NARRANDO & COMENTANDO…

Iniciado o jogo e uma mensagem tocante vai ao ar – “O tênis de fulano é rosa, e o de beltrano azul, uma homenagem às criancinhas”- Formidável, não?

“O Joinville não marca, não joga na transição por não ter a posse da bola (juro que está lá gravado…), e no 5×5 não atua com confiança. O técnico tem de parar o jogo para acertar as coisas”, detona o comentarista, cujo discurso inicial é idêntico em todos os jogos que comenta, pela similitude entre todos.

O técnico para, expõe todos os acertos na prancheta e devolve o time ao jogo que… continua não marcando, nem jogando na transição, muito menos se encontrando no 5×5, e com a auto confiança no chinelo.

Lá pelo terceiro quarto outro tempo, e uma pérola  –“ Eles estão fazendo o que querem, arremessam de onde querem! O que é que vocês querem que eu fale pra vocês?” Honestamente, sugiro que treine a equipe…

Mas nem tudo estava perdido, ainda, quando é anunciada uma mudança tática que alteraria o jogo, no momento que a equipe catarinense trocou a defesa individual pela defesa por zona, algo realmente inédito em uma divisão máster, e o resultado? Bauru disparou na contagem…

Mas no tempo pedido a um minuto do  final (foto) algo inesperado quando determina – “Vamos de chifre…” Fim.

Creio que escrever mais se torna desnecessário, logo, fico por aqui.

Amém.

Foto-Reprodução da TV. Clique na mesma para ampliá-la.

CORRENDO PARA O SUCESSO(?)…

O NBB4 começou, estive na rodada inicial no Tijuca, não pude ir na segunda, mas assisti na TV o jogo em Joinville, onde o dono da casa não conteve a equipe campeã do NBB3, o Brasília.

Não foi um bom jogo, muitos e muitos erros de fundamentos, onde passes, dribles e fintas eram perdidos num ritmo de jogo correlato a divisões de formação, inviabilizando o sistema único planejado por seus técnicos. O que sobrou então? O de sempre, a monocórdia exibição de suspeitas e insuspeitas qualidades individuais, tendo a correria como mote comum às duas equipes, onde a melhor qualidade dos candangos nessa especialidade pautou o confronto. Senti-me frustrado com o que testemunhei, achando estar sendo rigoroso e critico demais, mas nunca esquecendo se tratar o NBB a divisão maior, a que dita aos mais jovens os caminhos a serem seguidos na busca das grandes conquistas, mas que, face ao que vem sendo mostrado ano após ano, continuará (até quando?…) pouco acrescentando ao desenvolvimento técnico tático desta magnífica e especialíssima modalidade.

No entanto, um lapidar artigo escrito por Giancarlo Giampietro em seu blog Vinte Um, De abalar os nervos, em 21/11/11, define com precisão o que ocorreu naquele jogo, com todas as implicações inerentes ao mesmo, ao qual somente agregaria uma citação do técnico do Joinville, num de seus pedidos de tempo, quando conclamou sua jovem equipe – “Se eles estão dando pancadas lá, dêem pancadas aqui também!”- no que foi, infelizmente, obedecido, numa lamentável demonstração do que jamais deverá ser induzido numa equipe bem treinada de basquetebol, principalmente se preparada eficientemente nos fundamentos de defesa individual e coletiva, e mais, sendo muito jovem.

Precisamos em caráter de urgência, incutir na divisão máxima do basquetebol tupiniquim, algo de inovador, algo de instigante, a começar pela máxima valorização do preparo nos fundamentos, ali mesmo, na divisão superior, como exemplo e incentivo maior aos jovens que se iniciam, a quem cabe o futuro do grande jogo neste imenso e desigual país.

Amém.

EVOLUINDO…

Foi uma noite surpreendente, com um bom e animado público, uma quadra renovada, e muita gente importante para o basquete, prestigiando-o e valorizando uma modalidade que luta com denodo por seu soerguimento.

`                      Mais surpreendentes ainda alguns aspectos técnicos que foram apresentados, como a já estabelecida dupla armação, desenvolvida pelas quatro equipes presentes na rodada inaugural, com uma delas, o Flamengo, jogando praticamente a partida inteira não com dois, mas com três armadores e dois pivôs de grande mobilidade ( o Caio parece estar mais leve), ação esta que quando estiver bem estruturada e treinada dará um enorme trabalho às defesas que o enfrentarem.

No primeiro jogo, Tijuca e Pinheiros fizeram um primeiro tempo bastante equilibrado ofensivamente, mas pecando em demasia nos sistemas defensivos com a adoção, por ambas, das dobras dentro do perímetro, a fim de tentarem conter o forte jogo interior adotado pelas duas, permitindo que voltas de bola encontrassem os arremessadores sempre desmarcados. Essa tendência foi mais evidente no terceiro quarto, com a equipe carioca acelerando o ritmo da partida, quando deveria ter feito exatamente o contrario, cadenciar ao máximo ante uma equipe ofensivamente superior, permitindo um maior controle e valorização de posse de bola, diminuindo a incidência de erros, e obrigando o adversário, pelo significativo aumento da velocidade a cometê-los. Não o fazendo, e tentando acompanhar o ritmo vertiginoso imposto pelo Pinheiros, se perdeu nos erros e praticamente nada produziu daí em diante, perdendo uma partida por não conseguir administrar sua volúpia ofensiva em detrimento de uma postura defensiva mais rígida e atenta, pontos que terá de aperfeiçoar se quiser evoluir positivamente no campeonato.

No segundo, a equipe do Paulistano jogou os três quartos iniciais com muita força defensiva e uma excelente postura nos rebotes, mas trocava demasiados passes lateralizados em suas ações ofensivas, o que tornava suas conclusões precipitadas pelo limite dos 24seg. Um trabalho mais incisivo na direção de seus muito bons pivôs, e a tarefa da equipe rubro negra teria sido bem mais exaustiva.

No quarto final, a trinca de armadores composta pelo Helio, o Leandro e o americano Jackson, inspiradíssimo nos arremessos de três pontos a ele liberados pelas incisivas incursões de seus hábeis pivôs, forçando uma compressão defensiva dentro do perímetro interno dos paulistas (vide foto), e deliberadas voltas de bola para fora do mesmo, proporcionou uma folga razoável no placar para os cariocas, mantido até o final do jogo.

Concluindo, podemos atestar que o principio da dupla armação já está se estabelecendo na maioria das equipes participantes da Liga, e que por decorrência desta evidência o jogo interior começa a ser desenvolvido por pivôs mais velozes, jogando de frente para a cesta e efetivamente participando de todas as ações ofensivas de suas equipes, e não somente lá estando para apanharem rebotes e concluírem nas sobras embaixo das cestas, numa evolução realmente instigante e positiva para o futuro do nosso basquete, do grande jogo.

Como vemos, podemos, mesmo que homeopaticamente evoluir na direção oposta à mesmice endêmica representada por um sistema único que nos engessou por mais de duas décadas, e que agora ensaia uma  retomada técnico tática que nos pode catapultar de volta a elite mundial, mas não antes que sedimentemos tão salutar tendência na formação de base, principalmente nos fundamentos do jogo.

Amém.

Foto-Disposição ofensiva do Flamengo. Clique na foto para ampliá-la.

A ONIPRESENTE CHIFRE…

É chifre para cima, chifre para baixo, para o lado, invertido, falso, forte, dissimulado, chifre para tudo e para toda situação de jogo. Sem dúvida o chifre está valorizado, e como.

Tempo pedido, discute-se, às vezes xinga-se, outras silenciam, mas ao final o lembrete: -“vamos de chifre, ah, pra baixo”…

E lá vão os jogadores chifrar o oponente, mas com uma importante ressalva, o fazem sem mudar, acrescentar absolutamente nada ao que vinham, vem e virão a fazer enquanto jogarem, pois simplesmente… chifram.

Observo atento, não, concentrado, concentradíssimo na jogada chifre em questão, e nada, absolutamente nada vejo de diferente, inovador, criador, ou mesmo contestador, nada.

-“Os caras não podem continuar a ganhar os rebotes no ataque, não podem arremessar livre de fora, bandeja então, nem pensar. Marquem forte, e usem a chifre (alto, baixo, pro lado, ora, o que importa desde que seja a chifre…)”.

Mas como todo jogador criativo, exemplo, o Shamell, atuando dentro de uma chifre genérica, sai de sua zona preferida para os chutes estratosféricos de três (às vezes depreendo ser essa a verdadeira função das chifres, colocar jogadores para arremessos de três, será?), e mata o jogo com seis pontos seguidos de DPJ, um deles acrescido de reversão, todos de dois pontos, próximos, seguros, eficientes, fechando a série para a sua equipe.

Do outro lado, uma equipe ensandecida nos arremessos de três e um furor de inócuos dribles por parte de armadores que simplesmente resolveram riscar o jogo interior de suas preferências, e claro, atuando numa chifre polivalente.

Nos três jogos finais as duas equipes finalistas do paulista, perpetraram um 58/145 nos arremessos de três, contra 111/205 de dois pontos, e cometeram juntas 78 erros em perdas de bola, e tudo sob a égide de jogadas nunca obedecidas e defesas permissivas, mas ambas, perfeitamente alinhadas pela mais emblemática das jogadas exigidas, quem sabe até um sistema, a onipresente chifre.

O que me preocupa de verdade, é que o argentino também tem uma queda por ela, o que justifica a sempre presente hemorragia dos três, que nos tem causado tantos contratempos.

E foi sob esse cenário que um talentoso Shamell resolveu e definiu um jogo de 2 em 2, simples e nada glamoroso, sem enterradas e tocos cinematográficos, apesar de ter levado um decisivo na terceira partida da série.

Mas com ou sem chifre, parabenizo a equipe do Pinheiros por sua conquista, e ao Shamell em particular, por sua inteligente opção.

Amém.

OBS-Antes que me questionem – DPJ- Drible, parada e jump, classica jogada dos que sabem jogar o grande jogo.

SEM IMPORTÂNCIA?…

Sem importância? Como sem importância em se tratando de uma seleção brasileira num torneio internacional?

Lá estava a maioria de nossos veteranos, a base da equipe campeã nacional, o pivô líder na posição no NBB, e que só não foi ao Pré Olímpico face a uma cirurgia no ombro. E mais, o Benite , um dos armadores na conquista da vaga olímpica, e uma gama de jovens talentos para serem analisados dentro de uma competição com seleções de respeito, como Porto Rico e Republica Dominicana, além das sempre bem representadas Argentina e Estados Unidos. E tudo isso não tem importância? Ou queremos, ou teimamos em projetar uma futura performance em Londres contando somente com a base veterana representada em Guadalajara?

Quando a câmera da TV passeou pelo banco da seleção nos minutos finais do jogo contra os dominicanos, pudemos testemunhar o quanto de sofrimento e decepção estampava os rostos de toda a delegação, e a foto acima bem representa o estado de espírito da mesma, incrédula pelo pífio resultado.

E o quanto esse “pífio resultado” representa para Londres, já pensaram nisso? E o que terá de ser analisado, estudado, pesado e modificado pelo Magnano depois do que constatou na pratica quando uma equipe de escaldados veteranos e um armador jovem foram batidos por defesas pressionadas, em meia quadra pelos americanos, e quadra inteira pelos dominicanos, deixando serem descontados 17 e 20 pontos de vantagem naqueles jogos, e o pior, em apenas um quarto de cada jogo?

E que tal recordarmos que mesmo jogadores saudados como sumidades, como o Huertas e o Luz se viram em maus lençóis em Mar Del Plata quando fustigados por pressões pontuais, em nada comparadas com as pressões utilizadas no México?

Então, nos vemos com um problema de difícil solução em dupla armação (utilizada em ambos os jogos como medida para se safar das pressões, geralmente reunindo Nezinho e Benite), imagine então com somente um único armador, como a maioria absoluta de analistas, críticos, técnicos e torcedores reivindicam, afim de “garantir” a estatura da equipe? No entanto esquecem que ambos, Huertas e Benite se situam na faixa dos 1,90m, que para armadores de oficio auferem um bom padrão. O que não pode é querermos escalar Marcos, Marcelo e Alex como armadores sem as qualificações técnicas para a posição.

Mesmo os armadores, e esse Pan centrou bem a questão, viciados por anos e anos de solitária incumbência de liderar suas equipes, e que raramente sofreram em sua progressão pelas varias categorias, de marcações pressionadas de qualidade, deixaram de incluir em seus arsenais de habilidades técnicas aquelas manobras em sintonia fina, que os diferenciam de armadores forjados e formados em países onde a arte de defender é realmente levada a serio. É o que temos visto, comentado e alertado ano após ano em nosso país, e que se revelaram em toda a sua dimensão trágica neste Pan, e mesmo em muitas situações no Mundial e Pré Olímpico. Ou seja, uma referencia baseada única e exclusivamente na precariedade de nossa formação de base, onde os fundamentos do jogo foram, são, e continuarão sendo negligenciados, se não tomarmos e implementarmos profundas mudanças na forma de ensiná-los, principalmente os de defesa, que se constituem no pólo irradiador na melhoria dos fundamentos de ataque, numa troca progressiva de conhecimentos técnicos individuais e coletivos, adquiridos exponencialmente.

Sem importância, minha gente? Creio que agora o bom técnico argentino já tenha coletado da forma mais objetiva possível, os dados necessários para a formação de uma seleção consistente para Londres, constatando na mais dura das práticas o quanto de precária se encontra a nossa armação, e o quanto de trabalho que terá de despender para solucionar, ou amenizar tal vácuo, e onde a busca de outras soluções, e mesmo armadores, se fazem estrategicamente urgentes, pois acredito que temos jogadores nacionais talentosos para a posição no país, necessitando somente de um treinamento mais concentrado e competente, além, e isso ficou bem claro, de um sistema de jogo que privilegie o domínio absoluto e duplicado da bola, para daí em diante municiar o jogo interior, onde, pela primeira vez em muitos anos, temos jogadores altos, rápidos e atléticos em boa quantidade, formando uma equipe dinâmica, aonde todos venham a se movimentar incessantemente, tanto dentro como fora do perímetro, e não estabelecidos em suas capitanias hereditárias, pontuais e estáticas, na busca do triplo, da bolinha salvadora.

Por tudo isso, o Pan foi de uma utilidade transcendental, como base de analises e coleta de dados, que se não foram suficientes para vencer, o foram para projetar uma realidade que não podemos e nem devemos omitir, para que não se repita em Londres, onde os realmente melhores, mais técnicos e capazes deverão estar, e somente eles.

Amém.

DEFÊSA-UMA ARTE…

Enfim um jogo, não completo, mas a partir do final do segundo quarto a emissora do bispo, por alguma deferência, transmite o jogo com os Estados Unidos até o seu final.

O que vemos então? Uma equipe americana alinhavada, desconexa, demonstrando ter sido reunida no aeroporto, e claramente jogando nos moldes da NBA, onde o coletivismo passa a léguas de distância, salvo algumas poucas exceções, como o Dallas campeão.

A equipe brasileira, encontrando uma incomum frouxidão defensiva americana, jogando com seus pivôs, deslancha num marcador confortável, ainda mais quando defrontada com uma ofensiva pífia do outro lado.

Tudo ia muito bem, apesar das nossas tradicionais e visíveis limitações nos fundamentos do jogo, até o momento em que a distância de 17 pontos fez acender a luz vermelha no banco americano. E o que fez o técnico daquele momento em diante? Isso mesmo, acertaram, impeliu a equipe a defender como sempre souberam fazer, fustigando nossa armação no plano horizontal (desculpem, um esclarecimento- defender no plano horizontal quer dizer que todo jogador de posse da bola na armação de jogadas deve ser pressionado ao máximo, não para se apossar da bola, e sim o induzindo à penetração horizontal no limite do equilíbrio instável), levando-a de encontro ao âmago da defesa, onde o plano vertical (característico das altas coberturas por parte dos pivôs ali postados) abortavam as tentativas de cestas, principalmente se intentadas pelos armadores, originando retomadas de bola, e conseqüentes contra ataques velozes. E mais, reconhecendo a sua fragilidade técnico tática, abriu os jogadores ao enfrentamento com a defesa num 1 x 1 classico, de onde se originou a reversão do placar num 13 x 0 previsível e acachapante. Só isso, forte defesa baseada em sólidos conhecimentos dos fundamentos da mesma, e ataque incidindo sobre uma equipe sem aqueles mesmos conhecimentos na arte de defender.

Mas o mais emblemático na transmissão foi ouvir comentários desse quilate: “Se eles estão batendo na defesa, temos de bater também, e se tentarem a cesta fácil que vá para os lances livres com o braço marcado de vermelho”. E a pérola definitiva – “Temos de jogar no limite que separa a falta da regra do jogo”. Se bem compreendi, sugeria a utilização da “porrada”, como método de defesa. Me desculpe o laureado comentarista, que nunca foi um bom defensor, mas ainda prefiro que nossos jovens aprendam a defender desde cedo, o que ainda é um fator que teimamos em desprezar, trocando-o por um processo orgiástico e autofágico de arremessos de três, prodigo em seu crescimento, exatamente pela ausência defensiva. E ai estão os resultados.

O Magnano conseguiu no Pré uma façanha digna de ser mencionada, a implantação de uma defesa solidária, mas não o implemento de princípios de defesa pessoal, que é decorrente de longos anos de prática e treinos exaustivos, atingindo pela ocupação massiva o centro da defesa, mas sendo ainda vencida nos confrontos puros de1x1, e nas anteposições aos longos arremessos.

Essa é a meta que temos de atingir a longo prazo, o ensino correto da arte de defender, onde a proibição das defesas zonais e a extensão do tempo de posse de bola nas divisões de base referendariam e fixariam os princípios clássicos da defesa individual, a mesma que uma capenga seleção americana nos impôs ontem, pelo simples fato de terem aprendido como executá-la, desde sua formação de base.

Quando isto for razoavelmente atingido, nossas habilidades ofensivas serão realçadas, pois todo avanço defensivo gera um ofensivo, e vice-versa, numa evolução técnica, e por que não, tática, levando a frente e a grandes conquistas o grande jogo entre nós.

Amém.

Foto-Divulgação FIBA.

COMENTAR O QUE?…

Na semana que passou quis escrever sobre jogos de basquete, como os playoffs em São Paulo, como os jogos da LDO em Minas Gerais, mas como fazê-lo perante alguns obstáculos simplesmente intransponíveis, como por exemplo, a inestancável hemorragia dos três pontos e o absurdo número de erros nos fundamentos do jogo em ambas as competições, além da mais absoluta inexistência de qualquer imagem sobre a importantíssima competição sub 21?

Como aceitar e comentar uma sucessão progressiva de 56, 58 e 59 tentativas de arremessos de três pontos nas três partidas finais entre Paulistano e Limeira, somadas às 90 perdas de bola, numa assustadora média de 30 por jogo?

Como entender a ocorrência de 14/38 tentativas de dois pontos, contra 12/40 de três num jogo Sub 21, no caso Uberlândia em seu jogo contra Vitoria? Foram 120 possíveis pontos para somente 36 conseguidos, num inaceitável comportamento técnico numa divisão formativa, em contraponto a uma ausência de qualquer anteposição defensiva de seu adversário?

Como entender diferenças de mais de 50 pontos em jogos dessa fundamental divisão, assim como o espantoso numero de erros e perdas de bola de algumas das equipes participantes? Por onde anda a tão decantada formação de base que incentivou a LNB a promover uma competição de tão estratégica importância? Se as estatísticas em toda sua fria objetividade impressionam, fico imaginando o que testemunharíamos se imagens fossem veiculadas?

Mas também temos um Pan Americano sendo realizado no México, que para minha tristeza, mesmo depois de fartamente anunciada sua transmissão pela TV Record do jogo contra o Uruguai, nos brindou a todos com aquele tipo de competição farta em distribuição de medalhas, a empolgante ginástica, assim como o indefectível futebol, transmitindo somente os 5 minutos finais daquela partida, comentada de forma passional por um Oscar nitidamente empolgado por um Marcelo definidor como ele sempre se auto caracterizou, e mais empolgado ainda quando um certeiro arremesso de três do nosso mais experiente jogador colocou a equipe cinco pontos à frente. Mas, numa terrível sequência de três erros, iniciada por um tiro de meta do Nezinho à cesta, e dois passes errados do Marcelo em sua função de armador, calou o comentarista até o final de um jogo, que se analisado por aqueles 5 minutos finais deve ter sido constrangedor, mas que deveria ter sido transmitido em conformidade com as chamadas veiculadas pela estação.

Logo mais está anunciada a transmissão do jogo contra os Estados Unidos, se não for substituída por uma outra competição prodiga em medalhas, como está parecendo ser a política da emissora para este Pan, afinal de contas, gosto e interesses não se discutem, e o basquete, ora, o basquete…

Amém.

Foto-Globo.com

NORMAL?…

“Foi um jogo normal, elas souberam explorar nossos erros e venceram”. (Declaração do técnico da seleção feminina depois do jogo com a equipe de Porto Rico pela TV Record).

Desculpe discordar, mas não foi um jogo normal, mas sim um jogo muito mal jogado por uma equipe teimando no sistema único, contra outra jogando em dupla, e às vezes em tripla armação, com somente um arremedo de pivô, driblando, fintando e penetrando em velocidade sem qualquer anteposição por parte de uma defesa ironicamente inferiorizada pela estatura desproporcional, ou seja, jogadoras baixas e rápidas superando em seu ataque jogadoras mais altas defendendo com lentidão, sem ajuda, e pressionado fortemente na defesa induzindo-as ao erro pelas enormes falhas nos fundamentos básicos do jogo, principalmente os defensivos, marca registrada entre nós. Defender o que defendemos contra equipes inferiores gerou uma falsa idéia de superioridade, contestada quando a realidade de boas praticantes dos fundamentos se fez presente nesse jogo.

As porto-riquenhas se impuseram por um ataque extremamente veloz, e uma defesa mais veloz ainda, jogando na anteposição e na pressão sobre a armação brasileira, sobre uma pivô desgastada e enfraquecida por uma gripe, e contando com o péssimo aproveitamento dos arremessos de fora do perímetro, num quadro que não foi e nem pode ser revertido por um único detalhe, não estavam preparadas para aquele tipo de atitude técnico tática, configurando-se daí para diante um jogo que nada teve de normal, pelas características antagônicas de nossas jogadoras, impossibilitadas de uma dupla armação sequer tentada e muito menos treinada, que equilibraria as ações, e de um jogo interior mais rápido e menos concentrado numa Erika visivelmente combalida, e uma Damiris que ainda tem muito o que aprender, a começar pelo seu arremesso de media distância, inconsistente e imaturo.

A equipe brasileira terá de se reformular bastante para enfrentar uma Olimpíada com nível bem acima da nossa realidade, principalmente na armação, num jogo mais dinâmico tanto fora, como dentro do perímetro, e um sentido defensivo consistente, começando numa reformulação voltada à pratica massiva dos fundamentos, sem os quais sistemas de jogo simplesmente não funcionam. Teremos tempo para isso? Creio que sim, basta coragem e ousadia para, ao menos, ser tentado.

Amém.

Foto- Divulgação CBB.

INTELIGENTE E SAGAZ…

Inteligente e muito sagaz esse técnico do Flamengo, ao iniciar o jogo em Brasília com o quarteto estelar recém contratado, mais o referencial do time, Marcelo. Leandro, Caio, Kammerichs e Jackson viram a bola ir ao alto e permanecer por lá para sua equipe, batida sem dó por um adversário tradicional que atua junto a muito tempo, e mesmo que se utilizando de um sistema padronizado tinha os jogadores certos para cada posição ocupada na quadra de jogo.

E por que inteligente e sagaz? Pelo simples fato de cumprir um acordo movido por interesses econômicos e promocionais numa abertura de temporada,  expondo um produto de alta qualidade individual, que dificilmente poderá se abster de jogadores não tão medalhados, em nome de um conjunto harmônico e equilibrado, uma equipe enfim.

Aí estão os caras, torcida fanática e analistas de plantão (quando para ambos os “nomes” é que importam…), ai estão, mas… funcionam em grupo?

Para qualquer técnico iniciante, torcedor lúcido ou analista com um mínimo de conhecimento do grande jogo, claro que não funcionaria jamais, ou o Leandro, vindo de uma Liga onde as flutuações defensivas são proibidas, e os armadores atuam em duplas, encontraria facilidades em suas feéricas penetrações em passadas e não através dribles contínuos? Nunca, daí sua declaração ao final da partida se dizendo surpreendido com o jogo físico mais intenso aqui do que na Liga em que atua a nove anos, como se não soubesse disso. Além do mais, um pivô de alta mobilidade, como o Kammerichs dificilmente reduziria e coordenaria sua velocidade com um pivosão como o Caio, assim como um Jackson se afinaria com o Leandro de características semelhantes. Sobrava o Marcelo, que perdido nessa galáctica indefinição tática nada pode fazer para minorar o estrago inicial, a não ser assumindo a armação, abrindo mão de sua arma contumaz, os longos arremessos.

Pronto hinchada, satisfeitas as apresentações, vamos ao que interessa, tentar ganhar o jogo, mesmo estando bem atrás no marcador. Coloquemos um armador de oficio, um pivô tão rápido como o argentino, para movimentar o perímetro interno dos candangos, recoloquemos o Marcelo onde sabe jogar e atuar, e vamos ver no que dá!

Claro, empatou e tomou uma boa dianteira, que se mantida a nova formação poderia vencer sem margens a dúvidas.

Mas, e o investimento, o marketing, os altos interesses em jogo, como ficariam? Volta todo mundo, e seja o que os deuses quiserem… e não quiseram pela obviedade da ação, e  ponto.

Entrementes, a equipe do planalto central, experiente, batalhadora e unida em torno de uma base sólida e testada, mantendo sua proverbial produtividade, liderada por um Alex inspirado, sem sofrer rupturas e desvios táticos, soube administrar as oscilações rubro negras, para vencer com justiça um jogo que de amistoso teve muito pouco, e perante um excelente público numa manhã de domingo.

O técnico argentino vai ter sérios problemas para o NBB4, principalmente na administração estelar que ajudou a formar, mas que deveria jogar sem prioridades de escalação, já que existem posições conflitantes dentro do sistema que se propôs a introduzir na equipe, fator este que impossibilita adaptações frente a características de alguns jogadores, antagônicas que se tornam para o mesmo.

Mas, quem sabe, o término do locaute na NBA não venha minorar bastante as sérias dúvidas que assaltarão, com certeza, os conceitos de jogo e equipe do nosso hermano?

Que é inteligente e sagaz ao administrar egos e interesses de fora e dentro da quadra, sem dúvida, mas será suficiente para vencer o NBB4?  E se o locaute persistir? Tenho lá minhas dúvidas.

Amém.

O CAMINHO POR VIR…

Vencer uma final de pré olímpico por mais de 40 pontos (74×33), demonstra em toda a sua extensão o enorme fosso que separou a seleção brasileira das demais, apesar de em algumas partidas mostrarmos sérias deficiências nos fundamentos, principalmente nas alas.

Mas num fundamento mostramos uma clara evolução, a defesa, que foi o fator determinante no resultado final. O exemplo de coletivismo defensivo da seleção masculina, numa competição onde os adversários foram mais qualificados do que na competição feminina, parece que inspirou positivamente a equipe e sua comissão técnica, mesmo com algumas falhas pontuais no posicionamento defensivo de algumas jogadoras, e pelo fato de não adotarmos a defesa frontal das pivôs adversárias, que nas Olimpíadas serão muito superiores às desse pré olímpico.

No entanto, algo de muito positivo aconteceu nesse jogo final, quando nos dois últimos quartos ensaiamos jogar com duas armadoras e duas pivôs, numa ação de jogo interior que praticamente liquidou toda e qualquer possibilidade reativa da equipe argentina, incapaz de frear o poder ofensivo interior e a esmagadora superioridade nos rebotes.

A seleção está bem servida de boas e talentosas pivôs, podendo desenvolver sistemas de jogo que as priorizem, como poucas equipes poderão fazê-lo em Londres, numa perspectiva que deveríamos investir com vigor e inteligência, fugindo de vez do estereótipo técnico tático que nos empobreceu nas últimas duas décadas, apresentando algo de inovador frente ao sistema único adotado pelas demais seleções classificadas, inclusive a nossa. Erika, Clarissa, Damiris, Francilene, Nadia, formam uma boa base para um jogo interior forte e ousado.

Mas tal evolução necessitaria de uma dupla e permanente armação para alimentá-la com precisão (como a ensaiada nesse jogo final), além do apoio mútuo ante defesas pressionadas, assim como um apreciável reforço defensivo pela velocidade de deslocamento e combate efetivo à armação adversária. Agindo dessa forma, nossa deficiência nas alas seria bastante atenuada, pois de dois em dois também se vencem jogos, por mais duros que se apresentem, além do fator inovador, em nenhum momento previsto por um basquete formatado e padronizado internacionalmente. Se jogarmos dentro dos padrões vigentes, teremos poucas chances de enfrentamento, ante seleções fundamentalmente mais bem preparadas do que a nossa.

Enfim, é certo que as classificações olímpicas nos beneficiará na retomada do prestigio do basquete tupiniquim, o que não é pouco, mas não suficiente se não mudarmos nossa forma de jogar, e preparar as novas gerações estruturadas numa formação sólida da base, onde os fundamentos terão de ser desenvolvidos e ensinados através técnicas didática e pedagogicamente bem planejadas, sendo essa a mais importante missão de uma ENTB convenientemente reestruturada e redimensionada para a execução de um projeto de tal envergadura.

Parabéns às jogadoras e comissão técnica que conseguiram tão importante feito, mas agora é que começa, de verdade, o caminho olímpico.

Amém.

Foto Divulgação FIBA. Clique na mesma para ampliá-la.