitude, naquele momento de intervalo de um jogo bem disputado por todos.Kanela foi expulso e o Brasil venceu a partida.Dois anos mais tarde fui convidado por ele para ser técnico das equipes infanto e de juvenís do Flamengo, onde iniciei uma relação respeitosa mas não ausente de boas e até duras discussões, não só técnicas, como administrativas.Num belo dia,sentados no restaurante da Gávea perguntei a ele sobre os dois momentos que eu havia testemunhado
anos antes, e ouvi do velho Togo as seguintes respostas: No jogo contra o Grajaú a agressão daquele maluco evitou que eu influisse decisivamente sobre a arbitragem ao tentar lançar a torcida sobre ela. Sem a torcida, já que a conclusão da partida foi com os portões fechados perdemos o jogo e o campeonato. No jogo do Mundial, o fato é que ele estava apitando bem demais, e isso não nos interessava. Ele precisava errar um pouco, de preferência a nosso favor, por isso gerei nele o peso da dúvida de que não era tão bom como imaginava,por isso dei a bofetada.Mas na verdade Paulinho,ele era bom demais.Eu só não queria que ele o fosse naquele jogo,o decisivo.Se alguem me perguntasse se essa era a verdadeira imagem do Kanela eu responderia sem medo de errar que,aquela era uma de suas muitas facetas,que transitavam entre o bem e o mal, mas que em sua totalidade atendiam, em sua especialíssima concepção,aos mais altos interesses de seu querido Flamengo e da Seleção Brasileira.Muitas outras passagens testemunhei e de alguma forma participei,e quem sabe um dia escreverei a respeito e com respeito.Mas uma me vem a cabeça,e que gostaria de repartir com o leitor.Era o último jogo do campeonato juvenil daquele ano,1965,com o Botafogo já campeâo e o Flamengo vice-campeão.Mas o Botafogo estava invicto e era o ano do quarto centenário do Rio de Janeiro.O jogo, na Gávea, se anunciava espetacular
e havia rumores de que a feroz torcida do Botafogo ensaiava uma possivel confusão se perdesse a invencibilidade.Disse ao Kanela que tinha uma idéia para anular uma possivel agressividade botafoguense, que era oferecer ao final do jogo um jantar para os atletas e técnicos no excelente refeitório que atendia todos os atletas na Gávea.O Kanela aprovou e telefonei para o Epaminondas Leal,técnico do Botafogo, convidando a equipe para o jantar após o jogo.Foi uma batalha inesquecível e que vencemos com méritos quebrando a invencibilidade do campeão.Veio o jantar e a invasão
de muitos torcedores do Botafogo e pais de atletas. Mas na maior paz possível aconteceu a confraternização com discursos e troca de flâmulas.No dia seguinte fui chamado pelo presidente Fadel Fadel que me apresentou uma conta dos mais de 70 jantares extras que haviam superado a cota autorizada de 30 jantares.Já começava a calcular o rombo em meu salário do mês quando o velho Togo intercedeu a meu favor junto ao presidente, e a dívida foi perdoada com a argumentação de que se tivesse havido confusão, muitos prejuízos físicos e materiais superariam o valor das refeições.Como bom comerciante libanês o presidente aceitou as explicações. Ambos,Flamengo e Botafogo eram os clubes da vida do Kanela, e ele não esqueceu disso ao presenciar dois ferrenhos inimigos juntos em um jantar de encerramento de um brilhante campeonato juvenil.Assim era o inesquecível Togo Renan Soares.Em tempo,no ano seguinte,com a situação invertida no ginásio do Mourisco o jogo terminou antes do final por causa de uma briga colossal.Nesse dia não fez fumaça na cozinha do Botafogo.Coisas do esporte.

Amém.

UM POSSÍVEL (RE)COMEÇO

Conceituou-se em nosso país que os americanos são melhores por que treinam mais
do que nós.Lêdo engano,são melhores nos fundamentos e nos detalhes do jogo porque treinam com excelentes professores e técnicos, e muito menos do que nós quanto ao tempo dispendido nas práticas,senão vejamos: No basquete universitário e colegial em geral os treinos das equipes são iniciados em uma data escolhida por suas federações no mês de setembro, para começarem as competições em novembro, extendendo-se os jogos até abril do ano seguinte.Se calcularmos uma prática diária(somente uma pois têm horário escolar a ser cumprido) em seis dias por semana,por três meses teríamos aproximadamente 63 treinos pré-temporada e mais 60 durante a temporada e algo em torno de 30-35 jogos.O total de 123 treinos e 30-35 jogos é inferior a uma temporada padrâo de equipes juvenís em nosso país que treinam e jogam por 10,e até 11 meses,treinando três vezes por semana, nun total aproximado de 154 treinos e 30 jogos em média.A diferença não´está no número de treinos,e sim na qualidade deles. Logo,podemos concluir que não nos faltam tempo de prática, e sim qualidade e objetivos a serem alcançados.Na semana passada uma equipe do interior do Rio de Janeiro encerrou sua participação nos campeonatos pela mudança política originada nas últimas eleições,somando-se ao caos em que se transformou o basquetebol do estado pela ausência participativa dos grandes clubes de futebol nos campeonatos regionais.Mas naquela equipe que acabava de ser desfeita quantos jogadores seriam originários do Rio de Janeiro,dois,três?ou nenhum?E quantos na faixa dos 23-25 anos?E quantos que exerciam uma atividade profissional fora do basquetebol? Não, são todos profissionais, pois basquetebol sério so pode ser praticado por profissionais,e em tempo integral! Se isto é verdade como se explica a excelência dos jogadores universitários norte-americanos que somente treinam uma vez ao dia para terem tempo de estudar, estudar mesmo,para se formarem em uma profissão que os manterá quando passar o tempo de atleta,a não ser aqueles muito poucos escolhidos pela ligas profissionais.E treinam menos tempo que nossos juvenís! Quando dirigi o Barra da Tijuca na temporada juvenil de 1997, pude testemunhar a grande quantidade de excelentes,promissores e altos jogadores que participavam nas 12 equipes daquele campeonato.Quantos deles, que estão hoje na faixa dos 24-25 anos atuam nas equipes de profissionais da Liga Nacional?Na minha última conta somente 3 deles!Hoje muitos deles são engenheiros, medicos,economistas,arquitetos,professores e outras tantas profissões, e que simplesmente abandonaram ou foram abandonados pelas equipes dos grandes, e por que não médios e pequenos clubes.Estes, se não tiverem em seus departamentos de basquetebol os inefáveis pacotes formados por dirigentes,técnicos e jogadores que perambulam pelo país atrás das verbas de prefeituras e emprêsas que querem se lançar a curto prazo e com um mínimo de investimento possivel,não abrirão jamais seus espaços àqueles jovens que ousaram estudar e se formar em uma profissão,com a desculpa mais absurda de que não teriam a qualidade técnica dos pseudo-profissionais de carreira.Façamos uma simples conta: Se um engenheiro trabalha em uma firma por 8 horas diárias,tendo 2 horas para lá se transportar,e dormindo regularmente 8 horas teriamos 18 horas de atividades profissionais e de descanso.Sobrariam 6 horas, nas quais poderiam caber 3 horas diarias, por 10 meses de atividades voltadas ao basquetebol. Com uma bem planejada grade de atividades, torneios e campeonatos regionais(para não prejudicar o trabalho e vice-versa)esses atletas poderiam, se bem orientados e treinados produzirem excelentes resultados em seus estados.As equipes classificadas para a liga poderiam estabelecer acôrdos e translados que não prejudicassem as atividades nas enprêsas, e se estas fossem as patrocinadoras esse fator deixaria de existir.Mas para dirigir atletas desta envergadura intelectual alguns, ou muitos técnicos teriam de reciclar conceitos absolutistas que professam, pois teriam respostas não tão submissas por parte de seus atletas, o que explica a imposição de dois treinos diários de muitas horas para apresentar o basquetebol medíocre que assistimos nos dias de hoje.Acredito firmemente que muitos daqueles esquecidos atletas aceitariam voltar a jogar seriamente em troca de pequenas verbas que pagassem a gasolina de seus carros e suas despesas de lazer.Mas sobrariam ainda 3 horas de seu tempo.Bem,qualquer rapaz ou moça saberá muito bem empregar esse tempo, e que muitos e muitos em nosso país jamais sonharam em tê-los livres. Sonho? Quimera? Pura ilusão? Não minha gente, pés no chão, para não lançarmos ano após ano gerações de bons e promissores atletas ao ostracismo e a falta de oportunidades.Clubes tradicionais que preferem se ausentar dos campeonatos por não terem verba para alimentar uma geração que se perpetua nas quadras do país, condenam gerações ao abandono precoce por que ousaram estudar. E esses mandatários são os mesmos que tecem lôas ao basquete americano por ouvirem o galo(aguia no caso deles )cantar mas nem desconfiam onde fica o galinheiro. Lamentável em todos os aspectos! E convenhamos, seria uma delícia assistir jogos com uma renovação permanente e jóvem, assim como testemunhariamos um desporto que priorizasse, como outrora o fizemos,a cultura e o saber.E dessa forma fomos campeões do mundo e medalhistas olímpicos.Hoje somos”profissionais”e não ganhamos nem de nossos hermanos argentinos.

POR ONDE (RE) COMEÇAR.

Ontem assisti pela TV uma das semi-finais do campeonato paulista masculino e como sempre,nada,absolutamente nada de novo. Ginásio lotado,narrador descrevendo uma partida que somente ele enxergava, e o comentarista que de uns tempos para cá resolveu exercer seu poder de crítica, diminuindo uma rasgação de sêda que em nada ajudava no desenvolvimento da modalidade. Duas novas vedetas foram incluidas na transmissão,com direito a closes que deixariam a Gisele Bunchen corada de inveja,as inefáveis pranchetas,que com seus rabiscos inenarráveis e de péssimo gosto estético dominaram na pequena tela televisiva.De repente um dos técnicos,levantando a vista de sua salvação tabular emite uma incrivel ordem-Corra até a lateral(não especificou nem mostrou na prancheta)e dê uma trombada no pivô! Acho que ele quiz dizer-Naquela lateral faça um bloqueio no pivô,ou exerça um corta-luz,mas ordenou”na maior” uma inefável trombada. E vimos ao final, com uma das equipes 1 ponto atrás e faltando 20 segundos entregar a uma caricatura de armador a decisão da partida, e que literalmente tropeçou nas próprias pernas entregando a vitória ao adversário.E vimos ,pela enésima vez varios ataques morrerem com o dominio da bola, assim como,num rasgo de oportunismo já vislumbramos que algumas defesas enfim descobriram que,como TODAS as equipes jogam da mesma forma,basta apertar um pouco o homem da bola,marcar o pivô pela frente e antecipar cortes aos mais do que óbvios passes para,ou atrasar o ataque fazendo-o recuar,ou simplesmente interceptá-los numa manobra mais agressiva.Em ambas o poder de ataque se reduzindo à metade aumentará em muito as possibilidades de vitória. Vimos comissões técnicas discussarem,todos ao mesmo tempo,quando mais o técnico necessitava de total atenção e concentração.Assistimos ainda a proposital confusão que confunde pancada com espirito defensivo,e engôdo com posicionamento técnico-defensivo. Durante o jõgo,o mesmo técnico que mandou dar aquela trombada no pivô teve a desfarçatez de em cadeia nacional instruir um de seus jogadores a se jogar para trás quando próximo ao pivô adversário para induzir o árbitro na marcação de uma falta.O que fazem esses técnicos nos treinamentos?Somente distribuem as camisas para os rachas tradicionais? por que não ensinam técnicas individuais de defesa e ataque, porque não exploram as qualidades de nossos bons,porém não lapidados atletas.Porque não treinam em situação de jogo,para não precisarem se esconder atrás de ridículos rabiscos em suas pranchetas mais ridículas ainda.E quanto ganham para encenarem uma liderança que não possuem? E com as afirmativas do locutor de que acabavamos de assistir um dos clássicos mais emocionantes dos últimos tempos desliguei a TV com a mais absoluta sensação de que ainda demoraremos muito e muito tempo a sair deste maldito limbo em que nos encontramo já a 20 anos.Temos de mudar,temos urgentemente de mudar, para que possamos reencontrar o caminho e o tempo perdidos, e para um (re)começo sugiro a quem possa influir,pelo menos no aspecto financeiro, que contratem e prestigiem quem realmente conhece basquetebol nesse imenso e pujante país,seria um belo (re)começo.

PESQUISA-UMA AVENTURA ALÉM-MAR IV

O tratamento dos dados digitalizados em computador tomaram um pouco menos tempo,mas para ser bem objetivo foi necessário uma série de ajustes na mesa digitalizadora para que fosse estabelecida uma rotina que pudesse ser adotada por quem quer que fosse usá-la no futuro. A preocupação metodológica foi a mais estudada
e codificada, a fim de facilitar os futuros estudos. Com o tratamento realizado ficou no ar uma indagação, qual grau de fidedignidade emanava do estudo se nenhuma
fórmula estatística se adequava ao mesmo? Eram dados em que a existência do zero, não só era previsto, como desejado, pois se tratava de medir direcionalidade onde a ausência de erro deveria ser o alvo desejado, ou 0° de desvios. O impasse somente foi desfeito quando em uma bela manhâ o Prof.Sobral me apresentou uma fórmula estatística de raríssima utilização, o Coeficiente Relativo de Variação(Ferguson,1984), que fechou o estudo, comprovando-o. O trabalho demonstrou, entre outras conclusões, que estilo e simetria de movimentos pouco têm a ver com precisão de arremêsso, pondo por terra uma escola cuja fundamentação maior se escudava na estética dos arremessos, na beleza de estilos e figurações, pois o que no fundo deve importar é o total dominio da direcionalidade, independendo se o jogador está em equilibrio estável, instável ou em total desequilíbrio. Minha pesquisa derruba esses conceitos estétas, que foram base de muitas escolas e de muitos mestres, alguns excelentes, e que seriam muito mais eficientes se tivessem o conhecimento que descobri e provei com meu trabalho. No próximo mês,já com minha página na internet funcionando(paulomurilo.com)colocarei a disposição de todo interessado, não só minha pesquisa, mas a de outros mestres de nosso desporto.Em dois artigos dessa série menciono alguns princípios ligados e demonstrados pela pesquisa, mas gostaria de terminar esses 4 capítulos com a formulação básica do estudo: No arremêsso com uma das mãos a bola percorre sua trajetória girando inversamente em torno de um eixo diametral(back spin). Quanto mais este eixo se mantiver paralelo ao nível do aro e equidistante dos bordos externos do mesmo, maior será o grau de direcionamento, e se este alcançar zero grau de desvio teremos a precisão absoluta.Provar que isto é verdadeiro não foi nada fácil,mas foi feito.Pena que sequer foi levado à serio, nem pelo órgão máximo do basquetebol,a CBB, na época dirigida por um Phd. e Prof.Titular da UFRJ. No dia em que fui presentear a tese na CBB fui testemunha de como se fazem técnicos de seleção brasileira em nosso país, que foi algo que me fez pensar seriamente se teria valido à pena tanto esforço em realizá-la. Me indignei com o que estava presenciando e fui embora tremendamente constrangido e triste.Mas isso é assunto para o futuro, quem sabe…No mais soube que a tese foi jogada no fundo de uma gaveta, e quatro anos mais tarde ao encontrar um dos auxiliares da administração da CBB na época escutei do mesmo a afirmação de que achara a tese algo interessante,no que concordei por sabê-lo um especialista em atletismo e que de basquetebol pouco entendia.Que eu saiba foi o unico na CBB que teve a curiosidade de lê-la.Assistindo hoje o festival de arremêssos de três pontos em que se transformou o nosso basquetebol, fico imaginando quantos destes”especialistas” obteriam bons resultados se avaliados pela minha pesquisa, doada à CBB exatamente para ser empregada por todos,e tenho a mais absoluta certeza de que 2/3 não seriam aprovados.Mas em se tratando de pesquisa esportiva no Brasil,não era do interêsse de muitos que isso pudesse ocorrer,pois o que vale é se as dobras cutâneas e os débitos de oxigênio influem nas performances.No entanto,nunca vi dobras ou débitos aumentarem
graus de precisão nos arremêssos.O que atesto é que nunca ví correrem tanto e arremessarem cada vez pior.Que os deuses nos ajudem…

PESQUISA-UMA AVENTURA ALÉM-MAR III

O Dr.Kelo da Silva era uma figura enigmática,reservada e profundamente observadora.Foi pedido a ele pelo Departamento Ciêntífico do ISEF que me orientasse nos aspectos matemáticos, nas equações que definiriam meu estudo,apesar do pouco ou quase nenhuma afinidade e conhecimento do basquetebol.Era um matemático residente do célebre MIT nos EEUU, e pelos anos que lá esteve já havia perdido muito da compreensão da lingua portuguêsa prática e atual.Durante 4 meses,em reuniões quinzenais, iamos para um ginásio ou sala de aula, onde eu procurava em ações práticas ou dialéticas demonstrar o que pretendia com o estudo,as variáveis intervenientes,os estudos correlatos, a bibliografia existente e minhas concepções totalmente inéditas para solucionar as hipóteses sugeridas pelo estudo.Seu mutismo e profunda ação observadora me desarmava,me situava como um ET tentando justificar o injustificável,pelo menos para mim.Na última reunião,depois de 3 horas de um monólogo exasperante, eis que o Dr.Kelo se levanta,pega a bola de basquete e em 20 minutos me deu uma das aulas mais espetaculares que já havia assistido, em particular,minuciosa,técnica, e com as respostas muito além das limitações que eu havia impôsto pelas regras da boa pesquisa.Tive naquele momento a certeza de que havia ingressado em um círculo ultra restrito daqueles que dialogam pesquisa com o mais absoluto contrôle do que precisam e devem fazer.Três meses depois já tinha em mãos as equações e os algorítmos necessários ao prosseguimento do estudo.Era algo que 3 anos depois encontrei em uma publicação de computação gráfica com a denominação de X-Ray Method.O Dr.Kelo antecipou em três anos o modêlo que me permitiu
demonstrar a exequibilidade do estudo, numa concepção que se aproximava dos estudos que viriam embasar a computação tri-dimensional.Coincidência ou não os princípios se equivaliam, o que era sensacional.A seguir, com os equipamentos montados e testados,com o pessoal treinado e com as equipes das seleções nacionais masculina e feminina à disposição do estudo, e mais, com as cameras em ordem e os filmes comprados, pudemos iniciar a coleta dos dados em laboratório.A essa altura um outro problema se manifestava, a não mais existência em Portugal de laboratórios que tratassem filmes cinematográficos em 16mm , pois a era do video tape já havia se instalado. Com os filmes rodados fui encontrar na RTP (Radio e Televisão Portuguêsa)uma ajuda inestimável, pois a mesma reativou seu laboratório de revelação de filmes a côres somente para atender minhas necessidades,e o fez com maestria inigualável,com uma técnica sem par.Com os dados compilados e gravados em filmes iniciei aquela que foi a mais abrangente e dolorosa etapa do trabalho,a digitalização e tratamento do material coletado.Tive de desenhar e construir novos equipamentos que facilitassem a digitalização dentro de parâmetros rigidamente atrelados às equações propostas e desenvolvidas pelo Dr.Kelo.Estas,por intermédio do Engenheiro de Computação do ISEF,Eng.Nuno Pedro, foram transformadas em linguagem de computador em dois pequenos porém poderosos programas em linguagem, acreditem,linguagem Basic!Foram digitalizados 72000 pontos nas imagens cinematográficas, num trabalho exaustivo e extremamente demorado, dos quais somente 2500 foram efetivamente utilizados no estudo.Os demais já deixavam material aferido e catalogado para outros 5 ou 6 estudos
que porventura pudessem ser realizados no futuro, e que até hoje não foram aproveitados.Quis dar continuidade aos estudos no Brasil, mas nem UFRJ,UERJ e CBB se interessaram, mas que até hoje são utilizados na Europa e nos EEUU.Tento montar aos poucos em minha residência um local apropriado para desenvolver esta e outras pesquisas, agora com a tecnologia dos computadores de alta capacidade e das cameras digitais de grande poder e precisão.Mas custam caro e somente aos poucos tenho podido fazer frente aos vultosos gastos inerentes a um laboratório de pesquisa desportiva.A essa altura do trabalho eis que me vejo participante passivo de uma luta entre duas facções conflitantes dentro do ISEF.Uma, liderada pelo meu orientador, contrária a mudança do instituto para uma estrutura voltada a area de saúde, com um pragmatismo antagônico ao humanismo histórico do mesmo,e a outra liderada pelo Diretor que defendia a criação da FMH(Faculdade de Motricidade Humana)que é a denominação que persiste até hoje.Fui usado pela Direção como arma repressiva aos opositores da mudança,fator que atrasou a defesa da tese em 3 anos!Paralelamente à luta interna dei seguimento ao trabalho,com o tratamento em computador dos dados.(continua)

PESQUISA-UMA AVENTURA ALÉM-MAR II

Porque 14 travessias atlânticas? Como não tinha dinheiro suficiente para a compra de passagens com validade indeterminada,comprava as de ponto a ponto,que só permitiam a permanência no exterior por até 90 dias,e por serem bem mais baratas,e
poderem ser pagas em prestações,que ao término das mesmas me permitiam comprar outras sucessivamente.A estadia foi conseguida por amigos em Lisbôa aos quais serei eterno devedor, pois só me sobravam aproximadadmente 300 dólares por mês de meus vencimentos para a alimentação e o transporte. A maior fatia do salário ficava no Brasil a fim de fazer face às despesas com três filhos menores e a manutenção da moradia. Às vezes conseguia através pedidos insistentes à IBERIA,que os 90 dias fossem extendidos por mais 30 ou 40, no afã de ver o trabalho fluir com menos tropeços e atrasos,no que consegui por 3 vezes.Como forma de retribuição dei cursos no ISEF e palestras para técnicos,assim como colaborei intensamente junto ao Gabinete de Basquetebol daquela bela instituição. Durante a construção e montagem do equipamento no Laboratório de Biomêcanica procurava levar professores de outros departamentos para conhecerem o trabalho, conclamando a darem sugestões técnicas na linguagem própria de suas especialidades, fator que veio a somar bastante ao término dos trabalhos.Percorri longamente o comércio de Lisbôa atrás de materiais necessários na montagem dos equipamentos, e que fossem baratos, porém de ótima qualidade.Nas andanças,além de conhecer a cidade em minúcias consegui ter acesso a materiais e instrumentos de precisão a muito encalhados no comércio, e por isso mesmo com ótimos prêços.Em uma das vindas ao Brasil consegui por empréstimo na EEFD da UFRJ uma camera de 16mm que eu mesmo havia adquirido para a Escola 20 anos antes, e cujo aspecto ótico e mecânico era o mais precário possível.Em Lisboa consegui que um idoso relojoeiro desse um ajuste na Paillard Bolex, e para minha surprêsa só pediu como pagamento que fosse permitido a ele ficar com a camera por uns 15 dias, pois ficara maravilhado com as engrenagens de alta precisão da mesma, e por isso queria estudá-las.No entanto, um dos prismas mais importantes do sistema ótico havia perdido sua espelhação tornando-o impreciso.Consegui, depois de longa conversa que um mestre vidraceiro de Linda-a-Velha, um bairro de Lisboa, tornasse a espelhá-lo.Com aproximadamente 1,5cm de diâmetro podemos avaliar o tempo e o trabalho dispendidos na recuperação do prisma.O trabalho foi feito, e como paga pediu-me que mostrasse a ele o resultado do trabalho,o que foi feito quando o convidei para a defêsa de tese. Estes artífices e mais o marceneiro Manoel foram a base na construção do equipamento, com uma precisão tão alta que mereceu os maiores elogios do Professor Chefe do Departamento de Pesquisas Desportivas da Universidade de Leipzig em visita ao ISEF. Paralelamente à construção e validação dos equipamentos preparava os assistentes que me ajudariam na coleta dos dados, assim como iniciava os contatos junto a algum órgão público ou particular que ainda lidassem com filmes de 16mm em caráter experimental.A RTP (Radio e Televisão Portuguesa)foi a salvação do trabalho, como foi básica a participação acadêmica de um dos maiores matemáticos portuguêses, o Dr.Kelo da Silva,para que a pesquisa fosse levada adiante.Esses dois fatôres serão contados no próximo capítulo.(continua)

PESQUISA-UMA AVENTURA ALÉM-MAR I.

No saguão do auditório do ISEF(Instituto Superior de Ed.Física)em Lisbôa,hoje FMH(Faculdade de Motricidade Humana)eu esperava o resultado da Banca Examinadora da minha defêsa de tese de Doutorado em Ciências do Desporto,quando um jóvem de barbas se aproximou e perguntou se o estava reconhecendo. Honestamente disse que não,foi quando disse ser o Paulinho do curso de mestrado da USP, uma turma após a minha, do qual eu havia sido desligado 14 anos antes por não concordar na mudança do teor de minha tese, que por ser experimental não encontrou boa acolhida por parte do meu orientador.O Paulo disse que estava fazendo o doutorado no ISEF da cidade do Pôrto, e que alí estava para se cientificar de que, apesar da descrença de todo o pessoal que cursou o mestrado da USP 14 anos antes, que eu conseguiria defender a mesma tese negada pela EEF da USP. E foi o que aconteceu,pois tive homologada com louvor a tese de doutorado “Estudo sobre um efetivo controle da direção do lançamento com uma das mãos no basquetebol” em julho de 1992,e que era no conteúdo a mesma que havia sido negada a defêsa,a nível de mestrado, pela USP.Foi um trabalho brutal e que me custou muito tempo, muito dinheiro e escasso reconhecimento em meu país. Mas vale a pena recordar um pouco daquela odisséia amalucada,porém solidamente ancorada numa certeza de muitos e muitos anos de estudo, a de que, apesar de todas as nossas limitações,de dinheiro e equipamentos,poderiamos desenvolver no Brasil setores que estudassem o gesto desportivo tão bem, e com aspectos de ineditismo, quanto os maiores e mais prestigiosos centros de estudos do desporto no mundo. Gostaria de contar um pouco dessa aventura, para demonstrar aos jóvens professores que se formam do quanto podemos realizar com uma soma de coragem, estudo e competência. O doutoramento na Europa difere de um nos EEUU por não exigir créditos a cursar, exige sim, um bem fundamentado projeto de pesquisa, que ao ser aceito confere ao pesquisador as cotas necessárias à consecução do mesmo, pelo tempo que for preciso para o seu término.Enviei meu projeto e aguardei a sua aceitação inicial por 4 meses, quando fui convidado a defendê-lo em Portugal.Como não tinha bôlsa oficial do govêrno brasileiro, pela pendente situação com o mestrado da USP,consegui a dispensa da Faculdade de Educação da UFRJ onde lecionava,somente com os vencimentos legais.Mesmo assim embarquei e aguardei por mais 3 meses que o Conselho Ciêntifico da Universidade Técnica de Lisbôa me convidasse para justificar a validade e expressão do projeto.Fui aprovado e tive um orientador designado,o Prof.Dr.Francisco Sobral do ISEF.Iniciei então a construção do equipamento que projetei e desenhei.Com a valiosa ajuda de um marceneiro genial,Sr.Manoel,consegui montá-lo em 2 meses, quando iniciei a organização das metodologias que empregaria no estudo.Nesse estágio do trabalho começaram os grandes problemas de caráter profissional e familiar que me obrigariam daí em diante a atravessar o Atlântico por 14 vêzes, antes de ver terminado o trabalho, iniciado em 1986 e que se estenderia até 1992 quando defendí a tese.Nesse espaço de tempo algumas etapas tiveram de ser vencidas com muito sacrificio e determinação, e são estas etapas que passarei a descrever nos próximos capítulos.(continua)

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