ROGERIO NOEL.

Ontem assisti na TVE do Rio a uma sessão de cinema brasileiro onde foi exibido o filme”A Culpa”, dirigido por Domingos de Oliveira e fotografado por Rogerio Noel,cujo trabalho foi premiado no Festival de Brasilia.O programa se encerrava com uma mesa de debates,onde psicalistas e criticos de arte e cinema analizavam a obra tida como uma das jóias da filmografia brasileira.Mas o que tem a ver um filme nacional,feito em 1970 com o nosso basquete?A resposta chama-se Rogerio Noel,ótimo atleta e jogador que dirigi na Seleção Juvenil de Brasilia no Campeonato da categoria em 1968 em B.Horizonte,e que assinou a direção de fotografia do filme.Rogerio foi um exemplo de luta para se firmar na equipe,pois apesar de não possuir uma técnica refinada,contribuia para o grupo através um inesgotável espirito guerreiro e grande força mental.Bom estudante e bom músico,era normal comparecer aos treinos sobraçando seu violão,e sempre na companhia de um bom livro.Tinha um grande amor pelo pai,e sofria enormemente por vê-lo afastado da Força Aérea por um ato institucional emanado do governo da revolução.No esporte estravasava toda sua emoção e tristeza pelo que acontecia com o pai e sua familia.Mas seguia em frente em sua luta desportiva,a ponto de se colocar como um dos efetivos da equipe.Em B.Horizonte jogou magnificamente,
sendo um dos responsáveis pela 5ªcolocação da equipe no campeonato.Em 1970,já de
volta ao Rio de Janeiro,estava eu na Praia Vermelha dando uma das aulas de Prática de Ensino para alunos da EEFD/UFRJ,quando recebo a visita do Rogério.Alí,naquele campo
de esportes,por umas duas horas pudemos conversar sobre o que faziamos e ainda
sonhavamos.Rogerio agora se dedicava ao cinema,interesse que comunhavamos em diferentes campos.Ele,no cinema de arte e no comercial,eu,no cinema educativo e desportivo.Naquela manhã ele tinha estado no Laboratório Lider,ali perto,na Rua Alvaro Ramos,onde se aborrecera bastante na tentativa de ver seus negativos revelados
da maneira que ele idealizara para o filme,com claros-escuros e cenas soturnas e pouco reveladoras.Era assim que ela planejara para A Culpa,com a aprovação de seu diretor.Sei que ao fim da luta,a qual era sua marca registrada,conseguiu terminar a obra,e com ela recebeu o premio no festival da cidade onde se firmara como ótimo jogador de basquete,Brasilia.Nos despedimos,sem antes tecer alguns comentarios que fiz pela aparência bastante abatida que ele apresentava.Tive como respostas o grande esforço que despendia com os filmes que vinha realizando,e uma promessa de novo encontro para dali alguns dias.E ele não aconteceu,pois dois dias depois Rogerio faleceu vitimado por drogas.Ao ler a noticia fiquei bastante abatido,pois não pude me furtar à evidência de que o bravo e sensivel Rogerio,de certa forma foi se despedir
de uma pessoa que deu a ele todo o apôio necessário à sua performance esportiva e pessoal,confiando em seu potencial humano e artístico.No debate que sucedeu a exibição do filme,uma critica de cinema levantou a tese de que o clima intimo e soturno retratado na fotografia do filme,se deveria ao fato de ter havido uma falha na escolha de filtros corretivos da película utilizada,mas que o efeito foi bem aproveitado para o sucesso da obra,e que no fundo se tratava de uma feliz e bem vinda coincidência.Que brutal injustiça,e da qual fui testemunha da revolta que se apossou do Rogerio pelas discussões travadas no Laboratório Lider,em defesa da cromaticidade
de seu filme.Assim como se impôs à equipe por sua bravura,também se impôs aos laboratoristas por sua sensibilidade.Venceu as duas lutas,mas perdeu a da vida.Ficou a perene saudade de um técnico e professor que confiou naquele jovem e culto artista,
tanto da bola,como da camera.Saudades.



1 comentário

  1. Anna Maria de Assis Ribeiro 06.05.2006

    Caro Professor Paulo Murilo:
    comovida li seu depoimento sobre meu filho Rogério. Quero que saiba que tivemos como o senhor – eu e meus filhos – a mesma revolta ao ouvir no programa de Vera Barroso as irresponsáveis palavras da Sra. Adriana Cursino sobre a fotografia d’A Culpa. Escrevemos a ambas exigindo um desmentido e enviando uma xerox de entrevista de Rogério ao Jornal do Brasil descrevendo todo o processo de filmagem. Terei o maior prazer em lhe enviar cópia destas cartas e da reportagem caso assim o deseje. Ninguém mais merecedor de lê-las do que aquele que foi responsável por tanto prazer e alegria na vida de meu filho. Era sempre com uma enorme saudade que ele se referia ao senhor e ao time que deixou em Brasília. Por sua manifestação e por estes momentos tão bons na vida de Rogério, muito obrigado.

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